Por VALÉRIA MARIA DE OLIVEIRA
Mestranda
em Teatro – Universidade do Estado de Santa Catarina/UDESC;
Professora da Universidade do Vale do Itajaí/UNIVALI
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Teatro de Grupo: identidade e conformação
Dentro
do contexto pós-moderno no qual a sociedade contemporânea
está inserida, percebemos que este sustenta a versão simplista
de dizeres coloquiais como: tudo é arte, tudo é relativo, e assim
se apresenta na tentativa de justificar a ausência de uma
nova criação artística, algo original, que ainda não seja
conhecido. Nossa sociedade está calcada na novidade e sua
rápida reciclagem, “é muito mais importante comprar, ter,
do que usar”. O capitalismo se apropria de tudo numa velocidade
estonteante, inclusive da arte, e faz com que tudo se transforme
em mercadoria antes mesmo antes de estar pronto.
Nesse
contexto é importante abrir reflexões sobre o papel do artista,
uma vez que este poderia ocupar o lugar de um sujeito que
exercita e desenvolve ao máximo seu senso crítico e talvez
um dos exercícios seja justamente “estar na busca do novo”,
buscá-lo faz parte da não instalação na hegemonia. Fazer
a crítica é também uma forma e, que por sua vez, torna-se
uma possibilidade de resistir ao capitalismo. Esses são
exercícios difíceis, pertencentes a uma árdua tarefa que
cabe aos artistas
e intelectuais, ou ainda melhor a todo cidadão responsável.
Afinal não se pode pensar que o estado caótico no qual
a sociedade está imersa, construiu-se e organizou-se do
acaso.
As transformações históricas, a perda ao longo
prazo dos paradigmas norteadores da vida social, os avanços
tecnológicos, o avanço científico por ora importante para
todos, mas que por ora é aterrorizador, as crenças distintas
de religião que vão movendo a fé do cidadão, tornando a
instituição igreja um mercado competitivo, as constantes
novas teorias dentro dos estudos da antropologia que tenta
dar conta do homem, fazem dos séculos XX e XXI, períodos
que se dão dentro um marco de movimento caótico, possível
de substituir pelo termo trânsito de difícil compreensão,
uma vez perdida as noções de valores, de princípios, de
ética e até mesmo de estética que a pouco guiava-nos.
Mas,
como dar conta em manter-se em exercício mediante o total
declínio dos paradigmas e das identidades, que como grandes
pilares sustentaram e mantiveram a sociedade? Como pensar
em revolução, se hoje nos caracterizamos como indivíduos
fragmentados, rompidos com os elos da história? Qual a identidade
do artista ?
O
sociólogo Stuart Hall afirma que:
A
identidade preenche o espaço entre o “interior” e o “exterior”-
entre o mundo pessoal e o mundo público de que projetamos
a “nós próprios” nessas identidades culturais, ao mesmo
tempo que internalizamos seus significados e valores, tornado-os
“parte de nós”, contribui para alinhar nossos sentimentos
subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo
social e cultural. A identidade então costura (ou, para
uma metáfora médica, “sutura”) o sujeito à estrutura. Estabiliza
tanto os sujeitos quanto os mundos culturais que eles habitam,
tornando ambos reciprocamente mais unificados e predizíveis
(HALL 1992, p 11 - 12).
Nesse
breve pensar sobre o indivíduo, não posso fugir em pensar
um pouco sobre o ator de nosso tempo, que afinal, o fato
de ser ator não o faz um extraterrestre, passível de não
ser afetado pelo processo histórico.Quem é esse indivíduo
que faz parte desse cotidiano pós-moderno? Como se agrupa
com outras pessoas para o fazer teatral e como se coloca
frente a um sistema capitalista que absorve a produção teatral
ferozmente? Quais referenciais tem sustentado, o ator em
seu trabalho hoje?
Dentro
destes questionamentos, que não tenho aqui a pretensão de
dar respostas, uma questão que há tempos me interessa observar,
particularmente, são as diferentes maneiras que nós teatristas
encontramos de fazer teatro. Não me refiro a diferenças
de estética, poética e ou de linguagem que um espetáculo
possa ter do outro, e sim as diferentes maneiras que as
pessoas que fazem teatro encontram para agrupar-se e gerar
suas condições de trabalho e de vida.
Há
muitos exemplos de agrupar-se para fazer teatro, mas vou
limitar-me a refletir agora sobre o conceito de companhia
ou grupo estável; que está no marco de um conceito que pressupõem
um trabalho em longo prazo, voltado para formação atorial,
fora do eixo e dos princípios do teatro comercial, e que
pressupõem um trabalho de investigação do fazer teatral.
Nesta
maneira de agrupar-se, pode-se encontrar diferenças entre
os grupos ou companhias e são essas diferenças que definem
o perfil particular de cada grupo. O fato de algumas pessoas
se unirem para gerar teatro desta maneira e, que essa grupalidade
se mantenha além da montagem do espetáculo, motiva e impulsiona
os integrantes a pensar em outras questões relacionadas
à produção e ao fato de sobreviver como grupo que
tenta desenvolver um trabalho que não é somente a criação
do espetáculo, é também o trabalhar para a formação do homem,
buscando reconhecer suas debilidades como um meio de avançar
em sua existência e na sua produção artística.
Assim,
cria-se um espaço onde não haverá só a preocupação de incorporar
uma série de elementos técnicos relacionados ao oficio do
ator e nem só para criar espetáculos. Cria-se um espaço
onde a formação do ator em variados níveis e pressupõem
um lugar de ampla liberdade formativa. Isto entre outros
elementos é o que diferencia a idéia de estabelecer-se dentro
do conceito de “teatro de grupo”, falo de um conceito, porque
podemos ver que sempre para a realização teatral necessita-se
de um grupo de pessoas.
Teatro
de grupo pressupõem estabilidade de elenco, conformação
de um esquema de treinamento atorial, criação de material
espetacular e principalmente, busca fazer um teatro que
confronta suas dificuldades e hegemonias. Assim, este teatro
se dá na margem periférica, não por imposição e sim por
opção, criando um espaço outro de reflexão, mas sem perder
de vista seu espaço criativo e a construção do material
espetacular, o desenvolvimento de ética e estética.
A
idéia e até mesmo o conceito de teatro de grupo com objetivo
de elenco estável não é um conceito novo originado no século
XX, porém aqui trataremos de ver como esse conceito foi
apropriado por alguns teatristas importantes do século XX,
que norteiam através de seus experimentos e registros o
trabalho de muitos atores e grupos na atualidade.
Stanislavski,
diretor e ator russo que durante 40 anos esteve a frente
do Teatro de Arte de Moscou, entendeu que, para realizar
a idéia de teatro de grupo era necessário um programa centralizado
e sistemático (o que já podemos chamar de treinamento) que
sendo desenvolvido, permitiria ter conclusões sobre as dúvidas
colocadas a prova chegando cada vez mais a uma síntese ajustada
da atuação. A idéia junto a Dantchenko, era criar novas
leis para o teatro russo, um teatro que estava marcado pelo
contexto da Revolução Russa.
Nos
anos 60, a cultura de teatro de grupo vai ter fortes raízes
no teatro do diretor polonês Jerzy Grotowski.Estamos aqui
falando novamente de um outro contexto entre os anos 60
e 70 do séc. XX, onde as rupturas sociais, culturais, educacionais
são fortes e encaminharam todo um processo de perdas de
referenciais, e onde também muitos países viviam a ditadura
militar.
Grotowski,
definiu seu trabalho pela cultura de grupo e para este definiu
uma estrutura de treinamento para o ator, assim gerando
um outro espaço para ator que não é só o dos ensaios, ele
dizia que “havia o
ensaio para o espetáculo e o ensaio que não era para o espetáculo”.
Era necessário um espaço de formação no grupo Este pensar
sobre um espaço de treinamento para dar conta da formação
do ator que já havia sido pontuado por Stanislavski na Rússia,
e também pensado e estruturado por Jaques Copeau na França
em sua escola, entre outros.
O
teatrista Grotowski, fez uso de vários sistemas como a dança,
a yoga, acrobacia e outros para formular o trabalho junto
aos atores, os exercícios consistiam em ser um trabalho
personalizado, desenvolvido dentro de um marco grupal, viria
a ser como um espelho, onde o ator pudesse ver suas limitações
e reconhece-las. O encontro com as próprias limitações é
um ponto difícil e complexo, porque para Grotowski sua base
não esta relacionada ao ator e sua técnica e sim a pessoa,
ao homem e a mulher. Assim as limitações pessoais que aparecem
vão mais além de resoluções técnicas, pois trabalhar sobre
elas tem haver com fundamentalmente a possibilidade de aceitá-las
e de aceitar-se. O que se pode concluir da obra do autor
é que a técnica então não tem nenhum valor em si mesma,
se não for uma ferramenta à disposição para abrir novos
lugares, ainda desconhecidos, em cada um dos atores, se
não for assim não cumpre sua função.
Desta
maneira, o grupo se transforma, necessariamente, em um lugar
onde as relações entre os integrantes não são especulativas
(o que é dominante na vida cotidiana), pelo contrário,
necessitam de rigor, honestidade e o constante olhar
de um sobre o outro, que desfaz o auto-engano e auxilia
as pessoas em não se ocultarem.
Disse
o diretor inglês Peter Brook a respeito de Grotowski por
ocasião de tê-lo levado a Londres para trabalhar com os
atores de sua companhia:
Grotowski
é único. Por que ? Porque ninguém mais no mundo, que eu
saiba, ninguém desde Stanislavski, investigou a essência
da interpretação, suas características, seu significado,
a natureza e a ciência de seus processos mentais-físicos-emocionais
de modo tão profundo e completo como Grotowski. Ele diz
que seu teatro é um laboratório. De fato: é um centro de
pesquisa. Talvez o único teatro de vanguarda cuja pobreza
não é desvantagem, cuja falta de fundos não é a desculpa
para soluções inadequadas que automaticamente arruinariam
as experiências. No teatro de Grotowski, como em todos os
laboratórios de verdade, as experiências são observadas.
Em seu teatro a concentração de uma pequena equipe é absoluta,
em tempo integral (BROOK, 1995, p.61).
O
espaço grupal, é um lugar para se retirar máscaras,
nesse contexto, um trabalho de grupo desenvolve outro tipo
de relação entre os integrantes e com o contexto social
onde está inserido, poderíamos dizer então, que como desejou
Grotowski “o grupo passa a ser uma terra fértil”.
Referenciando-se
no trabalho de Stanislavski e tendo uma experiência pessoal
com Grotowski temos ainda na mesma década o surgimento do
trabalho do Italiano Eugênio Barba, que a partir deste contato
funda e organiza o Odin Teatret, grupo instalado e subsidiado
pelo governo da Dinamarca (importante citar que em grande
maioria os centros que desenvolvem pesquisas teatrais no
exterior hoje são mantidos pelo governo, e esse é um marco
de grande diferença do nosso contexto no Brasil).
Mais
tarde um pouco Barba juntamente com o Odin, funda a ISTA
(International School of Treatre Anthropology). Barba
difunde em vários lugares do mundo, sua cultura de grupo
e assim, os primeiros anos do Odin estão muito mais ligados
a uma preocupação com experiências interculturais, do que
com o feito teatral em si. Barba desenvolve com seu grupo
a Antropologia Teatral que para ele é:
[…]
a antropologia teatral não busca princípios universais,
mas indicações úteis. Ela não tem a humildade de uma ciência,
mas uma ambição em relevar conhecimento que possa ser útil
para o trabalho do ator-bailarino. Ela não procura descobrir
leis, mas estudar regras de comportamento (BARBA,1995, p.8).
O
trabalho feito por Barba, teve nos primeiros anos uma preocupação
em formar atores, em criar regras de trabalho, auxiliar
o ator na busca de uma técnica, pois para ele o ator ocidental
era desprovido de tal, ficava com seu talento ao léu, não
tinha onde amparar-se para desenvolver-se. Barba buscou
na cultura oriental as matrizes para seu trabalho junto
aos atores do Odin, o que também só poderia acontecer dentro
de um marco de grupo estável.
O
Odin em mais de 30 anos de carreira realizou pouquíssimos
espetáculos, mas organizou uma escola que leva seus princípios
mundo afora. Suas experiências na periferia, não foram longas
e aprofundadas o que ocasionou apropriação equivocada de
seu trabalho. Hoje há uma vasta gama de grupos que se referenciam
na antropologia teatral e a tomam como uma verdade única,
isso constitui o que poderíamos dizer um conceito de “seita”,
o que no princípio era teatro transformou-se em religião.
O que por muitas vezes se faz tomar o treinamento com algo
sisudo, fechado em sala, onde tudo se transforma em sagrado
sem se saber o por quê. Existe uma lacuna na compreensão
do contexto em que o Odin se formou, contexto este marcado
muita mais pela experiência intercultural que pela produção
de estética e ou poética.
A
primeira vista, a idéia de teatro de grupo poderia ser em
tempos atuais uma boa forma do artista fazer um eficaz “nadar
contra-corrente”, fazendo essa oposição estaria resistindo
a absorção feroz do capitalismo sob seu trabalho artístico.
Porém essa idéia ganha a passos largos, uma força de bandeiras,
que acaba banalizando o sentido primeiro pensado por Grotowski.
Para
evitarmos a banalização uma das questões que merece ser
pensada é a formação do teatrista no marco grupal. O treinamento
físico que faz uso de vários outros sistemas, tem como objetivo
principal segundo Grotowski e Barba, tornar o corpo do ator
um corpo dilatado, sensível, aberto para percepção, para
o recebimento do mundo e não para desenvolvimento de habilidades
físicas, nem para criação de atores virtuosos.
Para
o ator em seu desenvolvimento como um todo é necessário
não só um treinamento físico. É necessária, uma formação
contundente, não basta fazer mil coisas com o corpo, passar
horas trancados em salas com treinamentos ostensivos e,
por exemplo, não treinar-se em ler dramaturgia, (que parece
tão óbvio), em não se manter relacionado com os elos da
história, a ausência de uma formação, de um treinamento
intelectual faz do artista um ser que sequer compreende
sua atividade, suas posturas em relação a si, a sua criação
e a sociedade. A falta deste treinamento inteiro, faz com
que sejam duvidosos, esses agrupamentos relâmpagos que da
noite para o dia qualquer dois que se juntam já possuem
uma pesquisa, método e falam isso sempre em nome de referências,
às vezes sem sequer tê-los amplamente lido e entendido.
Isso denota a falta da sua identidade e a permissão imediata
de colonização e instalação de mitos.
Percebo
que quando não há entendimento claro dos conceitos com que
se quer trabalhar, as pessoas acabam sendo levadas como
por uma onda, ao invés de apropriarem-se profundamente das
referências pra compreende-las, absorve-las e fazer a crítica
devida, e assim fazem apenas o exercício da repetição, e
o trabalho se torna vazio.
Creio
que essa debilidade de formação ocasiona o levantar de bandeiras
em nome do teatro de grupo, em nome de teatristas que se
dedicaram ao aprofundamento e vivência reais desta tarefa,
mas que são passíveis do questionamento.Assim o teatro de
grupo ganha jargões e clichês e se transforma e corre o
risco de ser totalmente absorvido pelo capitalismo, assim
logo teremos as camisetas, e os broches do teatro de grupo.
Mas
a questão ainda está, em como a falta de esclarecimento
e desenvolvimento e principalmente de formação, pode retirar
de um grupo o que ele tem de mais genuíno, sua identidade.
Esquecendo que o novo de hoje, precisa se dinamizar a
cada dia, do contrário constituirá o estereotipo de amanhã.
Um
contexto grupal claro e contundente, necessita de primeira
mão trabalhar dentro de um pensamento includente, dentro
de uma lógica dialética, e dentro de um marco teórico que
permita o indivíduo à compreensão do seu tempo, do contrário
corre o risco de rodear-se dos seus iguais, afastando as
diferenças o que faz cair por terra todo e qualquer discurso
de “salve as diferenças”,
até mesmo porque a história revela ao longo dos seus acontecimentos,
que este discurso serve enquanto discurso ideológico, porque
na prática cotidiana revela-se que o que serve é a hegemonia
de pensamento, pois isso sempre gera poder de um sobre muitos.
O
teatro atual que quer se dar no contexto de teatro de grupo,
poder-se-ia dizer a priori, que precisa fundamentalmente,
refletir sobre sua identidade, criar um real espaço de concentração
das diferenças, não perder seu compromisso com o feito teatral,
realizar investigação teatral e definir um marco teórico
que respalde sua investigação, aprofundar seu conhecimento
sobre grupalidade para que este não se confunda com conceito
de seita.
É
muito possível que o espaço que se abre dentro de um grupo
para desenvolver suas dinâmicas e sua investigação, acabe
se transformando num espaço fechado pela perda de liberdade
e identidade, ocasionando a produção de materiais espetaculares
extremamente herméticos e a formação de servidores e não
de artistas.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
BARBA,
E. A canoa de papel: tratado de antropologia teatral.
São Paulo: Hucitec, 1994.
BROOK,
P. O ponto de mudança: quarenta anos de experiências
teatrais. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1995.
GROTOWSKI,
J. Em busca de um teatro pobre. 4.ed. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1992.
GUINSBURG,
J. Stanislavski e o teatro de arte de Moscou. Coleção
Debates, São Paulo: Perspectiva, 1985.
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S. A identidade cultural na pós-modernidade. 3.ed.
Rio de Janeiro: DP&A, 1999.
STANISLAVSKI,
C. A preparação do ator. 14.ed. Rio de Janeiro:Civilização
Brasileira, 1998.
VALÉRIA
MARIA DE OLIVEIRA
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