Globalismo
Pop
Grassa por aí uma série de conceitos
que, a despeito da sua falta de precisão, tem sobrevivido
por conta da força maior da mídia oficial. É o caso, por
exemplo, do conceito de globalização que, em pouco menos
de trinta anos, foi transformado em enlatado teórico mais
consumido no mercado de bens simbólicos.
O seu sucesso reside justamente na
sua imprecisão, proporcionada, fundamentalmente, por um
dos truques mais sutis do capitalismo contemporâneo: a desterritorialização,
processo este que consiste em criar produtos cada vez mais
desenraizados histórico e culturalmente para que possam
ser palatáveis em escala planetária.
É o que permite, por exemplo, que
escritores, como Paulo Coelho, dispam os seus escritos de
uma prática discursiva mito/poética/maquínica, dos anos
70, e os vistam de um misticismo multirreligioso . Ou que
bandas de rock, outrora com forte traço nacionalista, como
U2, silenciem os rifes de guitarra imitativos dos ritmos
tradicionais e transmude a sua música em tecnopop. Estiliza-te:
eis o imperativo categórico do mercado cultural, cuja pretensão
não é senão a de criar a ilusão de um “zeitgeist” cultural.
Toleima, pois o mesmo processo que,
por assim dizer, “mundializa” também rotiniza a mercadoria,
tornando a repetição a alma do negócio. Em contrapartida,
a repetição exaustiva, feita, em última análise, para obter
o máximo de retorno de capital investido, leva, em sentido
inverso, ao esgotamento do valor de uso da mercadoria, e,
por conseguinte, a sua adulteração.
Theodor Adorno vaticinou, num dos
seus estudos americanos sobre a música contemporânea, que
a repetição mecânica da canção de sucesso levava inevitavelmente
a uma regressão do ouvido e ao desaparecimento do som. O
que, em outros termos, significa dizer: a época que mais
tratou o som contribui, paradoxalmente, para a perda do
seu sentido.
Estendendo o fenômeno ao campo de
nosso interesse, podemos dizer que o mesmo pode acontecer
com as palavras e os conceitos. Quando usados de forma abusiva,
como os são pela imprensa em geral, viram garrafas vazias,
pura forma. E o que já era infundado e impreciso torna-se
completamente abstrato, revelando sua verdadeira origem:
discurso forjado nos seios fartos dos interesses particulares
e, posteriormente, elevados à condição de verdades universais.
Alusivamente, o fenômeno da rotinização
da mercadoria-palavra assemelha-se a brincadeira de repetir,
em voz alta, uma mesma palavra até ela esgotar o seu sentido.
Acreditamos que o mesmo ocorre com
o conceito de globalização que, em poucos anos, entrou no
repertório conceitual das massas, sem sequer anunciar a
sua genealogia e historicidade. Pior: foi transformado em
determinismo explicativo da nossa contemporaneidade pelas
mais novas vedetes da mídia eletrônica: o sociólogo e o
economista.
E não parou por aí: fez escola, inaugurando
um estilo de escrita que, em pouco tempo, desembocou em
clichê literário. Há algumas décadas, tornou-se muito comum
ler artigos de jornal com frases do tipo: “em tempo de globalização”,
“o mundo globalizado”, “com a globalização” entre outros
que, no entrecho, cumpriam o papel de tudo explicar e nada
explicar. Mas que no cômputo geral serviram e ainda servem
para aumentar a confusão em torno dos fenômenos abordados.
Talvez seja a confusão nada mais
que uma estratégia dos grandes beneficiários da Nova (Des)
Ordem Mundial para preservarem e multiplicarem os seus privilégios
aqui na terra. Até meados do século 20, a idéia imperialista
era dividir para dominar, mas notamos que, de lá para cá,
com o apoio das novas tecnologias de informação, a estratégia
mudou: a idéia agora é confundir para conquistar.
Não nos deixemos ludibriar pelo canto
da sereia. Dediquemo-nos, além da produção de conceitos
teóricos, a uma postura crítica em relação à participação
do intelectual no campo de poder da mídia. Mesmo porque,
caso os argumentos anteriores não convençam, não existe
nada mais servil que reproduzir o discurso do dominador.