A organização clandestina denominada
Ação Popular Marxista Leninista (APML) surgiu da transformação
do grupo de orientação católica, a Ação Popular, em agremiação
de diretrizes marxistas. A matriz da APML, a antiga Ação
Popular (AP), por sua vez, foi formada em Belo Horizonte
(M.G.), em 1962, a partir de grupos de operários e estudantes
ligados à Igreja Católica: a Juventude Operária Católica
(JOC) e a Juventude Estudantil Católica (JEC). A existência
destes grupos, segundo D. de Moraes, seria uma decorrência
da pregação reformista e modernizadora do Papa João XXIII
e das Encíclicas Mater e Magistra (1961) e Pacem
in Terris (1963), que defendiam o ecumenismo e a independência
das instituições religiosas em relação aos poderes estabelecidos
(MORAES: 1989, P39). Tal orientação esbarraria em sérias
resistências por parte de alguns setores da própria instituição,
que questionavam o envolvimento de seus membros na luta
pela reforma agrária e sua aproximação com o que denominavam
de “camadas subalternas” da sociedade brasileira. A hegemonia
destes setores conservadores resultou num realinhamento
da Igreja com as classes dominantes que o autor denomina
de “um olho no terço e outro no fantasma do comunismo”
(MORAES:1989, P. 41), e coincide com o momento em que a
AP promoveria sua ruptura com o catolicismo.
Nos primeiros anos da década de 1960,
ainda fortemente influenciada pelo ideário humanista cristão,
vinculada às estruturas formadas pela Igreja junto aos movimentos
populares, a AP possuía penetração entre operários, camponeses
e estudantes, principalmente entre os últimos. Foi da Juventude
Estudantil Católica que partiram as primeiras discussões
que operaram mudanças políticas e ideológicas e sua transformação
em uma organização marxista-leninista.
Tais discussões buscavam definir
para a recém surgida AP um perfil político próprio, distante
ainda do marxismo, mas apontando para a formação de um movimento
revolucionário que tivesse por objetivo promover a transformação
das estruturas da sociedade brasileira tendo como referencial
o socialismo.
Durante os anos 60 a AP era a organização
que detinha o maior número de quadros no interior do movimento
estudantil, elegendo grande parte dos membros das diretorias
da UNE até o golpe de 1964:
“Conseguimos
unir a esquerda na UNE através de um negócio chamado conchavão.
O que havia no movimento estudantil? A JUC, que depois virou
AP: a Polop, que era um grupo pequeno, mais à esquerda;
o Partido Comunista; e os independentes. O partido, às vezes
erradamente, usava a fórmula de colocar simpatizantes como
independentes e assim ter hegemonia na diretoria. Eram os
chamados submarinos.” (MORAES:1989, P. 49)
Após o golpe, a AP, como as demais
organizações de esquerda, foi alvo de intensa repressão,
tendo muitos de seus quadros presos ou exilados. A necessidade
de construir uma nova proposta política para a esquerda
levou os militantes que ainda permaneciam em ação a iniciar
um debate sobre a realidade brasileira em busca de novas
formas de intervenção. Este novo processo de discussão teve
como desdobramento o rompimento definitivo da Ação Popular
com a orientação ideológica cristã, e sua definição pelo
marxismo-leninismo.
A adoção da orientação marxista-leninista
pode ser identificada não só pela nova denominação (APML),
como também pela busca de definir uma nova estrutura partidária.
Esta auto definição como partido identificado com as lutas
dos setores populares foi marco significativo na sua história,
levando-a para o campo das organizações de esquerda que
surgiram a partir do rompimento com as análises e as práticas
políticas do Partido Comunista Brasileiro.
Nos primeiros momentos de seu rompimento
com o catolicismo, a revolução chinesa e as idéias de Mao
Tsé Tung influenciaram as análises e propostas de atuação
da AP. Sob a ótica maoísta, o Brasil era considerado um
país semifeudal, e em decorrência desta concepção a mudança
pretendida para a sociedade brasileira deveria ser iniciada
por uma revolução democrática e popular. A aproximação com
os trabalhadores do campo era fundamental para a esta estratégia
revolucionária, visto que para esta concepção de revolução
o campesinato era considerado a força motriz para a transformação
da sociedade brasileira. Tais princípios levaram, inclusive,
alguns de seus militantes, oriundos das classes médias,
a se “proletarizarem”, ou seja, tornarem-se operários ou
camponeses, trabalhando em fábricas ou no campo.
Neste momento, a APML se insere no
conjunto de organizações, surgidas na década de 1960, que
se intitulavam Esquerda Revolucionária e que possuíam em
comum a crítica ao reformismo e imobilismo do PCB, dentro
desta concepção. Segundo suas análises, este imobilismo
teria contribuído para a desarticulação e derrota do movimento
popular em 1964. De acordo com Jacob Gorender, um dos fatores
decisivos para a ruptura destes setores com o PCB teria
sido de ordem teórica: a crítica produzida por Caio Prado
Júnior em seu livro A Revolução Brasileira às teses
do partido a respeito de uma burguesia nacional antiimperialista.
(GORENDER: 1990, P. 73) Com base nesta nova formulação,
começaram a ser repensados por estes grupos de militantes,
egressos do PCB, novas estratégias e táticas para revolução
no Brasil, táticas estas não mais norteadas por uma aliança
com setores da burguesia nacional.
Apesar de afiliada ao conjunto de
agremiações que surge neste período em torno de novas concepções
de luta política, a APML tinha uma especificidade que a
diferenciava das demais organizações: sua origem não era
o PCB mas sim a Igreja Católica.
Nesta primeira fase, vão confrontar-se
na APML duas propostas de ação política. Uma parte dos militantes,
influenciada pelas idéias de Régis Debray, passou a defender
as teorias foquistas de luta política, que apontavam para
a mobilização do campo através da formação de focos de guerrilha.
Esta forma de atuação passa a identificar setores
da APML com os outros grupos de esquerda que
propunham a montagem de núcleos de guerrilha como
tática de enfrentamento ao regime instaurado após 1964.
Segundo Emir. Sader, estes grupos seriam resultantes da
crise de caminhos da esquerda no pós 64 e cuja origem seria,
em grande parte a crítica ao bolchevismo e ao leninismo.
Estes novos grupos sofreriam influência crescente da revolução
cubana cujo paradigma de luta foram os focos guerrilheiros.
(SADER:1991,P.181) A expressão desta linha política teve
seu ponto culminante na participação de
militantes da APML no atentado ao Aeroporto dos Guararapes,
em Recife, no ano de 1968. Este episódio, ocorrido no dia
25 de julho, tinha por objetivo a eliminação do candidato
á Presidência indicado pelos militares, o general Arthur
da Costa e Silva, de passagem pelo aeroporto. A explosão
não atingiu seu principal alvo, mas resultou na morte de
duas pessoas que estavam no local, deixando várias outras
feridas.
O episódio de Guararapes desencadeou
entre os militantes da APML novos debates em torno das formas
de enfrentamento do regime autoritário que se desdobraram
no surgimento de uma primeira dissidência. Segundo Gorender,
as divergências consistiam na priorização do enfrentamento
armado imediato que se contrapunha à estratégia de guerra
popular prolongada bem como à necessidade de construção
partidária. (GORENDER:1990, P.113). Para Antonio O. Silva,
a divergência central estava na caracterização da revolução
no Brasil. De acordo com este historiador, questionava-se
o fato de ser este um país semifeudal. Mas a conseqüência
deste questionamento seria, em última instância o próprio
ideário maoísta, em todas as suas decorrências acima mencionadas.
Mas, nos primeiros momentos da discussão, as divergências
sobre o caráter da revolução brasileira ficariam obscurecidas
pela questão da proletarização e da luta militar e as teses
maoístas não seriam totalmente abandonadas pelos militantes
da APML. (SILVA: 1992, p.132).
O afastamento da direção nacional
da esfera de influência cubana e da visão foquista de luta
política, bem como suas severas críticas a esse tipo de
intervenção, levou à marginalização e ao afastamento dos
quadros que defendiam esta forma de luta. Este reduzido
grupo de militantes que formou nova organização em 1969:
o PRT (Partido Revolucionário dos Trabalhadores), partidário
da luta armada. Afastado da APML, o grupo aproximou-se de
outras organizações que possuíam linhas políticas semelhantes
como a Var Palmares e o POC (Partido Operário Comunista),
formando com elas a Frente Armada. O PRT esteve organizado
até 1971, ano da prisão de seus últimos dirigentes e de
sua conseqüente extinção.
Os quadros que permaneceram na APML,
mantendo-se dentro da direção política hegemônica buscaram
consolidar sua estrutura. Retomando a linha maoísta, reforçaram
o trabalho junto ao campesinato e a opção por uma revolução
em etapas. Os documentos produzidos neste período estabelecem
que no primeiro momento ocorreria a etapa nacionalista,
na qual deveria ser feita uma revolução democrática, capaz
de promover a superação do caráter feudal de nossa sociedade.
Apenas depois da realização desta mudança é que viria a
segunda etapa: a revolução socialista.
É interessante notar que esta estratégia
adotada pela APML possuía algumas semelhanças com a adotada
pelo PCB, principalmente quanto à superação da estrutura
feudal e da etapa democrático-burguesa da revolução. Portanto,
apesar de colocar-se no campo das organizações que pautavam
sua linha política pela crítica ao PCB, havia uma convergência
de entre as duas agremiações, principalmente a respeito
da necessidade de alianças táticas com setores da burguesia
nacional.
A linha política adotada pela APML,
nesta nova fase, levou a uma proletarização ainda maior
de seus militantes. Esta proletarização levaria militantes
originários das classes médias a se tornarem
operários ou camponeses. Segundo D.A.Reis, esta prática,
cuja ética se caracterizaria por uma ação revolucionária
‘a serviço do povo’ recuperaria um predomínio do cristianismo
primitivo, principalmente quanto à valorização da humildade,
da austeridade e do igualitarismo, reintroduzido na América
Latina pela Teologia da Libertação.(REIS:1991, P.131.).
Tal afirmação poderia nos levar a uma reflexão sobre os
resquícios da influência católica na AP, mesmo depois de
seu rompimento com o catolicismo. No entanto, a prática
da proletarização foi algo recorrente em várias organizações
de esquerda no Brasil, independente de sua origem, portanto
não se trata de uma especificidade das agremiações egressas
dos quadros da Igreja Católica, o que não pode ser visto
como herança ideológica do catolicismo
É deste período a tendência à aproximação
da APML com o PC do B (Partido Comunista do Brasil - dissidência
do PCB) que também adotara a linha maoísta. Alguns de seus
militantes defendiam, dada a identidade política, a fusão
entre os dois partidos. No entanto, a maioria dos membros
da Direção Nacional da APML não aceitou a proposta, optando
pela manutenção de uma estrutura própria.
Nos primeiros anos da década de 1970
os militantes da APML estiveram envolvidos em uma intensa
luta política interna: A fusão com o PC do B, defendida
por alguns, a incorporação ao MR-8 (Movimento Revolucionário
8 de outubro), reivindicada por outros, ou a
manutenção da autonomia partidária e as primeiras formulações
que levariam ao questionamento da influência maoísta e da
estratégia de guerra popular. Estas eram algumas das questões
apresentadas nos documentos produzidos naquele momento.
Em 1972 ocorreria a segunda ruptura, na qual a organização
se dividiu em dois campos: aqueles que defendiam a manutenção
da orientação maoísta e mais tarde se incorporaram definitivamente
ao PC do B e os militantes que buscavam novas definições
programáticas, mantendo-se sob a denominação de APML. O
ingresso de ex-militantes da APML no PC do B, segundo D.
A Reis, viria reforçar este último, abalado com a perda
de grande número de quadros em decorrência da derrota da
Guerrilha do Araguaia. (REIS: 1991, P. 131)
Esta nova dissensão seria bem mais
profunda. Grande parte dos militantes saiu da APML e se
integrou ao PC do B. Outros ingressaram no MR-8 (Movimento
Revolucionário 8 de outubro). Apenas uma parte, isto é,
os militantes que se mantiveram próximos à linha política
defendida pela Direção Nacional, manteve-se fiel ao partido.
Esta cisão, interrompida apenas pela prisão de alguns militantes,
decorreu de um processo de intensa crise interna gerada
pelas divergências em torno das linhas políticas.
Ao mesmo tempo em que ocorriam as
cisões, cresciam os problemas ligados à organização interna.
Tornava-se cada vez mais premente a necessidade de arrecadação
de finanças para a sustentação do trabalho político e dos
militantes clandestinos ou profissionalizados. A democracia
interna e a centralização das decisões eram alvo de intensos
questionamentos, conforme apontam os documentos produzidos
neste período. Mas o processo de proletarização imposto
pela concepção de que este seria coerente com a linha política
da organização – e portanto necessário - também foram alvo
dos mais acalorados debates entre os militantes e fonte
de inspiração para a maior parte dos documentos produzidos
pela APML neste interregno.
Entre os anos de 1972 e 1973, período
de intensa atuação por parte das polícias políticas, a APML,
como as demais organizações clandestinas, teve parte de
seus militantes presos, sendo alguns, inclusive, assassinados
nos porões do regime militar. Entre os desaparecidos encontra-se
Paulo Wright, militante que participou intensamente dos
debates que se desenvolviam a respeito da renovação da política
da organização. As prisões despertaram novos debates entre
os militantes que não haviam sido detidos, principalmente
a respeito da segurança da estrutura interna e dos dados
obtidos pelos órgãos de segurança através dos militantes
que haviam sido capturados. Datam deste período alguns documentos
que resgatam discussões em torno do comportamento dos militantes
submetidos a torturas pelas polícias políticas. Estes documentos
também expressam a profunda crise ideológica pela qual passavam
os quadros da APML. Também foram presos e assassinados Honestino
Guimarães, último presidente da UNE, Humberto Câmara, membro
da penúltima diretoria da UNE, Gildo Lacerda, Fernando Santa
Cruz e Eduardo Collier.
Neste período, dado o acirramento
da ação dos órgãos de repressão, a APML optou por deslocar
os membros da Direção Nacional para o exterior. Alguns dos
membros da Direção Nacional foram enviados para o Chile,
durante o governo de Salvador Allende para garantir a sua
segurança. Muitos dos documentos produzidos com o objetivo
de traçar diretrizes para o trabalho político no Brasil
foram produzidos naquele país. Com o golpe de 1973 e a derrubada
da democracia chilena, alguns militantes retornaram clandestinamente
ao Brasil, outros se dirigiram à Europa. A dispersão dos
militantes, as dificuldades financeiras e o crescimento
das divergências contribuíram para o agravamento dos problemas
de organização constatados nos documentos consultados. Neste
momento a APML encontrava-se na sua maior crise, e esta
crise terá como desdobramentos novas mudanças na linha política e a saída de alguns
militantes.
O contato com outros grupos de esquerda,
tanto no Brasil quanto no Chile e Europa marcou a retomada
do processo de discussão sobre o caráter da sociedade brasileira
e a busca de novas formas de intervenção em direção a novas
estratégias. Deste processo partiu a iniciativa da reconstrução
do partido, tanto do ponto de vista orgânico como ideológico,
e a revisão definitiva de sua linha política. Esta revisão
teria como ponto de partida o questionamento das diretrizes
maoístas. Novas
formulações adotadas pela APML após 1973 retomam a proposta
de revolução socialista, negando a idéia anterior de que
haveria uma etapa democrática que antecederia a luta pelo
socialismo. Com este perfil, a APML passaria a fazer parte
do campo das chamadas organizações de Esquerda Proletária,
passando a ser conhecida por AP Socialista. Data deste período
a publicação da Revista “Brasil Socialista”, em esforço
conjunto com o MR-8 e a POLOP (Política Operária), visando
promover o debate sobre os problemas da revolução brasileira.
A prática política da APML, com esta
mudança, passou a refletir as diretrizes do PSB (Programa
Socialista para o Brasil), documento formulado pelas organizações
da Esquerda Proletária, que concebia o Brasil como país
capitalista, no qual a revolução seria construída a partir
da organização do proletariado urbano. É importante apontar
que esta ruptura representa para a APML uma mudança substancial
em suas premissas políticas pois, pela primeira vez, seus
documentos criticam a idéia da revolução democrático-burguesa.
Partindo destes novos pressupostos, a APML adotou como base
de sua estratégia a formação de um partido operário - cujo
ponto inicial seria a própria estrutura, bem como a luta
pelo socialismo e a defesa da ditadura do proletariado.
Dentro desta nova política, os últimos
anos da década de 1970 representam para a APML uma renovação
no caráter de suas discussões internas, que passam a se
realizar em torno das propostas para a intervenção do partido
no movimento operário. A consulta aos documentos produzidos
neste período identifica que a prioridade dos debates consistia
em definir o papel das comissões de fábrica, conceber um
programa para a formação destas comissões e demarcar as
palavras de ordem a serem levadas para o movimento. Todas
a documentação gerada pela APML neste momento era voltada
para a análise da situação dos sindicatos e demonstra a
busca de seus militantes por uma política sindical que conduzisse
à organização independente do proletariado. Por outro lado,
também reconheciam a importância do movimento estudantil
como força auxiliar na luta do proletariado. Neste sentido,
entende-se o esforço para ampliar a atuação junto aos estudantes,
secundaristas e universitários, e encontrar propostas de
ação de seus militantes junto às entidades estudantis (UNE,
UEEs).
Nesta fase, a APML detectou o surgimento
de outros tipos de movimentos e organizações: Movimento
de Mulheres, Movimento de Bairros, Movimento contra a Carestia.
Admitindo a importância destas manifestações, e a necessidade
de participar destas lutas, a Direção Nacional, iniciou
o debate com a militância, através dos documentos de circulação
interna, sobre as estratégias para a unificação destas novas
formas de organização popular com o movimento operário e
sindical.
É importante ressaltar que em todos
os documentos produzidos desde o rompimento com o maoísmo
até o final da década de 1970, encontramos sempre a afirmação
da idéia de que a APML representava para os seus militantes
a realização de um partido voltado para os interesses dos
trabalhadores e dos setores populares. Tais documentos também
se caracterizam pela identificação
de seu compromisso com as lutas da classe trabalhadora.
Com o processo de redemocratização
política, a retomada das greves operárias e das lutas populares
do final dos anos 70 e início da década de 1980 a APML mobilizou
seus militantes no sentido de garantir sua presença em cada
um destes movimentos e, principalmente, a sua intervenção
com o objetivo de assegurar a defesa seu programa de lutas e de suas palavras de ordem.
Através dos textos produzidos pelos
militantes nos últimos anos da década de 1970 manifesta-se
uma nova preocupação: a necessidade de construir um partido
legalizado, que viesse a ser fator de aglutinação das forças
políticas que possuíssem o mesmo referencial de lutas e
uma identidade ideológica.
A formação de uma frente de organizações de esquerda que
pudesse atuar na legalidade, possibilitando a intervenção
parlamentar passou, então, a se constituir uma questão recorrente
nos documentos que informam acerca das discussões internas
da APML no período da abertura política.
A anistia política concedida em 1979
proporcionou aos militantes que se encontravam no exílio
a possibilidade de retorno ao país. Para os que se encontravam
na clandestinidade este fato possibilitou o retorno à legalidade
bem como a atuação aberta no movimento de massas. A perspectiva
de participação na vida política nacional, possibilitada
pela volta ao Estado de Direito, favorecia a concretização
da idéia de uma frente unificadora de todas as tendências
pertencentes ao campo da esquerda, permitindo visibilidade
ao trabalho político que constituía a maior preocupação
para todos os militantes da APML. No entendimento destes,
a retirada do caráter clandestino e a conseqüente legalização
da luta política ampliaria seu alcance e a sua eficácia.
Ainda assim, a APML manteve a sua estrutura orgânica interna
independente e clandestina até o início da década de 1980.
Mas, durante todo este intervalo, a discussão sobre a importância
da organização de uma estrutura legalizada foi o principal
tema dos debates internos, sendo tema constante em todos
os documentos produzidos neste período.
A emergência do Partido dos Trabalhadores
contribui para que o projeto de implantação de uma frente
de atuação política viesse a ser concretizado. O PT constituiria,
assim, a estrutura partidária dentro da legalidade que a
maioria dos militantes defendia.
Considerando o PT como a realização
deste projeto, os militantes da APML iniciaram o debate
sobre a viabilidade da dissolução de sua estrutura clandestina,
para posterior reunião às demais forças políticas que participavam
da organização do Partido dos Trabalhadores. E, deste debate
saiu a resolução de que a APML iria se auto dissolver para
se incorporar ao novo Partido.
A participação da APML no processo
de construção do PT e sua posterior decisão pela dispersão
de seus quadros no interior deste partido estão expressos
na documentação produzida neste período e representam o
último processo de discussão implementado pelos seus militantes,
culminando com a extinção da APML.