Em
outro trecho Werebe indica que
Não
é mais possível a nenhum país pensar e solucionar seus problemas
numa perspectiva egoísta, voltado para si mesmo, sem levar
em conta o resto do mundo. É em função de uma economia mundializada
e das relações entre norte e sul que todos os problemas
têm que ser encarados. (p. 280)
A
adesão do país, mais enfaticamente a partir da década de 90,
aos princípios do liberalismo econômico fixado pelas grandes
potências, praticamente tornou o Brasil refém da especulação
financeira internacional, com forte dependência dos capitais
de alta volatilidade, sem contar o contínuo monitoramento
dos organismos financeiros que seguem a cartilha fixada pelos
países que os comandam. Conciliar as demandas reprimidas no
passado com as exigências de contenção de gastos públicos,
formulados por todos os programas de ajustes econômicos, têm
estimulado o surgimento de algumas práticas de política educativa
absolutamente contrárias a um projeto que tenha como postulado
o desenvolvimento de sistemas públicos de educação com qualidade
para todos, como veremos adiante.
3.
O jeitinho brasileiro
O
não atendimento das demandas emergentes, quando houve diversas
oportunidades para que o país construísse um sistema educativo
que lhe permitisse enfrentar os desafios da modernidade social
e política sem grandes atropelos, deixa-nos diante de desafios
quase intransponíveis neste início de novo século. Com dívida
pública impagável, mesmo porque, certamente, já foi paga mais
de uma vez, os orçamentos governamentais estão sujeitos a
um sem-número de contingenciamentos e limites, inclusive externos,
que são impostos pelos organismos financeiros internacionais
para seguir mantendo um precário sistema de rolagem dos compromissos
assumidos ao longo das últimas décadas.
A
falta de vontade política, para atendimento às necessidades
educacionais da população, sempre foi encoberta pela desculpa
da falta de recursos capazes de permitir a construção de um
sistema educativo de qualidade para todos. O Brasil, especialmente
durante o século XX, apesar de se tornar signatário de inúmeros
documentos internacionais, que fixavam compromissos educativos,
estabeleceu também vários dispositivos legais que determinavam
a construção de um sistema público de educação de qualidade
para todos, preferiu, ao longo de sua história como nação,
adotar expedientes de eficácia duvidosa, com o carimbo do
curto-prazo e do descompromisso, construindo uma trajetória
educativa que qualifico como um roteiro de oportunidades perdidas.
Quando
a Europa e os Estados Unidos adotavam normas e regulamentos
para extensão da escolaridade básica para todos, nós preferíamos
relegar ao esquecimento as providências e os meios materiais
capazes de dar conseqüência aos enunciados afoitamente copiados.
Desde
a adoção da educação gratuita para todos, expressa na Constituição
de 1824, o país veio assistindo a uma sucessão de belas declarações
de intenção sobre a educação do povo e que, no entanto, não
saíram do reino dos meros enunciados. Esse distanciamento
entre declaração e ação já foi suficientemente examinado por
estudiosos tanto da educação quanto de outras áreas, e todos
concordam que na raiz desta dubiedade cultural está um processo
político mais elaborado de manter as distâncias sociais solidamente
estabelecidas no processo colonizador inicial.
A
persistência desta visão dicotômica, que Anísio Teixeira chamou
de “valores proclamados
e valores reais”, transformou a política educativa em
algo de “faz de conta”, algo que se deve enunciar como importante,
mas que não é pra valer.
Na
administração pública, via de regra, há um orçamento para
constar e um outro para executar. A área educativa é sempre
vítima desse expediente, com corte de rubricas, contingenciamentos
e outros tantos expedientes escapistas. No entanto, como a
população considera a política educacional uma atividade importante,
os políticos que ocupam os postos dirigentes da área – especialmente
o Ministério da Educação – adotam vários artifícios para dar
a impressão de que muito fazem, quando em realidade pouco
executam no sentido de dar à tarefa educativa a importância
que ela merece. Dois exemplos desse malabarismo político serão
indicados, a seguir, e os leitores poderão identificar alguns
deles em muitas das ações levadas a cabo, ao longo das últimas
décadas.
Descontinuidade
das ações
Todos
sabem que uma política educativa consistente necessita de
um mínimo de 15-20 anos para se consolidar. Ela não se constrói
num mandato presidencial nem se consuma na gestão de um determinado
ministro (que em geral dura 4/5 anos ou 8 anos, como no caso
excepcional do ministro Paulo Renato). Assim, é natural que
em cada período governamental o ministro ou secretário de
Estado, que assume, considere que a primeira coisa a fazer
consiste em “marcar” sua administração com coisas “novas”,
que personalizem sua gestão. O primeiro passo, pois, será abandonar
o que vinha sendo feito e imprimir novo rumo, mesmo que isto
fique apenas no plano das declarações de intenção, sem qualquer
efeito sobre o andamento do que ocorre efetivamente no sistema
educativo.
Como
efeito desta linha geral, que permeia a prática da política
educativa, verificamos que não há avanços que sejam fruto
da cumulatividade, que acrescentem qualidade às ações em processo,
fruto da incorporação de êxitos observados pela reiteração
das práticas, das avaliações efetuadas e das experiências
incorporadas na vivência cotidiana do sistema educativo.A
continuidade se dá pela descontinuidade das ações, como tenho
insistido em recorrentes análises, ao longo das últimas décadas.
Conseqüência dessa forma de encarar a política educacional,
é que esta se vê reduzida a uma infinidade de projetos e programas,
quase sempre sem recursos e sem estratégias claramente definidas
sobre sua inserção nas estruturas executivas e no dia-a-dia
das escolas.
Via
de regra, as ações propostas pelos dirigentes das políticas
educativas, ao adotar este procedimento de buscar máxima visibilidade
para sua gestão tem como pressuposto os seguintes aspectos:
i) ausência de recursos adequados para atendimentos universalizados
e que poderiam agregar valor às ações permanentes dos sistemas
públicos de educação (como, por exemplo, melhorar o salário
dos professores, aumentar a permanência diária dos alunos
nas escolas, dar melhores condições para o trabalho dos alunos
e professores, etc.); ii) provável curta permanência no cargo
de dirigente educacional. Quase sempre, os cargos de responsável
pela esfera educativa – em qualquer escalão – são preenchidos
em função de interesses de composição política, e os escolhidos
(pessoas ou partidos) são indicados como “moeda de compensação”
ou de barganha para acomodar as bases de apoio mais amplas
que se deseja consolidar em determinados momentos.
Nesse
universo de prazos exíguos, é fundamental conciliar falta
de recursos adequados com o curto-prazo. Fecha-se a equação
do “projetismo” com a descontinuidade, que é a marca característica
do descompromisso político para com o setor educativo.
Um novo
ator em cena – o papel da mídia
Com
o extraordinário avanço das telecomunicações, fruto da iniciativa
do regime militar, a televisão passa a ser considerada, cada
vez mais, como o veículo por excelência para levar informação
à grande maioria da população brasileira. Acoplada a ela,
por extensão, a veiculação em jornais, rádios e revistas passa
a ser um componente indispensável para propagar as atividades
dos dirigentes políticos nas várias áreas onde atuam.
A
educação, onde tradicionalmente o importante é o anunciar,
independentemente do fazer, passa a ser um campo onde a publicidade
se torna componente indispensável para a disseminação dos
projetos e das ações do dirigente ocasional. Mais recentemente,
entre nós, os ministros Marco Maciel (1985) e Paulo Renato
(1995) exploraram, à exaustão, os recursos da mídia. A maneira
encontrada pelo ministro Maciel foi o eufórico dia “D” da
educação, ao produzir uma ampla mobilização nacional, usando
intensivamente as diferentes mídias para, afinal, produzir
um folheto com as prioridades identificadas em reuniões de
milhares de escolas espalhadas por todo o país.
O
ministro Paulo Renato organizou um verdadeiro batalhão de
comunicadores para expor, diariamente, o que se fazia ou se
desejava realizar, a tal ponto que a partir de determinado
momento de sua gestão, segundo pesquisa realizada durante
meses, mais de 80% do que se discutia nos principais jornais
do país eram as matérias veiculadas pelo Gabinete do Ministro.
Segundo a revista Veja, de 15 de fevereiro de 95, a estratégia
então definida, logo após a vitória de Fernando Henrique sobre
Lula, em fins de 94, visava fazer uma “mobilização
que reunisse o charme caridoso da campanha da fome do Betinho
com a força dos barões da avenida paulista”.
Este
recurso intensivo à mídia é um fenômeno relativamente novo,
mas já está produzindo fenômenos curiosos, idênticos ao visado
pela propaganda tradicional utilizada para a venda de determinados
produtos. Certa ocasião, há aproximadamente dois anos, uma
jovem publicitária me deu a seguinte resposta, quando a questionei
sobre uma propaganda do MEC que apontava maravilhas a respeito
da alimentação escolar para o sucesso do aluno na escola:
“Para mim o assunto ficou resolvido quando o cliente aprovou
a peça publicitária”.
4.
Temos saídas possíveis?
Diante
desse quadro, que veio se acentuando com o passar do tempo,
onde o descompromisso político passa a encontrar na educação
escapismos de variada natureza, é licito perguntar que papel
está reservado à educação de qualidade para a construção de
um país mais democrático e solidário para todos. Entendo que,
existindo vontade política para fazer o que é necessário,
que todos os educadores e grupos organizados da sociedade
já conhecem, será possível recuperar parte do tempo perdido.
Em
1990, quando se discutiam os novos cenários da educação para
o novo milênio, apresentei no Congresso Internacional de Planejamento
e Administração da Educação, no México, uma análise em que
fazia projeções sobre uma visão pessimista e outra otimista
do papel reservado à educação no novo milênio, especialmente
com as novas linhas do pensamento dominante com a reforma
do Estado, a globalização econômica e as incertezas cada vez
mais marcantes que então se colocavam para todos os países
do Terceiro Mundo. Creio que as idéias são ainda atuais e
merecem ser repetidas em suas linhas gerais
A perspectiva
pessimista
Nesta
ótica, as políticas de ajuste econômico canalizam recursos
para os compromissos financeiros assumidos perante os credores
internacionais, e as convicções de certos grupos internos
ganham força suficiente para suplantar os ideais de um Estado
liberal, garantidor de oportunidades sociais para todos, que
se tornaria impraticável nas condições de governabilidade
de muitos países. Os processos de privatização deveriam avançar
para justificar a prioridade a ser concedida em segurança
e em outras áreas que passam a se tornar estratégicas. Desta
maneira, investimentos sociais em sentido estrito, como educação,
por exemplo, poderiam ser privatizados, mediante convênios
com empresas ou outras instituições interessadas no seu controle
ideológico. Nesse cenário, os problemas educativos poderiam
ser agravados com as disputas patrocinadas por grupos particulares
superpondo-se ao interesse coletivo. Os indicadores sociais
certamente continuariam extremamente precários
A
permanência desta orientação, classificada como pessimista,
provocaria uma verdadeira subversão nas prioridades da política
social, com ênfase centrada na luta pela sobrevivência física
dos indivíduos e onde a questão educativa tenderia a ser relegada
a um segundo plano, podendo, em muitos casos, transformar-se
em artigo dispensável.
A visão
otimista
Nesta
perspectiva, as políticas de ajuste econômico dão resultado
favorável, os países conseguem renegociar suas dívidas e,
por conseqüência, adotam políticas redistributivas que produzem
efeitos em toda a sociedade. As disparidades de renda são
reduzidas e, mediante reformas tributária e fiscal, permite-se
melhor acesso a serviços até então restritos a parcelas muito
pequenas da população. Nesse horizonte, a educação só pode
dar certo e o trabalho dos planificadores é o de equacionar
as prioridades, estabelecer planos de melhoria da qualidade
– especialmente no ensino de primeiro grau, transformando
assim a atividade educativa em redistribuidora de outras oportunidades
sociais (moradia, emprego, renda, lazer, saneamento, etc.).
Com uma educação de qualidade para todos estaríamos reforçando
também a democracia e aumentando a responsabilidade do cidadão
na cobrança por melhores serviços educativos.
5.
Concluindo
A
posse do presidente Lula, em janeiro deste ano, com toda sua
história pessoal e os novos apoios que consolida neste inicio
de milênio, deixa imensas expectativas a respeito do futuro
da educação no país. A lamentar é que estejamos, ainda, colocando
demandas que em muitos países só fazem parte dos manuais de
história da educação, como a daquele ministro inglês, William
Pitt, que descobriu, no final do século XIX, que uma das maneiras
de salvar as crianças de morrerem nas linhas de produção industrial,
após 11–12 horas de trabalho, seria colocá-las na escola.
Pouco
mais de 100 anos depois, estamos esperando um grito indignado
que ponha fim à educação como privilégio, como denunciou,
há mais de 50 anos, Anísio Teixeira, ou que elimine o viés
assistencialista que busca mascarar a falta de vontade política
que “rouba ao homem condições à consecução de uma
das necessidades fundamentais da alma humana – a responsabilidade”
(FREIRE, 2001: 16).
Que
o presidente Lula encontre meios de equacionar os problemas
de mais de 3 milhões de crianças que vivem em regime de trabalho
escravo, incompatível com sua idade e com a condição de qualquer
ser humano, como denunciaram matérias veiculadas nos principais
jornais, recentemente, como início de um processo que efetivamente
sinalize uma nova era educacional no país... é o que todos
esperam.