Televisão
aberta comercial:
uma
espécie de tráfico de drogas pelo ar
No ano passado, o Ministério das
Comunicações anunciou que doravante todos os aparelhos de
tv no Brasil, deverão sair de fábrica contendo um mecanismo
de controle da programação correspondente ao americano V.Chip.
Este mecanismo, em tese, facultaria aos pais, por exemplo,
a possibilidade de escolha da programação na tv aberta para
as crianças e adolescentes.
A implantação do V.Chip tupiniquim
poderia ser de grande valia se os programadores da tv aberta
comercial oferecessem um novo cardápio de possibilidades de
escolha para o telespectador. Algo como acontece na tv paga,
onde há um leque diversificado de opções de programas, segmentadas
em variados temas e dirigidos a públicos diversos. Um lugar
onde são escassas as baixarias que reinam generalizadas nas
tvs abertas comerciais.
Pode-se dizer que a programação da
tv paga é pautada pela qualidade, ética e respeito ao telespectador.
Sexo para quem quer sexo, violência para quem quer violência,
música para quem quer música, notícia para quem quer notícia
e educação para todos, em vários canais diferentes, como os
canais Futura, TV Senac, TVE Brasil, Cultura, dentre outros.
Se a tv aberta comercial um dia decidir
por copiar a fórmula da tv paga, bastará selecionar os programas
preferidos e montar uma grade de programação de melhor qualidade,
digerível de acordo com o seu apetite.
Então, como nos livrarmos dos conteúdos
repletos de agressões, palavrões, montagens bizarras, violência
e sexo, muito sexo, contidos nos textos, diálogos, cenas,
ruídos da tv aberta comercial que, nos últimos anos, resolveu
enveredar pela trilha dos velhos cinemas pornôs e também dos
novos enlatados americanos onde tudo começa e acaba em amontoados
de cadáveres envoltos em sangue?
Os programadores insistem em dizer
que, para eles, o conceito de qualidade está referido a algo
bonito de se ver, ou ainda, esteticamente perfeito. Tudo de
primeira: luz, câmera, trilha e edição, que garantem o chamado
padrão de excelência conquistado pela produção nacional. Será?
Se qualidade para esta tv é atingir um determinado padrão
estético, quem decide o que será produzido na tv aberta comercial
leva em conta o que diz a constituição no artigo 221, “...preferência
à finalidades educativas...”?
Tudo bem, esqueçamos a Constituição
por um momento e olhemos para um aspecto da história da humanidade
ou simplesmente do nosso país: o tráfico, nas suas diversas
modalidades, está enraizado nas sociedades e nos impõe sua
presença nas relações comerciais e sociais e numa forma de
enxergar o outro e a nós mesmos. Presente em diversos momentos
da história do Brasil, o tráfico e suas seqüelas ficarão marcados
para sempre em nosso tecido social: tráfico de escravos, de
mulheres, de crianças, de órgãos, de influência, de prostituição,
de animais silvestres, de negócios indecorosos, de vantagens
por favores políticos ilegais, enfim... as modalidades são
diversas.
Desta vez , o tráfico que nos chama
a atenção não é o tráfico das drogas que são vendidas por
jovens miseráveis nos morros e favelas de todo o país. Falamos
na droga que nos é oferecida diariamente pela programação
da tv aberta comercial, em doses maciças de toda espécie de
detritos visuais e auditivos: uma droga que corrompe o sentimento
humanitário e a noção de cidadania de crianças e adolescentes.
O tráfico de drogas televisivas é
o repasse ao telespectador do montante de entulho produzido
e embalado em luzes pirotécnicas, sem sentido algum a não
ser o flagelo maior: a disseminação da ignorância e a preservação
da desigualdade.
A droga que eles distribuem é o conjunto
formado pelo monte de coisas inúteis e nocivas à educação
e à cidadania.
Uma droga poderosa, que corrompe,
cujo agente destruidor é o desprezo à própria vida humana:
os exemplos mais caros são os diversos assassinatos cometidos
por crianças e adolescentes, baseados em filmes, e o crescimento
do abuso sexual contra crianças e adolescentes.
A oferta de entorpecentes da tv aberta
comercial se refere a droga da agressividade, da sexualização
precoce de crianças e adolescentes, da banalização do sexo
entre adultos, da manipulação e desrespeito à crianças e idosos.
Drogas tão letais quanto aquelas vendidas pelos traficantes
condenados à ilegalidade. Porém, travestida de cenas agressão
entre familiares, com doses de alto poder de concentração
e assimilação.
Diferente dos jovens excluídos, estes
outros que traficam droga através das concessões de tv que
obtiveram das mais variadas formas, entram e saem da nossa
casa de maneira imperceptível, eles vêem pelo sinal das antenas
de tv e vivem em suntuosas mansões, longe das valas onde reinam
os seus programas repletos de entulho de toda ordem, ou seja,
o entretenimento que é despejado na sociedade com conteúdo
contaminado.
Tal qual os outros traficantes, eles
estão em toda parte, ocupam cada esquina do Brasil, onde quer
que haja gente, o televisor distribuidor de drogas está sempre
ali, noite e dia, oferecendo e passando adiante suas cargas:
a droga do sexo como conceito, da violência como tema, dos
programas que não respeitam nada nem ninguém, das pegadinhas
e todas as outras mazelas televisivas que surgem a cada dia.
Concluímos lembrando que a educação
não está presente somente na programação eminentemente educativa.
Construtivos ou não, todos os programas exibidos pelas tvs,
abertas e fechadas, são capazes de educar, quer dizer, levar
conhecimentos ao telespectador. Dizer não à droga televisiva
é, pois, produzir uma televisão diferente, engajada na educação
e na preservação da cidadania.