Por WAGNER BEZERRA* & HELOISA DIAS**
* Publicitário, especialista em políticas públicas, diretor e roteirista e autor do livro Manual do Telespectador Insatisfeito, Editora Summus; ** Cientista política, doutoranda pelo IUPERJ e professora universitária


 

Televisão aberta comercial:

uma espécie de tráfico de drogas pelo ar

 

No ano passado, o Ministério das Comunicações anunciou que doravante todos os aparelhos de tv no Brasil, deverão sair de fábrica contendo um mecanismo de controle da programação correspondente ao americano V.Chip. Este mecanismo, em tese, facultaria aos pais, por exemplo, a possibilidade de escolha da programação na tv aberta para as crianças e adolescentes.

A implantação do V.Chip tupiniquim poderia ser de grande valia se os programadores da tv aberta comercial oferecessem um novo cardápio de possibilidades de escolha para o telespectador. Algo como acontece na tv paga, onde há um leque diversificado de opções de programas, segmentadas em variados temas e dirigidos a públicos diversos. Um lugar onde são escassas as baixarias que reinam generalizadas nas tvs abertas comerciais.

Pode-se dizer que a programação da tv paga é pautada pela qualidade, ética e respeito ao telespectador. Sexo para quem quer sexo, violência para quem quer violência, música para quem quer música, notícia para quem quer notícia e educação para todos, em vários canais diferentes, como os canais Futura, TV Senac, TVE Brasil, Cultura, dentre outros.

Se a tv aberta comercial um dia decidir por copiar a fórmula da tv paga, bastará selecionar os programas preferidos e montar uma grade de programação de melhor qualidade, digerível de acordo com o seu apetite.

Então, como nos livrarmos dos conteúdos repletos de agressões, palavrões, montagens bizarras, violência e sexo, muito sexo, contidos nos textos, diálogos, cenas, ruídos da tv aberta comercial que, nos últimos anos, resolveu enveredar pela trilha dos velhos cinemas pornôs e também dos novos enlatados americanos onde tudo começa e acaba em amontoados de cadáveres envoltos em sangue?

Os programadores insistem em dizer que, para eles, o conceito de qualidade está referido a algo bonito de se ver, ou ainda, esteticamente perfeito. Tudo de primeira: luz, câmera, trilha e edição, que garantem o chamado padrão de excelência conquistado pela produção nacional. Será? Se qualidade para esta tv é atingir um determinado padrão estético, quem decide o que será produzido na tv aberta comercial leva em conta o que diz a constituição no artigo 221, “...preferência à finalidades educativas...”?

Tudo bem, esqueçamos a Constituição por um momento e olhemos para um aspecto da história da humanidade ou simplesmente do nosso país: o tráfico, nas suas diversas modalidades, está enraizado nas sociedades e nos impõe sua presença nas relações comerciais e sociais e numa forma de enxergar o outro e a nós mesmos. Presente em diversos momentos da história do Brasil, o tráfico e suas seqüelas ficarão marcados para sempre em nosso tecido social: tráfico de escravos, de mulheres, de crianças, de órgãos, de influência, de prostituição, de animais silvestres, de negócios indecorosos, de vantagens por favores políticos ilegais, enfim... as modalidades são diversas.

Desta vez , o tráfico que nos chama a atenção não é o tráfico das drogas que são vendidas por jovens miseráveis nos morros e favelas de todo o país. Falamos na droga que nos é oferecida diariamente pela programação da tv aberta comercial, em doses maciças de toda espécie de detritos visuais e auditivos: uma droga que corrompe o sentimento humanitário e a noção de cidadania de crianças e adolescentes.

O tráfico de drogas televisivas é o repasse ao telespectador do montante de entulho produzido e embalado em luzes pirotécnicas, sem sentido algum a não ser o flagelo maior: a disseminação da ignorância e a preservação da desigualdade.

A droga que eles distribuem é o conjunto formado pelo monte de coisas inúteis e nocivas à educação e à cidadania.

Uma droga poderosa, que corrompe, cujo agente destruidor é o desprezo à própria vida humana: os exemplos mais caros são os diversos assassinatos cometidos por crianças e adolescentes, baseados em filmes, e o crescimento do abuso sexual contra crianças e adolescentes.

A oferta de entorpecentes da tv aberta comercial se refere a droga da agressividade, da sexualização precoce de crianças e adolescentes, da banalização do sexo entre adultos, da manipulação e desrespeito à crianças e idosos. Drogas tão letais quanto aquelas vendidas pelos traficantes condenados à ilegalidade. Porém, travestida de cenas agressão entre familiares, com doses de alto poder de concentração e assimilação.

Diferente dos jovens excluídos, estes outros que traficam droga através das concessões de tv que obtiveram das mais variadas formas, entram e saem da nossa casa de maneira imperceptível, eles vêem pelo sinal das antenas de tv e vivem em suntuosas mansões, longe das valas onde reinam os seus programas repletos de entulho de toda ordem, ou seja, o entretenimento que é despejado na sociedade com conteúdo contaminado.

Tal qual os outros traficantes, eles estão em toda parte, ocupam cada esquina do Brasil, onde quer que haja gente, o televisor distribuidor de drogas está sempre ali, noite e dia, oferecendo e passando adiante suas cargas: a droga do sexo como conceito, da violência como tema, dos programas que não respeitam nada nem ninguém, das pegadinhas e todas as outras mazelas televisivas que surgem a cada dia.

Concluímos lembrando que a educação não está presente somente na programação eminentemente educativa. Construtivos ou não, todos os programas exibidos pelas tvs, abertas e fechadas, são capazes de educar, quer dizer, levar conhecimentos ao telespectador. Dizer não à droga televisiva é, pois, produzir uma televisão diferente, engajada na educação e na preservação da cidadania.

 

WAGNER BEZERRA E HELOISA DIAS

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