Esta
categoria é a de professor das universidades públicas.
Subliminarmente este professor fica caracterizado como um
"privilegiado" entre "privilegiados",
pois seu salário médio é maior do que
o da maioria de outras categorias do funcionalismo. Erguem-se
bandeiras, em tom de acusação, o que na verdade
diminui o seu poder de argumento, ainda que sejam justas:
é impensável que professores se aposentem
na casa dos cinqüenta anos, quando estão no
auge de sua capacidade intelectual. Não, não
é impensável, posto que têm esse direito.
Mas a verdade do argumento é que é indesejável
que isso aconteça. Ora, bastava que os salários
dos professores universitários não fossem
aviltados. Se fossem decentes e compensadores, não
seria necessário recorrer à aposentadoria
como um meio de se aumentar a renda do professor. Explico-me:
a maioria dos professores que se aposentam o fazem para
mudar a sua situação funcional.
Não
param de trabalhar, nem mesmo, muitas vezes, de dar aulas
e orientações nas suas universidades de origem,
sobretudo na pós-graduação, e sem receber
adicional. Essa maioria tem, na verdade um contrato com
a universidade que exige a chamada dedicação
exclusiva, ou seja, o professor não pode ter contrato
empregatício com nenhuma outra instituição
e tem mesmo limitada a possibilidade de prestação
de serviço ocasional que faça, através
de convênios, assessorias etc. Aposentar-se, portanto,
é um meio de se desfazer de alguns encargos, sobretudo
os administrativos, que ao contrário do que se pensa
são muito pesados na universidade, e de se capacitar,
em termos de tempo e em termos funcionais, para aumentar
a renda. Uma das razões de fundo das aposentadorias
ditas "precoces" está, portanto, no aviltamento
salarial das universidades públicas.
Em comparação
com o salário de outros trabalhadores, o salário
de um professor pode parecer alto; mas não o é.
A maioria dos professores das universidades públicas
que são as mais capacitadas no Brasil, junto
com o grupo das confessionais e uma ou outra instituição
privada de outro tipo ganharia mais se trabalhasse
na empresa privada. Isto hoje em dia não é
verdade apenas para áreas tecnológicas ou
de saúde; um profissional, por exemplo, da área
de Letras que se capacite para trabalhar em publicidade
pode valer muito; ou pode ganhar bem mais se quiser, ao
invés de mourejar numa universidade pública,
dedicar seus anos de experiência para montar uma pós-graduação
ou uma graduação numa faculdade particular.
Mas até agora a maioria ou pelo menos um grande número
de professores não deseja fazer isso. Por quê?
Uma das razões é o fato de que a aposentadoria
com vencimentos integrais, para o fim da carreira, é
um atrativo.
Ao contrário
do que se pode pensar, essa aposentadoria integral não
é um prêmio, não é um privilégio,
nem mesmo é um seguro para a velhice: é na
verdade uma espécie de poupança construída
(pois o salário do professor também é
descontado para a contribuição previdenciária)
e é um estímulo poderoso para que o professor
mantenha, do começo ao fim, a sua dedicação
exclusiva à universidade. Sem ela, não me
surpreenderá que em fim de carreira professores conceituados
troquem a dedicação exclusiva por formas mais
brandas de contrato (dependendo do teto fixado) para aumentar
o pecúlio através da dedicação
a um outro vínculo mais compensador.
Nos
últimos dez anos acentuaram-se mudanças profundas
no perfil do professor. Existe uma tendência justa
de se exigir cada vez mais uma melhor e mais completa formação
para o ingresso na carreira universitária. Cada vez
mais, para se tornar professor numa universidade pública,
é necessário ter o doutorado concluído.
Isto fez com que a média de idade dos professores
universitários venha aumentando, com o ingresso efetivo
se dando cada vez mais tarde. Este deveria ser um efeito
benéfico; mas aliado ao aviltamento salarial, que
torna a carreira pouco atrativa, o efeito real vem sendo
a desvinculação subjetiva do professor em
relação à instituição
em que trabalha. Explico melhor: as gerações
de professores formados anteriormente "vestiam a camiseta"
da sua universidade; hoje isto vem paulatinamente sendo
desestimulado, e o trabalho de professor vem se tornando
apenas "mais um emprego como outro qualquer".
O professor
comparece, dá suas aulas, faz suas pesquisas, orienta,
administra, lê e comparece a congressos para se atualizar,
lê teses, participa de bancas, faz projetos de pesquisa
e extensão, faz relatórios, é avaliado
e avalia, em suma faz o seu trabalho com decência
e dedicação. Mas é só. A universidade,
para este perfil de professor que está sendo construído,
é uma infra-estrutura de trabalho e um banco de dados,
não é mais uma causa pessoal e coletiva.
É
claro que esta mudança vem sendo alimentada pela
transformação progressiva da universidade
pública brasileira num real banco de dados e infra-estrutura
de trabalho para projetos que são, cada vez mais,
gerados e têm suas regras de execução
definidas fora dela, nas agências de fomento, nas
imposições administrativas e nos modelos importados
do BID, Banco Mundial ou outras agências internacionais,
sobretudo os modelos norte-americanos.
A universidade
vem sendo progressivamente emasculada de seu papel na gestação
de projetos e quadros para pensar o desenvolvimento nacional;
em suma, ela vem sendo emasculada de seu papel de geradora
de pensamento, para tornar-se a gestora fragmentada de informações
disponíveis. Para este modelo universitário
funcional, o professor eficiente, mas descompromissado,
que não faz da universidade a fonte de seu ethos
individual e coletivo, é o professor perfeito. Ora,
pode-se dizer, e daí? A universidade pública
não atende apenas a uma elite? Não. Em primeiro
lugar porque de fato não atende apenas a uma elite.
Às vezes ouço argumentos do tipo: mas olhe
um estacionamento da USP e veja a quantidade de carros!
Ora, respondo, isso apenas atesta a ineficiência crônica
dos transportes públicos em São Paulo, não
o poder aquisitivo dos alunos que freqüentam a universidade.
Ademais
a idéia de que a universidade atende apenas uma elite
é uma decorrência da visão destorcida
que vê o processo educacional como uma pirâmide,
com a universidade no topo. Essa imagem não é
verdadeira. O que é verdadeiro é que o acesso
dos estudantes reproduz a desigualdade da pirâmide
social. Mas a universidade faz ou deveria fazer parte de
um sistema educacional que é ou deveria ser como
uma cebola, com camadas organizadas e com o ensino superior
no centro. A desfiguração da universidade
é algo que aumenta a desorganização
do já desorganizado sistema educacional brasileiro.
É
neste cenário que e reforma da Previdência,
e com este tom de caça às bruxas, está
interferindo e está tirando um dos últimos
suportes que sustentam o ethos do professor que pode considerar
a universidade como uma causa sua.