
Quando fui à Tailândia pela primeira vez, em 1999, aprendi
que nem todo mundo que mora numa tribo é índio. Também não
é branco. Na Tailândia, país localizado ao norte da Malásia,
encostado na Indonésia, Vietnam, Myanmar (antiga Burma),
e China, os moradores nas “Hill Tribes” – “Tribos das Colina”s
– não são índios. Eles são gente de várias procedências
na Ásia, exilados, fugitivos deste ou daquele sistema político
(principalmente da China), migrantes que chegaram à Tailândia
e por lá ficaram, constituindo-se nas várias minorias étnicas
do país. A história da presença dessas “Tribos das Colinas”
na Tailândia é complexa e fascinante. Sua situação política
dentro da Tailândia também é extremamente complicada, porque
eles não têm a cidadania tailandesa, e muitos começaram
a reclamar de terem que levar consigo sempre sua “carteira
de identidade” que identifica a tribo de origem, e indica
quando podem sair e onde podem ir.
A maior concentração destas tribos
é na região norte da Tailândia, especialmente na região
próxima à cidade de Chiang Mai, um centro turístico e comercial
localizado a um dia de viagem por trem de Bangkok. Também
há tribos perto da cidade de Chiang Rai, que fica ao Norte
de Chiang Mai. Há outras em cidadezinhas como Tha Tong,
Mae Sai, e Mae Hong Song.
Embora as tribos da Tailândia tenham
algumas características em comum — e a maior dela é que
todos eles foram, em algum tempo, refugiados que encontraram
abrigo na Tailândia — elas são todas diferentes em tipo
físico, língua e cultura.
Um dos grupos mais importantes é o
dos Hmong, que vieram da China. Os membros deste grupo cultivam
a papoula. Sim, aquela mesma que produz a heroína. Os Hmong
usam uma parte da flor para suas cerimônias religiosas,
e o governo da Tailândia lhes deu permissão especial para
cultivar esta planta. Mas se algum membro da tribo é encontrado
for a da comunidade com a papoula, é preso imediatamente,
e a comunidade inteira sofre conseqüências. As pessoas Hmong
com quem conversei não queriam discutir o assunto, mas pelo
que tudo indica eles só produzem mesmo para suas cerimônias.
Outros grupos, como os Lanna, Akha,
Padaung, trabalham com prata e outros materiais para produzir
não somente suas próprias roupas e ornamentos, mas também
para vendê-los em feiras nas cidadezinhas, ou mesmo nas
próprias aldeias, que têm partes dedicadas exclusivamente
ao comércio. Alguns membros da família real, especialmente
a mãe da rainha (que morreu há alguns anos), tem um carinho
especial por eles, e desenvolvem projetos especiais para
mantê-los empregados, participando da sociedade. Cada um
destes grupos merece uma apresentação especial, mas desta
vez o grupo em que quero concentrar-me é a nação Karen.
De acordo com a literatura sobre as
Tribos da Tailândia, a maioria dos grupos Karen vive nas
colinas do leste de Burma. Não se sabe há quanto tempo eles
moram nesta região, mas como as línguas Karen parecem estar
relacionadas com a língua tibetana-burmesa, é possível que
eles tenham vindo do norte da Ásia há muito tempo. A presença
dos Karen na Tailândia data somente do século XVIII, quando
o príncipe Kwaila mandou expedições para trazê-los à região
de Chiang Mai, Mae Hong Son, e Lamphun. Destes lugares,
eles se espalharam a outras regiões da Tailândia.
Na nação Karen há bastante diversidade,
tanto nas vestimentas como nos costumes tradicionais. O
grupo que mais me fascinou durante minha viagem foi o grupo
conhecido como “Long Neck Karen,” ou “Karen do Pescoço Comprido,”
que vive em Mae Hong Sorn. Poucos grupos no mundo exemplificam
o fato de que a beleza não é um conceito universal.
Neste grupo, quando a menina atinge
os cinco anos de idade, a mãe, juntamente com outras mulheres
da comunidade, colocam argolas de bronze em volta do pescoço
da garota. À medida que a menina cresce, mais argolas são
colocadas. O resultado final seria, para nossos padrões
de beleza, no mínimo bizarro. Quando estas mulheres atingem
a idade adulta, parecem ter o pescoço extremamente comprido,
e por isso em algumas informações turísticas do país elas
são chamadas “mulheres girafa.”
Durante minha visita, tive a oportunidade
de assistir um documentário sobre a estrutura óssea das
mulheres Karen. Elas teriam realmente o pescoço alongado?
Será que os ossos que sustentam a cabeça teriam ficado maiores?
Teria algum tecido esponjoso se formado entre as vértebras
devido ao espaço aberto pelo uso das argolas? De acordo
com exames de raios X mostrados no documentário, o que as
argolas fazem é deformar a clavícula, e fazer com que o
pescoço das mulheres pareça mais comprido, quando na realidade,
é o seu ombro que é pressionado para baixo.
Então, é claro, o que estas mulheres
têm que sofrer é a lenta deformação de seu corpo para atingir
um ideal de beleza que só têm validade dentro do grupo delas.
Ouvi alguém aí suspirar e dizer isto é um absurdo?
Mas, um momento, senhoras e senhores.
Antes que comecemos a descartar os costumes dos Karen como
uma barbaridade contra as mulheres, basta dar uma olhada
rápida nos costumes das mulheres ocidentais. Podemos mencionar,
por exemplo, a tortura diária de andar com sapatos de saltos
altos, depilar as sobrancelhas, depilar as pernas e axilas
com ceras dos mais variados tipos (todos dolorosos), produtos
químicos para esticar, enrolar, alourar ou escurecer o cabelo,
horas e mais horas na academia tentando aumentar isso, diminuir
aquilo, sem mencionar as operações plásticas para mudar
várias partes do corpo para fazê-las conforme um ideal de
beleza muitas vezes completamente alheio ao nosso tipo físico.
E dá-lhe silicone, e botox, e outras substâncias que estão
inventando dia a dia. E não podemos esquecer de outras coisas
a que as mulheres se sujeitam (ou têm que sujeitar-se) em
várias outras culturas não ocidentais, como a mutilação
genital em alguns lugares na África, ou o antigo costume
chinês de amarrar os pezinhos das meninas para que ficassem
pequenos, “pés de lírio.”
Desta rápida discussão, acho que podemos
chegar a algumas conclusões. Uma delas: quer aqui como ali
ou acolá, a beleza é um conceito puramente cultural, portanto
mutável, e às vezes, cruel, e doloroso. Uma outra: as mulheres
sempre acabam tendo o conceito de beleza da sua cultura
escrito nos seus corpos. Talvez, para os Karen, a rebolante
garota de Ipanema (vinda de qualquer praia, bairro, estado,etc),
seria considerada a pata feia da tribo, com seu pescocinho
sem definição alguma. Acho que uma outra conclusão que se
pode tirar é que especialmente para a mulher, admitir o
próprio corpo do jeito que ele é requer uma tonelada de
segurança, auto-confiança, força interior que vai muito
além da necessidade de conformar-se à opinião dos outros.
As bonitas que me perdoem, mas...