As
idéias contam. A
nova direita americana e a política externa de George W.
Bush
A
esperada invasão americana ao Iraque efetivamente se processou
e o regime de Saddan Hussein já pertence ao passado. Os problemas
derivados de uma ocupação americana na região começam a se
manifestar e os efeitos do unilateralismo americano no sistema
internacional ainda estão latentes. No entanto, não resta
dúvida que uma página foi virada na história recente do Oriente
Médio.
Algumas
questões ainda permanecem obscuras. Onde está Hussein e por
que, aparentemente, ninguém está interessado na sua sorte?
Terá existido algum tipo de acordo da cúpula iraquiana com
Washington? A França
vai se reconciliar com os Estados Unidos? Enfim, várias perguntas
às quais só o tempo dará a resposta.
Curiosamente,
porém, a discussão das causas da invasão americana ainda é
de extrema relevância. Longe de
ser algo superado pelos fatos, entender porque os Estados
Unidos resolveram conquistar o Iraque significa compreender
um padrão de pensamento e prática política que ainda é dominante
na capital do Império e que,
portanto, pode determinar os rumos dos acontecimentos internacionais
no mínimo pelos próximos dois anos.
Razão, pois, para retornar ao tema.
Meses
atrás, nesse mesmo espaço (cf “George
W. Bush e Saddan Hussein: quando sinto falta de trabalhar
com o passado” in Espaço Acadêmico, n. 17, 10/10/2002.),
debati as possíveis causas para a então certa invasão americana
do Iraque. Fica evidente, então, a minha dúvida sobre
os motivos que explicariam a obsessão da administração Bush
pelo Iraque. Não cheguei a nenhuma conclusão definitiva e
esta ainda me foge. No entanto, continuo convencido que os americanos não estavam
interessados em libertar o povo iraquiano de uma ditadura
cruel e nem preocupados realmente com uma ameaça terrorista
oriunda do país ou com a paz no Oriente Médio. Do mesmo modo,
continuo acreditando que os problemas petrolíferos,
de legitimação interna
do presidente Bush e de reorganização da geopolítica regional
são fatores importantes e a serem considerados.
No
entanto, esses meses de exposição ao tema e
de reflexão sobre o mesmo tem me convencido cada vez
mais de que há uma outra questão aqui, articulada com as anteriores,
já mencionadas, mas de importância fundamental para entender
a atual política republicana e o caso do Iraque:
o pensamento da nova direita que comanda agora o sistema
de poder americano. Já havia abordado alguma coisa a respeito
dessa nova direita e suas influências na política externa
americana em artigos anteriores, mas os recentes acontecimentos
me fazem voltar obrigatoriamente ao tema.
Resumindo
grosseiramente um sem número de nuances e contradições, poderíamos
dizer que os democratas, nos Estados Unidos,
tem tradições, em termos de política externa, diferentes
das dos republicanos. Os primeiros normalmente defendem a
hegemonia americana no mundo dentro de organizações e regras
internacionais e preferem
usar o poder militar apenas quando necessário. Na visão dos
democratas, há algum espaço para intervenções humanitárias
ou idealismo (pois a América não poderia se furtar, em alguns
momentos, a fazer o que se considera correto) e uma predominância
do uso do soft power. Nessa visão, os americanos seriam mais
os guardas de trânsito do que os policiais do mundo.
Já
os republicanos seriam normalmente mais isolacionistas, avessos
à cooperação internacional e ao envolvimento americano nos
problemas dos outros países. Para tal envolvimento ser aceitável,
a segurança ou os interesses americanos deveriam estar
concretamente ameaçados e apenas nesse caso tropas e recursos
dos EUA deveriam ser empenhados. Isolacionismo e realismo estariam mais ou menos
conectados, ainda que cheios de contradições entre si, dentro
do pensamento republicano tradicional.
O
que é irônico é que quem está no poder nos EUA hoje são republicanos
de outra roupagem, que diferem dos tradicionais. É uma direita
grandemente baseada no fundamentalismo cristão e que não apenas
quer eliminar dos Estados Unidos tudo o que ela considera
nefasto (como o aborto, o secularismo, etc.), como acredita
que tem o dever de mudar o mundo à sua imagem. John Ashcroft
é seu representante mor no governo americano atualmente.
Ao
lado dessa direita cristã, estão intelectuais conservadores
laicos, incluindo muitos de origem judaica, como Donald Rumsfeld,
Paul Wolfowitz, Condoleeza Rice, Richard Perle, William Kristol,
Robert Kaplan e outros. Originários de
meios intelectuais conservadores,
foram influenciados por intelectuais como Leo Strauss
e Albert Wohlstetter. Agrupados em revistas e jornais como “The New
Republic”, “The Weekly
Standard”, “Commnentary” e em em “think tanks” como o Hudson Institute, o Heritage Fundation
ou o American Enterprise Institute, eles acabaram não apenas
por ocupar, a partir dos anos 70,
os espaços da esquerda em alguns meios intelectuais
chave, como por roubar dela as bandeiras de intervenções no
exterior sem hesitação e de fazê-lo não apenas por interesses
concretos, mas também por idéias e ideais.
Eles
divergem profundamente entre si em vários assuntos, sem dúvida.
Alguns, como Wolfowitz, seriam, para usar os termos dos cientistas
políticos franceses Pierre Hassner e Justin Vassé (cujo novo
livro – Washington et le monde: Dilemmes d’une superpuissance, Paris, Ceri/Autrement, 2003 – traballha justamente
com a ideologia dos atuais senhores da América), os “imperialistas
da democracia”, querendo usar o poder americano para melhorar
o mundo, americanizando-o, enquanto outros, como Dick Cheney
e Rumsfeld, seriam os “nacionalistas arrogantes”, preocupados apenas
com a manutenção do predomínio americano no planeta. Eles
também não trabalham no comprimento de onda exato da direita
cristã (e é espantoso que o governo Bush consiga mantê-los
juntos) e as contradições
entre todos esses grupos, a serem mediadas pelo pragmatismo
e pelo presidente, não são raros.
Eles
estão reunidos, contudo, por alguns pontos comuns. O desejo
de manter o poder americano como senhor do mundo, ignorando
completamente, na melhor tradição unilateralista republicana
e levando-a ao nível da arrogância, o resto do planeta, é
uma delas. O uso irrestrito do poder militar, o desrespeito
pelos direitos civis nos próprios Estados Unidos e o direito
da força são outros. O que mais os distingue dos republicanos
e dos conservadores tradicionais, contudo,
é a sua disposição, como já indicado, em intervir e
agir no mundo em defesa do que consideram correto, num verdadeiro
neo-imperialismo.
Essas
pessoas já tinham alguns cargos na administração Reagan e
na de Bush pai. Com Bush filho, contudo, eles atingiram um
grau de controle da máquina do Estado inimaginável anos atrás.
O fato de George W. Bush ser adepto, em alguma medida, desses
ideais do novo cristianismo e mais influenciável como pessoa
com certeza ajuda a explicar essa nova proeminência. Mas o
início da administração Bush parecia ser uma mistura de ideais
republicanos clássicos, como unilateralismo e traços de isolacionismo,
com um ou outro tom messiânico oriundo da direita republicana.
O 11/9, contudo, eliminou muitas das resistências que esse grupo
estava encontrando na máquina estatal americana no início
do governo Bush. Os
isolacionistas republicanos e os liberais da Costa Leste,
por exemplo, parecem ter desaparecido e, dentro da histeria
habilmente manipulada pela mídia pró Bush, a nova direita
reina absoluta.
Essa
histeria, aliás, assim como boa parte do pensamento dessa
nova direita, é bem típica da cultura americana.
Formada por imigrantes que tendiam a ver na América
a nova terra prometida ou o bem absoluto, era inevitável que,
dentro dela, qualquer inimigo tenda a ser não alguém a combater
simplesmente, mas o mal absoluto. Isso já tinha acontecido
com os comunistas nos anos 50 e parece estar se repetindo
agora. Dentro desse novo contexto, a nova direita está praticamente livre para fazer o que quiser. Não duvido, nesse sentido, que eles
agradeçam todo santo dia a existência de Bin Laden, pois sua
ação permitiu que suas idéias e táticas fossem colocadas em
prática quase que sem freios.
Nesse
contexto, a invasão do Iraque seria um projeto piloto desses
homens para a consolidação de um novo Império americano. Prevista
e desejada desde o início dos anos 90, ela serviria para demonstrar
como os Estados Unidos podem agir como quiserem no mundo e
que a imposição dos valores americanos no exterior é possível
e desejável para garantir a segurança dos EUA e a criação
dos que eles consideram um mundo melhor, permeado pelos valores
da América. Sendo bem sucedida e continuando os republicanos
no poder, podemos, talvez, esperar outras e já se fala da
Síria e do Irã.
Importante
ressaltar novamente que a posição expressa nesse artigo não
implica a afirmação de que a única motivação da guerra foi
a influência do neo-conservadorismo no governo Bush.
Outros interesses estão mais do que claramente expressos (como
os das empresas petrolíferas em garantir uma fonte segura
de petróleo; do lobby judaico em eliminar riscos à segurança
de Israel; dos marketeiros políticos
em manter o clima de guerra para facilitar a reeleição
de George W. Bush, etc) e isso deve ficar claro. No entanto,
parece evidente, agora, que o elemento que deu impulso e aglutinação
a todos esses elementos foi a ação dos neo-conservadores,
o que é notável.
De
fato, se pesquisas
futuras comprovarem que foram homens e idéias que, centralmente,
levaram os americanos a uma guerra, teremos que
repensar o papel desses elementos na formação da política
exterior contemporânea. Mais ainda, teremos que prestar mais
atenção às revistas e encontros onde a cúpula intelectual
de Washington se reúne, pois é ali, e não nas reuniões de
executivos ou nas sessões do Congresso dos EUA, que podem
estar se definindo as manchetes de jornais dos próximos anos.