Por JOÃO FÁBIO BERTONHA
Doutor em História e Professor da Universidade Estadual de Maringá


 

 

As idéias contam. A nova direita americana e a política externa de George W. Bush

 

A esperada invasão americana ao Iraque efetivamente se processou e o regime de Saddan Hussein já pertence ao passado. Os problemas derivados de uma ocupação americana na região começam a se manifestar e os efeitos do unilateralismo americano no sistema internacional ainda estão latentes. No entanto, não resta dúvida que uma página foi virada na história recente do Oriente Médio.

Algumas questões ainda permanecem obscuras. Onde está Hussein e por que, aparentemente, ninguém está interessado na sua sorte? Terá existido algum tipo de acordo da cúpula iraquiana com Washington?  A França vai se reconciliar com os Estados Unidos? Enfim, várias perguntas às quais só o tempo dará a resposta.

Curiosamente, porém, a discussão das causas da invasão americana ainda é de extrema relevância. Longe de  ser algo superado pelos fatos, entender porque os Estados Unidos resolveram conquistar o Iraque significa compreender um padrão de pensamento e prática política que ainda é dominante na capital do Império e  que, portanto, pode determinar os rumos dos acontecimentos internacionais no mínimo pelos próximos dois anos.  Razão, pois, para retornar ao tema.

Meses atrás, nesse mesmo espaço (cf “George W. Bush e Saddan Hussein: quando sinto falta de trabalhar com o passado” in Espaço Acadêmico, n. 17, 10/10/2002.), debati as possíveis causas para a então certa invasão americana do Iraque.  Fica evidente, então, a minha dúvida sobre os motivos que explicariam a obsessão da administração Bush pelo Iraque. Não cheguei a nenhuma conclusão definitiva e esta ainda me foge. No entanto,  continuo convencido que os americanos não estavam interessados em libertar o povo iraquiano de uma ditadura cruel e nem preocupados realmente com uma ameaça terrorista oriunda do país ou com a paz no Oriente Médio. Do mesmo modo,  continuo acreditando que os problemas petrolíferos, de  legitimação interna do presidente Bush e de reorganização da geopolítica regional são fatores importantes e a serem considerados.

No entanto, esses meses de exposição ao tema e  de reflexão sobre o mesmo tem me convencido cada vez mais de que há uma outra questão aqui, articulada com as anteriores, já mencionadas, mas de importância fundamental para entender a atual política republicana e o caso do Iraque:  o pensamento da nova direita que comanda agora o sistema de poder americano. Já havia abordado alguma coisa a respeito dessa nova direita e suas influências na política externa americana em artigos anteriores, mas os recentes acontecimentos me fazem voltar obrigatoriamente ao tema.

Resumindo grosseiramente um sem número de nuances e contradições, poderíamos dizer que os democratas, nos Estados Unidos,  tem tradições, em termos de política externa, diferentes das dos republicanos. Os primeiros normalmente defendem a hegemonia americana no mundo dentro de organizações e regras internacionais e  preferem usar o poder militar apenas quando necessário. Na visão dos democratas, há algum espaço para intervenções humanitárias ou idealismo (pois a América não poderia se furtar, em alguns momentos, a fazer o que se considera correto) e uma predominância do uso do soft power. Nessa visão, os americanos seriam mais os guardas de trânsito do que os policiais do mundo.

Já os republicanos seriam normalmente mais isolacionistas, avessos à cooperação internacional e ao envolvimento americano nos problemas dos outros países. Para tal envolvimento ser aceitável,  a segurança ou os interesses americanos deveriam estar concretamente ameaçados e apenas nesse caso tropas e recursos dos EUA deveriam ser empenhados.  Isolacionismo e realismo estariam mais ou menos conectados, ainda que cheios de contradições entre si, dentro do pensamento republicano tradicional.

O que é irônico é que quem está no poder nos EUA hoje são republicanos de outra roupagem, que diferem dos tradicionais. É uma direita grandemente baseada no fundamentalismo cristão e que não apenas quer eliminar dos Estados Unidos tudo o que ela considera nefasto (como o aborto, o secularismo, etc.), como acredita que tem o dever de mudar o mundo à sua imagem. John Ashcroft é seu representante mor no governo americano atualmente.

Ao lado dessa direita cristã, estão intelectuais conservadores laicos, incluindo muitos de origem judaica, como Donald Rumsfeld, Paul Wolfowitz, Condoleeza Rice, Richard Perle, William Kristol, Robert Kaplan  e outros.  Originários de meios intelectuais conservadores,  foram influenciados por intelectuais como Leo Strauss e  Albert Wohlstetter. Agrupados em revistas e jornais como “The New Republic”, “The  Weekly Standard”, “Commnentary” e em em “think tanks” como o Hudson  Institute, o  Heritage Fundation ou o American Enterprise Institute, eles acabaram não apenas por ocupar, a partir dos anos 70,  os espaços da esquerda em alguns meios intelectuais chave, como por roubar dela as bandeiras de intervenções no exterior sem hesitação e de fazê-lo não apenas por interesses concretos, mas também por idéias e ideais. 

Eles divergem profundamente entre si em vários assuntos, sem dúvida. Alguns, como Wolfowitz, seriam, para usar os termos dos cientistas políticos franceses Pierre Hassner e Justin Vassé (cujo novo livro – Washington et le monde: Dilemmes d’une superpuissance, Paris,  Ceri/Autrement, 2003 – traballha justamente com a ideologia dos atuais senhores da América), os “imperialistas da democracia”, querendo usar o poder americano para melhorar o mundo, americanizando-o, enquanto outros, como Dick Cheney e Rumsfeld, seriam os  “nacionalistas arrogantes”, preocupados apenas com a manutenção do predomínio americano no planeta. Eles também não trabalham no comprimento de onda exato da direita cristã (e é espantoso que o governo Bush consiga mantê-los juntos)  e as contradições entre todos esses grupos, a serem mediadas pelo pragmatismo e pelo presidente, não são raros. 

Eles estão reunidos, contudo, por alguns pontos comuns. O desejo de manter o poder americano como senhor do mundo, ignorando completamente, na melhor tradição unilateralista republicana e levando-a ao nível da arrogância, o resto do planeta, é uma delas. O uso irrestrito do poder militar, o desrespeito pelos direitos civis nos próprios Estados Unidos e o direito da força são outros. O que mais os distingue dos republicanos e dos conservadores tradicionais, contudo,  é a sua disposição, como já indicado, em intervir e agir no mundo em defesa do que consideram correto, num verdadeiro neo-imperialismo.

Essas pessoas já tinham alguns cargos na administração Reagan e na de Bush pai. Com Bush filho, contudo, eles atingiram um grau de controle da máquina do Estado inimaginável anos atrás. O fato de George W. Bush ser adepto, em alguma medida, desses ideais do novo cristianismo e mais influenciável como pessoa com certeza ajuda a explicar essa nova proeminência. Mas o início da administração Bush parecia ser uma mistura de ideais republicanos clássicos, como unilateralismo e traços de isolacionismo, com um ou outro tom messiânico oriundo da direita republicana.  O 11/9, contudo,  eliminou muitas das resistências que esse grupo estava encontrando na máquina estatal americana no início do governo Bush.  Os isolacionistas republicanos e os liberais da Costa Leste, por exemplo, parecem ter desaparecido e, dentro da histeria habilmente manipulada pela mídia pró Bush, a nova direita reina absoluta. 

Essa histeria, aliás, assim como boa parte do pensamento dessa nova direita, é bem típica da cultura americana.  Formada por imigrantes que tendiam a ver na América a nova terra prometida ou o bem absoluto, era inevitável que, dentro dela, qualquer inimigo tenda a ser não alguém a combater simplesmente, mas o mal absoluto. Isso já tinha acontecido com os comunistas nos anos 50 e parece estar se repetindo agora. Dentro desse novo contexto, a nova direita está praticamente  livre para fazer o que quiser. Não duvido, nesse sentido, que eles agradeçam todo santo dia a existência de Bin Laden, pois sua ação permitiu que suas idéias e táticas fossem colocadas em prática quase que sem freios.

Nesse contexto, a invasão do Iraque seria um projeto piloto desses homens para a consolidação de um novo Império americano. Prevista e desejada desde o início dos anos 90, ela serviria para demonstrar como os Estados Unidos podem agir como quiserem no mundo e que a imposição dos valores americanos no exterior é possível e desejável para garantir a segurança dos EUA e a criação dos que eles consideram um mundo melhor, permeado pelos valores da América. Sendo bem sucedida e continuando os republicanos no poder, podemos, talvez, esperar outras e já se fala da Síria e do Irã.

Importante ressaltar novamente que a posição expressa nesse artigo não implica a afirmação de que a única motivação da guerra foi  a influência do neo-conservadorismo no governo Bush. Outros interesses estão mais do que claramente expressos (como os das empresas petrolíferas em garantir uma fonte segura de petróleo; do lobby judaico em eliminar riscos à segurança de Israel; dos marketeiros políticos  em manter o clima de guerra para facilitar a reeleição de George W. Bush, etc) e isso deve ficar claro. No entanto, parece evidente, agora, que o elemento que deu impulso e aglutinação a todos esses elementos foi a ação dos neo-conservadores, o que é notável.

De fato,  se pesquisas futuras comprovarem que foram homens e idéias que, centralmente, levaram os americanos a uma guerra, teremos que   repensar o papel desses elementos na formação da política exterior contemporânea. Mais ainda, teremos que prestar mais atenção às revistas e encontros onde a cúpula intelectual de Washington se reúne, pois é ali, e não nas reuniões de executivos ou nas sessões do Congresso dos EUA, que podem estar se definindo as manchetes de jornais dos próximos anos.

 

JOÃO FÁBIO BERTONHA

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