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Por ROSÂNGELA ROSA PRAXEDES
Bacharel
em Ciências Sociais pela USP e coordenadora do Curso Preparatório
Milton Santos da Associação União e Consciência Negra de Maringá
(PR)
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"As
elites de cor"
Um
clássico dos estudos raciais no Brasil é a obra de Thales de Azevedo, As
Elites de Cor – um estudo de ascensão social. O livro,
resultado de uma pesquisa realizada na cidade de Salvador,
Bahia, no início dos anos cinqüenta, analisa a mobilidade
vertical de negros,
os canais de ascensão social, resgatados através de inquéritos
e observações diretas em escolas, universidades, clubes
e análise de fotos da Polícia Civil. Nenhum pesquisador
que esteja fazendo uma pesquisa séria sobre a temática racial
pode deixar de ler esta obra de referência, mesmo discordando
de suas conclusões finais. O livro de Thales de Azevedo
nos apresenta depoimentos e dados que possibilitam algumas
conclusões e inevitáveis comparações com a situação atual
dos negros em nosso país.
A obra em questão é resultado de algumas pesquisas financiadas
pela UNESCO, inseridas em um contexto em que os pesquisadores
estavam interessados principalmente em entender as
diferenças na convivência multirracial em diversos
países, e tomavam como pressuposto que o Brasil da época
era um modelo de democracia racial, e que a realidade brasileira,
ou melhor baiana, era a demonstração de uma solução praticável para a convivência de diferentes grupos raciais.
A observação da existência de discriminação racial e
da existência de desvantagens no fato de um indivíduo ser
negro na sociedade baiana não inibiu o comentário segundo
o qual “...parece que o ideal brasileiro de democracia racial
em nenhuma parte se realiza como ali”, como afirma Charles
Wagley no prefácio do livro. Como Wagley está se referindo
à cidade de Salvador, é de se perguntar se o ideal de democracia
racial seria então uma pequena quantidade de brancos estabelecidos
em ocupações valorizadas socialmente e uma massa de negros
miseráveis servindo
a estes brancos, todos vivendo em plena harmonia.
Se as análises de Azevedo e de outros pesquisadores
da mesma época consideravam o Brasil como um modelo de democracia
racial, podemos nos perguntar porque permanecem ainda hoje
uma diferença tão gritante na qualidade de vida de negros
e brancos no Brasil. Como nos indica uma pesquisa do economista
Fernando Paixão,
“um abismo de 55 países separa o Brasil negro do branco:
no ranking de qualidade de vida medido pelo IDH (Índice
de Desenvolvimento Humano), o negro brasileiro fica em 101º
lugar, e o branco, em 46º lugar. Com isso os negros têm
qualidade de vida comparável à de países pobres como Vietnã
(101º lugar no ranking da ONU) e Argélia (100º lugar), onde
o desenvolvimento humano é considerado de médio para baixo.
Já os brancos têm qualidade de vida similar à de países
como a Croácia (46º lugar) e os Emirados Árabes (45º lugar),
de alto desenvolvimento.” (In: Jornal Folha de São Paulo
06/01/2002)
Pelo prefácio de Wagley a industrialização poderia vir
a ser um empecilho à inserção dos não-brancos, uma vez que
estes não teriam alcançado ainda os níveis educacionais
exigidos pela nova ordem econômica, mas como explicar que
passados tantos anos a população negra não atingiu ainda
os níveis educacionais dos brancos, já que não existiram
leis que os impedissem de estudar
ou de ascender profissionalmente? Provavelmente a
resposta está no racismo à brasileira.
Algumas pistas à questão acima podemos encontrar no
trabalho de Thales de Azevedo, que nos explica que alguns
entrevistados exteriorizavam suas convicções veladamente
em conversas, mas dificilmente em notas escritas. Em outras
palavras, o costume de não assumir em público o racismo
já é antigo na “democracia racial brasileira”.
Outra pista pode estar na influência das teorias biopsicológicas
que concebiam que os negros eram um mal para a Bahia
devido a sua “inferioridade psíquica”:
“Um crítico literário bahiano, comentando as obras do
maior romancista brasileiro, Machado de Assis, assim formulou
tal concepção: “o de que o nosso mestiço ainda está carregado,
por efeito dos resíduos acumulados em sua alma pelo desenvolvimento
social, é de defeitos de temperamento, de psicologia e de
caráter, com reflexos evidentes sobre a vida mental. Se
o mulato brasileiro é intelectualmente capaz e às vezes
superior, ainda não é bom, não tem estabilidade ou equilíbrio
interior, fortaleza de caráter. É do ponto de vista moral
e psicológico que ele denota ainda uma grande inferioridade
que não pode deixar de refletir-se na harmonia social, dada
a influência que a vida brasileira dele recebe”. (AZEVEDO,
1955: 59)
Embora o fragmento acima nos pareça um discurso antigo
e em desuso, faz parte do imaginário social e surge em situações atuais em que os negros tentam ultrapassar
as barreiras de classe, como,
por exemplo, quando é discutida a proposta de cotas
para negros no ensino superior, é corrente em várias universidades
o comentário segundo o qual “a entrada de negros através
de cotas irá declinar
o nível do ensino”. Essa justificativa não considera que
as cotas deverão ser destinadas para alunos com o mínimo
exigido para entrada na universidade.
Ainda é interessante
perceber neste livro a reação de não-negros quando o negro busca ocupar um espaço diferente daquele destinado
a ele numa sociedade racista. O próprio Thales de Azevedo
parece querer colocar o negro no seu “devido lugar” ao comentar
que
“um aspecto importante do problema é que os pretos e
mulatos escuros do operariado urbano, à medida que adquirem
consciência de seus direitos civis e políticos, se mostram
menos inibidos em seu comportamento diante dos brancos e
não é sem ressentimento para muitos destes que ‘estes negros
ousados’ falam alto na rua, passam à sua frente e não lhes
cedem o lugar nos veículos coletivos, o que representa uma
forma de agressão aos que têm as características físicas
e sociais do grupo dominante.” (AZEVEDO, 1955: 68-69)
Quando o autor faz referência ao comércio como forma
de ascensão do negro o que chamou-lhe a atenção foi a maneira
como certas empresas estrangeiras tinham menos resistência
a empregar e mesmo possibilitavam o avanço de negros em
posições de responsabilidade na empresa. “Nos escritórios
das grandes firmas importadoras e exportadoras, constituídas
em parte de europeus como alemães, suissos, ingleses, as
pessoas escuras são admitidas e podem alcançar posições
de responsabilidade mas poucas vezes têm acesso ao quadro
dos proprietários.” (AZEVEDO,94:55). Esta inclinação ainda é atual uma vez que algumas empresas transnacionais
instaladas no Brasil adotam um sistema de cotas para negros
em território brasileiro.
Vários aspectos
são relevantes na preciosa pesquisa de Thales de Azevedo,
e apenas a leitura cuidadosa de seu trabalho pioneiro pode
contribuir para conhecermos melhor a história do nosso país
e quem sabe agirmos contra as desigualdades sociais que
ainda persistem. Para finalizar, uma afirmação feita por
este estudioso em 1955 ainda parece atual: “É importante
registrar que, até este momento, o principal canal de ascensão
social, através o qual grande número de pretos e mestiços
tem adquirido status elevado, é a educação” (AZEVEDO,
1955: 198), portanto, COTAS JÁ!
AZEVEDO, Thales. As elites de cor: um estudo de ascensão
social. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1955.
ROSÂNGELA
ROSA PRAXEDES
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