RESENHA

Desvendando os segredos do Texto

INGEDORE G. VILLAÇA KOCH

São Paulo: Cortez Editora, 2002. 168 pp.

Por CLEUSA MARIA ALVES DE MATOS
Mestranda em Lingüística Aplicada - Universidade Estadual de Maringá -UEM

 

Desvendando os segredos do Texto

 

Desvendar segredos compactua com a idéia de trilhar caminhos de embate entre aquele que guarda o poder – o segredo – e aquele que deseja descobri-lo. Ao texto reserva-se o privilégio de guardar o tesouro e ao leitor a habilidade de trabalhar estratégias para encontrar e valorizar a riqueza contida neste tesouro. A tarefa de desvendamento coube a Ingedore G. V. Koch, mestre e doutora em Ciências Humanas: Língua Portuguesa, pela PUC/SP, docente do Departamento de Lingüística da Unicamp, que tem contribuído nestes últimos anos com trabalhos direcionados aos estudos da linguagem com muita seriedade. Essa pesquisadora trabalha com a Lingüística Textual, que tem como objeto de investigação o texto, no qual convergem ações lingüísticas, cognitivas e sociais e que organizam um evento comunicativo. A autora aponta com  precisão de linguagem a importância que o leitor assume diante de um texto para instituir-se como sujeito e, como um artesão, construir prazerosamente um  sentido para seu trabalho de tessitura com as palavras.

Desvendando os segredos do texto, desde o prólogo, esclarece ao leitor que o texto é  um construto histórico e social complexo e multifacetado que oculta segredos que podem ser revelados ao interlocutor – leitor – quando este viabiliza as propostas para a construção de sentido das atividades que empreende. A obra divide-se em duas partes: na primeira  trata das questões relacionadas às concepções de língua, de sujeito, texto, sentido, contexto e dos gêneros discursivos, concepções essas que se mantêm entrelaçadas, tornando difícil conceituá-las isoladamente. Na segunda parte discorre sobre as questões específicas dos processos e estratégias de construção de sentido que o leitor pode viabilizar. Trata-se da referência, da referenciação, da progressão referencial, da anáfora indireta, da progressão textual e dos articuladores textuais.

Como ponto de partida, em Ajustando a lupa na primeira parte da obra, aponta as reflexões que se propõe a discutir, Koch tece um breve percurso, um background, situando o leitor com as considerações básicas que permeiam  na literatura sobre texto/discurso. Adota e trabalha com a concepção sociointeracional da linguagem, onde os sujeitos ativos interagem com ações lingüísticas, cognitivas e sociais, de maneira dialógica, com o texto, com o contexto e com a língua. Para a Lingüística, os textos, como  forma de cognição social,  permitem ao homem organizar o mundo, produzir, preservar e transmitir o saber.

Considerando a linguagem como uma atividade interativa e que conduz a concepção processual da construção do sentido, e que todo texto é constituído por uma proposta de múltiplos sentidos, pode-se afirmar que todo texto é um hipertexto. Para que o leitor possa construir um sentido, que não se dá de maneira linear e seqüencial,  é necessário realizar um constante movimento em variadas direções recorrendo a diversas fontes de informação, textuais e extratextuais. O hipertexto é uma forma de estruturação textual que permite ao leitor, ser um co-autor do texto, oferecendo-lhe a possibilidade de opção entre caminhos diversificados, de modo a permitir diferentes níveis de desenvolvimento e aprofundamento de um tema. Pensemos  no texto acadêmico, povoado de referências, citações e notas de rodapé, imagens que convoca o leitor a consultar outras leituras, inclusive suspender sua leitura para fazer anotações. Com relação ao hipertexto eletrônico, a diferença consiste apenas na forma  e na rapidez do acesso às informações que estão interconectadas – os hiperlinks -  que são os dispositivos agilizados pelos clicks-de-mouse. Como o hipertexto oferece uma multiplicidade de caminhos a seguir, compete ao leitor decidir  qual o fluxo de informações que serão incorporadas em sua trajetória de leitura.

Para apresentar as considerações sobre contexto, mediante variadas concepções de acordo com o momento histórico em que se situam os autores, Koch recorre aos estudos de Malinowski (1923), que se referia ao contexto como o intermediário entre a situação e o sistema lingüístico. Com o advento da pragmática, os estudos e a descrição das ações que os usuários realizam com a língua, em situação de interlocução através da linguagem, onde determinada cultura, cujas tradições, usos e costumes são valorizados, a concepção de contexto passou por algumas acomodações e o contexto cognitivo tornou-se reconhecido. Isto significa que, para que duas ou mais pessoas possam se entender, é preciso que seus contextos cognitivos estejam parcialmente assemelhados e, ao menos em parte, compartilhados, e ainda que, a cada momento de interação, esse contexto é alterado e ampliado, obrigando os parceiros a se ajustarem ao novo contexto instaurado. Desse modo, as abordagens cognitivas postulam que o contexto físico – o espaço físico, o espaço real com os objetos e as coisas – não afeta a linguagem diretamente, mas sim o conjunto de suposições trazidas para a interpretação de um enunciado de cada sujeito. No  entanto, deve-se considerar a distinção do contexto de uso entre a fala e a escrita. Na  fala há interação face-a-face, mas na escrita as informações devem ser estabelecidas por meio de estratégias de sinalização textual, que ocorrem por meio do processamento textual, isto é, o produtor do texto  apresenta algumas informações lacunares e pressupõe que o leitor através de seus conhecimentos e ou deduções estabeleça relações de comunicação e possa com o texto interagir. A noção de contexto, definida por koch, está relacionada com a estrutura da linguagem, da cultura e da organização social que tem implicações diretas na produção e na compreensão do discurso.

Um dos princípios básicos  da Ciência Cognitiva é tentar entender e esclarecer como o homem representa mentalmente o mundo que o cerca de uma maneira específica e que estruturas da mente possibilitam as atividades cognitivas. Concebendo que o cognitivo apresenta-se sob a forma de representações (conhecimentos estabilizados na memória e suas interpretações) e das formas de processamento das informações (processos voltados para a compreensão e a ação), compete distinguir dentro desse processo cognitivo o que é provisório e o que é permanente. Tem-se postulado que as informações podem ser retidas na memória por um curto termo (MCT) de capacidade limitada ou na memória por um longo termo (MLT), onde os conhecimentos podem ser representados de forma permanente. Para a leitura de um texto, as estratégias cognitivas são acionadas, isto é, ocorre o cálculo mental, e assumem a função de facilitar o processamento textual, quer em termos de produção quer em temos de compreensão. Para que haja compreensão entre os interlocutores é necessário que os aspectos estruturais e processuais  da cognição sejam organizados e ativados.

Koch  conduz o leitor à reflexão sobre as questões que envolvem o contato com os diversos textos da vida quotidiana, os gêneros do discurso. Esses utilizados entre as práticas sociais, como anúncios, avisos, artigos de jornais, receitas, guias turísticos, manuais de instruções etc. exercitam a capacidade humana de relacionar-se com os diferentes gêneros textuais determinados pelas características temáticas, composicionais e estilísticas. Observa-se claramente uma crítica sobre a maneira como a escola trabalha com a tipologia textual, pois há uma espécie de distanciamento das práticas sociais e o gênero passa atuar de forma artificializada, como objeto e ferramenta de trabalho, para o desenvolvimento da linguagem de forma didática visando objetivos precisos e definidos: o de ensino/aprendizagem descrito pela prática escolar  como as ocasiões de produção/recepção de textos estereotipadas por descrição, dissertação, narração, diálogo, resumos etc.

O segundo momento, intitulado Levantando a ponta do véu, centraliza o foco das discussões que Koch julga ser imprescindível para que o leitor possa descobrir e trabalhar as possíveis estratégias para compreender um texto. Postula a autora  que a referência é constituída como o resultado da operação que realizamos para designar, representar ou criar uma situação discursiva. São as operações efetuadas pelo sujeito que estrategicamente implicam a realização de escolhas significativas para interpretar e estabelecer alguma ligação com algum tipo de informação que se encontra na memória discursiva. A referenciação segue os princípios de ativação – que é o endereço cognitivo, a expressão lingüística que representa na memória o modelo de referente – e o princípio de reativação. Uma vez que uma informação  é recebida e depois ativada na memória passa a funcionar, desta forma, como inferência à informação já adquirida. O uso dos pronomes ou elipses, o uso de expressões nominais definidas ou indefinidas facilita a operação, ou seleção dentre as propriedades atribuíveis a um referente, que em dada situação discursiva é relevante viabilizar  para que o leitor  organize as informações e formule seus conceitos, evitando o desvio da interpretação proposta pelo texto. A progressão referencial permite a elaboração,  no texto, de um sentido indicando os pontos de vista, assinalando direções argumentativas, sinalizando dificuldades de acesso ao referente. Outro aspecto relevante está relacionado à anáfora indireta que desempenha um papel extremamente importante na construção da coerência, no processamento textual. Ela está intimamente ligada aos processos cognitivos que ativam as informações representadas na memória do leitor, funciona como âncoras  e baseia-se, conforme o texto, no conhecimento semântico, no conhecimento conceitual e no inferencial.

Na construção de um texto, a progressão textual (seqüenciação) diz respeito aos procedimentos lingüísticos, por meio dos quais se estabelecem, entre os seus segmentos,  diversos tipos de relações semânticas e de atividades formulativas que introduzem no texto recorrências que enfatizam  a continuidade  da interpretação. Dentre as relações que se estabelecem entre os segmentos textuais, destaca-se a progressão temática que envolve a articulação do tema-rema para  produzir no texto a organização desejada. A informação temática é normalmente dada e garante a continuidade de sentidos do texto recorrendo muitas vezes ao uso de itens lexicais pertencentes a um mesmo campo semântico, ou, em termos cognitivos, de elementos que integram um modelo mental. O rema constitui-se na informação nova  inserida no texto. Os articuladores textuais  ou operadores de discurso  são estabelecidos por meio de recursos lingüísticos associados aos marcadores  de conteúdo proposicional (relações espácio-temporais, de causalidade), aos enunciativos  e aos meta-enunciativos.

Ao final, Koch revisita as considerações do grupo de pesquisadores e lingüistas que trabalham com a Lingüística Textual na Europa e na América. Menciona obras que posicionam as perspectivas da disciplina atualmente e intensifica as razões pelas quais  participa desse grupo. Assim, a Lingüística Textual preocupando-se com o desenvolvimento das investigações na área cognitiva com as questões relativas ao processamento do texto em termos de produção e compreensão, às formas de representação do conhecimento na memória, à ativação de tais sistemas de conhecimento por ocasião do processamento, às estratégias sociocognitivas e às interacionais nele envolvidas e promove  ao interlocutor a possibilidade de descobrir e percorrer as trilhas do texto para desvelar os segredos do percurso ora trilhado.

O livro é uma obra que deve ser saudada com uma síntese dos trabalhos de Koch. Se por um  lado há uma condensação geral dos estudos da Lingüística Textual, por outro lado é uma retomada repetitiva de trabalhos que autora vem publicando ao longo de 30 anos de pesquisa acadêmica. Para quem acompanhou sua trajetória, nesta publicação não há nada de novo, mas, para o leitor que inaugura sua trilha pelos caminhos da Lingüística Textual, o livro é um bom guia.

CLEUSA MARIA ALVES DE MATOS

 

 
 

 


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