Desvendando
os segredos do Texto
Desvendar
segredos compactua com a idéia de trilhar caminhos de embate
entre aquele que guarda o poder – o segredo – e aquele que
deseja descobri-lo. Ao texto reserva-se o privilégio de
guardar o tesouro e ao leitor a habilidade de trabalhar
estratégias para encontrar e valorizar a riqueza contida
neste tesouro. A tarefa de desvendamento coube a Ingedore
G. V. Koch, mestre e doutora em Ciências Humanas: Língua
Portuguesa, pela PUC/SP, docente do Departamento de Lingüística
da Unicamp, que tem contribuído nestes últimos anos com
trabalhos direcionados aos estudos da linguagem com muita
seriedade. Essa pesquisadora trabalha com a Lingüística
Textual, que tem como objeto de investigação o texto, no
qual convergem ações lingüísticas, cognitivas e sociais
e que organizam um evento comunicativo. A autora aponta
com precisão
de linguagem a importância que o leitor assume diante de
um texto para instituir-se como sujeito e, como um artesão,
construir prazerosamente um
sentido para seu trabalho de tessitura com as palavras.
Desvendando
os segredos do texto,
desde o prólogo, esclarece ao leitor que o texto é
um construto histórico e social complexo e multifacetado
que oculta segredos que podem ser revelados ao interlocutor
– leitor – quando este viabiliza as propostas para a construção
de sentido das atividades que empreende. A obra divide-se
em duas partes: na primeira
trata das questões relacionadas às concepções de
língua, de sujeito, texto, sentido, contexto e dos gêneros
discursivos, concepções essas que se mantêm entrelaçadas,
tornando difícil conceituá-las isoladamente. Na segunda
parte discorre sobre as questões específicas dos processos
e estratégias de construção de sentido que o leitor pode
viabilizar. Trata-se da referência, da referenciação, da
progressão referencial, da anáfora indireta, da progressão
textual e dos articuladores textuais.
Como
ponto de partida, em Ajustando a lupa na primeira
parte da obra, aponta as reflexões que se propõe
a discutir, Koch tece um breve percurso, um background,
situando o leitor com as considerações básicas que permeiam
na literatura sobre texto/discurso. Adota e trabalha
com a concepção sociointeracional da linguagem, onde os
sujeitos ativos interagem com ações lingüísticas, cognitivas
e sociais, de maneira dialógica, com o texto, com o contexto
e com a língua. Para a Lingüística, os textos, como
forma de cognição social,
permitem ao homem organizar o mundo, produzir, preservar
e transmitir o saber.
Considerando
a linguagem como uma atividade interativa e que conduz a
concepção processual da construção do sentido, e que todo
texto é constituído por uma proposta de múltiplos sentidos,
pode-se afirmar que todo texto é um hipertexto. Para que
o leitor possa construir um sentido, que não se dá de maneira
linear e seqüencial,
é necessário realizar um constante movimento em variadas
direções recorrendo a diversas fontes de informação, textuais
e extratextuais. O hipertexto é uma forma de estruturação
textual que permite ao leitor, ser um co-autor do texto,
oferecendo-lhe a possibilidade de opção entre caminhos diversificados,
de modo a permitir diferentes níveis de desenvolvimento
e aprofundamento de um tema. Pensemos
no texto acadêmico, povoado de referências, citações
e notas de rodapé, imagens que convoca o leitor a consultar
outras leituras, inclusive suspender sua leitura para fazer
anotações. Com relação ao hipertexto eletrônico, a diferença
consiste apenas na forma
e na rapidez do acesso às informações que estão interconectadas
– os hiperlinks -
que são os dispositivos agilizados pelos clicks-de-mouse.
Como o hipertexto oferece uma multiplicidade de caminhos
a seguir, compete ao leitor decidir
qual o fluxo de informações que serão incorporadas
em sua trajetória de leitura.
Para
apresentar as considerações sobre contexto, mediante variadas
concepções de acordo com o momento histórico em que se situam
os autores, Koch recorre aos estudos de Malinowski (1923),
que se referia ao contexto como o intermediário entre a
situação e o sistema lingüístico. Com o advento da pragmática,
os estudos e a descrição das ações que os usuários realizam
com a língua, em situação de interlocução através da linguagem,
onde determinada cultura, cujas tradições, usos e costumes
são valorizados, a concepção de contexto passou por algumas
acomodações e o contexto cognitivo tornou-se reconhecido.
Isto significa que, para que duas ou mais pessoas possam
se entender, é preciso que seus contextos cognitivos estejam
parcialmente assemelhados e, ao menos em parte, compartilhados,
e ainda que, a cada momento de interação, esse contexto
é alterado e ampliado, obrigando os parceiros a se ajustarem
ao novo contexto instaurado. Desse modo, as abordagens cognitivas
postulam que o contexto físico – o espaço físico, o espaço
real com os objetos e as coisas – não afeta a linguagem
diretamente, mas sim o conjunto de suposições trazidas para
a interpretação de um enunciado de cada sujeito. No
entanto, deve-se considerar a distinção do contexto
de uso entre a fala e a escrita. Na
fala há interação face-a-face, mas na escrita as
informações devem ser estabelecidas por meio de estratégias
de sinalização textual, que ocorrem por meio do processamento
textual, isto é, o produtor do texto
apresenta algumas informações lacunares e pressupõe
que o leitor através de seus conhecimentos e ou deduções
estabeleça relações de comunicação e possa com o texto interagir.
A noção de contexto, definida por koch, está relacionada
com a estrutura da linguagem, da cultura e da organização
social que tem implicações diretas na produção e na compreensão
do discurso.
Um
dos princípios básicos
da Ciência Cognitiva é tentar entender e esclarecer
como o homem representa mentalmente o mundo que o cerca
de uma maneira específica e que estruturas da mente possibilitam
as atividades cognitivas. Concebendo que o cognitivo apresenta-se
sob a forma de representações (conhecimentos estabilizados
na memória e suas interpretações) e das formas de processamento
das informações (processos voltados para a compreensão e
a ação), compete distinguir dentro desse processo cognitivo
o que é provisório e o que é permanente. Tem-se postulado
que as informações podem ser retidas na memória por um curto
termo (MCT) de capacidade limitada ou na memória por um
longo termo (MLT), onde os conhecimentos podem ser representados
de forma permanente. Para a leitura de um texto, as estratégias
cognitivas são acionadas, isto é, ocorre o cálculo mental,
e assumem a função de facilitar o processamento textual,
quer em termos de produção quer em temos de compreensão.
Para que haja compreensão entre os interlocutores é necessário
que os aspectos estruturais e processuais
da cognição sejam organizados e ativados.
Koch
conduz o leitor à reflexão sobre as questões que
envolvem o contato com os diversos textos da vida quotidiana,
os gêneros do discurso. Esses utilizados entre as práticas
sociais, como anúncios, avisos, artigos de jornais, receitas,
guias turísticos, manuais de instruções etc. exercitam a
capacidade humana de relacionar-se com os diferentes gêneros
textuais determinados pelas características temáticas, composicionais
e estilísticas. Observa-se claramente uma crítica sobre
a maneira como a escola trabalha com a tipologia textual,
pois há uma espécie de distanciamento das práticas sociais
e o gênero passa atuar de forma artificializada, como objeto
e ferramenta de trabalho, para o desenvolvimento da linguagem
de forma didática visando objetivos precisos e definidos:
o de ensino/aprendizagem descrito pela prática escolar
como as ocasiões de produção/recepção de textos estereotipadas
por descrição, dissertação, narração, diálogo, resumos etc.
O
segundo momento, intitulado Levantando a ponta do véu,
centraliza o foco das discussões que Koch julga ser imprescindível
para que o leitor possa descobrir e trabalhar as possíveis
estratégias para compreender um texto. Postula a autora
que a referência é constituída como o resultado da
operação que realizamos para designar, representar ou criar
uma situação discursiva. São as operações efetuadas pelo
sujeito que estrategicamente implicam a realização de escolhas
significativas para interpretar e estabelecer alguma ligação
com algum tipo de informação que se encontra na memória
discursiva. A referenciação segue os princípios de ativação
– que é o endereço cognitivo, a expressão lingüística que
representa na memória o modelo de referente – e o princípio
de reativação. Uma vez que uma informação
é recebida e depois ativada na memória passa a funcionar,
desta forma, como inferência à informação já adquirida.
O uso dos pronomes ou elipses, o uso de expressões nominais
definidas ou indefinidas facilita a operação, ou seleção
dentre as propriedades atribuíveis a um referente, que em
dada situação discursiva é relevante viabilizar
para que o leitor
organize as informações e formule seus conceitos,
evitando o desvio da interpretação proposta pelo texto.
A progressão referencial permite a elaboração,
no texto, de um sentido indicando os pontos de vista,
assinalando direções argumentativas, sinalizando dificuldades
de acesso ao referente. Outro aspecto relevante está relacionado
à anáfora indireta que desempenha um papel extremamente
importante na construção da coerência, no processamento
textual. Ela está intimamente ligada aos processos cognitivos
que ativam as informações representadas na memória do leitor,
funciona como âncoras
e baseia-se, conforme o texto, no conhecimento semântico,
no conhecimento conceitual e no inferencial.
Na
construção de um texto, a progressão textual (seqüenciação)
diz respeito aos procedimentos lingüísticos, por meio dos
quais se estabelecem, entre os seus segmentos,
diversos tipos de relações semânticas e de atividades
formulativas que introduzem no texto recorrências que enfatizam
a continuidade
da interpretação. Dentre as relações que se estabelecem
entre os segmentos textuais, destaca-se a progressão temática
que envolve a articulação do tema-rema para
produzir no texto a organização desejada. A informação
temática é normalmente dada e garante a continuidade de
sentidos do texto recorrendo muitas vezes ao uso de itens
lexicais pertencentes a um mesmo campo semântico, ou, em
termos cognitivos, de elementos que integram um modelo mental.
O rema constitui-se na informação nova
inserida no texto. Os articuladores textuais
ou operadores de discurso
são estabelecidos por meio de recursos lingüísticos
associados aos marcadores
de conteúdo proposicional (relações espácio-temporais,
de causalidade), aos enunciativos
e aos meta-enunciativos.
Ao
final, Koch revisita as considerações do grupo de pesquisadores
e lingüistas que trabalham com a Lingüística Textual na
Europa e na América. Menciona obras que posicionam as perspectivas
da disciplina atualmente e intensifica as razões pelas quais
participa desse grupo. Assim, a Lingüística Textual
preocupando-se com o desenvolvimento das investigações na
área cognitiva com as questões relativas ao processamento
do texto em termos de produção e compreensão, às formas
de representação do conhecimento na memória, à ativação
de tais sistemas de conhecimento por ocasião do processamento,
às estratégias sociocognitivas e às interacionais nele envolvidas
e promove ao
interlocutor a possibilidade de descobrir e percorrer as
trilhas do texto para desvelar os segredos do percurso ora
trilhado.
O
livro é uma obra que deve ser saudada com uma síntese dos
trabalhos de Koch. Se por um
lado há uma condensação geral dos estudos da Lingüística
Textual, por outro lado é uma retomada repetitiva de trabalhos
que autora vem publicando ao longo de 30 anos de pesquisa
acadêmica. Para quem acompanhou sua trajetória, nesta publicação
não há nada de novo, mas, para o leitor que inaugura sua
trilha pelos caminhos da Lingüística Textual, o livro é
um bom guia.