O
título enseja um exercício de futurologia ou
de antecipação, ainda que em termos probabilísticos,
dos caminhos da política brasileira nos próximos
anos. Tal exercício pode ser considerado como
uma “aposta de alto risco” pelas incertezas
e multiplicidade de fatores a serem considerados
na análise e o risco de discordância por parte
daqueles que se sentirão prejudicados pelas
críticas e prognósticos.
Convém alertar que análises prospectivas nunca devem basear-se em visões lineares,
cartesianas.
Estamos lidando com relações sistêmicas
complexas sujeitas à intervenção de poderosos
fatores externos que fogem do controle dos atores
sociais envolvidos. Estes, embora sujeitos dos
processos de interação sociais e culturais,
não atuam com todos os graus de liberdade, limitada
pelas condições histórico-estruturais herdadas
das gerações anteriores. Afirmando a premissa
de “os homens fazem sua História”, rejeitamos
as interpretações deterministas ou fatalistas
que impõem limitações ao imaginário e às aspirações
pela mudança da atual conjuntura da sociedade
brasileira. Por outro lado, seria impossível
ignorar as relações de forças nacionais e internacionais
que configuram as políticas do chamado “Consenso
de Washington”. Neste contexto, seria possível
transitar da sociedade em que a maioria está
sendo espoliada e manipulada para uma sociedade
informada e participante?
Assumir que a liberalização, a desregulamentação e as privatizações de empresas
públicas pudessem sustentar o mercado na alocação
de recursos mais eficiente e, assim, abrir o
caminho para o desenvolvimento social não passa
de uma ilusão repetidamente desmentida pela
conjuntura econômica dos últimos vinte anos.
Ou, em outras palavras, podemos aceitar que
a atual política macroeconômica possa efetivamente
criar condições para transformar o panorama
social da sociedade brasileira e incorporar
os contingentes de marginalizados e excluídos?
O fracasso do neoliberalismo, precedido pela derrocada do socialismo “real”
no leste europeu tornou os cenários nacional
e mundial mais incertos e inseguros, refletindo-se
também nos impasses e contradições das políticas
do governo do PT.
Inquestionavelmente, Lula foi eleito com esmagadora maioria do voto popular,
com esperanças de mudanças na condução das políticas
públicas e no atendimento dos anseios por mais
justiça e bem estar.
Prensado entre a busca da utopia – uma sociedade mais igualitária e justa
– e o realismo do “possível”, o governo petista
tem seguido o caminho da continuidade das regras
de jogo ditadas pelo capital financeiro, nacional
e internacional. Mas, a continuação da política
macroeconômica do governo anterior torna-se
o maior empecilho às mudanças de políticas sociais
e ambientais constantes do programa do PT. Alegam
os porta-vozes do governo a herança de dívidas
deixadas pelo governo FHC, o contexto conturbado
internacional e o risco de retorno da inflação,
mas não apontam para o fator central e fundamental:
vivemos numa sociedade dividida em que continuam
a prevalecer os interesses dos mais ricos e
poderosos.
Para não contrariá-los e, tampouco os
credores internacionais, teríamos que vestir
primeiro a camisa de força da estabilidade macroeconômica
e somente depois poderemos pensar sobre como
reduzir as desigualdades sociais.
Aponta-se para a queda do dólar, o recuo da taxa de inflação e a diminuição
da taxa de risco do país e o ministro da Fazenda
promete que o Brasil vai pagar suas dívidas,
reduzir seu déficit orçamentário e manter o
elevado superávit primário para controlar a
inflação, enquanto mantém as taxas de juros
em níveis proibitivos para as atividades produtivas,
particularmente dos pequenos e médios produtores.
Tudo isto permitiria atrair de novo a confiança
e, com ela, os investimentos de capital estrangeiro,
para alcançar altas taxas de crescimento econômico
e realizar depois as políticas de caráter distributivo.
Infelizmente, a queda do dólar e a manutenção
da taxa de juros elevada constituem um convite
à especulação. É falso o júbilo pelo retorno
do capital financeiro volátil e pronto para
fugir, no mais leve sinal da conjuntura externa.
Numa reunião da executiva nacional do PT, foi
endossada a política de Palocci, exigindo-se
também a rápida tramitação e aprovação das propostas
de reformas tributárias e previdenciária, tudo
para inspirar otimismo às decisões dos investidores
estrangeiros.
È lícito indagar, sempre à luz de experiências do passado recente, se é realista
a expectativa de um “ciclo virtuoso” de crescimento
“durável” (ou sustentado) com base nas políticas
neoliberais? Os ciclos anteriores caracterizados
pela euforia de altas taxas de crescimento se
desmancharam com as sucessivas crises e a instabilidade
crônica do sistema financeiro internacional,
deixando em seu rastro mais perdas e vítimas
para os países emergentes. Orgulhar-se de não
dar o “calote”, em vez de tentar renegociar
as dívidas interna e externa que já sugaram
imensos recursos do país parece ingênuo ou mal
informado. Os países que melhor souberam resistir
às ondas especulativas e que obtiveram bons
resultados em suas políticas econômicas foram
aqueles que
menos se abriram ao capital financeiro internacional
– a China, a Índia e a pequena Malásia que ousara
contrariar as prescrições do FMI quanto ao controle
de entrada e saída de capital estrangeiro.
A ênfase dada aos problemas da economia tende a ocultar outros aspectos, não
menos importantes de mudanças políticas e sociais,
imprescindíveis para impulsionar o desenvolvimento
do país. O apelo ao capital estrangeiro parece
ignorar a natureza “perversa” da acumulação
capitalista que estimula poderosamente a concentração
em grandes unidades industriais, comerciais
e de serviços, enquanto elimina, ao mesmo tempo,
de forma impiedosa,
empregos e pequenas empresas. Os problemas decorrentes
do desemprego e exclusão social não podem ser
resolvidos por políticas compensatórias de assistência
social, as quais, na melhor das hipóteses, asseguram
a sobrevivência física dos pobres, mas não sua
inclusão como cidadãos conscientes e ativos.
O discurso oficial alude aos sacrifícios que
serão exigidos dos assalariados e inativos,
mas não menciona os ganhos escandalosos das
classes altas e parte da média e seu consumo
conspícuo e de desperdício. Se for impossível
obter financiamento externo a taxas de juros
decentes (1,5% nos EUA e 2,5% na União Européia),
não escaparemos da dolorosa tarefa de levantar
recursos para o desenvolvimento no mercado interno,
cobrando mais tributos e impostos das elites
tradicionalmente sonegadoras. A resistência
destas às mudanças, após os primeiros cem dias
do governo, irá manifestar-se em todos os níveis
quando as reformas tributária e previdenciária
ameaçarem seus privilégios históricos. Juízes,
militares, empresários, políticos e até algumas
categorias sindicais irão manifestar-se contra
a racionalização dos benefícios da aposentadoria
e a elevação das alíquotas do imposto de renda,
indispensáveis para assegurar uma base orçamentária
mais sólida para os programas sociais do governo.
Este, receoso do espectro de fracasso à semelhança do governo Fernando de
la Rua na vizinha Argentina, parece apostar
numa repetição da experiência do Pacto de Monclóa,
na Espanha dos anos oitenta, sob a liderança
de Felipe Gonçalez. Mas, diferentemente da Espanha,
socorrida na época pela União Européia, nossa
perspectiva é continuar com a escassez de recursos
do poder público, preso aos compromissos das
dívidas externa e interna. Será que os bancos
concederão créditos mais baratos aos pequenos
empresários na indústria e agricultura, se podem
obter remuneração mais elevada para suas aplicações
ao investir em papéis do próprio governo?
Em conclusão, a crise do sistema capitalista, sobretudo em seu epicentro,
a economia norte-americana, não permite apostar
numa retomada do crescimento nos moldes tradicionais.
Para reverter a tendência ao desemprego, à deterioração
da qualidade de vida e o colapso dos ecossistemas
necessitamos de um novo paradigma de desenvolvimento
capaz de superar os impasses criados – desemprego,
polarização, pobreza, desigualdade, insegurança
e violência, deterioração do meio ambiente e
perda progressiva de qualidade de vida – resultados
da dinâmica concentradora e excludente do sistema
atual.
“Adiar a utopia”, como proclamam alguns dos porta-vozes do PT, para aguardar
os resultados altamente problemáticos de políticas
convencionais, não evitará a persistência da
tendência à concentração de poder e riquezas
nas mãos das elites e, tampouco irá gerar os
recursos para impulsionar a agricultura familiar,
as pequenas empresas, a educação e os programas
de saúde para os mais necessitados e, enfim,
toda a sociedade. Afinal, o produto mundial
bruto ultrapassou os trinta trilhões de dólares,
apesar da crise geral que assola o sistema.
Uma distribuição mais equitativa resultaria
em renda per capita de US$ 5.000 por ano, enquanto
mais de 1,5 bilhão de pessoas mal sobrevivem
com menos de um dólar por dia. No Brasil, com
um PIB estimado de R$ 10.000,00 per capita,
um terço da população vegeta com R$ 2,00 por
dia.
O novo paradigma de desenvolvimento terá que repensar e redefinir seus objetivos
e métodos, enfatizar a mobilização de todos
os atores sociais, eliminar as relações de dominação
autoritária pela implantação da gestão comunitária
e participativa. Tarefa prioritária será a democratização
dos processos decisórios, não somente no Conselho
de Desenvolvimento Econômico e Social (82 membros),
mas em todas as repartições e ministérios, nas
escolas e nas empresas, uma reforma que deve
capacitar a população de participar das decisões
e mobilizar suas energias para os desafios do
século XXI.