VINICIUS DE MORAES (1913-1980)
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O
Operário em Construção
Vinicius
de Moraes
“E
o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num
momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe
o Diabo: — Dar-te-ei todo este poder e a sua glória,
porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero;
portanto, se tu me adorares, tudo será teu. E Jesus,
respondendo, disse-lhe: — Vai-te, Satanás; porque
está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele
servirás.”
(Lucas,
Cap. V, versículos 5-8)
Onde
antes só havia chão.
Que
a casa de um homem é um templo
Um
operário em construção
Compreender
por que um tijolo
Valia
mais do que um pão?
Com
pá, cimento e esquadria
Quanto
ao pão, ele o comia...
Além
uma igreja, à frente
Um
operário em construção.
Esse
fato extraordinário:
Que
o operário faz a coisa
E
a coisa faz o operário.
—
Garrafa, prato, facão —
Ele,
um humilde operário,
Um
operário em construção.
Banco,
enxerga, caldeirão
Não
sabereis nunca o quanto
De
que sequer suspeitava.
De
operário em construção
Teve
um segundo a impressão
De
que não havia no mundo
Coisa
que fosse mais bela.
Foi
dentro da compreensão
Cresceu
também o operário
Cresceu
em alto e profundo
E
foi assim que o operário
Do
edifício em construção
E
aprendeu a notar coisas
Que
seu macacão de zuarte
Que
o casebre onde morava
Que
seus dois pés andarilhos
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E
o operário fez-se forte
—
“Convençam-no” do contrário — Disse
ele sobre o operário
Mas
quando foi perguntado
Em
vão sofrera o operário
Muitas
outras se seguiram
Porém,
por imprescindível
Ao
edifício em construção
Da
construção que crescia.
De
sorte que o foi levando
Mostrou-lhe
toda a região
E
apontando-a ao operário
—
Dar-te-ei todo esse poder
Porque
a mim me foi entregue
E
dou-o a quem bem quiser.
E,
ainda mais, se abandonares
Disse,
e fitou o operário
Que
olhava e que refletia
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