Pistrak
situa-se ma linha dos grandes educadores como Pavel Blonsky,
Nadéjda Krupskaia e Vassili Lunatcharsky. Apesar disso, durante
o stalinismo, a sua importância foi ofuscada pela emergência
de Makarenko, como o “grande educador soviético”. Isso não
foi acidental: Makarenko fundou uma pedagogia sem escola,
nascida das trágicas circunstâncias da Guerra Civil que gerou
milhares de jovens a-sociais – razão pela qual, ele tem pouco
a dizer a respeito da escola. O fato dele aparecer como “o
grande pedagogo” deve-se à burocratização do processo revolucionário
e ao deslocamento do poder que se deu, especialmente após
o esmagamento da revolução ucraniana de Makhno e dos marinheiros
de Kronstadt.
O
presente livro é fruto do trabalho pedagógico desenvolvido
na Escola Lepechinsky e do contato com outras escolas primárias
e demais instituições infantis. Pistrak soube ultrapassar
o questionamento dos métodos para enfrentar os problemas
da finalidade do ensino, extraindo daí todas as conseqüências.
Percebia com toda clareza que uma pedagogia concebida para
formar vassalos era inadequada para formar cidadãos ativos
e participantes da vida social.
Já
na época das revoluções burguesa – e em particular da Revolução
Francesa, no período da Convenção – a burguesia percebeu
que a pedagogia dos oratorianos, jesuítas e dos irmãos das
escolas cristãs vinculadas ao “Antigo Regime” era inadequada
à formação do cidadão, categoria com que a burguesia francesa
fez seu ingresso na história. Daí, as medidas que ela tomou
para suprimir a
aristocracia do saber e do poder, criando um conselho de
pais de família eleitos pela “base”, que institucionalizasse
a participação dos pais na escolha dos professores e na
administração da escola, definindo as condições em que se
operaria a igualdade de oportunidades garantida pelo ensino
gratuito, obrigatório e leigo. Criavam-se as condições para
que se desse a alternância da teoria com a prática e a abertura
permanente ao social, através da participação dos alunos
na organização interna da escola, e da instituição de formas
de disciplina no aprendizado constante, pela prática de
responsabilidades em função dos direitos e deveres que formariam
o novo cidadão.
Da
mesma forma, a Revolução Russa, criando novas relações sociais
entre os homens, necessitava de um novo tipo de homem para
assumi-la – daí a importância da renovação dos métodos de
ensino. A idéia básica de uma nova sociedade que realizaria
a fraternidade e a igualdade, o fim da alienação, era uma
imensa esperança coletiva que tomou conta da sociedade soviética
entre 1918 e 1929. Neste período, a Revolução Russa era
uma esperança que ainda não havia sido enterrada pela hegemonia
da burocracia de Stalin, a qual reduziria o projeto revolucionário
soviético a uma política de industrialização, convertendo
os sovietes em meros “aparelhos do Estado” e orientando
o próprio Estado aos seus interesses particulares, como
se fosse sua “propriedade privada”.
A
visão educacional de Pistrak é concomitante ao período de
ascenso das massas na Revolução Russa, a qual exigia a formação
de homens vinculados ao presente, desalienados, mais preocupados
em criar o futuro do que cultivar o passado, e cuja busca
do bem comum superasse o individualismo e o egoísmo. Através
de Pistrak, tem-se o projeto da revolução soviética no plano
da educação, especialmente no nível do ensino primário e
secundário. No entanto, muitos educadores na época acharam
que poderiam desenvolver nas velhas formas pedagógicas os
novos conteúdos revolucionários, passando a ensinar a respeito
da desalienação e da liberdade de igual forma como aqueles
que analisavam as vantagens da submissão e do caráter sacral
da autoridade: em suam, pretendiam “corrigir” as velhas
teorias pedagógicas reciclando-as ante a nova situação.
Pistrak
percebia que isso era insuficiente numa época revolucionária,
e enfatizava a necessidade de criar uma nova instituição
escolar na sua estrutura e no seu espírito, suprimindo a
contradição entre a necessidade de criar um novo tipo de
homem e as formas da educação tradicional. Isso implicava
uma profunda mudança na instituição escola, pois esta –
Pistrak tinha plena consciência – transmite um conteúdo
implícito significativo que devia ser questionado. Intuía
Pistrak que o fundamental nas instituições decorre muito
mais de uma prática não verbalizada do que do conjunto dos
enunciados solenes de que ela se faz porta-voz.
Para
fugir dos hibridismos e acomodações, Pistrak preferiu
optar pela criação de uma nova instituição no lugar da transformação
da velha estrutura. Para isso, utilizou os meios de que
dispunha: a ênfase nas leis gerais que regem o conhecimento
do mundo natural e social, a preocupação com o social, a
preocupação com o atual, as leis do trabalho humano, os
dados sobre a estrutura psicofísica dos educandos, o método
dialético que atua como uma força organizadora do mundo.
A “Escola do Trabalho” estava definida.
Ele
se preocupava em desenvolver no professor a criatividade
pedagógica, sem o que a nova escola seria impossível. Seu
objetivo não era o de formular uma teoria comunista da educação,
mas estruturar os enunciados surgidos no contexto da prática
escolar à luz do método dialético. Procurou ele introduzir
a dimensão política no trabalho pedagógico, em consonância
com os objetivos centrais da Revolução Russa no plano sócio-econômico
– e nisso segue a esteira dos grandes educadores para quem
a política sempre existiu nas instituições de ensino. Tais
preocupações estavam em consonância com a formulação de
Lenin que, no I Congresso de Ensino a 25/08/1918, enfatizava:
“Nosso trabalho no domínio escolar consiste em derrubar
a burguesia e declaramos abertamente que a escola fora da
vida, fora da política, é uma mentira e uma hipocrisia”.
A isto, acrescenta Pistrak: “sem teoria pedagógica revolucionária
não poderá haver prática pedagógica revolucionária” (p.
29).
Pistrak
privilegia a teoria marxista como uma nova arma capaz de
garantir a transformação da escola, desde que oriente a
prática do trabalho escolar; ela se tornará ativa e eficaz
na medida em que o professor anunciar os valores de um militante
socialista ativo. Mas não há uma resposta à pergunta “onde
está a teoria comunista da educação?” Argumenta Pistrak
que seu objetivo não é formular uma teoria, mas o de analisar
seu surgimento em decorrência de uma prática escolar guiada
pelo método dialético. A Escola do Trabalho é apenas o resultado
da prática pedagógica, a sistematização de uma experiência
concreta.
Pistrak
concebe a Escola do Trabalho como um instrumento que capacite
o homem a compreender seu papel na luta internacional contra
o capitalismo, o espaço ocupado pela classe trabalhadora
nessa luta e o papel de cada adolescente, para que cada
um saiba, no seu espaço, travar a luta contra as velhas
estruturas. A Escola do Trabalho fundamenta-se no estudo
das relações do homem com a realidade atual e na auto-organização
dos alunos. Uma vez que a realidade atual se dá na forma
da luta de classes, trata-se de penetrar essa realidade
e viver nela – daí a necessidade de a escola educar os jovens
conforme a realidade do momento histórico, adaptando-se
a ela e, por sua vez, reorganizando-a.
O
estudo dos fenômenos naturais e da sua utilização na indústria
deve buscar a superação da antida atitude contemplativa
ante as ciências naturais; a realidade deve ser estudada
como processo em desenvolvimento, como um processo dialético.
Em conseqüência, Pistrak prega o ensino pelo “método dos
complexos”, pelo qual se estudam os fenômenos agrupados,
enfatizando a interdependência transformadora, essência
do método dialético. Isso o leva a enfatizar o princípio
ativo e a aplicação do princípio da pesquisa ao trabalho
escolar, condição para a transformação do conhecimento em
concepções ativas.
Para
Pistrak estudar a realidade histórica, o atual, significa
situar o espaço do adolescente na luta que se trava no mundo.
Nesse sentido, a finalidade do conteúdo do ensino consiste
em armar o educando para a luta e criação de uma nova sociedade.
O trabalho na escola, enquanto base da educação, deve estar
ligado ao trabalho social, à produção real, a uma atividade
socialmente útil. Para Pistrak, se a escola deseja educar
a criança e o adolescente, ela tem o direito de falar em
formação e direção das preocupações dos educandos para uma
finalidade determinada. Por isso, ele também acentua a importância
da Juventude Comunista e do Movimento Comunista de Crianças.
A
construção de uma nova sociedade, conforme o ideário inicial
da Revolução Russa, implicava que ela fosse feita “de baixo
para cima”. Para isso, acentua Pistrak, é necessário que
cada membro ativo da sociedade compreenda o que é preciso
construir e de que maneira é necessário fazê-lo. Tal postura
leva à valorização do trabalho coletivo e à criação de formas
organizativas eficazes. Para ele, a aptidão do trabalho
coletivo é adquirida no processo do próprio trabalho. É
necessário saber quando é preciso mandar ou obedecer, e
isto se consegue através da auto-organização dos educandos,
em que “todos, na medida do possível, ocupem sucessivamente
todos os lugares, tanto as funções dirigentes como as funções
subordinadas” (p.41). Isso só será atingido se a auto-organização
for admitida sem reservas. Conhecimento do real e auto-organização
são chaves da nova escola, inserida na luta pela criação
de novas relações sociais.
No
início da revolução, porém, o trabalho na escola era desenvolvido
através da escultura, desenho, trabalho com papelão, diferentes
tipos de modelagem; a isso acrescenta-se o trabalho físico
produtivo com a criação de oficinas. Não havia nenhum plano
de conjunto e o trabalho era auxiliar para o programa de
estudos. Na falta de uma diretriz comum, o trabalho manual
e intelectual eram independentes entre si: trabalho e aula
não possuíam canais de comunicação. O trabalho não era inserido
no problema geral do trabalho infanto-juvenil na sociedade
socialista.
Por
outro lado, para Pistrak, o trabalho aparece como estudo
do trabalho socialmente útil que determina as relações sociais
entre as pessoas. Pistrak condena os trabalhos domésticos,
cansativos e freqüentemente nocivos à saúde das crianças.
Enfatiza a preocupação que a escola deve ter com os princípios
da higiene pessoal, o trato do corpo, os dentes, as roupas,
a cama, o material escolar e a organização da via cotidiana.
Enfatiza também a necessidade de criar restaurantes e clubes
como formas que permitem desenvolver a aptidão dos jovens
para a vida e o trabalho coletivo, tendo como base “as tarefas
domésticas coletivas” (p.50), como a manutenção da ordem
e limpeza dos quartos, a participação nas tarefas da cozinha
e distribuição dos alimentos preparados. As crianças devem
também participar cuidando dos jardins e dos parques públicos,
plantando árvores e conservando as belezas naturais, organizando
campos de jogos e práticas esportivas, enfim, associando
as iniciativas da escola às de outros órgãos administrativos.
Em suma, a escola deve ser um centro cultural capaz de participar
da vida social.
Pistrak
assume o papel da oficina profissional nas escolas, instituídas
em outubro de 1918 por um Regulamento sobre a “Escola Única
do Trabalho”, em que o trabalho na oficina escolar liga-se
ao estudo dos ofícios artesanais, urbanos ou rurais, enfatizando
seu valor específico. Enquanto as crianças menores trabalham
com tecido, papel e papelão, as maiores trabalham com metais
e madeira. Para Pistrak, isto é essencial para o ensino
de questões como a divisão de trabalho e o trabalho mecanizado:
o aluno compreenderá melhor a mecânica e a essência do maquinismo
se utilizar ferramentas diferenciadas. Além disso, ele perceberá
melhor a correspondência entre as ferramentas e um material
determinado e as melhores maneiras de trabalhá-lo, e os
diferentes tratamentos que esse material deve sofrer (plaina,
ajuste e encaixe) numa oficina de marceneiro. Da mesma forma,
uma oficina de marcenaria, de mecânica ou de papelão deve
dar espaço à criatividade técnica do aluno, tendo em vista
a construção de uma nova sociedade.
O
estudo do trabalho em madeira e metal constitui a introdução
à técnica geral. a oficina escolar, quando o aluno chega
ao sexto ano escolar, pode oferecer uma introdução à técnica
geral da produção moderna e da organização científica do
trabalho. Isso implica uma seleção metódica das encomendas
dos trabalhos, da graduação das dificuldades de sua produção
e da complexidade dos métodos de trabalho.
Pistrak
salienta a necessidade de toda escola de primeiro grau possuir
uma área no campo, variável entre meio e um hectare, pois
a escola rural deve “divulgar no campo a influência cultural
da cidade” (p. 62). A escola rural variará suas atividades
em função do ritmo de trabalho no campo e das estações do
ano; o trabalho agrícola na escola deve ser considerado
um problema pedagógico que leve a criança à compreensão
da aliança operário-camponesa e, portanto, da realidade
atual. No campo, a escola é o centro cultural mais
importante, daí sua importância em formar os organizadores
do futuro, conquistando o apoio da população, mostrando
que a instituição infantil está à altura de suas tarefas
sociais.
Igualmente
importante é a fábrica, um fenômeno da realidade atual,
relacionado com o ambiente social onde a grande produção
é o resultado da união da técnica com a economia. Assim,
para Pistrak, o estudo da força motriz de uma fábrica e
das diferentes formas de energia levam ao da geografia econômica
e à compreensão da luta imperialista pelas fontes energéticas.
O estudo das matérias-primas, base da produção, coloca a
questão da agricultura, geografia econômica e do entrelaçamento
entre a tecnologia e a técnica. A máquina-ferramenta conduz
a questões econômicas e técnicas, fundamentadas na física,
matemática e química, e situa o papel do rendimento do trabalho.
Por sua vez, situando-se o operário como ponto de partida,
pode-se abordar as questões como as classes sociais, o salário,
o sindicato, a ligação do operário com o camponês e com
o Partido, a condição feminina e o trabalho. Afirma Pistrak:
“Toda a realidade atual desemboca na fábrica” (p. 67).
A
atitude da escola em relação à fábrica situa esta como ponto
privilegiado de entrecruzamento de relações, justificando
ante os olhos do aluno o significado de seu trabalho. Como
decorrência, a realidade colocará uma série de questões
científicas cujas respostas a escola deve fornecer, efetivando
assim a integração do trabalho com a ciência graças à educação
no trabalho. O contato direto do aluno com a fábrica
cria nele as emoções necessárias à educação social, impedindo
que o ensino se mantenha acadêmico. Por isso, por isso,
o aluno deve participar do trabalho na fábrica ao lado do
operário ou do aprendiz – o que oficina da escola não possibilita:
“o que é importante, do ponto de vista pedagógico, é que
as crianças tenham o sentimento de colaborar na produção;
o que também é importante é que tenham a liberdade de estudar
a fábrica em todas as suas partes” (p. 69). Daí a importância
para Pistrak de as crianças participarem da vida da fábrica,
as assembléias gerais, das cooperativas, dos clubes das
células do Partido, das festas revolucionárias e das campanhas
contra o analfabetismo, de modo a formar homens que entendam
o mecanismo de funcionamento da economia, participando de
sua elaboração. Para isso, é necessário que o administrador,
o engenheiro, o operário, compreendam a importância do trabalho
infantil e da Escola do Trabalho. Segundo Pistrak, o trabalho
na fábrica deve começar a partir do sexto ou sétimo ano
de estudos.
A
área do chamado “trabalho improdutivo” (escritório, contabilidade,
administração, estatística, escola, biblioteca, clube, serviço
sanitário e médico) também necessita de mao de obra e, por
isso, Pistrak acentua que a formação política dos trabalhadores
desse setor é tão importante quando ao do trabalhador qualificado
do setor industrial. Segundo Pistrak, a escola do proletariado
deve ser nessas funções trincheiras de luta pela edificação
de um novo regime.
Para
Pistrak a escola elementar de primeiro grau deve ter a duração
de quatro anos. Nas regiões industriais, a instrução obrigatória
deve ser de sete anos, seguida de Escola da fábrica que
se responsabiliza pela formação profissional. Na área rural
a escola elementar é continuada pela Escola da Juventude
Camponesa com duração de três anos, formando no conjunto
uma escola específica de sete anos de formação agrícola.
A escola de segundo grau é de nove anos e não deve servir
unicamente de preparatório para a universidade. Ao contrário,
ela ter um objetivo determinado no quadro da construção
de uma nova sociedade, preparando os alunos para tarefas
administrativas e intelectuais; deve pois enfatizar a formação
profissional sem perder de vista uma formação geral que
possibilite ao educando a compreensão da totalidade do social.
Acentua Pistrak que o trabalhador do setor de serviços precisa
de “uma boa preparação geral, de uma boa introdução de conjunto
ao estudo de uma determinada profissão e de um conhecimento
perfeito de uma forma precisa de trabalho” (p. 75).
Para
Pistrak, o objetivo da escola é o de formar crianças para
serem trabalhadores completos, daí a necessidade de ela
fornecer uma formação básica técnica e social que possibilite
o educando orientar-se na vida real. Ela deve ser prática
para facilitar ao aluno a transição entre o universo escolar
e a totalidade social, ensinando-o a elevar-se do problema
prático para uma concepção teórica geral. Ela também se
propõe a formar homens para exercer funções de auxiliar
ou ajudante, para o que a escola-laboratório é ineficaz.
Por isso, é necessário que as crianças do segundo ciclo
do segundo grau fiquem um certo número de horas por semana
ligadas a alguma empresa, e que, por sua vez, o trabalho
que realizam seja inserido na escola, para ser explicado
e aprofundado cientificamente.
A
organização do trabalho na escola prepara as crianças para
o trabalho na sociedade: o aluno parte das obrigações mais
simples exigidas no processo de trabalho, adaptando-se aos
hábitos técnicos, para chegar à vivência e à compreensão
do trabalho social da escola, na qualidade de membro da
coletividade escolar. “A entrada do aluno na vida depois
da escola deixa de ser um salto no desconhecido, tornando-se
uma transição bastante fácil e, quanto mais desapercebida,
melhor será para o aluno” (p. 77). O essencial é desenvolver
a especialização do aluno numa profissão determinada sem
criar subdivisões excessivas, respeitando o gosto do aluno
na escolha tanto do emprego como dos grupos a que queira
pertencer, e, ao mesmo tempo, criar as condições para que
o ensino coletivo da teoria geral seja vinculado às tarefas
individuais relacionadas à atividade prática do aluno.
As
diversas etapas da atividade prática do segundo ciclo implicam
numa etapa de orientação durante o oitavo ano escolar. Ela
permite ao aluno a compreensão das formas de trabalho, de
suas relações com o real, levantando os problemas teóricos
ligados a uma profissão determinada. Surge daí a possibilidade
da revisão teórica dos princípios básicos de um ou mais
ramos de atividade, e a passagem para a etapa da execução
do trabalho na área escolhida. Na segunda etapa, Pistrak
prevê a ocorrência de uma íntima ligação entre a formação
básica e a técnica; na terceira etapa realiza-se o trabalho
fundado na iniciativa do aluno, que consiste em resolver
um problema prático determinado. A passagem da escola à
vida, para Pistrak, se dá por mediações através de “projetos”
ou de “iniciativas”: seis meses antes do término dos estudos
abandona-se o trabalho puramente teórico, dedicando-se o
aluno à prática e ao “projeto” que deve executar, usando
seus próprios recursos. Modifica-se assim o significado
tradicional de “fim dos estudos”. Explica Pistrak: “Temos
ainda o hábito de impor aos alunos que chegaram ao fim de
seus estudos escolares a passagem por um purgatório de provas
de todos tipos e nomes: composições, trabalhos trimestrais,
trabalhos práticos, revisão de conhecimentos, etc. simples
camuflagem dos exames infernais!” (p. 79).
Por
outro lado, para Pistrak, o trabalho na União Soviética
não deve mais ter um caráter explorador. Por isso – e para
que haja o aumento da produção e a reforma da administração
– ele propõe que os princípios da “organização científica
do trabalho” se transforme em um instrumento de libertação,
através da consolidação de condições diferentes das existentes
no Ocidente capitalista. Neste, estes princípios são instituídos
de cima para baixo; “nós, ao contrário, só poderemos realizar
a organização científica do trabalho de baixo para cima,
(...) como meio de consolidar o que já realizamos em termos
de revolução social” (p. 81).
Pistrak,
porém, não recomenda a introdução de uma disciplina denominada
Organização Científica do Trabalho, nem a adoção de qualquer
espécie de manual a respeito. Isto porque, para ele, tal
disciplina só se torna compreensível por sua aplicação à
realidade do trabalho, e, por isso, ressalta a importância
da “vivência” da organização científica do trabalho ligada
à vida e aos hábitos quotidianos. Pro exemplo, Pistrak propõe
na escola que se registre o tempo através do relógio: assim
a organização da escola, as reuniões aos sábados, a organização
de uma festa ou de uma excursão para um local longínquo,
passam a depender sempre de um pleno de trabalho previamente
definido e, torna possível a prática do balanço do que foi
efetivamente realizado. Isso implica, segundo Pistrak, desenvolver
nas crianças o gosto pelas formas racionais de cálculos
e planos. É de se acentuar que tais princípios numa realidade
russa, onde pesava a herança do mujik (camponês)
com sua desorganização e apatia, se constituíam num avanço,
embora por linhas travessas.
Assim,
Pistrak concebia o ensino, a “formação básica”, como equivalente
à soma de conhecimentos e de técnicas adaptados a uma idade
determinada, necessários a uma compreensão dialética da
vida moderna. Enquanto que na velha sociedade os conhecimentos
científicos “tinham a qualidade de poder ser esquecidos
facilmente e definitivamente, mesmo depois dos mais ferozes
exames” (p. 95), na nova escola, a ciência deve ser ensinada
como meio para conhecer e transformar a realidade,
no quadro de seus mais amplos objetivos, isto é, como conhecimentos
científicos cuja necessidade seja incontestável, que ajudem
os alunos “a se apropriarem solidamente dos métodos científicos
fundamentais para analisar as manifestações da vida”
(p. 95). Nessa medida, as disciplinas isoladas e independentes
devem ser agrupadas em trono dos principais temas de estudo,
já que as disciplinas científicas, analisam a mesma matéria:
a realidade.
A
aplicação desses princípios sofreu algumas dificuldades,
e após a Revolução, a reação aos programas estabelecidos
“do alto” levou a escola à anomia, ao vácuo. Na tentativa
de resolver o problema, o Comissário para a Instrução Pública
editou, em 1920, o “Programa Modelo para Escola Soviética
Única”, com caráter meramente indicativo, permitindo
que as escolas vinculassem os programas à realidade local.
Não eram, porém, definidas as relações entre os Programas
e os objetivos. O “Programa do Conselho de Instrução Pública”
marcaria uma mudança nesse sentido. Ele ofereceu um critério
de seleção de disciplinas, confirmando ou não a importância
de cada uma; enfatizou a importância da técnica no que se
refere à física e à química; o estudo da biologia foi vinculado
à produção; faz-se a ligação entre a história da natureza
e da sociedade (por exemplo, a relação entre a técnica e
a economia). Isso significa trabalhar todo o ensino através
da síntese. Ressalta Pistrak que os Programas de Ensino
devem ser amplos Programas de Educação, onde a instituição
central oferece a linha geral dos programas, cabendo
à escola sua adaptação à realidade local: “Os programas
devem ser formulados em harmonia com a autonomia escolar.
É necessário, no mínimo, que levem em consideração a auto-organização
dos alunos” (p. 97).
A
organização do programa de ensino, segundo Pistrak, deve
orientar-se através dos “complexos”, cujo tema é escolhido
segundo os objetivos da escola. O critério para seleção
dos temas do complexo deve ser procurado no plano social
e não no plano meramente pedagógico. O complexo deve ter
significado relevante no âmbito social, de modo que
permita ao aluno a compreensão do real. Trata-se de selecionar
um tema fundamental que possua um valor real, e que
depois possa ser associado sucessivamente aos temas de outros
complexos. O estudo de complexos só tem sentido na medida
em que “eles representam uma série de elos numa única
corrente, conduzindo à compreensão da realidade atual”
(p. 108)
Por
exemplo, o complexo “Homem” permite uma análise do ser humano
do ponto de vista biológico, da sua humanização pelo trabalho,
do questionamento das formas históricas de trabalho (dependente
ou livre), da luta contra a exploração do trabalho. Assim,
o complexo seguinte “Revolução de Outubro” permite que o
aluno analise o seu papel na luta pro melhores condições
de trabalho e vida; dessa maneira, os dois complexos articulam-se
mutuamente. Além disso, o complexo possui uma periferia
que permite escapar aos limites do objeto preciso, articulando-o
com temas mais gerais. Isso possibilita generalizações
a partir de cada complexo, que serão tanto mais abrangentes
quanto maiores forem as crianças.
Tal
sistema de complexos é facilitado no primeiro grau na medida
em que um só professor ministra todas as disciplinas; complica-se
ao segundo grau com a existência de disciplinas isoladas
ministradas por vários professores. No primeiro grau, devido
à dificuldade das crianças em fixarem-se num objeto preciso
durante longo tempo, os temas do complexo podem ser tratados
durante três semanas no máximo. O programa do terceiro e
do quarto ano compreenderia de cinco a sete temas adaptados
a uma mês ou a seis semanas de trabalho. Durante o quinto,
sexto e o sétimo anos, o período aumenta para cinco meses;
o sétimo e os demais anos podem ser ocupados por um único
complexo.
Durante
os primeiros anos de ensino, a base do complexo deve ser
fornecida por temas concretos no âmbito visual da criança;
com o tempo, as generalizações tornam-se possíveis. Na escola
de segundo grau, “o trabalho deve ser mais aprofundado,
baseando-se no estudo dos próprios fenômenos, na sua correlação
interna, na lógica interna de seu desenvolvimento. É só
depois de um estudo sério dos tipos, dos fenômenos isolados,
que se torna possível sua análise aprofundada, e a elaboração
de uma síntese ulterior destes fenômenos pode ser realizada
de forma integral” (p. 112).
O
trabalho baseado em complexos muda conforme a idade dos
alunos: simples para as crianças no início dos estudos,
quando o estudo do complexo dura duas semanas, este se enriquece
na medida em que as crianças crescem; o tema é desmembrado
numa série de temas secundários, desde que não se perca
de vista as relações mútuas que estes mantém entre si e
com o tema central. No segundo grau, já não set rata mais
de concentrar todas as disciplinas em torno de um tema qualquer,
mais de subordiná-las a uma idéia diretriz, a um único objetivo.
O complexo é um meio, acentua Pistrak, não um fim em si.
Pois é indiscutível que há mais de um método de exposição
possível para qualquer disciplina. A seleção de um deles
depende dos objetivos a alcançar. Assim, a ordem do curso
pode e deve ser modificada – dentro de limites – segundo
o objetivo geral definido pela organização das disciplinas
em complexos. Cabe ao professor situar sua disciplina no
plano geral da escola e, com base nesta síntese, organizar
o programa da disciplina para todo o ano. Mas, alerta Pistrak,
só o exame coletivo dos programas de cada disciplina garante
o êxito do trabalho. Tudo isso implica um trabalho coletivo
dos educadores no segundo grau, subordinados às necessidades
gerais, onde cada especialidade tem seu lugar nos objetivos
gerais do ensino.
Isso
só tem sentido se for compreendido pelo alunos –
caso contrário é melhor renunciar ao complexo, ensina Pistrak.
O papel do complexo é treinar a criança no método dialético,
e isso só pode ser conseguido “na medida em que ela assimile
o método na prática, compreendendo o sentido de seu trabalho”
(pp. 118-119) O estudo pelo sistema de complexo só é produtivo
se estiver vinculado ao trabalho real dos alunos e à sua
auto-organização na atividade social prática interna e externa
à escola. Pistrak enfatiza a necessidade de estruturar
complexos geradores de ação. Uma ação determinada pode
ser a razão de um complexo. Isto é importante para o educador
organizar a atividade profissional das crianças e dirigir
o trabalho social da escola. O método dos complexos representa
para Pistrak uma ruptura com a pedagogia burguesa, possibilitada
pela Revolução.
Pistrak
critica o Plano Dalton de ensino que destrói o trabalho
coletivo enfatizando que cada aluno deve responder por si
e pelo seu trabalho, obrigando-o a assinar uma espécie de
contrato individual com a escola, e que desmembra o programa
através de uma distribuição mensal formal e rígida. Neste
caso, o tema é escolhido em função de sua duração e não
em função de sua importância, e se restabelece o sistema
de exames onde o aluno empreende um trabalho por disciplina
e em cada mês. Destrói-se assim o sistema de aulas coletivas,
e os deveres escritos acabam se constituindo em tarefas
que obrigam os alunos a formar em fila para entregarem mensalmente
os “deveres” ao professor. Pistrak reconhece, no entanto,
os aspectos positivos do Plano Dalton: este garante
a independência do trabalho e a possibilidade da passagem
ao método experimental (que não se reduz ao método de laboratório).
Pistrak admite a possibilidade de “readaptação” do Plano
Dalton de ensino desde que não se perca de vista o trabalho
técnico, o programa oficial, o sistema de complexos e a
auto-organização dos alunos.
Auto-organização
dos alunos: é aqui que Pistrak define uma característica
fundamental da escola, e revela-se nessa medida, o continuador
dos teóricos que definiram os princípios educacionais da
Associação Internacional dos Trabalhadores (I Internacional
– Proudhon, Bakunin e Marx). Para Pistrak, a auto-organização
não deve ser “usada” para manter o autoritarismo professoral.
Para ele, um pode como o Soviete só pode existir através
da ação direta das massas. Fundamenta-se ele em Lenin,
na obra O Estado e a Revolução, quando o autor define
o Estado Proletário como um Estado que começa a se extinguir
enquanto órgão repressivo no dia seguinte de sua criação.
O reflexo educacional dessa orientação é a auto-organização
das crianças através do “coletivo infantil”. Pistrak caracteriza
o “coletivo” como uma estrutura onde não só as crianças
mas os homens em geral “estão unidos por determinados
interesses, dos quais têm consciência e que lhes são próximos”
(p. 137).
A
escola será a base desse coletivo infantil no dia em que
se constituir como centro da vida infantil e não somente
como o lugar de sua formação; quando for capaz de transformar
os interesses e as emoções individuais em fatos sociais,
fundados na iniciativa coletiva e na responsabilidade correspondente,
através da auto-organização. Esta pode surgir em relação
aos problemas de higiene na escola: isso leva à formação
de um jornal que retrate as preocupações com o ensino e
a atividade social; a auto-organização surge como
uma ação que responde ao concreto. Segundo
Pistrak, sua imposição do “alto” seria totalmente postiça.
Nesse processo, o papel do “pedagogo” é o de facilitar as
crianças, sem esmagar suas iniciativas sob sua autoridade,
nem abandoná-las a pretexto de não intervir: um meio termo
é fundamental.
A
auto-organização das crianças não necessita obrigatoriamente
ser explicitada através de uma “Constituição” escrita, pois
isso enrijeceria e burocratizaria um processo que deve ser
móvel, adaptável a cada momento. Algo desse tipo só pode
ser então concebido como um plano de atividade autônomo,
mutável conforme as circunstâncias. As crianças devem ter
a noção de que qualquer Assembléia de seus iguais pode mudar
os “artigos” desse plano, se assim for o desejo das crianças
que constituem o coletivo infantil.
No
lugar da “justiça infantil” das escolas burguesa, Pistrak
propõe que Assembléia geral das Crianças – em que o professor
é apenas um membro – tenha poderes para julgar comportamentos
de outras crianças. Como exemplo, apresenta a experiência
das Comunas de Trabalho onde, foram recolhidos menores com
problemas de conduta: ladrões, viciados em cocaína, jovens
prostitutas. O êxito dessas colônias se deveu ao fato de
elas se fundarem na autoridade do coletivo e na auto-organização,
e serviu para mostrar “que estes viciados em cocaína, ladrões,
prostitutas de 12 anos, etc., que foram levianamente classificados
na categoria de crianças marcadas pela ‘insuficiência moral’
e irremediavelmente perdidas, são, na realidade, crianças
brilhantes, ativas, capazes, de grande iniciativa, mas pervertidas
pela vida, e que encontram condições quando o coletivo infantil
tem possibilidade de se desenvolver, de crescer pelos seus
próprios meios e de se organizar numa base social. Tudo
se explica pelo coletivo infantil” (pp. 150-151).
A
auto-organização das crianças é uma escola de responsabilidades
assumidas, onde as atividades infantis se definem, desde
a conservação da limpeza do prédio, a divulgação de normas
higiênicas, a organização de sessões de leitura, o registro
dos alunos, até espetáculos e festas escolares, a biblioteca
e o jornal escolar. Isso inclui a participação das crianças
na administração financeira das escolas. A cooperativa escolar,
que fornece o material escolar e a alimentação é também
uma das muitas formas de auto-organização. Pistrak acentua
a importância do contato entre as diversas organizações
infantis e outras escolas fundadas na auto-organização.
A participação das crianças no trabalho pedagógico através
de sua representação no Conselho Escolar (onde constituem
a metade) é fundamental. Pistrak lamenta que essa proporção
de representação tenha sido diminuída posteriormente, pois,
na medida em que as crianças sintam que são criadoras orgânicas
da escola, elas podem perfeitamente tomar parte do trabalho
de sua administração e da sua prática educativa. Fundamental
importância é a recepção que os veteranos oferecem aos calouros.
Todos
os cargos do coletivo deverão ser preenchidos por eleição
através da Assembléia Geral das Crianças, a qual se constitui
na autoridade suprema e no princípio fundamental do coletivo.
A duração das funções elegíveis é fixada a noventa dias,
e deve-se “orientar as crianças para a renovação constante
dos organismos elegíveis, dando lugar aos novos e fazendo
os administradores veteranos voltar às fileiras” (p. 157).
Rotatividade nos cargos para impedir a formação de crianças
“especialistas” em administrar, relegando as demais na passividade,
é a meta de Pistrak em relação ao coletivo infantil. Em
suma, “a criatividade deve ser o objeto de uma educação,
conforme os objetivos fundamentais ditados à escola pelo
período atual do poder soviético” (p. 158).
Pistrak
fundamenta, portanto, uma proposta educacional baseada na
auto-organização das crianças e na autonomia exercida ativamente
através da cooperação infantil consciente. Nesse
sistema, o professor será o amigo, o companheiro mais velho.
Vinte anos depois, na Espanha, a C. N. T. (Confederação
Nacional do Trabalho) implantaria, entre 1936 e 1939, igual
esquema educativo fundado na auto-gestão e na liberdade,
mas isso é outra história.
Pelo
que enunciamos anteriormente, Pistrak insere-se na linha
dos grandes educadores, para quem a educação é também uma
forma de ação político-social, que não se limita a interpretar
o mundo, mas que
procura pela prática educativa, desenvolver uma ação transformadora
do real. É o grande educador da III Internacional, assim
como Kautsky o fora da II Internacional, e como Bakunin,
Proudhon e Marx que desenvolveram as propostas pedagógicas
da I Internacional. No que se refere à educação, o movimento
operário internacional sempre esteve presente, como prova
a Escola do Trabalho de Pistrak, uma real contribuição à
pedagogia socialista.