O
pensamento marxiano tem suas bases fundadas
na análise da sociedade burguesa no contexto
da revolução industrial, quando ocorreram
transformações muito grandes na forma como
o homem explorava os recursos naturais e
produzia bens. Isto está em consonância
com um movimento muito interessante ocorrido
na primeira metade do século XIX, onde houve
uma grande aproximação entre a produção
intelectual de vários pensadores da época
e as demandas dos operários europeus, que
precisavam de um respaldo teórico em que
pudessem embasar suas lutas por melhores
condições de vida e trabalho. A obra de
Marx esteve, portanto, desde o começo intimamente
ligada às lutas do proletariado e também
teve como importante função colaborar com
esses na interpretação de sua realidade
cotidiana, possibilitando-os um melhor entendimento
dos mecanismos que regiam a exploração
de seu trabalho e pelos quais eram espoliados
dos dividendos que sua força de trabalho
produzia. Marx aponta para a contradição
insanável do sistema capitalista: caráter
social da produção versus apropriação
privada do resultado do trabalho; que pode
também ser representado sob a forma proletariado
versus donos dos meios de produção.
A tensão gerada a partir dessa contradição,
seria o motor da história – luta de classes.
Fica
claro assim, que desde sua gênese a teoria
de Marx esteve intimamente ligada com a
práxis humana. Dessa forma, o trabalho
aparece como sendo a base das relações entre
os homens. Como o trabalho, enquanto processo
de produção da existência humana, caracteriza-se
por seu aspecto social, há um rompimento
com o paradigma do homem como ser apenas
natural, o homem é então entendido como
um ser que se constrói inserido em um processo
social dentro de uma dialogia com a natureza.
O ser social, passa a ser concebido como
dotado de estruturas e dinâmicas próprias,
estando ligado à natureza, contudo diferenciando-se
da mesma – sua parte natural é então entendida
em uma medida orgânica. Dentro da dialética
homem natureza, o ser humano diferencia-se
da mesma cumulando saberes que por sua vez
retroalimentarão esse processo dialético,
que a partir de necessidades materiais que
surgirem levará sempre a novos desdobramentos.
Ou seja, esse materialismo dialético, toma
como dado primário o mundo material sendo
a consciência um desdobramento, um reflexo
desse no homem. Privilegia dessa forma,
o movimento, o constante devir do social
em função da tensão gerada pelas novas demandas
materiais e pela luta de classes. Essa diferenciação
entre ser natural e social, teve como importante
conseqüência o declínio dos processos de
analogia direta entre os conhecimentos acerca
da natureza e os que se referiam ao homem.
O
pensamento crítico dentro da medicina começou
no final dos anos 60, com as primeiras manifestações
da crise que o mundo capitalista vive hoje.
Referiu-se à prática médica e à concepção
da doença e suas causas nos processos sociais,
muito além da tríade hospedeiro, agente
e ambiente. Embora tenha ocorrido a comprovação
do caráter social e histórico da doença,
não existe a repercussão na prática, o que
poderia desmitificar o ideal de igualdade
entre os homens frente ao risco de adoecer.
A saúde pública de hoje desenvolve a prática
de análise e distribuição social da doença
através de um enfoque clínico-biologicista,
pois a sociedade capitalista não pode assumir
a causalidade social da doença; tal responsabilidade
destruiria o modelo de uma burguesia que
organiza a sociedade para o bem de todos.
Partindo
do pressuposto que a epidemiologia não estuda
a doença no indivíduo, mas na coletividade,
em uma forma de organização social; a definição
de um objeto de estudo de caráter social
que determine causalidade requer o entendimento
das relações do grupo escolhido com outros
grupos da sociedade e a compreensão da dimensão
dessas relações enquanto fenômenos sociais,
inseridas em um contexto muito mais amplo.
O materialismo histórico é a teoria social
capaz de explicar o processo saúde-doença
através de uma interpretação científica
da realidade, assumindo um compromisso com
o projeto de mudança no pensamento epidemiológico,
voltado para a busca da causalidade no social,
porque conduz à saúde ou à doença, deflagrando
uma contradição dialética.
Através
de sua atividade social e histórica, o homem
tem produzido mudanças que conduzem a humanidade
a voltar suas vidas para um sistema de produção
e consumo que não corresponde às suas necessidades
reais; em que vive-se mais tempo na doença
que na saúde, apesar de todo o desenvolvimento
tecnológico. LUKÁCS expressa de maneira
clara a conseqüência do progresso econômico
no surgimento de conflitos:
“O
progresso é decerto uma síntese das atividades
humanas, mas não o aperfeiçoamento no sentido
de uma teleologia qualquer: por isso, esse
desenvolvimento destrói continuamente os
resultados primitivos que, embora belos,
são economicamente limitados; por isso,
o progresso econômico objetivo aparece sempre
sob a forma
de novos conflitos sociais.”
O
estudo do processo saúde-doença vem sendo
discutido pela clínica, a partir de um paradigma
reducionista, que analisa o homem como um
agregado de funções biológicas e físicas,
recorrendo limitadamente às suas características
sociais, psíquicas e enquanto parte integrante
de uma sociedade. A epidemiologia clínica
faz, portanto, uma análise do fator coletivo
como um conjunto de fatos individuais, fortalecendo
o grande capital, ao passo que propõe o
avanço “social” por meios tecnológicos e
atua segundo padrões de custo-benefício
e cobertura alcançada. O aumento da demanda
de serviços é maior que a oferta, deixando
boa parte da população sem atendimento e
aumentando o número de casos patológicos
que poderiam ser evitados. Essa prática
exerce poder hegemônico sobre a sociedade,
impedindo a construção sócio-estrutural
da questão epidemiológica, com intuito de
desviar a discussão dos conflitos e desigualdades
sociais.
Em
contrapartida, surge a necessidade de reformular
os métodos de atuação no estudo do processo
saúde-doença, direcionando as suas possibilidades
explicativas para a dimensão coletiva. A
epidemiologia social se apóia, principalmente,
nas ciências sociais e naturais, explicando
os problemas de saúde através dos “...
processos de deterioração ocorridos no trabalho
e consumo das classes sociais e suas frações,
processos estes vinculados à reprodução
geral da estrutura capitalista e às condições
políticas e culturais que dela derivam.”
(BREILH:1991, p. 40)
Entre
os pesquisadores da área de saúde, um considerável
número aplica o materialismo histórico à
determinação e distribuição (fundamentos
da epidemiologia) para superar a visão pragmática,
analisar a estrutura social e demonstrar
que de acordo com a classe em que estão
inseridos, os homens tornam-se diferentes
frente ao processo de adoecer e suas patologias
também são distintas. Partindo desse princípio,
é possível questionar a concepção hegemônica
da clínica e dos perfis “saúde e doença”,
“normal e patológico”. Além disso, elaborar
propostas que venham a suprir as necessidades
da população e construir um novo caminho
que supere as frustrações do projeto lucrativo
capitalista.
A
ruptura dos moldes epidemiológicos requer
um processo de reformulação, que permita
a interpretação dos problemas de saúde das
classes sociais através de um estudo que
seja sustentado pela crítica à epidemiologia
marcada por normas de eficiência e efetividade,
características de um modo de produção capitalista.
A investigação em saúde apoiada nas leis
do materialismo histórico, requer um objeto
de estudo direcionado ao julgamento das
concepções hegemônicas sobre o processo
saúde-doença, a fim de elaborar propostas
coerentes ao interesse da população.
O
ponto de vista adotado pelo investigador
determina suas escolhas e rejeições, expressos
na sua fundamentação teórica, na construção
de suas hipóteses e na sua relação com o
próprio objeto.Se o ponto de vista adotado
for condicionado pelos princípios positivistas,
segue o método sociológico de Auguste Comte,
fundamentado em duas premissas essenciais:
“... a assimilação do social pelo natural
(naturalismo positivista que pressupõe uma
harmonia natural reinando na vida social)
e compreensão do social como sendo regido
por leis naturais, invariáveis e independentes
da vontade humana.” (BREILH, p.50).
Mais tarde, Emile Durkheim retomou o método
comteano, afirmando que fatos sociais são
sujeitos a leis naturais, reconhecendo-os
como “coisas”, introduzindo como válido
socialmente o princípio darwinista de sobrevivência
dos mais aptos. Entre estas “coisas”está
o processo saúde-doença, que se desenvolve
exposto a fatores do meio, aos agentes físicos,
químicos, orgânicos e a “coisa social”,
estudado por cientistas que comprometeram-se
com uma dinâmica de acumulação econômica
e legitimação política das sociedades capitalistas
avançadas.
Ao
assumir a ideologia do naturalismo social,
a investigação em saúde restringe-se à coleta de dados que distribuem a doença segundo
sexo, idade e lugares e à adoção de medidas
paliativas e campanhas de prevenção, afastando-se
da discussão a respeito das leis e causas
essenciais. Não pode-se negar as contribuições
trazidas à humanidade pelas descobertas
microbacteriológicas e pelo aperfeiçoamento
das técnicas e análises quantitativas, mesmo
sabendo que surgiram a partir do desenvolvimento
do projeto capitalista; mas as explicações
extra-objetivas e reducionistas que fogem
às relações homem-sociedade acabam resultando
na perda da objetividade da pesquisa, pois
ajustam-se à demonstração mistificadora
de um sujeito dominante.
Marx,
ao erigir sua interpretação da história
e da sociedade burguesa, construiu simultaneamente
as bases metodológicas e epistemológicas
que orientaram seu estudo. Buscou sempre
partir do real, dos acontecimentos concretos
para, a partir disso, elaborar um conhecimento
que, posteriormente, reinseria na realidade
a fim de observar (testar) as relações e
conexões que haviam sido intelectualmente
elaboradas. Assim, para compreender um fenômeno
social devemos remeter as bases materiais
em que os sujeitos em questão estão inseridos,
uma vez que seria a partir dessa que suas
consciências seriam produzidas, e levar
em conta a questão da luta de classes, dominação
e alienação. Pode-se entender o conhecimento
científico constituído nessas bases, não
somente como uma ferramenta que tem como
função compreender o mundo, mas também como
a constituição de uma possibilidade de transformação
da realidade a partir dos caminhos apontados
pelo processo de elaboração intelectual.
Ainda é importante frisar, que a transformação
dentro dessa linha teórica é orientada na
direção – em favor – das camadas que tem
sua força de trabalho explorada, e que seriam
para Marx, os produtores reais da riqueza
do homem.
A
compreensão da distribuição desigual das
possibilidades no setor saúde e dos efeitos
patológicos que afetam as classes sociais,
interessa àqueles que constituem o pólo
social dominado (o proletariado e seus aliados
democráticos), para superar os obstáculos
que impedem o aproveitamento geral e igualitário
dos meios de subsistência. Segundo Breilh,
o proletariado é o único grupo social capaz
de contestar as amarras individuais-mercantis
e resgatar o valor do uso para o bem comum,
visando a concatenação e mobilização dos processos sociais e naturais,
por ter um horizonte de visibilidade geral;
diferente do trabalho científico burguês
que expõe com limitações a realidade, que
acha-se distorcida pelo viés mercantil de
sua ótica. O desenvolvimento desse ponto
de vista torna-se urgente no campo sanitário,
onde está aumentando a deterioração da saúde
da maioria da população, a fim de adotar
um pensamento científico que esteja apto
a romper as amarras que ligam a epidemiologia
à Saúde Pública positivista e fenomenológica.
A
adoção de tal metodologia permitiria a reinterpretação
do fenômeno epidemiológico, através de um
contexto de visibilidade totalizador, desmitificando
a interpretação dominante dos problemas
de saúde e doença e participando, com algum
rigor, no desenvolvimento de uma parte da
consciência social. Assim, estaria mais
próximo o alcance de uma complexa ação preventiva
de natureza social, econômica e cultural
– muito além da simples cura da doença –
traçando uma política nacional que atue
sobre toda a população, com intuito de promover
o bem-estar, evitando as desigualdades sociais
e econômicas.