Por LACITA MENEZES SKALINSKI
Bolsista do PIBIC / CNPq-UEM

 

O método marxiano de investigação em saúde

 

Karl MarxO pensamento marxiano tem suas bases fundadas na análise da sociedade burguesa no contexto da revolução industrial, quando ocorreram transformações muito grandes na forma como o homem explorava os recursos naturais e produzia bens. Isto está em consonância com um movimento muito interessante ocorrido na primeira metade do século XIX, onde houve uma grande aproximação entre a produção intelectual de vários pensadores da época e as demandas dos operários europeus, que precisavam de um respaldo teórico em que pudessem embasar suas lutas por melhores condições de vida e trabalho. A obra de Marx esteve, portanto, desde o começo intimamente ligada às lutas do proletariado e também teve como importante função colaborar com esses na interpretação de sua realidade cotidiana, possibilitando-os um melhor entendimento  dos mecanismos que regiam a exploração de seu trabalho e pelos quais eram espoliados dos dividendos que sua força de trabalho produzia. Marx aponta para a contradição insanável do sistema capitalista: caráter social da produção versus apropriação privada do resultado do trabalho; que pode também ser representado sob a forma proletariado versus donos dos meios de produção. A tensão gerada a partir dessa contradição, seria o motor da história – luta de classes.

Fica claro assim, que desde sua gênese a teoria de Marx esteve intimamente ligada com a práxis humana. Dessa forma, o trabalho aparece como sendo a base das relações entre os homens. Como o trabalho, enquanto processo de produção da existência humana, caracteriza-se por seu aspecto social, há um rompimento com o paradigma do homem como ser apenas natural, o homem é então entendido como um ser que se constrói inserido em um processo social dentro de uma dialogia com a natureza. O ser social, passa a ser concebido como dotado de estruturas e dinâmicas próprias, estando ligado à natureza, contudo diferenciando-se da mesma – sua parte natural é então entendida em uma medida orgânica. Dentro da dialética homem natureza, o ser humano diferencia-se da mesma cumulando saberes que por sua vez retroalimentarão esse processo dialético, que a partir de necessidades materiais que surgirem levará sempre a novos desdobramentos. Ou seja, esse materialismo dialético, toma como dado primário o mundo material sendo a consciência um desdobramento, um reflexo desse no homem. Privilegia dessa forma, o movimento, o constante devir do social em função da tensão gerada pelas novas demandas materiais e pela luta de classes. Essa diferenciação entre ser natural e social, teve como importante conseqüência o declínio dos processos de analogia direta entre os conhecimentos acerca da natureza e os que se referiam ao homem.

O pensamento crítico dentro da medicina começou no final dos anos 60, com as primeiras manifestações da crise que o mundo capitalista vive hoje. Referiu-se à prática médica e à concepção da doença e suas causas nos processos sociais, muito além da tríade hospedeiro, agente e ambiente. Embora tenha ocorrido a comprovação do caráter social e histórico da doença, não existe a repercussão na prática, o que poderia desmitificar o ideal de igualdade entre os homens frente ao risco de adoecer. A saúde pública de hoje desenvolve a prática de análise e distribuição social da doença através de um enfoque clínico-biologicista, pois a sociedade capitalista não pode assumir a causalidade social da doença; tal responsabilidade destruiria o modelo de uma burguesia que organiza a sociedade para o bem de todos.

Partindo do pressuposto que a epidemiologia não estuda a doença no indivíduo, mas na coletividade, em uma forma de organização social; a definição de um objeto de estudo de caráter social que determine causalidade requer o entendimento das relações do grupo escolhido com outros grupos da sociedade e a compreensão da dimensão dessas relações enquanto fenômenos sociais, inseridas em um contexto muito mais amplo. O materialismo histórico é a teoria social capaz de explicar o processo saúde-doença através de uma interpretação científica da realidade, assumindo um compromisso com o projeto de mudança no pensamento epidemiológico, voltado para a busca da causalidade no social, porque conduz à saúde ou à doença, deflagrando uma contradição dialética.

Através de sua atividade social e histórica, o homem tem produzido mudanças que conduzem a humanidade a voltar suas vidas para um sistema de produção e consumo que não corresponde às suas necessidades reais; em que vive-se mais tempo na doença que na saúde, apesar de todo o desenvolvimento tecnológico. LUKÁCS expressa de maneira clara a conseqüência do progresso econômico no surgimento de conflitos:

“O progresso é decerto uma síntese das atividades humanas, mas não o aperfeiçoamento no sentido de uma teleologia qualquer: por isso, esse desenvolvimento destrói continuamente os resultados primitivos que, embora belos, são economicamente limitados; por isso, o progresso econômico objetivo aparece sempre sob a  forma de novos conflitos sociais.”

O estudo do processo saúde-doença vem sendo discutido pela clínica, a partir de um paradigma reducionista, que analisa o homem como um agregado de funções biológicas e físicas, recorrendo limitadamente às suas características sociais, psíquicas e enquanto parte integrante de uma sociedade. A epidemiologia clínica faz, portanto, uma análise do fator coletivo como um conjunto de fatos individuais, fortalecendo o grande capital, ao passo que propõe o avanço “social” por meios tecnológicos e atua segundo padrões de custo-benefício e cobertura alcançada. O aumento da demanda de serviços é maior que a oferta, deixando boa parte da população sem atendimento e aumentando o número de casos patológicos que poderiam ser evitados. Essa prática exerce poder hegemônico sobre a sociedade, impedindo a construção sócio-estrutural da questão epidemiológica, com intuito de desviar a discussão dos conflitos e desigualdades sociais.

Em contrapartida, surge a necessidade de reformular os métodos de atuação no estudo do processo saúde-doença, direcionando as suas possibilidades explicativas para a dimensão coletiva. A epidemiologia social se apóia, principalmente, nas ciências sociais e naturais, explicando os problemas de saúde através dos “... processos de deterioração ocorridos no trabalho e consumo das classes sociais e suas frações, processos estes vinculados à reprodução geral da estrutura capitalista e às condições políticas e culturais que dela derivam.” (BREILH:1991, p. 40)

Entre os pesquisadores da área de saúde, um considerável número aplica o materialismo histórico à determinação e distribuição (fundamentos da epidemiologia) para superar a visão pragmática, analisar a estrutura social e demonstrar que de acordo com a classe em que estão inseridos, os homens tornam-se diferentes frente ao processo de adoecer e suas patologias também são distintas. Partindo desse princípio, é possível questionar a concepção hegemônica da clínica e dos perfis “saúde e doença”, “normal e patológico”. Além disso, elaborar propostas que venham a suprir as necessidades da população e construir um novo caminho que supere as frustrações do projeto lucrativo capitalista.

A ruptura dos moldes epidemiológicos requer um processo de reformulação, que permita a interpretação dos problemas de saúde das classes sociais através de um estudo que seja sustentado pela crítica à epidemiologia marcada por normas de eficiência e efetividade, características de um modo de produção capitalista. A investigação em saúde apoiada nas leis do materialismo histórico, requer um objeto de estudo direcionado ao julgamento das concepções hegemônicas sobre o processo saúde-doença, a fim de elaborar propostas coerentes ao interesse da população.

O ponto de vista adotado pelo investigador determina suas escolhas e rejeições, expressos na sua fundamentação teórica, na construção de suas hipóteses e na sua relação com o próprio objeto.Se o ponto de vista adotado for condicionado pelos princípios positivistas, segue o método sociológico de Auguste Comte, fundamentado em duas premissas essenciais: “... a assimilação do social pelo natural (naturalismo positivista que pressupõe uma harmonia natural reinando na vida social) e compreensão do social como sendo regido por leis naturais, invariáveis e independentes da vontade humana.” (BREILH, p.50). Mais tarde, Emile Durkheim retomou o método comteano, afirmando que fatos sociais são sujeitos a leis naturais, reconhecendo-os como “coisas”, introduzindo como válido socialmente o princípio darwinista de sobrevivência dos mais aptos. Entre estas “coisas”está o processo saúde-doença, que se desenvolve exposto a fatores do meio, aos agentes físicos, químicos, orgânicos e a “coisa social”, estudado por cientistas que comprometeram-se com uma dinâmica de acumulação econômica e legitimação política das sociedades capitalistas avançadas.

Ao assumir a ideologia do naturalismo social, a investigação em saúde restringe-se  à coleta de dados que distribuem a doença segundo sexo, idade e lugares e à adoção de medidas paliativas e campanhas de prevenção, afastando-se da discussão a respeito das leis e causas essenciais. Não pode-se negar as contribuições trazidas à humanidade pelas descobertas microbacteriológicas e pelo aperfeiçoamento das técnicas e análises quantitativas, mesmo sabendo que surgiram a partir do desenvolvimento do projeto capitalista; mas as explicações extra-objetivas e reducionistas que fogem às relações homem-sociedade acabam resultando na perda da objetividade da pesquisa, pois ajustam-se à demonstração mistificadora de um sujeito dominante.

Marx, ao erigir sua interpretação da história e da sociedade burguesa, construiu simultaneamente as bases metodológicas e epistemológicas que orientaram seu estudo. Buscou sempre partir do real, dos acontecimentos concretos para, a partir disso, elaborar um conhecimento que, posteriormente, reinseria na realidade a fim de observar (testar) as relações e conexões que haviam sido intelectualmente elaboradas. Assim, para compreender um fenômeno social devemos remeter as bases materiais em que os sujeitos em questão estão inseridos, uma vez que seria a partir dessa que suas consciências seriam produzidas, e levar em conta a questão da luta de classes, dominação e alienação. Pode-se entender o conhecimento científico constituído nessas bases, não somente como uma ferramenta que tem como função compreender o mundo, mas também como a constituição de uma possibilidade de transformação da realidade a partir dos caminhos apontados pelo processo de elaboração intelectual. Ainda é importante frisar, que a transformação dentro dessa linha teórica é orientada na direção – em favor – das camadas que tem sua força de trabalho explorada, e que seriam para Marx, os produtores reais da riqueza do homem.

A compreensão da distribuição desigual das possibilidades no setor saúde e dos efeitos patológicos que afetam as classes sociais, interessa àqueles que constituem o pólo social dominado (o proletariado e seus aliados democráticos), para superar os obstáculos que impedem o aproveitamento geral e igualitário dos meios de subsistência. Segundo Breilh, o proletariado é o único grupo social capaz de contestar as amarras individuais-mercantis e resgatar o valor do uso para o bem comum, visando a concatenação  e mobilização dos processos sociais e naturais, por ter um horizonte de visibilidade geral; diferente do trabalho científico burguês que expõe com limitações a realidade, que acha-se distorcida pelo viés mercantil de sua ótica. O desenvolvimento desse ponto de vista torna-se urgente no campo sanitário, onde está aumentando a deterioração da saúde da maioria da população, a fim de adotar um pensamento científico que esteja apto a romper as amarras que ligam a epidemiologia à Saúde Pública positivista e fenomenológica.

A adoção de tal metodologia permitiria a reinterpretação do fenômeno epidemiológico, através de um contexto de visibilidade totalizador, desmitificando  a interpretação dominante dos problemas de saúde e doença e participando, com algum rigor, no desenvolvimento de uma parte da consciência social. Assim, estaria mais próximo o alcance de uma complexa ação preventiva de natureza social, econômica e cultural – muito além da simples cura da doença – traçando uma política nacional que atue sobre toda a população, com intuito de promover o bem-estar, evitando as desigualdades sociais e econômicas.

 

LACITA MENEZES SKALINSKI

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Referências:

BREILH, Jaime. Epidemiologia, Economia, Política e Saúde. São Paulo: Hucitec,1991.

LUKÁCS, George. As Bases Ontológicas do Pensamento e da Atividade do Homem. Revista Temas de Ciências Humanas.São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas, v.4, 1978, p.1-18.


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