Cotas para
negros na mídia?
A
determinação da UERJ em destinar vagas para estudantes negros
e pardos em seu vestibular só ganhou notoriedade quando
os filhos da classe média branca começaram a sentir na pele
o que é ser preterido por sua cor.
Menos relevante neste caso é saber se a determinação é inconstitucional.
Se ela não é ideal, é forma de reparar os anos de escravidão
com a massa que migrou das senzalas para as favelas.
Segundo o Dieese, um trabalhador negro da região metropolitana
de Salvador, capital com o maior proporção de negros no
país, recebe em média cerca de 51% do que um não-negro.
Basta lembrar que 64% dos pobres são negros, frutos da falta
de visão histórica dos eurodescendentes.
Entretanto a reserva de 40% das vagas abre precedentes para
injustiças. Um exemplo é a dificuldade maior que os migrantes
nordestinos, descentes de holandeses e portugueses, terão
de ingressar nas faculdades. Mais sensato e dentro da nossa
realidade, seria a reserva de vagas para alunos de escolas
públicas.
Os defensores das ações afirmativas apontam que não. Que
este foi o recurso essencial da ascenção que os negros norte-americanos
tiveram em diversas áreas, incluindo a mídia. Mas as causas
do racismo no Brasil são as mesmas que as dos EUA? São as
mesmas as separações de classes? Corremos mais uma vez o
risco de ser chamados de 'los macaquitos'.
A determinação de vagas não é nova já foi usada também para
excluir. Em 1887, o governo anti-semita do czar Alexandre
III destinou uma cota máxima de 5% para judeus do corpo
discente de ginásios e universidades em todo o Império Russo.
Estes 40% destinados a negros e pardos também não são um
limite máximo?
Na mídia os negros são tão excluídos quanto nas universidades.
O modelo de imitação americana também prevalece. Quando
aparecem negros são em casais da mesma raça ou seguidos
de descendentes de asiáticos. O moreno e o índio são quase
excluídos da programação da tv. Os comerciais adotam a mesma
fórmula dos shows de realidade: diversos brancos, dois ou
três negros e um ou outro asiático.
A interracialidade, tão comum no Brasil, é varriada para
debaixo do pano. Está virando moda usar negros para chegar
ao público branco descolado. "Está vendo? Não sou racista,
meu celular é daquela marca que tem aquele 'negão'!" E assim
os preconceitos caminham...
Algumas medidas são lentamente tomadas para modificar o
caso. A Caixa Econômica Federal retirou recentemente de
circulação uma cartilha de prevenção de golpes em que os
bandidos eram negros e as vítimas brancas. Mas isto é apenas
o começo de uma série de atitudes veladas.
Se as cotas fossem aprovadas para a mídia a coloração da
tv certamente mudaria. Os situacionistas mantém o discurso
que a propaganda não é propulsora mas espelho dos preconceitos
da sociedade. Os que desejam uma ação afirmativa afirmam
que a mídia deve exercer sua parcela de responsabilidade
social e não a deixar apenas no discurso.
A conseqüência está na reparação das desigualdades de acordo
com a mais recente Conferência Mundial Contra o Racismo.
O impacto destas transformações pode transformar nosso racismo
oculto em racismo "culto" com milhares de justificativas
em relação a igualdade de possibilidades, livre concorrência,
negativa de privilégios e etc.
Seja quais forem os resultados, a determinação da UERJ põe
em voga um assunto que ficava esquecido entre a Casa Grande
e a Senzala: os nossos medos e preconceitos. Uma questão
de bom senso.