Por HENRIQUE SAMET

Mestre em História, é coordenador do setor Português-Hebraico da UFRJ

 

HEROÍSMO

O levante do Gueto de Varsóvia e a sobrevivência judaica*

Henrique Samet

 

Em 19 de abril de 1943 irrompeu o levante do Gueto de Varsóvia, na retaguarda da frente de guerra nazista, golpeada, mas ainda não destruída, após a derrota e capitulação do 6º Exército alemão na Batalha de Stalingrado (2 de fevereiro de 1943).

Após El Alamein, no Egito, e Stalingrado, a certeza da derrota do nazi-fascismo era uma questão de tempo para os aliados, compartilhada até por facções consideráveis do alto comando militar e político alemão. Mas, contrariando qualquer racionalidade militar, parte do esforço de guerra nazista continuou alocado na faina diabólica de exterminar etnias e segmentos humanos estigmatizados, em especial, e com uma rapidez mórbida, os judeus.

O pano de fundo do levante situou-se, pois, entre uma esperança ainda longínqua de vitória e a constatação de que provavelmente ela chegaria tarde para salvar vidas. O gueto de Varsóvia abarcava, no princípio de 1942, meio milhão de pessoas, desalojadas dos bairros da cidade e de pequenos guetos no interior do país, isoladas em um exíguo perímetro urbano e nele submetidas a pavorosas condições de vida. Em abril de 1943, os remanescentes reduziam-se talvez a trinta mil. A revolta foi o grito final de uma comunidade exangue, sobrevivente das sucessivas deportações para campos de extermínio instalados no leste da Polônia, desprovida de meios de subsistência e carente de poder bélico, mas que surpreendeu os alemães, prolongando-se a resistência armada, organizada e esporádica, por dois a três meses.

Hoje, sessenta anos depois, temos sobre esses eventos mais informação, mas não uma apreensão uniforme. Á memória viva daqueles que experimentaram na carne o horror sucede um legado histórico de martírios e heroísmos que não só devemos reverenciar, mas que nos obriga a refletir sobre nossa condição humana e judaica.

Naquelas circunstâncias extremas, diferentes percepções da vida e do mundo presentes na rua judaica foram capazes de chegar a um consenso sobre a derradeira fronteira do significado de “ser judeu” e de “sobrevivência judaica”. Assim, prepararam contra o inimigo uma reação consciente na qual procuraram, menos que uma impossível vitória, preservar a dignidade judaica e humana e rejeitar uma “solução final” de ambas. O aparato genocida fez emergir o desejo conjunto de fincar na consciência dos povos e na memória judaica a lembrança pétrea de que não mais iríamos como gado ao matadouro.


A História judaica é rica em dissensos


Mas o Holocausto e o levante nos propõem um desafio: atualizar constantemente este lembrar nas circunstâncias históricas em que vivemos; identificar se estamos nesta última linha de defesa, esse “não mais” do qual se torna impossível recuar.

O exercício da solidariedade judaica está e esteve sempre em pauta. Quais seriam, nas tensões entre unidade e diversidade, os momentos em que uma afinidade de origem ou vivência deveria prevalecer sobre as naturais diferenças de concepção do mundo que segmentavam e segmentam a vida judaica? Existem critérios para julgar os consensos e/ou dissensos dentro da história da “nação”?

Aos mais afoitos, aconselharia cautela. Desde a Antigüidade, a História judaica, ao contrário do que um exame superficial possa sugerir, é rica em dissensos, mesmo em circunstâncias em que esteve em jogo a própria noção de sobrevivência nacional ou física dos judeus. Os profetas Ezequiel e Jeremias tinham suas próprias opiniões a respeito da inutilidade de uma resistência aos babilônios, mesmo sendo estas em bases teológicas; zelotes, sicários e Massada, de um lado, e rabi Iohanan Ben Zakai, de outro, nos evidenciam reações completamente diferenciadas frente ao invasor romano.

Por outro lado, o Holocausto, o surgimento do Estado de Israel, a Guerra dos Seis Dias despertaram em diferentes extratos das coletividades judaicas no mundo um senso comum de apreensão, angústia, traumas e fantasmas, a noção de que estava em jogo mais do que um embate rotineiro.

A coesão política dos judeus não é, pela própria essência, uma decisão unilateral ou propriedade particular de um grupo; não é também um fato comum. Frente a circunstâncias tidas como adversas, nunca foi automática a formação de uma unidade judaica. Consensos, convergências foram momentos especiais produzidos por acontecimentos únicos. Não devemos cair na tentação de tomar como evidente o que nem sempre o foi.

Na própria luta antinazista, por exemplo, cada momento da trajetória  hitlerista produziu nos movimentos judaicos estratégias diferenciadas que estes julgavam apropriadas na ocasião. Chaim Arlozoroff, em nome da organização sionista, negociou em 1933 com o establishment nazista um acordo – Haavará, em hebraico – que permitia aos judeus alemães migrar para Israel e retirar em forma de mercadorias parte de suas economias congeladas em bancos alemães. Este fato possibilitou, até 1938, a saída e sobrevivência de muitos. Por esta “traição”, Chaim Arlozoroff foi assassinado por grupos simpáticos ao revisionismo.

Em outro momento, devido ao surpreendente Pacto Ribentropp-Molotov, assinado em 1939, os judeus progressistas ficaram, por orientações partidárias, paralisados até 1941 na luta contra seus carrascos.

O movimento sionista em Israel talvez pudesse ter dado uma prioridade maior ao que se passava no coração da Europa, mas a luta pela construção de um Estado judeu e uma concepção pejorativa do que seria a Diáspora inibiram uma maior concentração de esforços. Após a guerra, o sionismo e a comunidade judaica em geral  talvez pudessem ter dado mais atenção aos sobreviventes do Holocausto em lugar de fazer  uso político do Holocausto.

Trazendo a questão para o âmbito doméstico, desde 1933, seguindo orientações de suas centrais ideológicas, judeus comunistas e sionistas não conseguiram formar no Brasil uma frente interna antifascista. Quando, a partir de 1934, o Komintern, mudando radicalmente de orientação, empenhou-se na formação das grandes frentes populares contra o nazi-fascismo em todos os países, aqui no Brasil as organizações progressistas excluíram os sionistas desta coligação e estes não se mostraram, na verdade, interessados em integrá-la.

Os sionistas e as lideranças comunitárias judaicas brasileiras fizeram só uma grande manifestação antinazista, em 30 de março de 1933,nas ruas da cidade do Rio de Janeiro, que deveria terminar no Teatro República, na avenida Gomes Freire. Proibido o ato pela polícia pouco antes de sua realização, as pessoas presentes em volta do teatro foram dispersas com violência. A repressão se estendeu à praça Onze, chegando a polícia a violar a sinagoga Beit Israel, na rua de Sant’Anna, 22, o que mereceu uma única reação “oficial”, a do rabino Isaias Raffalovich, que remeteu carta de protesto ao ministro da Justiça, Francisco Antunes Maciel. Este a endereçou ao chefe de polícia, Felinto Muller, que, por sua vez, designou a DESPS (Delegacia Especial de Segurança Política e Social, posteriormente DOPS) para respondê-la. O delegado especial capitão Afonso Henrique Miranda Correa alegou que na manifestação houvera infiltração de comunistas e ela ameaçava as relações com nações amigas do Brasil, entenda-se aí a Alemanha

Em 1934, ensaiou-se uma mobilização comunitária através da criação da Confederação Israelita Brasileira, cuja missão seria lutar principalmente contra os integralistas. A solenidade de fundação da entidade foi marcada para 25 de novembro, na sede do Centro Bnei Hertzl, na rua Conselheiro Josino, 14. Desta Confederação Israelita Brasileira pouco se ouve falar nos anos dramáticos de 1935 a 1937.

Outras táticas, menos de confronto direto e mais de dissuasão, foram tentadas. O rabino Isaias Raffalovich, em suas memórias, relata seu encontro pessoal e cordial com Plínio Salgado, tentando convencê-lo a não veicular idéias, propaganda e ação anti-semitas.

Aqueles que participaram do levante do Gueto de Varsóvia talvez ficassem chocados com as disputas que se travaram na comunidade carioca na década de 1950 em torno das solenidades relativas ao levante, a ponto de se articularem dois eventos separados. O consenso no fragor da luta se transformou em dissenso político em torno da apropriação de sua lembrança.


Judeus comunistas e sionistas nao conseguiram formar no Brasil uma frente interna antifascista

Esses exemplos históricos nos mostram que as convergências, percebidas posteriormente como necessárias, nem sempre se deram. Para nós, historiadores “distanciados” ou “engajados” na confortável posição de “lâmina crítica” a posteriori, seria fácil adjetivar tais dissensos como produto de desinformação, cegueira, traição, medo, inércia, acomodação etc.

Mas o objetivo não é rever o passado e sim sustentar que não devemos banalizar o argumento da sobrevivência judaica para forçar a necessidade de um consenso para todo e qualquer conflito e para todo e qualquer momento de um conflito; há que se ter cuidado contra falsas questões que nos são postas à frente, reduzidas a lutas entre “nós” e “eles”, polarizações dualistas como entre universalismo versus nacionalismo, utopistas versus realistas, direitos judaicos versus direitos humanos.

Devemos honrar eternamente os rapazes e moças que no Gueto de Varsóvia se levantaram em armas e souberam ver na escuridão uma hora de verdade coletiva. Eles morreram al kidush ha-Shem [pelo Santo Nome], no caso, uma santidade especial, que pede, como Deus pediu, para não mencionar Seu nome em vão. O Holocausto e o levante não devem se prestar ao papel de instrumento político e ideológico para detratar os dissensos ou ilegitimar oposições políticas, não devem servir de mote a inspirações extremistas.

A mitzvá histórica dos judeus não é somente lembrar, mas o que e como lembrar, uma abordagem que implica o dever do discernimento e não uma espécie de gestão unilateral da lembrança. No caso do levante, reverenciar a possibilidade da ação comum entre divergentes.

Em Israel, no Iad Vashém, participei de debates entre aqueles que davam ao Holocausto judaico um significado transcendental, considerando-o como uma categoria única, conceito intransferível para situações alheias, e os que lhe atribuíam um significado universal transferível, de advertência e até mesmo constatação de até onde vai a espécie humana quando se exacerbam as visões etnocentradas.

Os heróis do gueto souberam construir um consenso de sangue, um “não” imortal aos afãs dos predadores da raça humana passados e presentes, transformando-se em ponta de lança de um solidarismo judaico e humanista, com preocupações viscerais em relação às vidas de irmãos de sangue e também, quase como corolário, dos irmãos da espécie nos embates da História.

 

HENRIQUE SAMET

VERSÃO WORD [ZIP]    

*Publicado in: ASAÓrgão Informativo e de Divulgação da Associação Scholem Aleichem de Cultura e Recreação - Ano XIV, Nº 82, Maio/Junho de 2003, pp.04-05.



http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2003 - Todos os direitos reservados