É possível uma refundação comunista no
Brasil?
O
movimento comunista surge no Brasil
nos desdobramentos da rebelião operária
de 1917-1920, quando os trabalhadores
fabris se perfilaram enquanto classe
diante da burguesia e do Estado, e da
revolução socialista internacional originada
no Oriente-russo. Com uma cultura política
fundada na tradição cientificista e
naturalista que permeava o mundo operário
e também a formação de amplos setores
militares, que se encontrou com uma
vulgata marxista difundida pela Internacional
Comunista, os comunistas brasileiros
delinearam uma visão de Brasil que,
grosso modo, notava estar o país
diante da necessidade de uma revolução
nacional e democrática.
Essa
revolução, ainda que de caráter burguês,
deveria ser realizada pela aliança
da classe operária com o campesinato
e a pequena-burguesia urbana. Setores
burgueses, de acordo com a sua postura
diante da questão nacional, poderiam
(e deveriam) se alinhar nessa frente
única. O objetivo era aquele de promover
o mais rápido desenvolvimento das
forcas produtivas do capital, fazendo
crescer a classe operaria e incorporando
o campesinato num processo produtivo
voltado para o mercado interno de
bens de capital e de consumo. Para
que esse objetivo fosse cumprido haveria
a necessidade de se confrontar com
o latifúndio feudal e com a dominação
imperialista, que impunham condições
e limites ao desenvolvimento das forcas
produtivas do capital.
Ate
o inicio dos anos 60, o PCB foi a
mais significativa e influente força
de esquerda no paiis. Um tímido processo
de democratização iniciado no governo
JK, o impacto do XX congresso do PCUS,
a subseqüente ruptura político-ideológica
entre URSS e China, as revoluções
cubana, argelina e vietnamita,
provocaram um diferenciação no seio
da esquerda brasileira e uma série
de divisões no próprio PCB. Assim,
surgiram a Política Operaria e a Ação
Popular e do PCB saíram, sucessivamente,
o PcdoB, a ALN, o MR-8 e o PCBR. Todas
essas organizações passaram, elas
mesmas, por outras divisões, fazendo
com que a esquerda brasileira, ao
finalizar a década, compusesse um
verdadeiro mosaico, que favoreceu
a derrota diante da ditadura militar
burguesa, tanto em 1964, quanto
em 1969.
Com
o esforço de institucionalização da
ditadura, de um lado, e de outro o
crescimento da oposição popular e
democrática, indicando a correção
da orientação política de frente democrática
proposta pelo PCB, muitos chegaram
a supor possível o retorno da maioria
dos antigos militantes ao leito histórico
do comunismo brasileiro. Não se percebeu,
na ocasião, que a revolução burguesa
no Brasil se concluía por via de uma
revolução passiva, sem que tivesse
ocorrido a ruptura com o imperialismo
e com o grande latifúndio. Na verdade,
o Brasil passava a ser um país plenamente
capitalista preservando os vínculos
de suas classes dominantes com o imperialismo
e com o encaminhamento de uma resposta
para o problema agrícola, por meio
da capitalização e industrialização
da agricultura.. O afastamento do
PCB do cerne das lutas operárias iniciadas
no final dos anos 70, foi um dos elementos
da crise orgânica que o afetaria.
A
emergência de uma classe operária
de cariz fordista potencializou a
formação do Partido dos Trabalhadores,
um novo partido de viés sindical-corporativo,
para o qual confluíram todas as forças
dispersadas pela derrota dos anos
60, que não o PCB e o PcdoB. A defesa
da autonomia operaria e da organização
popular diante da burguesia e do Estado
possibilitaram que a vertentes de
origem comunista, mas também da Polop
e da AP, principalmente esta, tivessem
uma influencia decisiva na orientação
política do PT ate o inicio dos anos
90. Note-se também que as correntes
de inspiração trotskista se fortaleceram
de um modo significativo naquele período,
potencializada pela organização do
PT, ainda que preservando uma crônica
fragmentação política.
Em
uma conjuntura de ascensão da luta
social e da organização popular o
PT viu-se beneficiado pela crise orgânica
do PCB e também de uma crise persistente
do PcdoB, derivada da avaliação de
experiência guerrilheira do Araguaia
e da inserção internacional do partido,
que de maoísta, passara a pró-albanês
e voltava a apoiar a política econômica
anti-maoista da China. O PCB, principalmente,
foi seriamente afetado pela crise
orgânica do socialismo de Estado,
nucleado na URSS, e de toda sua tradição
político cultural. O PcdoB, por sua
vez, após a eleição de 1986, estabeleceu
uma aliança estratégica com o PT.
A
ofensiva do capital contra o mundo
do trabalho, que se desenvolvia globalmente
desde fins dos anos 70, só encontrou
passagem no Brasil no final da década
seguinte. A desintegração do socialismo
de Estado teve como desdobramento
o fim do PCB, em 1992, e criação no
seu lugar de um partido identificado
com o socialismo liberal (que não
mais considera o problema da revolução
socialista). Mas também o PT sentiu
os efeitos do fim da URSS, o principal
trunfo da ofensiva do capital e de
sua veste neoliberal.
A
partir de seu I congresso, em 1991,
o PT começa um sub-reptício deslocamento
no seu posicionamento político programático.
As tendências reformistas preservam
o seus viés sindical-coprorativo,
só que agora por meio do entrelaçamento
com a ideologia liberal-
democrática de chegar os governo
do Estado, com o fito de governar
melhor, governar honestamente e estabelecendo
políticas publicas compensadoras ao
esbulho do trabalho que o capital
promove. Com parte da militancia e
dos simpatizantes ganhos parcialmente
pela ideologia neoliberal, o PT desloca
seu discurso e pratica política para
temas clássicos do bom governo e da
extensão dos direitos de cidadania.
Essas vertentes ampliam a sua maioria
dentro do partido, ao mesmo tempo
em que as esquerdas diminuem a sua
influencia nas tomadas de decisão.
No limite ocorre a expulsão daqueles
que organizaram em seguida o PSTU,
em 1994.
Essa
tendência de deslocamento ao centro
político e de mudança estratégica
atingiu o seu objetivo em 2002, quando
da eleição de Lula para a presidência
da Republica. Foi somente então que
as alianças político eleitorais se
alargaram em direção ao centro liberal,
com as devidas concessões programáticas
(ou ate mesmo de princípio). Eleito
em uma situação política desfavorável
do ponto de vista institucional, mesmo
dentro dos limitados objetivos de
estabelecer um bom governo que aja
em favor do conjunto dos cidadãos
por meio de um pacto social -- ou
seja objetivos condizentes com a hegemonia
burguesa sob a forma liberal-democrática
– Lula só pode contar com 3 governadores
de seu próprio partido -- todos de
estados de pouca expressão demográfica
e econômica – e com uma maioria parlamentar
cujo cerne esta composto pela tendência
majoritária do PT, pelo PL e pelo
PMDB, ainda que esse não faca parte
formal no governo. Mesmo os partidos
que se agregaram a coalizão de governo,
como o PTB e o PPS, sopram no mesmo
diapasão.
Assim,
retido dentro das regras do jogo,
o governo Lula, eleito com a expectativa
de que rompesse com o circulo vicioso
da inserção subalterna na chamada
globalização neoliberal, tende a fazer
um governo social-liberal, uma mera
correção de rota na mesma direção.
Nessa partida, as esquerdas socialistas
revolucionárias que compõem a coalizão
governamental estão postadas em uma
situação muito difícil. A oposição
explicita às diretrizes governamentais
pode levá-las a arcar com a responsabilidade
de um eventual descaminho do governo
Lula, mas o apoio parlamentar, em
nome da governabilidade (outra categoria
teórica do liberalismo) pode leva-las
a trair a sua própria identificação
com os interesses operários e populares.
A
alternativa do governo Lula para levar
a cabo reformas substantivas, que
penalizem o grande capital, e a pressão
de massa. Contudo, como se pode observar,
em nome do objetivo maior da vitória
eleitoral, o próprio candidato e a
maioria do PT preferiram conter o
movimento de massas, embora o poder
catalisador do presidente esteja ainda
longe de se exaurir. Mas não são muitas
as possibilidades de uma reversão
de rota que não esteja ligada a uma
mobilização de massas, mesmo essa
pouco provável se observarmos as tendências
majoritárias da CUT e da Força Sindical,
cujo objetivo é o de vincular o sindicalismo
ao Estado, em uma nova roupagem liberal
do sindicalismo corporativo.
E
a própria circunstancia histórica
do governo Lula que coloca na prática
a necessidade de uma refundação comunista
no Brasil. Se, como apontam fortes
indícios, o governo seguir a sua trajetória
social-liberal os comunistas e socialistas
revolucionários de todos os matizes
deverão ser ejetados do governo e
seguir o caminho de um relançamento
político no campo da esquerda.
Hoje
se apresentam três vertentes principais
que vislumbram a fundação de novas
organizações políticas de esquerda.
Uma que parte do PSTU e visa unificar
as forças e tendências políticas inspiradas
no ‘marxismo revolucionário’. O escopo
é, antes de tudo, caminhar para a
unificação das vertentes de inspiração
trotskista presentes dentro do PT,
seja a influente Democracia Socialista,
sejam os grupos de inserção regional
como a Corrente Socialista dos Trabalhadores
ou o Movimento de Esquerda Socialista,
embora não se exclua a participação
de outros agrupamentos como Força
Socialista.
Uma
segunda projeção do relançamento das
forças de esquerda parte da idéia
de que o PcdoB pode ser o eixo principal
da reunificação dos comunistas, agregando
o PCB, comunistas que se encontram
no PT, mas principalmente uma militância
comunista dispersa em pequenas organizações
ou em movimentos sociais. Uma terceira
tendência vislumbra a reorganização
do PT original, a partir de suas principais
vertentes de esquerda: a Articulação
de Esquerda, a Força Socialista e
a DS, além de vários grupos regionais.
É
difícil dizer, por ora, qual dessas
tendências tem maior potencial de
unificação das forças sociais e políticas
antagônicas ao regime neoliberal e
a sua variante social-liberal. No
horizonte tanto pode estar uma consolidação
dessas três tendências, a sua transformação
em duas, ou mesmo uma tendência a
uma real unificação. Na verdade a
necessidade da refundação comunista
no Brasil se ressente ainda da falta
de um grande salto teórico na compreensão
da realidade brasileira, ou pelo menos
do estabelecimento de uma dinâmica
que indique esse caminho.
Os
corporativismos de partido e de tendência
hoje existentes devem ser deixados
para trás para que possa haver uma
confluência de diferentes experiências
e tradições. E preciso se afastar
teórica e organicamente do reformismo
social-liberal, afim de que se possa
priorizar a questão do trabalho e
da sua democracia, disputando a hegemonia
no movimento operário e popular. Caso
não seja alcançada uma real unificação
das forças comunistas e socialistas,
augura-se que, pelo menos, uma sólida
frente única política se estabeleça,
como parte essencial de uma mais ampla
frente única de organizações sociais
e culturais das classes subalternas.