Por THOMAZ KAWAUCHE
Engenheiro, graduando em Filosofia (USP) e criador/editor do site Por uma teologia brasileira do século XXI

 

A religião no Brasil do século XXI: uma análise bergeriana

 

Os homens partem para a guerra e são mortos entre orações, bênçãos e encantamentos. (Peter Berger, O dossel sagrado)

 

Corcovado, Rio de Janeiro (Brasil)O século XXI começou em guerra. Na chegada do terceiro milênio, as explosões em Nova York e Bagdá não eram de comemoração e nem os fogos de artifício. Ansiosos por encontrar um culpado para esse estado de anomia, diversos analistas apontaram o dedo acusador para a religião. A primeira guerra do século XXI era, portanto, uma guerra religiosa. Mas será? Acreditamos que guerra sim, mas não religiosa, ainda que esse adjetivo possa ser sugerido pelos muitos argumentos teológicos das partes beligerantes. A religião, como veremos a seguir, parece ser muito mais a circunstância do que o motivo dos conflitos em questão. O que está em jogo, na verdade, são os interesses ideológicos de sempre, sendo a religião apenas uma máscara legitimadora para os discursos daqueles que detêm o poder político.

Esse é o panorama do cenário internacional. Mas e no Brasil, como vai a religião? O que a guerra entre Estados Unidos e Iraque e tantos outros conflitos ditos religiosos têm a ver com a pluralidade de crenças (e descrenças) que se professam em nosso país? Em meio a esse turbulento início de século XXI, como poderemos falar do futuro da religião no Brasil? Aliás, como saber se esse futuro de fato existe?

O objetivo deste artigo é tentar responder essas perguntas traçando alguns contornos de como será o cenário religioso no Brasil do século XXI. Isso será feito a partir da noção de “estrutura de plausibilidade” apresentada por Peter Berger em seu livro O dossel sagrado. Não se trata aqui de predizer como será a distribuição estatística das religiões nas próximas pesquisas do Censo, mesmo porque a abordagem que segue é de caráter essencialmente teórico, não devendo a nossa atenção recair sobre nenhuma religião em particular. O enfoque será dado basicamente sobre os elementos “guerra” e “paz”, que se evidenciam nas situações de pluralismo religioso, e que interagem dialeticamente entre si no processo de manutenção das estruturas de plausibilidade dos sistemas religiosos em geral.

No princípio era o mundo, e o mundo estava com Deus, e o mundo era Deus... A palavra “mundo” em O dossel sagrado deve ser entendida fenomenologicamente, ou seja, “omitindo-se a questão do seu estatuto ontológico último” (1985:15 nota). Por “mundo dos homens” entende-se uma realidade que, por não vir pronta da natureza como a do mundo biológico dos animais, precisa ser construída pelos homens. Uma realidade peculiar, explicada por Berger nos seguintes termos: “Como os outros mamíferos, o homem está em um mundo que precede o seu aparecimento. Mas à diferença dos outros mamíferos, este mundo não é simplesmente dado, prefabricado para ele. O homem precisa fazer um mundo para si” (1985:18). Mais adiante ele afirma que o homem, “Biologicamente privado de um mundo do homem, constrói um mundo humano. Esse mundo, naturalmente, é a cultura” (1985:19). Berger entende a cultura como o produto da atividade e da consciência humanas, ou seja, o conjunto de tudo aquilo que constitui o mundo socialmente construído dos homens. E a religião entra em cena como o meio necessário para a manutenção desse mundo. Não é à toa que Berger inicia seu texto dizendo: “Toda sociedade humana é um empreendimento de construção do mundo. A religião ocupa um lugar destacado nesse empreendimento” (1985:15).

No entanto, a construção artificial exige uma manutenção artificial, visto que o mundo humano não se mantém de modo natural. O mundo socialmente construído pelos homens se apresenta estruturalmente muito menos sólido do que o mundo biológico dos animais: “Todos os mundos socialmente construídos são intrinsecamente precários” (1985:42). Daí a necessidade dos esforços para se manter o mundo humano. Essa manutenção se realiza por meio de discursos legitimadores, sendo o discurso da religião o mais eficaz para tal tarefa. Isso se deve ao fato de que a legitimação religiosa fundamenta a ordem social em origens que transcendem a história e o homem. Diz Berger: “a religião foi historicamente o instrumento mais amplo e efetivo de legitimação. Toda legitimação mantém a realidade socialmente definida. A religião legitima de modo tão eficaz porque relaciona com a realidade suprema as precárias construções da realidade erguida pelas sociedades empíricas” (1985:45).

Temos então o princípio das ideologias: os discursos legitimadores ajudam a sustentar os mundos humanos. Todavia, a legitimação por si só não garante a manutenção do mundo – antes de tudo, é preciso que haja condições na estrutura da sociedade para que a legitimação tenha efeito. Berger acredita que a realidade (objetiva e subjetiva) perdurável do mundo construído depende de processos sociais específicos “que permanentemente reconstroem e mantêm os mundos particulares em apreço” (1985:58). O mecanismo de rememoração das “respostas legitimadoras” através do ritual religioso é inútil se não houver uma “base” socioestrutural que garanta a validade das legitimações. Esse pré-requisito de qualquer sociedade é o que Berger denomina “estrutura de plausibilidade” (1985:58). Não basta que as respostas legitimadoras sejam repetidas indefinidamente. É preciso que a sociedade esteja estruturada de tal forma que essas respostas façam sentido. Afinal, a construção social do mundo se movimenta em direção oposta ao caos, visando um sentido para o universo (ou seja, uma teodicéia). Quanto melhor a estrutura de plausibilidade da sociedade, mais auto-explicável é o mundo e, conseqüentemente, menos discursos legitimadores são necessários para a sua manutenção. No limite, o que se deseja é uma estrutura de plausibilidade que seja capaz de resistir não apenas aos “fenômenos anômicos (...) do sofrimento, do mal e, sobretudo, da morte” (1985:65), mas a todo e qualquer tipo de ameaça à integridade da estrutura, como por exemplo, um sentido de mundo alternativo oferecido por uma outra sociedade.

E ainda, no caso de uma situação de pluralidade de sistemas religiosos, Berger faz uma analogia geográfica, comentando que a manutenção desses sistemas “envolve a proteção dos limites territoriais de cada estrutura de plausibilidade (sendo a fronteira militar entre os dois mundos igualmente uma fronteira cognoscitiva), estendê-los se possível (através de Cruzadas e Guerras Santas) e a manter controles eficazes sobre os desviados dentro dos respectivos territórios” (1985:62). A manutenção de uma estrutura de plausibilidade é de tal importância na realidade socialmente construída, que os esforços da sociedade (ou melhor, dos “promotores” institucionais dos sistemas religiosos – cf. 1985:62) são não apenas defensivos, mas também ofensivos. Berger ilustra isso com o seguinte exemplo: “a ameaça mútua do Cristianismo e do Islã na Idade Média exigiu que os teólogos de ambos os mundos sociorreligiosos produzissem legitimações que defendiam o próprio mundo de cada um contra o mundo contrário (e que, por sinal, incluíam, uma ‘explicação’ do outro mundo nos termos do seu próprio mundo)” (1985:60).

E é exatamente neste ponto que queríamos chegar. Manter íntegra a estrutura de plausibilidade de um mundo socialmente construído (seja ele religioso ou não) é uma questão tão crucial para a sociedade (ou melhor, para os “promotores” institucionais dos mundos) a ponto de justificar, sem nenhuma crise de consciência, as guerras mais violentas contra todas as estruturas adversárias. Essas guerras podem ser veladas (exemplo: as brigas teológicas entre as diversas denominações cristãs) ou explícitas (exemplo: a Guerra do Iraque), mas de qualquer maneira, são guerras. E nessas horas o discurso legitimador assume um papel fundamental, pois é ele que faz a anomia da morte parecer plausível: “sempre que uma sociedade precisa motivar seus membros para matar ou arriscar a própria vida (...), as legitimações religiosas adquirem importância. (...) Matar sob os auspícios das autoridades legítimas tem sido acompanhado desde tempos remotos até hoje da parafernália religiosa e do ritualismo. Os homens partem para a guerra e são mortos entre orações, bênçãos e encantamentos” (1985:57-58).

É vital observarmos que Berger não restringe essa noção de estrutura de plausibilidade apenas ao mundo religioso: o pré-requisito “vale, é claro, independente do fato de serem estes [mundos] de teor religioso ou não” (1985:58), visto que para Berger “a mesma atividade humana que produz a sociedade também produz a religião” (1985:61). Em outras palavras, o que está em jogo quando analisamos o ataque terrorista de 11 de setembro, a Guerra do Iraque, o conflito dos católicos contra os protestantes, a luta dos neopentecostais contra os umbandistas, ou qualquer outro tipo de guerra dita religiosa, não é o conteúdo religioso, e sim a estrutura de plausibilidade dos mundos religiosos socialmente construídos. Tomemos como exemplo as guerras ordenadas por Deus no relato bíblico do Antigo Testamento: havia uma estrutura de plausibilidade do povo judeu que precisava ser preservada e isso justificava até mesmo massacres de crianças dos povos inimigos. Analisando os conflitos posteriores da humanidade em que foram cometidas as mais terríveis atrocidades, é possível dizer que todas as guerras “santas” ocorridas ao longo da história são exemplos de manutenção de estruturas de plausibilidade. Podemos então afirmar que a religião não é o motivo da guerra, mas a sua circunstância. Ou seja, todo esforço das guerras ditas religiosas gira em torno do interesse em se manter íntegra a estrutura de plausibilidade que dá sustentação ao mundo construído por uma determinada sociedade, e não ao interesse de se manter esta ou aquela confissão religiosa. Quando a Igreja expulsa hereges do meio de seu corpo de fiéis ou quando ela combate heresias de grupos adversários, ela está na verdade eliminando a possibilidade de um abalo e conseqüente rearranjo das estruturas de plausibilidade influenciadas por outras estruturas.

Para traçarmos alguns contornos do futuro da religião no Brasil, utilizaremos essa noção de estrutura de plausibilidade bergeriana. Em primeiro lugar, é preciso notar um desdobramento que podemos fazer a partir da situação de confronto de mundos. Sendo a manutenção da estrutura de plausibilidade a questão mais importante a ser resolvida no conflito, nada mais sensato (plausível) para uma sociedade do que a declaração de guerra contra todas as outras sociedades que apresentam estruturas estranhas. Num primeiro momento, portanto, o que se evidencia é a guerra. No entanto, ninguém precisa ser um general para saber que a vitória depende não apenas das armas e das estratégias utilizadas no combate, mas também da paz interna da sociedade que declara guerra. Não deve ser nada fácil quando soldados do mesmo exército preferem matar uns aos outros ao invés de matar o inimigo – nisso concordam até mesmo pensadores tão opostos como Hobbes e Rousseau, que repudiavam com veemência a idéia de uma guerra civil.

Dessa maneira, podemos afirmar que, na situação de confronto de mundos, as sociedades estabelecem dois tipos de relação: uma intermundana e outra intramundana. Na relação intermundana, isto é, aquela que a sociedade estabelece com as outras, evidencia-se na estrutura de plausibilidade dessa sociedade o elemento “guerra” – todos aqueles que não pertencem ao meu mundo são meus inimigos e precisam ser eliminados. Por sua vez, na relação intramundana, isto é, aquela que a sociedade estabelece consigo mesma, evidencia-se na estrutura de plausibilidade dessa sociedade o elemento “paz” – todos aqueles que pertencem ao meu mundo são meus amigos e precisam me ajudar a eliminar meus inimigos. Em outras palavras, uma estrutura de plausibilidade (bergerianamente falando) apresenta um aspecto destrutivo, no qual impera a anomia e o caos, e outro aspecto construtivo, orientado pela nomia e pela ordem. O elemento de “guerra” se encontra associado ao aspecto destrutivo da estrutura de plausibilidade, ou seja, ele está ligado àquela tendência que a sociedade tem para combater as sociedades inimigas por meio de todo tipo de violência, eliminando assim a ameaça de abalo de sua estrutura de plausibilidade. O elemento de “paz” se encontra associado ao aspecto construtivo da estrutura de plausibilidade, ou seja, ele está ligado àquela tendência que a sociedade tem para manter íntegra a estrutura de plausibilidade vigente através de mecanismos legitimadores, promovendo assim a coesão interna dos seus membros.

Até aí, nada de mais. O problema começa quando esses elementos se colocam em movimento dentro de um processo dialético de construção de mundo. Então ocorre um fenômeno curioso: “guerra” e “paz” se articulam na construção de um novo mundo que não faz questão de evitar a anomia. Um mundo habitado por sociedades (e não por indivíduos) que se valem do elemento “guerra” para manter suas estruturas. Os conflitos existem porque um mundo de conflitos foi construído. O que se vê é a construção de um “supermundo”, no sentido de ser um mundo que engloba todas as sociedades possíveis de serem construídas pelos homens a um tempo. Mas ao mesmo tempo, um “submundo”, no sentido de ser um mundo que em que o elemento anômico da guerra não apenas é tolerado e dito possível, mas também justificado e dito necessário a fim de se manter a estrutura de plausibilidade de uma dada sociedade. Lembrando que Berger compreende o processo dialético da construção de mundos como consistindo de três momentos – exteriorização, objetivação e interiorização (1985:16 ss) – podemos dizer que esse “supersubmundo” ou “subsupermundo” é: (1) exteriorizado pelas sociedades quando estas passam a travar relações entre si; (2) objetivado por essas sociedades quando a teia de relações intermundanas se torna algo “lá fora” que pode ser compartilhado por todas as sociedades; (3) interiorizado por cada sociedade quando a objetividade estrutural do “supersubmundo” molda as estruturas “subjetivas” da consciência de cada sociedade levando-as a um relacionamento intramundano de paz interna. Dessa forma, a paz, que deveria ser estendida para as relações intermundanas, fica reduzida apenas às relações intramundanas, para coesão interna de cada grupo social.

Tendo em vista a situação de pluralismo religioso no Brasil, e assumindo que esse pluralismo só tende a aumentar (não estamos defendendo com isso a tese da secularização, que o próprio Berger afirmou ter sido um equívoco seu – cf. 2001:10), torna-se possível afirmar que o futuro da religião no Brasil é um futuro de guerra. Mas que fique bem claro: guerra de estruturas de plausibilidade. Talvez no Brasil a coisa não chegue ao nível do conflito entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte, e nem os evangélicos brasileiros lancem bombas sobre os sem religião (o grupo que mais cresce no país segundo o último Censo), mas que haverá conflitos – ou seja, guerra – isso ninguém pode negar. Por sua vez, o elemento “paz” será cada vez mais interiorizado em grupos sectários e os discursos serão de caráter cada vez mais proselitista, o que deverá gerar aquela situação extremamente instável de ilhas de plausibilidade ou “subsociedades” que Berger menciona em seu O dossel sagrado (1985:61-62).

Esperar um futuro de guerra não é nada animador, mas isso não impede o cultivo de esperanças. Não podemos nos esquecer que o elemento “paz” continua existindo no meio da guerra e pode, pelo menos teoricamente, ser utilizado de maneira propícia no sentido de promover a diminuição dos conflitos. E que maneira seria essa? A resposta é simples: através da conscientização de que tudo o que acontece não passa de um processo de construção de mundo. Se tivermos consciência de que o mundo de conflitos é apenas mais um dos produtos do homem, as chances de termos uma visão menos individualista e mais humanitária serão muito maiores. Se ao invés de olharmos para a outra estrutura de plausibilidade, nos lembrarmos que por trás dessas estruturas existe gente tentando manter seus mundos socialmente construídos, então será possível um diálogo pacífico em meio à diversidade de sociedades e, quem sabe um dia, poderemos iniciar a construção de um novo mundo. Um mundo que poderá até ser um “supermundo” (no jargão religioso diríamos um mundo “ecumênico”), mas sem a permissividade submundana do elemento de “guerra” (ou, pelo menos, com uma submundaneidade rigorosamente controlada pelo elemento de “paz”).

Qual é então o futuro da religião no Brasil? Nesses termos, que respondam os profetas e adivinhos, porque não sabemos nem se tal futuro de fato existe. Mas se a pergunta puder ser reformulada para “Qual é então o futuro da sociedade no Brasil?”, aí sim teremos algo para dizer. Antes de discutirmos se o futuro será protestante ou ateu, antes de falarmos em secularização ou retorno do sagrado, e antes mesmo de decidirmos se o paradigma de mercado é adequado para estudarmos a religião no Brasil, precisamos nos lembrar que nas várias estruturas de plausibilidade dos grupos religiosos, os elementos “guerra” e “paz” se relacionam dentro de um processo dialético. Elementos estes que podem promover tanto a construção de um mundo de guerra quanto a construção de um mundo de paz. Tendo isso em mente, poderemos acreditar que nem só de guerra vive a religião, e que a paz é um elemento sempre presente na(s) estrutura(s) de plausibilidade do(s) povo(s) brasileiro(s) e também um elemento sempre possível no(s) mundo(s) futuro(s).

 

THOMAZ KAWAUCHE

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Referências bibliográficas:

BERGER, Peter Ludwig. O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 1985.

____. “A dessecularização do mundo: uma visão global”. In: Religião & Sociedade. Vol. 22. Nº 1. Rio de Janeiro: ISER, 2001.

 


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