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JOANA APARECIDA COUTINHO
Doutoranda em Ciências Sociais pela PUC/SP e
membro do Núcleo de Estudos Ideologias e Lutas Sociais –NEILS.
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Organizações Não-Governamentais:
o que se oculta no “não”?
por
Joana Aparecida Coutinho
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Resumo:
O texto trata do surgimento das ONGs e o papel que
desempenham na implementação das políticas neoliberais.
Se na década de 70 se vinculavam aos movimentos sociais;
na década de 90 sua principal característica é a
“parceria” com o Estado e fundações empresariais.
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O termo ONG foi cunhado pela primeira vez em 1940,
pela ONU, para designar as entidades, da sociedade, executoras de
projetos humanitários ou de interesse público. Mas, a sua expansão
vai se dar na década de 60/70.E, na América Latina, cumprem na
maioria das vezes, um papel importante, na luta contra os Estados
ditatoriais― principalmente aquelas que se dedicam à questão dos
direitos humanos. Elas vão contar com o apoio de diferentes agências
de "Cooperação Internacional". Ou seja, as suas congêneres
européias.
Apresentavam-se com o objetivo de favorecer a
participação das classes populares. Pulularam centros de “educação
popular”; de assessorias a movimentos populares com ênfase dos
trabalhos na “conscientização” e "transformação social". Pequenos
grupos, já existentes, abandonaram práticas
assistenciais-filantrópicas e outros foram criados para incentivar a
"organização popular" (Doimo, 1995:129, 130).
Mas se nos anos 70/80 as ONGs poderiam ser
consideradas parte do campo progressista, como salientam alguns
autores (Doimo, 1995; Gohn, 1997; 1998), vale ressaltar que muitas
dessas organizações, mesmo nesta época, exerciam um papel
“paliativo” ou “amortecedor”: denunciavam internamente as violações
dos direitos humanos e a pauperização da população mas, “raramente
denunciavam os seus patrocinadores norte-americanos e europeus que
os financiavam e aconselhavam” (Petras, 1996:22). É claro, que
precisamos separar o joio do trigo, nesse emaranhado onde se
entrelaçam as ONGs. Mas, mesmo as mais aguerridas, se encontram numa
"camisa de força": estão integradas no fluxo de dinheiro do Estado
e/ ou da Igreja, não podem (ou têm muita dificuldade para) atuar de
modo mais radical. Ideologicamente podem se tornar hegemônicas nas
comunidades onde atuam e se tornam, também,
"... um termômetro, já que elas revelam para os
governos as pulsações das populações nos mais diversos cantos do
país. Em muitos casos, as ONGs revelam um problema real do
sistema, sendo a primeira advertência ao governo quando as
coisas não vão bem.(...). Portanto, a grande maioria delas
cumpre a função de ajudar a preservar o sistema e torná-lo mais
funcional." (Steffan,1998:24).
Convém aqui, separar os Centros de Assessorias ou
Educação Popular, que nunca se denominaram como ONGs, mas como
instituições vinculadas as lutas dos trabalhadores. Mas mesmo estas,
vão contar com a ajuda financeira das suas congêneres européias,
geralmente, ligadas a Igreja. Os recursos para as suas atividades é
o grande entrave destas organizações.
Quem as financia? A sua viabilidade está diretamente
ligada à capacidade de angariar fundos. E, claro, sua autonomia
depende da origem dos seus recursos.
Como afirma Barbé todos os governos dos países
europeus têm sistemas para co-financiar as ONGs.
La financiación
pública de una ONG, sobre todo de las ONGD,
se lleva a cabo por diversas vías: subvenciones globales, de
carácter periódico; subvenciones para financiar un proyecto
individual; subcontratos que convierten a la ONG en agente
ejecutivo del programa de acción (ayuda alimentaria, proyectos
de cooperación) del gobierno en cuestión; y medidas fiscales
(exenciones de renta en base a donaciones, subvenciones gracias
a las partidas consignadas a la cooperación internacional en
las declaraciones de renta, etc.)
” (1995:179).
Uma particularidade importante dessas instituições –
que surgiram nos anos 90 ou as que sucumbiram a esta lógica – é o
fato delas se caracterizarem pela negação: são “anti-governo”, “anti-burocracia”,
“anti-lucro”. Autodenominam-se "terceiro setor", proclamam-se
"cidadãs" e, apresentam-se como sem fins lucrativos. O perfil está
voltado muito mais a “filantropia empresarial”, e mantém relações
estreitas com o Banco Mundial e com agências financiadoras, ligadas
ao grande capital, como é o caso, das Fundações Ford, Rochefeller,
Kellog, McCarthur e a Fundação Interamericana (esta vinculada ao
Congresso dos Estados Unidos).
Dentro deste universo as ONGs que se dedicam a
formação de grupos de geração de renda, de cooperativas de trabalho,
ou de re-qualificação profissional, ocupam um espaço considerável.
Os projetos destas entidades estão em geral focados no
“desenvolvimento local” e na “auto-sustentação” da comunidade. Isto
resulta, na maioria das vezes, na disputa entre as "comunidades"
pelos parcos recursos, gerando rivalidades inter e intra-comunidades,
corroendo a solidariedade de classes e transformando — quando a
experiência é exitosa — o lugar numa “ilha de fantasia” (Petras,
1996:25 e Mauro,1998:221).
Outros termos muito utilizados pela maioria dessas
organizações são inclusão/exclusão. Os projetos encaminhados às
"fontes financiadoras" não deixam de mencionar o grande número de
trabalhadores "excluídos" do processo de "globalização", além da
constatação de que o Estado é ineficaz como remediador desse mal e
como promotor de justiça social (Tenório, 1997:7). E para,
substituí-lo, ou complementá-lo, nada melhor do que a “sociedade
civil” organizada. Leia-se “terceiro setor”. Embora não se tenha uma
definição clara do que ele venha a ser. Vários autores chamam a
atenção para o seu caráter “complexo, diferenciado e contraditório”
(Gohn, 2000; Landim, 1999; Fernandes, 1994).
Entre os estudos sobre o “terceiro setor” Gohn,
destaca duas linhas de pesquisa: uma vê neste setor, uma forma de
contribuição para o desenvolvimento de novas formas de
associativismo. O “terceiro setor”, ou as ONGs funcionariam como
mediadores das políticas públicas. O principal argumento deste grupo
é que o Estado deve se ocupar das questões macros e, como não
consegue penetrar nas microesferas da sociedade, este espaço seria
então, ocupado pelas entidades que o compõem. Nisso residiria a
novidade do “terceiro setor”.
A segunda linha, de estudos e pesquisas, aponta os
efeitos nefastos deste setor na organização dos trabalhadores.
Destaca-se, principalmente, o fato dele se apresentar como uma forma
de exploração da força de trabalho, uma resposta das elites à
organização popular e sindical dos anos 80. (Gohn, 2000:60).
Ficamos com a segunda opção. Tentaremos demonstrar
aqui, como as ONGs e/ou “terceiro setor” se inserem nas estratégias
neoliberais para desobrigar o Estado de atuar na área social.
O “terceiro setor” deve ser colocado no seu devido
lugar. Ou seja, ele cumpre um papel ideológico importante na
implementação das políticas neoliberais e está em sintonia com o
processo de reestruturação do capital pós 70: de flexibilização dos
mercados nacional e internacional, das relações de trabalho, da
produção, do investimento financeiro. Nega a universalidade, ao se
dirigirem a grupos específicos e privatizam o público já que suas
“ações” são às custas do erário público; uma vez que o Estado deixa
de angariar impostos por conta dos gastos deste setor com a
filantropia. (Montãno, 2002:17; Oliveira, 2000:38).
O que realmente está em questão é a forma como as
políticas sociais se fragmentam. Como diz Oliveira,
“ações visando crianças carentes, meninos de rua,
grupos especiais da sociedade como deficientes físicos, apoio a
grupos étnicos, limpeza e controle social em favelas — e a lista
seria longa — buscam substituir-se às políticas universais da
cidadania, poder estatal, sob a alegação da proclamada
incapacidade, ineficácia e corrupção que lavram nos aparelhos do
Estado” (2000:38)
É comum na literatura sobre o “terceiro setor”
descrever as ONGs criadas na década de 90, e fortemente vinculada a
este setor, como instituições sem um perfil ideológico definido,sem
vínculos com movimentos ou associações comunitárias que lhes dêem
sustentação. Dessa forma, elas se diferenciariam das ONGs criadas
nos anos 70, que, como já afirmamos neste trabalho, tinham — pelo
menos uma boa parte delas — forte vínculos com os movimentos
sociais. Muito embora, mesmo as ONGs originárias deste período
entraram na lógica da colaboração com o governo e cada vez mais se
aproximam do “terceiro setor” “transferindo-lhes a credibilidade que
conquistaram a partir da crítica da racionalidade burguesa
instrumental” (Oliveira, 2000:38). Neste sentido, prestam um
desserviço a organização dos trabalhadores.
Portanto, ao contrário do que apregoam, essas
instituições têm um perfil ideológico. Podemos discutir se é essa
opção é clara e consciente; ou, se ao contrário, são levadas pela
necessidade de sobrevivência. Mas mesmo neste caso, é uma opção
política-ideológica. Elas desempenham a função de controle e
mitificação ideológica. Petras, no livro Hegemonia dos Estados
Unidos (2001) aponta que existem cerca de 50.000 ONGs no Terceiro
Mundo, que recebem aproximadamente 10 bilhões de dólares de
instituições financeiras internacionais, de agências governamentais
européias, estadunidenses e japonesas e dos governos locais.Os
defensores dessa tese argumentam que a relação mais próxima da
comunidade, portanto do seu “público alvo” (os “pobres”) as tornam
mais eficientes e eficazes do que as instituições estatais, porque
seriam menos burocráticas.
Não há, no entanto, nenhum dado que comprove que a
atuação das ONGs tenham reduzido o desemprego estrutural, os
deslocamentos em massa de camponeses, nem criado níveis salariais
dignos para o crescente exército de trabalhadores informais. (Petras,
1999).
Um dado interessante é que as Organizações
Não-Governamentais vem se apresentando como uma alternativa de
trabalho, (ou perspectiva de) para uma parcela da classe média.
Pesquisa de opinião pública sobre ONGs, encontrada no sítio da Abong
- Associação Brasileira das ONGs - revela que um pouco menos que um
terço da população brasileira acima de 16 anos já ouviu falar nelas.
Dos que demonstraram algum conhecimento, estão os indivíduos com
maior grau de escolaridade; (81% destes têm nível superior) e em
classes mais abastadas (56% pertenceriam às classes A/B).
Nos grupos sociais que menos conhecem estão as
pessoas com idade acima de 55 anos (83%) os da classe D/E (84%) os
com baixo grau de escolaridade (primário 89%) e os com renda
familiar de até 2 salários mínimos (84%) e entre os residentes com
até 20 mil habitantes.
Ou seja, aqueles aos quais se destinam os trabalhos
das ONGs, ou que justificam sua existência, são os que menos têm
acesso real à elas. Outro dado importante da pesquisa, é quanto a
desaprovação as ONGs. O perfil dos que responderam “só atrapalham” e
“mais atrapalham que ajudam”, embora represente apenas 13% dos que
declararam conhecê-las, é o perfil dos que têm menor escolaridade e
menor renda (26% e 20% respectivamente).
O mais curioso, no entanto, é a perspectiva dos que
desejam participar dessas organizações: entre eles estão os jovens
entre 16 e 24 anos (36%) e os de maior nível de escolaridade
(colegial e superior 30%) e entre aqueles com rendimento mensal
superior a 10 salários mínimos (31%).
O que reforça, o nosso argumento, que as ONGs estão
aquém do “público alvo”, ¾ para usar uma expressão empregada
abundantemente por elas ¾ que em tese desejam atingir. Não é a toa
que não cessa de surgir ONGs que ensinam às outras ONGs a melhor
maneira de captar recursos.
Arantes, no texto, “Esquerda e direita no espelho das
Ongs”, aponta para a dicotomia presente nessas organizações, “de
metamorfose em metarmofose, a sociedade civil acabou se revelando na
apoteose do terceiro setor: simplesmente, sem tirar nem pôr, ela é o
terceiro setor” (Arantes, 2000:11-12).
O discurso dos defensores do chamado “terceiro setor”
consiste em chamar para a “sociedade civil” a responsabilidade para
a resolução dos problemas sociais, entre eles, a questão do emprego.
O tema do público não–estatal, diz Bresser Pereira e Grau, “também
implica atribuir à sociedade uma responsabilidade na satisfação de
necessidades coletivas, mostrando que também nesse campo o Estado e
o mercado não são as únicas opções válidas” (Pereira e Grau,
1999:30).
Um outro argumento muito propagado pelos seus
defensores é o fato de que as ONGs e/ “ou terceiro setor”, por
estarem mais perto do seu “público” seriam mais eficiente e eficaz
em relação ao Estado. E, por conseguinte, menos sujeitas à
burocracia e a corrupção.
No caso das que trabalham com qualificação
profissional, dados apontam que a maioria delas estão vinculadas ao
fluxo de caixa do Fundo de Amparo do Trabalhador (FAT).
E não estão livres nem da corrupção nem da burocracia.
Não faltam denúncias de irregularidades no uso dos
recursos “públicos” que, neste caso, tiveram finalidade privada.
Além do fato de existirem associações sem fins “lucrativos” criadas
para prestar serviços ao Plano Nacional de Qualificação Profissional
— PLANFOR – associações
formadas com a mesma finalidade, desta vez para o programa, no
Governo Cardoso, o Comunidade Solidária.
Podemos sugerir que essas organizações de não
governamentais têm muito pouco, assim, como também o fato de não
gerarem lucros diretamente, não significa que não defendam
interesses privados. Elas cumprem um papel ideológico importante, ao
assumirem responsabilidades que antes eram do Estado, e sem a
capacidade de universalização. Portanto, elas não organizam
movimentos, ao contrário, pode em algum momento, ou grau,
desmobilizá-los.
Reportagem numa revista, dirigida ao público feminino Única,
revela que a Fundação Teotônio Vilela criada em 1984 para
reverenciar a memória do Senador Teotônio Vilela, recebeu,
de acordo com o relatório do Ministério Público, R$ 3,5
milhões do governo para treinar 48 mil alunos e, na prática,
não treinou ninguém. Os cursos deveriam se realizar em
Brasília, mas os materiais escolares e impressos gráficos,
que teoricamente deveriam ser utilizados foram comprados em
Maceió e Recife. Entre os achados da auditoria havia de
tudo: nota fiscal de R$ 120 mil relativa à compra de
material escolar, emitida por uma empresa de artefatos de
cimento; recibo de aluguel de vans no valor de R$ 75 mil de
uma empresa de comunicação que habitualmente não presta este
tipo de serviço e até um comprovante de R$ 32 mil para
pagamento de 650 refeições de uma empresa de produtos
médico-hospitalares. Essa, digamos, incongruência, não é
privilégio do Estado de Alagoas, nem uma exceção. Na mesma
publicação, a autora revela um caso no Rio Grande do Norte
de uma ONG que recebeu o irrisório valor de R$ 72 mil para
dar “noções de turismo” a 660 pessoas. Deste montante, R$ 12
mil foram gastos com a hospedagem do “instrutor” que, por
coincidência, era o dono do hotel e também, ex-dirigente da
ONG, e patrão da atual presidente da entidade. (Peres,
2001). No Rio, há denúncias da criação de uma ONG “Apoio ao
Trabalhador Autônomo”, pelo ex-secretário do trabalho na
gestão de Paulo Conde, com recursos e know how da
Secretaria. A entidade “tem mobiliário público, central
telefônica e computadores da prefeitura. O ex-secretário
destinou em 2000 em torno de R$ 100 mil para a ONG.
Questionado, deu a seguinte resposta: “Havia muitas empresas
interessadas em participar do programa, mas cada tentativa
de parceria esbarrava na burocracia da Prefeitura. O que a
gente fez? Criou uma ONG”. (PERES, 2001). Como podemos
observar sem dificuldades alguma.
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