Os
contrabandos da reforma da Previdência
O
onipresente e onipotente “deus-mercado”, nome fictício do capital
financeiro, está excitado! Segundo o noticiário da imprensa, o
governo Lula pretende antecipar para o final de abril o envio
da sua proposta de reforma da Previdência para votação no Congresso
Nacional. Tamanha pressa tem gerado expectativas e angústias entre
aposentados, servidores públicos e seus órgãos de classe. A forma
imprevidente no trato do tema, com o uso de gritantes manipulações
e o anúncio de propostas requentadas, justifica o clima de descrédito
nestes setores, que montaram uma das principais bases de apoio
para a vitória eleitoral de Lula.
Para
o ministro da Previdência Social, Ricardo Berzoini, que se projetou
politicamente como presidente do Sindicato dos Bancários de São
Paulo, a urgência do governo na aprovação desta reforma decorre
da grave crise que vulnerabiliza o país. No mesmo rumo, o Partido
dos Trabalhadores aprovou na reunião da sua direção nacional,
em 15 de março, resolução que justifica o ritmo sumário. “A reforma
da Previdência apontará para uma perspectiva de estabilização
fiscal de longo prazo. Criará um ambiente favorável e maior segurança
para investimentos tantos internos quanto internacionais”, revela
o documento oficial.
Quanto à urgência da retomada do crescimento
econômico, com fator chave para a geração de emprego e renda,
não há controvérsias. Afinal, este foi o principal mote da campanha
eleitoral de Lula, responsável pela formação da ampla frente oposta
às políticas recessivas do neoliberalismo. O que causa calafrios
é porque esta reforma, tão questionada no triste reinado de FHC,
aparece agora como estandarte do novo governo. Pior ainda são
os dois argumentos centrais esgrimidos pelo ministro de plantão
para justificar a rápida reforma: o déficit da Previdência Social
e a existência de distorções entre os servidores públicos.
CAUSAS DO
ROMBO
No
que se refere ao déficit, os mais apocalípticos estimam que ele
atingirá R$ 76,4 bilhões neste ano – um número assustador, mas
sujeito, como qualquer estatística, às manipulações que camuflam
a essência do problema. De cara, uma arapuca bem conhecida: o
que se acusa de rombo previdenciário, na verdade diz respeito
à Seguridade Social. Um dos maiores avanços conquistados na Constituição
de 1988 foi a idéia da criação de um sistema integrado de seguridade,
que englobaria a saúde pública (amparo aos doentes), a assistência
social (amparo aos portadores de deficiência e às pessoas em situação
de risco) e a Previdência Social estrito senso (proteção aos que
ultrapassam o período de vida de trabalho).
Como explica César Benjamin, “os dois
primeiros correspondem a direitos líquidos de cidadania e, como
tal, não contam com receitas próprias, devendo ser financiados
com impostos pagos pela sociedade como um todo (as contribuições
sociais). Portanto, não se aplica nesses casos o conceito de déficit
(ninguém diz, por exemplo, que uma escola pública, que oferece
ensino gratuito, é ‘deficitária’; tampouco se pode dizer isso
de um hospital público, ou da assistência a uma pessoa pobre,
portadora de deficiência grave). Incluir as despesas da Seguridade,
como um todo, no chamado ‘déficit da Previdência’ é um artifício
lamentável, que só serve para assustar a opinião pública e dramatizar
o problema”.
Além de excluir do rombo estes direitos
da cidadania, também seria justo deixar de fora as aposentadorias
pagas aos trabalhadores rurais – outra conquista da Constituição
de 88, regulamentada recentemente. No ano passado, o INSS destinou
a estes sofridos brasileiros, que sempre foram marginalizados,
a quantia de R$ 14,5 bilhões – a soma de um mísero salário mínimo
para cada família rural. Por último, mas não por fim, seria lícito
registrar que milhares de empresas não pagam sua cota previdenciária
e, o que é pior, não depositam nem a parte descontada dos trabalhadores;
que o próprio Estado é o maior devedor do sistema; que uma parcela
dos recursos é desviada, através da manobra da desvinculação das
receitas, para outros gastos – em especial, para o pagamento religioso
dos juros do sistema financeiro. E assim por diante...
Mas o perigo da manipulação não está
só no cálculo atuarial. Para ir à essência do problema é necessário
também discutir, sem criar bodes expiatórios (tipo os “marajás”
de Collor e os “vagabundos” de FHC), quais as verdadeiras causas
do atual crise – que é real e nem mesmo os sindicalistas negam.
Até meados dos anos 90, a Previdência era superavitária. Em 1994,
ainda tinha R$ 2 bilhões em caixa. Mas devido ao triste reinado
de FHC, com a explosão do desemprego, o cruel processo de precarização
do trabalho e o aumento da informalidade, os recursos começaram
a minguar, com a natural queda das contribuições. Se na década
de 70 houve aumento de 7,9% no número de contribuintes, nos anos
90 ele foi de apenas 0,8%.
SERVIDORES
NA MIRA
Quanto às distorções na Previdência
dos servidores públicos, é preciso cuidado para não misturar o
joio com o trigo! As chamadas forças do mercado não vacilam em
culpar os servidores pela crise brasileira. Assanhadas, exigem
a guilhotina em direitos históricos. A Editora Abril, que serviu
de quartel general da campanha tucana, não esconde a sua postura
hidrófoba. Segundo a Veja,
da tradicional família Civita, “o rombo da previdência governamental
é a causa principal do desequilíbrio das contas públicas”. Daí
a sua proposta de reduzir drasticamente as aposentadorias dos
servidores e de cobrar os inativos.
Só que este tema, bastante complexo,
não permite qualquer imprevidência
de um governo que tem forte base de apoio entre o funcionalismo.
Descontentes com o desmonte do setor público e com a degradação
das condições de trabalho, expresso em oito anos de salários congelados,
os servidores votaram em peso na candidatura Lula. Agora não aceitam
que seus direitos sejam tratados como privilégios. Sabem que o
seu regime de contribuição previdenciária é bem diferente do setor
privado; que eles depositam 11% dos seus vencimentos, enquanto
os contribuintes do INSS pagam ate 8% sobre o teto de R$ 1.561,00.
Sabem também que mais de 80% dos servidores aposentados recebem
benefícios inferiores a R$ 2 mil mensais.
Qualquer proposta de reforma previdenciária
no setor deveria partir desta realidade concreta, evitando as
calúnias das elites. Mesmo a Confederação Nacional dos Trabalhadores
em Seguridade Social, vinculada à CUT, está disposta a discutir
as distorções existentes, mas não aceita que a maioria dos servidores
seja culpada pela crise. “O maior risco do novo governo é trazer
para a reforma a mesma visão financeira do governo FHC. A reforma
não é só um problema financeiro, é uma questão social”, afirma
Wladimir Nepomuceno, dirigente da CNTSS.
SEGUNDO ROUND
Se as justificativas apresentadas para
a reforma são inconsistentes e impregnadas de manipulação, mais
preocupantes são as medidas sinalizadas até agora para resolver
o problema. É bem verdade o governo Lula ainda não formulou um
projeto definitivo e que tem feito certo esforço de diálogo com
a sociedade. Bem diferente da postura autoritária, monocórdia,
do finado governo FHC. Mas, mesmo assim, os vários balões de ensaio
já lançados reforçam, no geral, a sensação de que mudou a forma,
mais democrática, mas se manteve o velho conteúdo, ainda contaminado
pelo veneno neoliberal.
Entre as propostas listadas pelo ministro
Ricardo Berzoini, destacam-se três: criação do regime único para
os trabalhadores da iniciativa privada e do setor público; estímulo
aos fundos privados de previdência complementar; e cobrança da
contribuição dos servidores inativos. Cada uma das propostas é
polêmica, gera movimentos de pressão e contrapressão e muitas
idas e vindas. Todas têm como alvo os servidores públicos, novamente
eleitos pela mídia dominante como os vilões da grave crise brasileira.
Para os trabalhadores do setor privado,
o governo FHC já havia imposto alguns dos “ajustes” receitados
pelo FMI e Banco Mundial. Coube ao banqueiro André Lara Resende,
acionado pelo amigo presidente no início de seu reinado, a tarefa
suja de propor as medidas contra os assalariados da iniciativa
privada. Conforme confessou na época, o modelo seguido foi o da
previdência chilena, reformada ainda no período da ditadura do
general Augusto Pinochet, pioneiro nas experiências neoliberais
nos anos 70.
Aos poucos, FHC aprovou vários mecanismos
que penalizaram os contribuintes do INSS. É deste período o golpe
do fator previdenciário, o aumento do tempo de serviço, a fixação
do teto rebaixado de benefícios (de R$ 1.561) e o estímulo aos
fundos de pensão. Desta forma, os explorados do setor privado
foram sacrificados no sagrado altar do mercado, com o aumento
das contribuições e a redução dos benefícios. As investidas contra
o setor público, entretanto, não evoluíram muito devido à forte
reação do organizado sindicalismo do setor, à rejeição dos partidos
de oposição e aos recorrentes vetos do Poder Judiciário.
REVANCHE
DO MERCADO
Agora, porém, as sinistras forças de
mercado partem para revanche. Fragorosamente derrotadas nas urnas,
tentam enquadrar o novo governo. Acuado, este retoma as propostas
da reforma no setor público. Chega até a desafiar o sindicalismo,
insinuando que colocará em votação do PL-9. Monstrengo criado
por FHC, este projeto limita o valor da aposentadoria dos servidores,
impondo o teto-miséria do INSS, e ainda cria a previdência complementar.
Triste ironia! Rejeitado pelos partidos da oposição, o PL-9 volta
á tona.
O sindicalismo do setor público já anunciou
que não aceita este projeto e inclusive discute a deflagração
de greves. Já a CUT, segundo João Felicio, “não vai ficar parada
se o PL não for discutido”. Esta postura aguerrida nada tem a
ver com a miopia “corporativista” criticada pelo presidente Lula,
que bem conhece o papel dos sindicatos. Pelo contrário. As forças
conseqüentes do sindicalismo estão cientes dos problemas herdados
pelo novo governo e estão dispostas a contribuir para o êxito
do seu projeto mudancista.
Elas, entretanto, não aceitam pagar
o “pacto”, rejeitam o PL-9 e questionam as idéias básicas da reforma.
No caso da CUT, ela até concorda com a idéia do regime único para
o setor privado e público. A questão é: porque “nivelar por baixo”
e não elevar o padrão previdenciário dos brasileiros? O certo
seria anular as medidas regressivas de FHC, assegurando ao trabalhador
do setor privado os mesmos direitos do servidor público, que se
aposenta com o salário da ativa. O caminho sinalizado, porém,
vai no sentido inverso.
COMIDA REQUENTADA
O ministro Berzoini insiste que o regime
único tenha o mesmo teto do INSS – os míseros R$ 1.561,56. O servidor
teria, assim, drástica redução da sua aposentadoria. Na prática,
seria forçado a contribuir para os fundos de pensão se quisesse
ter uma velhice mais segura. Ciente da existência de distorções
no setor, no qual uma minoria de mil servidores, entre os 1 milhão
de aposentados, recebe mais de R$ 20 mil mensais, a CUT propõe
que o teto seja de até 20 salários mínimos. Segundo estudos, este
valor contemplaria mais de 80% dos servidores, que não seriam
penalizados e nem precisariam engordar o caixa dos financistas.
Quanto à contribuição dos inativos,
ela surge mais como o “bode na sala”. O próprio governo sabe da
sua inviabilidade jurídica. Esta idéia foi obsessivamente perseguida
por FHC, mas sempre esbarrou nos vetos do Supremo Tribunal Federal
(STF), que julgou ilegal e arbitrário o rompimento dos contratos
firmados com os servidores públicos, que já contribuíram por longos
anos e seriam forçados a pagar novamente.
Por último, quanto ao estímulo à previdência
complementar, a proposta é das mais perigosas. Ainda no passado
recente, vários fundos privados, como os Montepios da vida, faliram
e deixaram os contribuintes no total desespero. Já na “era FHC”,
vários fundos públicos existentes viraram sócios no processo de
privatização das estatais, ajudando, de forma indireta, na demissão
de milhares de brasileiros e no próprio fomento da especulação.
A privatização da previdência é hoje o principal alvo da gula
do capital rentista mundial. No mundo globalizado, estes fundos
de pensão rendem fortunas no cassino especulativo e em investimentos
dos mais hediondos; hoje são os principais
aplicadores na indústria de armas dos EUA.
GOVERNO EM
DISPUTA
Como se observa, as propostas apresentadas
até agora pelo governo são negativas e têm um forte sabor de comida
requentada. De imediato, elas inclusive estimulariam os pedidos
de antecipação de aposentadorias e elevariam o próprio déficit
da Previdência. Beneficiariam o tal mercado, mas causariam mais
problemas aos cofres públicos. Segundo estudo de Kaizô Beltrão,
do IBGE, a arrecadação da União teria uma perda média anual de
R$ 1,7 bilhão em função da reforma. Além de transferir a parte
lucrativa para os fundos privados, o governo teria que sustentar
as aposentadorias existentes com uma arrecadação bem inferior.
Por estas e outras razões, o tema dará
muito pano para manga. De certa forma, ele condensa os dilemas
do governo Lula, alvo de intensa disputa. Para Renato Rabelo,
dirigente do PCdoB, o governo será marcado pelo embate entre mudança
e continuidade. “Corre-se na atualidade dois tipos de riscos:
de inclinação ou envolvimento do governo pelos interesses da política
econômica dominante e, de outro modo, o perigo do voluntarismo
principista, desligado da realidade. Pelo que representa ainda
o peso da camisa-de-força do sistema econômico em que estamos
metidos, o primeiro risco é maior e mais premente”, argumenta.
O importante é que o novo governo, que
tantas esperanças despertou – inclusive nos servidores da ativa
e nos aposentados e pensionistas – não sucumba às pressões. Apesar
das dificuldades herdadas, é urgente que ele sinalize para as
mudanças, razão da vitória eleitoral. Como explica o professor
José Luis Fiori, “o fundamental é a vontade política de mudar
e a capacidade de manter esta decisão permanentemente, a despeito
de toda e qualquer flutuação tática. O governo tem que se mover
com a cautela de quem desarma uma bomba, mas ao mesmo tempo é
fundamental que esteja decidido a desarmá-la”.