Por TELMA BESSA
Doutoranda em História Social/PUC/SP, Professora da UNISANTA CECÍLIA- SANTOS/SP

 

1º de maio/2003:

O Ferramenteiro da VW e o Presidente do Brasil

 

Na recente história do Brasil, constatamos que os trabalhadores metalúrgicos do ABC foram personagens importantes no processo que buscou romper o silêncio imposto pela ditadura militar, abrindo novos caminhos para um país democrático.

Deste período, vários símbolos permanecem até hoje na memória, como o personagem João Ferrador. Este, apareceu inicialmente em março de 1972, no boletim Tribuna Metalúrgica, do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em uma chamada que dizia: "Bilhete do João Ferrador".

O desenho é uma criação de Henfil, depois do Laerte e virou logomarca do jornal. Era o símbolo do trabalhador sindicalizado, citado em São Bernardo do Campo e arredores. Não se limitava apenas ao sindicato, mas estava presente nas residências, bares, campos de futebol, parques de diversões, camisetas de operários, nas feiras.

Como uma forma de identificação operária, o João Ferrador expressou a situação de vida dos trabalhadores. Como porta-voz da categoria, dava visibilidade aos protestos, reivindicações e anseios da categoria no período tratando de questões como arrocho salarial, custo de vida, lutas sindicais. Sua maneira de se colocar, de escrever os bilhetes de forma irônica, examinar temas, questionar, falar e pensar, sensibilizou os trabalhadores em seu cotidiano.

"Quero falar" era desta forma que João Ferrador se expressava, e bravo reclamava da queda do poder aquisitivo dos trabalhadores, o aumento do preço do arroz, feijão, ovos, carne, leite.

Sempre enviando bilhetes para as autoridades – "ilustríssimos senhores governantes do meu Brasil grande e potente", João Ferrador desenvolveu várias temáticas falando da vida dos metalúrgicos e ganhou a confiança e estima dos mesmos. Também revelava o orgulho, a pertinência e força do "homem de macacão", "homem da oficina" que batalhava no setor de produção da fábrica . [1]

O que tem  a ver essa história com o Brasil de hoje? Percebemos que as questões não são novas e conhecemos Lula, presidente da República do Brasil, nesta dinâmica social. Enquanto trabalhador expressou sua preocupação com as mudanças no mundo trabalho, como vemos em um relatório de 1988. Nas palavras de Luiz Inácio Lula da Silva:

Na década de 60, nós acompanhávamos a execução de uma peça desde o ferro bruto até a produção final, coisa que hoje a grande maioria dos trabalhadores não consegue ver, aliás muitos companheiros não sabem sequer para que serve o que estão produzindo, se transformaram em simples apertadores de botões. Isso se chama automação e acabou com o melhor do operário, sob o aspecto de sua capacidade profissional. Um ferramenteiro na década de 60, era um trabalhador respeitado, o que havia de mais perfeito a nível profissional, e foi se desqualificando. Hoje o profissional se transforma em algo sem muito valor. [2]

Lula que liderou as greves neste período revela algumas vivências comuns a milhares de metalúrgicos. Sua trajetória reflete várias experiências comuns na vida desses trabalhadores; desde a não participação em sindicato, à situação de migrante nordestino, às dificuldades de adaptação ao novo local de moradia, e, depois, ao envolvimento com o sindicato, e até os problemas no casamento. Essas dimensões fazem parte do cotidiano de milhões de trabalhadores. [3]

O trabalhador sente profundamente o impacto das mudanças e, mais que isso, atua concretamente no entrelaçamento das referidas mudanças e nas relações delas decorrentes. As mudanças no mundo produtivo, denominadas de reestruturação produtiva, causam impactos para os trabalhadores e estabelecem novas relações de trabalho, novas formas de controle sobre o trabalhador, eliminando postos de trabalho e extinguindo profissões como a de ferramenteiro.

Os trabalhadores ferramenteiros, que possuem 30 anos de empresa, vivenciaram estas mudanças desde a década de 70. Vale dizer que interagiram, enfrentaram, aceitaram e resistiram à este processo. Desta forma, não são espectadores mas participaram efetivamente das mudanças, sabendo que as alterações não são irreversíveis; são resultados da correlação de forças, dos aspectos sociais, políticos e econômicos.

Diante das mudanças, nota-se, uma tendência à ambigüidade frente às mesmas. Há uma admiração pelas novas tecnologias, ao mesmo tempo que há consciência que as mesmas eliminam postos de trabalho e reduzem drasticamente o número de trabalhadores.

A introdução das novas tecnologias aparece como um dos motivos principais em ter diminuído o pessoal, por ter menos trabalho hoje. Podemos analisar isto na fala de um operário de São Bernardo do Campo:

"Agora é hora de tecnologia, um torno programado tira o emprego de dez convencional, de bons profissionais. Hoje tem mais facilidade, mais rápido, com maior qualidade, devido as novas tecnologias. Facilita bastante, só que veio o desemprego, o serviço melhorou e diminuiu o emprego... encaixa um aqui, outro ali. Vai diminuindo sem o pessoal perceber". [4]

Em sua fala, portanto, a compreensão da reestruturação produtiva adquire tanto a característica mista, de que o serviço após as máquinas novas é mais rápido e melhor, quanto a radicalidade de afirmar e responsabilizar as mesmas pela diminuição de trabalhadores e, pela extinção de sua profissão.

Ao lado disso, vemos o aumento crescente do desemprego e exclusão social. Um desempregado na grande São Paulo demora mais de um ano para conseguir ocupação na região metropolitana. [5] É o chamado "desempregado crônico", e quanto mais ele (o trabalhador) passa fora do mercado de trabalho, menores são suas chances de conseguir nova ocupação. [6]

Esta realidade nos indica a necessidade de pensar uma outra forma de organização social, onde cada um possa ser valorizado e respeitado pelo que é, onde os valores da solidariedade e a vida estejam em primeiro lugar.

É preciso acreditar no futuro. Pensar uma sociedade igualitária com uma população livre e feliz, significa pensar uma sociedade em que estejam presentes valores como justiça, igualdade, vida saudável, educação, participação política, democracia social, garantia e respeito aos direitos humanos e de proteção contra a violência.

Enfim, condições para uma vida com “expressão simbólica e espiritual" conforme assinala Boff [7] . O Brasil que queremos para nós e para as gerações futuras, leva em conta espaço social, político, cultural e econômico para todos em vista à construção de uma sociedade economicamente justa, socialmente solidária e culturalmente plural.



[1] Bessa, Telma. Trabalho e Reestruturação Produtiva. O caso da Volkswagen. São Paulo, Annablume, 2001
[2] Relatório encontro nac. trab. indústria de auto peças e montadoras São Pedro, São Paulo, 4 e 5 de junho/88
[3] Sobre a trajetória de Lula, ver, entre outros, Núcleo Ampliado de Professores do  Partido dos Trabalhadores (org). Lula. Entrevistas e discursos. São Bernardo do Campo, ABCD. Sociedade Cultural,1980; DANTAS JÚNIOR, Altino (org). Lula sem censura. Petrópolis, Vozes, 1981; FRENCH, John D. O ABC dos operários. Conflitos e alianças de classe em São Paulo, 1900-1950. São Paulo, Hucitec: Pref. São Caetano do Sul,1995.
[4] Sr. Antônio César. Entrevista realizada em sua residência, SBC em 22/03/1999
[5] Folha de São Paulo, 18/02/2000
[6] MATOSO, Jorge. O Brasil desempregado. São Paulo, Fundação Perseu Abramo, 1999

[7] Extraído do Caderno nº 9 Valores de uma prática militante. Consulta Popular, SP, fevereiro,2000.

 

TELMA BESSA

   

 


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