Na recente história do
Brasil, constatamos que os trabalhadores metalúrgicos
do ABC foram personagens importantes no processo que buscou
romper o silêncio
imposto pela ditadura militar, abrindo novos caminhos
para um país democrático.
Deste período, vários símbolos permanecem até hoje na memória,
como o personagem João Ferrador.
Este, apareceu inicialmente em março de 1972,
no boletim Tribuna Metalúrgica, do Sindicato dos
Metalúrgicos do ABC, em uma chamada que dizia: "Bilhete
do João Ferrador".
O desenho
é uma criação de Henfil, depois do Laerte e virou logomarca
do jornal. Era o símbolo do trabalhador sindicalizado,
citado em São Bernardo do Campo e arredores. Não se limitava
apenas ao sindicato, mas estava presente nas residências,
bares, campos de futebol, parques de diversões, camisetas
de operários, nas feiras.
Como
uma forma de identificação operária, o João Ferrador expressou
a situação de vida dos trabalhadores. Como porta-voz da
categoria, dava visibilidade aos protestos, reivindicações
e anseios da categoria no período tratando de questões
como arrocho salarial, custo de vida, lutas sindicais.
Sua maneira de se colocar, de escrever os bilhetes de
forma irônica, examinar temas, questionar, falar e pensar,
sensibilizou os trabalhadores em seu cotidiano.
"Quero
falar" era desta forma que João Ferrador se expressava,
e bravo reclamava da queda do poder aquisitivo dos trabalhadores,
o aumento do preço do arroz, feijão, ovos, carne, leite.
Sempre
enviando bilhetes para as autoridades – "ilustríssimos
senhores governantes do meu Brasil grande e potente",
João Ferrador desenvolveu várias temáticas falando da
vida dos metalúrgicos e ganhou a confiança e estima dos
mesmos. Também revelava o orgulho, a pertinência e força
do "homem de macacão", "homem da oficina"
que batalhava no setor de produção da fábrica .
O que
tem a ver essa
história com o Brasil de hoje? Percebemos que as questões
não são novas e conhecemos Lula, presidente
da República do Brasil, nesta dinâmica social. Enquanto
trabalhador expressou sua preocupação com as mudanças
no mundo trabalho, como vemos em um relatório de 1988.
Nas palavras de Luiz Inácio Lula da Silva:
Na década de 60,
nós acompanhávamos a execução de uma peça desde o ferro
bruto até a produção final, coisa que hoje a grande maioria
dos trabalhadores não consegue ver, aliás muitos companheiros
não sabem sequer para que serve o que estão produzindo,
se transformaram em simples apertadores de botões. Isso
se chama automação e acabou com o melhor do operário,
sob o aspecto de sua capacidade profissional. Um ferramenteiro
na década de 60, era um trabalhador respeitado, o que
havia de mais perfeito a nível profissional, e foi se
desqualificando. Hoje o profissional se transforma em
algo sem muito valor.
Lula
que liderou as greves neste período revela algumas vivências
comuns a milhares de metalúrgicos. Sua trajetória reflete
várias experiências comuns na vida desses trabalhadores;
desde a não participação em sindicato, à situação de migrante
nordestino, às dificuldades de adaptação ao novo local
de moradia, e, depois, ao envolvimento com o sindicato,
e até os problemas no casamento. Essas dimensões fazem
parte do cotidiano de milhões de trabalhadores.
O trabalhador sente
profundamente o impacto das mudanças e, mais que isso,
atua concretamente no entrelaçamento das referidas mudanças
e nas relações delas decorrentes. As mudanças no mundo produtivo,
denominadas de reestruturação produtiva, causam impactos
para os trabalhadores e estabelecem novas relações de
trabalho, novas formas de controle sobre o trabalhador,
eliminando postos de trabalho e extinguindo profissões
como a de ferramenteiro.
Os trabalhadores ferramenteiros, que possuem 30 anos de empresa,
vivenciaram estas mudanças desde a década de 70. Vale
dizer que interagiram, enfrentaram, aceitaram e resistiram
à este processo. Desta forma, não são espectadores mas
participaram efetivamente das mudanças, sabendo que as
alterações não são irreversíveis; são resultados da correlação
de forças, dos aspectos sociais, políticos e econômicos.
Diante das mudanças, nota-se, uma tendência
à ambigüidade frente às mesmas. Há uma admiração pelas
novas tecnologias, ao mesmo tempo que há consciência que
as mesmas eliminam postos de trabalho e reduzem drasticamente
o número de trabalhadores.
A
introdução das novas tecnologias aparece como um dos motivos
principais em ter diminuído o pessoal, por ter menos trabalho
hoje. Podemos analisar isto na fala de um operário de
São Bernardo do Campo:
"Agora
é hora de tecnologia, um torno programado tira o emprego
de dez convencional, de bons profissionais. Hoje tem mais
facilidade, mais rápido, com maior qualidade, devido as
novas tecnologias. Facilita bastante, só que veio o desemprego,
o serviço melhorou e diminuiu o emprego... encaixa um
aqui, outro ali. Vai diminuindo sem o pessoal perceber".
Em
sua fala, portanto, a compreensão da reestruturação produtiva
adquire tanto a característica mista, de que o serviço
após as máquinas novas é mais rápido e melhor, quanto
a radicalidade de afirmar e responsabilizar as mesmas
pela diminuição de trabalhadores e, pela extinção de sua
profissão.
Ao lado disso, vemos o aumento crescente do desemprego e exclusão
social. Um desempregado na grande São Paulo demora mais
de um ano para conseguir ocupação na região metropolitana. É o chamado "desempregado crônico",
e quanto mais ele (o trabalhador) passa fora do mercado
de trabalho, menores são suas chances de conseguir nova
ocupação.
Esta realidade nos indica a necessidade de pensar
uma outra forma de organização social, onde cada um possa
ser valorizado e respeitado pelo que é, onde os valores
da solidariedade e a vida estejam em primeiro lugar.
É
preciso acreditar no futuro. Pensar uma sociedade igualitária
com uma população livre e feliz, significa pensar uma
sociedade em que estejam presentes valores como justiça,
igualdade, vida saudável, educação, participação política,
democracia social, garantia e respeito aos direitos humanos
e de proteção contra a violência.
Enfim,
condições para uma vida com “expressão simbólica e espiritual"
conforme assinala Boff. O Brasil que queremos para nós e para
as gerações futuras, leva em conta espaço social, político,
cultural e econômico para todos em vista à construção
de uma sociedade economicamente justa, socialmente solidária
e culturalmente plural.