Economia brasileira,
perspectivas para 2003
I.
Juros e depressão
A economia
brasileira vem sendo, há anos, desgastada por juros elevados.
Em 2002 eles atingiram um recorde. Os encargos financeiros
federais, que incluem as correções monetária e cambial,
foram da ordem de R$ 320 bilhões, quantia sem comparação com a divulgada pelo Banco
Central (R$ 113.9 bilhões).
A cifra real supera as receitas tributárias da União.
A provável repetição de algo semelhante em 2003 implica
afundar a economia brasileira em depressão ainda
mais grave que a atual. Em 2002, um dos fatores do fabuloso e improdutivo
dispêndio em juros do Tesouro Nacional foi o rendimento
médio dos títulos indexados ao dólar da ordem de 75% aa.
Na média total o custo de carregamento da dívida mobiliária
foi de absurdos 45% aa.
2. Agora
o câmbio está em queda e, assim, desde o início do ano, diminuíram as aplicações em títulos indexados ao dólar, os quais
estão tendo rendimento negativo. Mas, desde o final do “governo”
anterior, vem sendo aumentada a taxa básica (SELIC), de
referência para os títulos não indexados. A nova administração
neotucana do PT a elevou, ainda mais, para 26,5% aa. Até
o final do ano, a provável recuperação do dólar pode fazer
com que o custo médio da dívida mobiliária interna iguale
ou supere 30% aa. Isso implica uma conta de R$
270 bilhões, contando também os juros da dívida pública
externa.
3. Não há
que se impressionar pela parcial recuperação da cotação
do real no mercado de câmbio e pela queda da taxa de risco
na captação de recursos externos. São coisas passageiras
e parte de uma montagem para convencer a opinião e o Congresso
a aprovar as “reformas” impostas pelo FMI, com as quais
o governo petista se comprometeu.
A produção e a renda real estão caindo,
e a situação se agrava,
em função de: 1) altíssima taxa básica de juros;
2) arrocho monetário, até com a elevação das reservas dos
bancos no Banco Central; 3) arrocho fiscal: ao assumir,
a nova administração anunciou
a meta de “superávit primário” de 4,25% do PIB, que era
antes 3,75%, alegando que isso faria diminuir a dívida,
embora, há anos, um e outra cresçam; 4) empresas nacionais
endividadas e com o mercado em retração; 5) alta dos juros
para investimentos produtivos com taxas acima de 100%a aa.,
sob a alegação de risco; 6) estoque de títulos públicos,
que assegura imensos ganhos aos bancos, deixando os tomadores
de recursos sem poder de barganha para negociar taxas de
juros.
4. Os resultados
aparentemente positivos decorrem da depressão, pois, em função desta, as empresas priorizam
a exportação, e escasseia a demanda por importações. Faz-se
aumentar a anemia do paciente no mesmo ato de maquiar seu
rosto com cores saudáveis. O outro lado da moeda dos êxitos
fugazes é a subida acelerada da taxa de desemprego, que
já ultrapassa 12% aa., até nos róseos levantamentos do IBGE. A inflação pouco refluiu, apesar da repressão
à demanda por bens e serviços. Não há método mais contraproducente
de combate à inflação que as políticas e fatores resumidos
no parágrafo 3, acima.
5. Nas condições
políticas prevalentes, caracterizadas por total submissão
aos ditames da oligarquia financeira estrangeira, outro
fator de depressão são os constantes aumentos da carga tributária.
Esta, que em 2002 atingiu 36,5% do PIB,
reduz a muito pouco a renda disponível da classe
média, ademais penalizada por proporção de tributos muito
acima da geral. A poupança forçada é acumulada improdutivamente
por concentradores financeiros, em vez de ser investida
pelo Estado na infra-estrutura econômica e social e no apoio
à produção privada. Além disso, o modelo econômico com predominância
das transnacionais retira do País o grosso dos ganhos da
economia, por meio das transferências. Tal é a vulnerabilidade que o modelo implanta na economia,
que esta depende de investimentos estrangeiros para equilibrar
o Balanço de Pagamentos, diante do déficit crônico nas transações
correntes com o exterior (mercadorias, serviços e rendas),
e, ao mesmo tempo, tais “investimentos” são o fator decisivo do crescimento constante
desse déficit.
II. Modelo econômico, câmbio e “reformas”
6. Essas
são as tendências estruturais que se têm acentuado nos últimos
40 anos (só a ruptura com o modelo pode modificar tal situação).
Elas levam a inexorável declínio da economia brasileira a longo prazo.
O Brasil, cuja economia foi a 8ª do Mundo na dimensão
(não qualitativamente), caiu em 2002 para o 12º lugar. Conjunturalmente,
alguns indicadores podem
melhorar, mas nunca todos ao mesmo tempo. Por exemplo, no momento há melhoras em aspectos
das contas externas: a) passou a haver, desde 2002, significativo
saldo positivo na balança comercial, que prossegue crescendo
em 2003; b) a taxa de câmbio do real recuperou uma parte
do que perdeu no 2º semestre de 2002; c) a taxa de risco
sobre novos títulos brasileiros no exterior cedeu muito,
embora ainda esteja altíssima; d) a nova administração fez
sua primeira captação externa no final de abril. Apesar
disso tudo, os investimentos
diretos estrangeiros vêm registrando, nos primeiros meses
de 2003, queda vertiginosa em relação a
2002. Houve entradas significativas apenas de capital
especulativo de curto prazo.
7. O modelo
é como um lençol curto:
tapados os pés, descobre-se o peito. Além disso,
o lençol continua encolhendo. As melhoras do momento foram
obtidas ao preço de paralisar a economia, por meio dos arrochos
descritos no parágrafo 3: a) monetário, reduzindo a oferta
de moeda e tornando proibitivo o crédito; b) fiscal: só
gastar em juros. Tudo isso suprime a demanda, desestimula
o investimento produtivo de empresas nacionais. Estas
mal podem sobreviver, em face dos juros e dos tributos.
São afastados até os investimentos das empresas transnacionais.
Além de arrasar a economia real interna, a aparente melhora
financeira externa não tem como se sustentar por muito tempo.
8. Com queda
expressiva da taxa do dólar, as transnacionais aproveitam para intensificar as remessas ao exterior,
que costumam fazer a diversos títulos, na conta de serviços
das transações correntes com o exterior, bem como na conta
de mercadorias, por meio dos preços das importações e exportações.
As empresas endividadas em dólar tentam amortizar parte
de suas dívidas, o que não podiam fazer quando o real estava
mais desvalorizado. Ambos movimentos só seriam evitados
se o mercado e as receitas das empresas minguassem demais.
As remessas ao exterior dos ganhos do capital especulativo
no mercado de títulos públicos continuam, independentemente
das condições (depressivas) do mercado de bens e serviços, e farão aumentar a pressão sobre o real, pois
elevarão a oferta deste, bem como a procura por moeda estrangeira.
9. Em suma,
para impedir a reversão do câmbio, dentro de meses, no sentido da alta
da cotação do dólar, as autoridades monetárias teriam de
manter os arrochos ou
intensificá-los, mas isso causaria o colapso da economia.
Aumentaria a queda na produção, o número de falências e
o desemprego, acrescendo ao acúmulo dessas calamidades.
A presente convulsão social cresceria, com conseqüências
imprevisíveis. No caso, a moeda também afunda.
Portanto, o real se depreciará de um modo ou de outro,
quando termine o fôlego das manipulações dirigidas por financistas
do exterior. Grandes aplicadores em títulos públicos da
dívida interna têm atuado para que o dólar baixe antes de
subir de novo, pois, para haver excepcionais rendimentos
nos títulos indexados, isso tem de ser feito a partir de
cotação do real recuperada, pelo menos em parte, de sorte
que o retorno ao nível do final de 2002 acarrete ganhos
vultosos.
10. Apontando
para pretensa estabilização da moeda e melhora do crédito
externo, ciclos como o presente podem ter sido orquestrados,
em início de governos, a fim de facilitar a aprovação de “reformas estruturais” prescritas pelo FMI.
Assim foi com FC-I e FC-II (no caso deste,
o real foi criado antes da eleição, em final de governo
de que era ministro). Ambos se serviram do pretenso
crédito de confiança dos eleitores para impingir ao País
imensos pacotes legislativos e de emendas à Constituição.
Agora, com o PT (Partido das Transnacionais?), repete-se
roteiro semelhante.
III. Dívidas interna e externa
11. A dívida
pública líquida, sem descontar as reservas internacionais,
cresceu de R$ 691 bilhões
em 2001 para R$ 941 bilhões em 2002 (36%). Com esse estoque
de dívida interna, não há como evitar que os juros continuem
paralisando o País, mormente com uma administração
que pretende usar altas taxas de juros para controlar a
inflação. Aqueles números não incluem algumas dívidas e
os mais de R$ 200 bilhões de títulos do Tesouro Nacional
na carteira do Banco Central. Os Estados estão praticamente
falidos. De há muito, não emitem títulos, tendo ficado em
dívida, indexada ao IGPM, junto à União. Bancos estaduais, privatizados, deixaram de existir. Desse modo,
não há mais Federação, tendo-se tornado total a dependência
dos Estados à União, por sua vez, telecomandada do exterior,
o que põe em questão a República.
12. Metade
da dívida externa é privada, o que pôs a maioria das grandes
empresas nacionais à beira da falência ou na própria, em
função da desvalorização cambial de 2002. As médias e
pequenas, de há muito, dependentes de crédito interno, foram asfixiadas
e, muitas, exterminadas.
13. As perspectivas
do Balanço de Pagamentos são função da vulnerabilidade estrutural
do modelo, traduzida no crônico déficit nas transações correntes.
Este totalizou U$ 145 bilhões nos últimos seis anos.
Diminuiu muito em 2002, em função dos superávits comerciais,
mas ainda somou US$ 8,5 bilhões nesse ano. A redução
decorreu da política depressiva, repressora de
investimentos produtivos e da demanda. Ou seja, no
modelo dependente, as contas só se equilibram ao preço de
empobrecer o País. Sem o declínio da economia real, ressurge
a demanda por importações, e as transnacionais intensificam
as transferências ao exterior, aproveitando a relativa revalorização
do real. O equilíbrio
do Balanço de Pagamentos (BP) tem sido mantido com dificuldade,
dada a queda em 2002 dos investimentos diretos estrangeiros
(IDEs), a qual se acentua no 1º trimestre de 2003. O
equilíbrio do BP tem dependido de capitais de curto
prazo, mesmo porque não tem havido rolagem integral das
amortizações da dívida externa, estimadas para 2003 em US$
37 bilhões.
14. Não é,
pois, grande a probabilidade de ser afastada nova crise
das contas externas em 2003. A rolagem das dívidas depende
de uma confiança demasiado onerosa para o Brasil, a dos
bancos credores. O preço dela envolve, entre outros custos,
aprofundar a depressão determinada pelo FMI. Este suplementa
as minguadas reservas internacionais, cujo estoque, sem
os recursos do Fundo, é de apenas US$ 14 bilhões. De resto,
independentemente da crise financeira mundial, o histórico
demonstra a vulnerabilidade crônica nas contas externas.
Como lembrou Nogueira Batista Jr., a economia brasileira
experimentou graves crises cambiais em 1995, 1997, 1998,
1999, 2001 e 2002.