A
vitória eleitoral de Luís Inácio Lula da Silva e do PT,
nas recentes eleições presidenciais, condensam mais de duas décadas de transformações sociais e políticas no Brasil.
Grandes transformações. Duas décadas nas quais o tempo
histórico foi acelerado, fragmentado, convulsionado e
rompido, criando um país que dificilmente se reconheceria
nas décadas precedentes, muito embora seja sua formação
social marcada por continuidades seculares. Tal aceleração
temporal não foi apenas vivenciada nas grandes metrópoles,
onde era de se esperar, mas também no meio rural, onde
o lento tempo dos ciclos naturais, com suas estações,
seus dias e suas noites, foi abalado pelo irromper da
política com seu próprio ritmo.
Os movimentos que tiveram lugar no ABC paulista no final
da década de 1970, inauguram uma ampla luta contra a superexploração
do trabalho e a legislação política repressiva, que atrelava
o movimento sindical ao Estado e restringia as formas
de representação dos trabalhadores. Marcadas pela espontaneidade e pela
sua ofensividade, tais greves inauguraram uma nova prática
sindical e política. Rejeitando a colaboração, os pactos
sociais e o imobilismo que haviam caracterizado boa parte
da esquerda brasileira até então, as greves do ABC criaram
um movimento social fundado no confronto social e na independência
de classe.
O nascimento do PT está ligado de maneira indissolúvel
a esse movimento grevista. Já em meados daquele ano de
1978, o jornal Versus começava a divulgar a proposta
de criação de um partido de trabalhadores sem patrões,
que desafiasse a ditadura militar em vigor. Tal proposta
ganhou expressão na tese que o Sindicato dos Metalúrgicos
de Santo André, apresentou no 9º Congresso dos Trabalhadores
Metalúrgicos do estado de São Paulo, realizado na cidade
de Lins, em janeiro de 1979.
As definições estratégicas do projeto político do PT,
não deixaram de apresentar em seus primeiros anos um nível
de extrema generalidade e ambigüidade. O Programa do
Partido, aprovado na Reunião Nacional de Fundação,
em outubro de 1980, propõe construir, na luta contra o
regime repressivo, “uma alternativa de poder econômico
e político, desmantelando a máquina repressiva e garantindo
as mais amplas liberdades para os trabalhadores e oprimidos
que se apóie na mobilização e organização do movimento
popular e que seja a expressão de seu direito e vontade
de decidir os destinos do País.” O Programa definia
esse poder alternativo como constitutivo de uma sociedade
sem explorados nem exploradores e afirmava que sua construção
se daria contra os interesses do grande capital nacional
e internacional, mas pouco dizia sobre as formas de se
chegar até ele.
O que fazia a força do Partido em seus primeiros anos
não era seu projeto estratégico e sim sua força social.
O que atraia militantes do movimento sindical e da juventude
era a possibilidade de agir efetivamente por meio da participação
política em um partido que não trazia a marca pesada do
imobilismo e do burocratismo que haviam assolado a esquerda
brasileira antes do golpe militar de 1964. Nesse sentido,
o PT condensa um processo de reconfiguração social e política
da classe trabalhadora brasileira que havia se processado
na década de 1970 por meio de uma multiplicidade de movimentos
sociais que contestavam a antigas formas de institucionalização
da política das classes subalternas. O que fazia o novo partido promissor
era sua lógica da diferença.
A construção do Partido dos Trabalhadores representava,
assim a fundação de um classismo em estado prático, uma
tradução político-organziativa daquele movimento espontâneo
de greves que havia sacudido a ditadura militar no final
da década de 1970, alterando profundamente as formas de
exercício da política no Brasil. As marcas desse classismo prático eram
sua repulsa quase instintiva às políticas de colaboração,
concertação e alianças com a burguesia, a afirmação em
seu nascedouro de uma vocação anti-capitalista e uma crença
no poder taumatúrgico das “bases do partido”. Essa dimensão
prática, espontânea, foi o que deu ao Partido dos Trabalhadores
o vigor e o empuxo capaz de renovar a forma de fazer política
da classe trabalhadora e, como reação, das próprias classes
dominantes. Era a afirmação política de uma força inimaginada
e inesperada até então.
As práticas espontâneas desse classismo, logo transformaram-se
em um espontaneísmo teórico. A ausência de definições
estratégicas mais precisas foi creditada à plasticidade
do próprio movimento e apresentadas como a maior virtude
do Partido. Daí a insistência de que o PT não nascia “pronto
e acabado” e que seu programa surgiria “da prática política
das suas bases sociais” e seria detalhado “pela prática
política dos trabalhadores”.
A constituição de um novo projeto societal era reduzido,
assim, ao movimento espontâneo. No conflito de racionalidades
que tem lugar na luta de classes em ato, o que o PT tinha
a oferecer era apenas o próprio ato da luta. Essa atitude
absenteísta no conflito de racionalidades não fez senão
criar uma subalternidade passiva do partido no terreno
ideológico, alimentando um ecletismo teórico cada vez
mais forte. Sem constituir uma concepção de mundo alternativa,
aprisionou essas energias a um horizonte econômico-corporativo,
muito aquém de um projeto societal capaz de afirmar uma
nova ordem. A identidade política que havia sido construída
pelo partido era limitada. Ela não fora traduzida em uma
identidade teórica que desse conta de maneira inovadora
e radical dos problemas postos pela complexa realidade
brasileira e latino-americana. Limitou-se a algumas frases
vagas e à reprodução de um senso teórico comum. Não produziu
novos saberes, reproduziu velhas verdades.
O espontaneísmo teórico retirava sua força das energias
sociais do ciclo de greves que teve início em 1978 e a
elas se limitava. Mas o classismo prático que alimentou
e dinamizou a reorganização do movimento político e sindical
das classes subalternas teve uma vida curta. Não suportou
o peso das vitórias eleitorais do Partido dos Trabalhadores.
A ascensão no interior do aparelho estatal foi acompanhada
pelo fortalecimento de uma burocracia partidária cada
vez mais afastada das bases do partido. Já em meados da
década de 1980, os núcleos que deveriam organizar os militantes
de base haviam dado sinais claros de atrofia. No começo
dos anos 1980, eles simplesmente não existiam mais, sendo
substituídos pelos comitês eleitorais dos candidatos e
reproduzindo, assim, a personalização da política brasileira
ditada por um voto nominal e não partidário.
O grande espaço ocupado no interior do aparelho partidário
por este corpo de funcionários políticos e estatais, cobrou
seu preço. Aos poucos, o classismo prático foi diluindo
seus referenciais sociais e retendo apenas sua dimensão
pragmática. O horizonte econômico-corporativo teve
seu conteúdo social modificado. A lógica da diferença
que havia norteado os primeiros anos da atribulada vida
do partido cedeu gradativamente o lugar à lógica do Estado
sustentada no grande número de parlamentares, prefeitos,
governadores e seu séqüito de assessores. Tal lógica repousa
sobre a concepção de um Estado ambivalente, supostamente
alheio às determinações de classe, portador de elevada
capacidade de adaptação aos novos conteúdos incorporados
pelos seus dirigentes.
Quando o Partido dos Trabalhadores anunciou o início
de uma discussão estratégica, em seu 1º Congresso, realizado
no ano de 1991, ela não poderia mais ser a tradução do
classismo prático. A derrota da candidatura de Lula em
1989, as derrotas das greves dos servidores públicos em
1990 e os primeiros passos na implementação de um modelo
neoliberal haviam dissipado as energias dos movimentos
sociais e pavimentado a via para a consolidação de uma
lógica estatal de gestão da política no interior do partido.
Já nos debates preparatórios ao 1º Congresso a consolidação
dessa lógica afirmava-se com uma força e uma clareza inusitadas
na tradição petista. A resolução final do Congresso intitulada
simplesmente Socialismo, foi marcada por um sem
número de emendas apresentadas pelas tendências de esquerda,
mas nem por isso perdeu seu caráter fundamental: a democracia
sans phrase era definida como um valor universal;
o socialismo era concebido como uma combinação de “planejamento
estatal e um mercado orientado socialmente”; e, finalmente,
o poder taumatúrgico deixava de ser das “bases” e passava
para um “Estado [que] exerça uma ação reguladora sobre
a economia, através de suas próprias empresas e de mecanismos
de controle do sistema financeiro, de políticas tributárias,
de preços, de crédito, de uma legislação antimonopolista
e de proteção aos consumidores, aos assalariados e aos
pequenos proprietários”.
Evidentemente, não existe programa viável na ausência
de um sujeito capaz de realizá-lo. Por essa razão, no
coração do projeto petista ao lado do mercado encontramos
o Estado. O tema foi retomado recentemente, por ocasião
de uma série de debates que o Partido dos Trabalhadores
realizou sobre o socialismo. Na ocasião, Lula definiu
assim o tema do protagonismo estatal: “o mercado só funciona
se houver um Estado muito forte regulando esse mercado
e o obrigando a cumprir algumas cláusulas sociais. Só
o mercado não resolve. Compatibilizar o mercado com um
Estado regulador, capaz de garantir as necessidades das
pessoas, seria o ideal. Como fazer isso é o que está colocado
para o PT”.
Os argumentos assim como a solução apresentada não deixam
de lembrar Proudhon. A competição, e portanto o mercado,
é apresentada como o mecanismo capaz de proporcionar a
igualdade e o desenvolvimento social. Haveria, entretanto,
o lado mau da concorrência, seu efeito mais provável é
o de voltar-se contra aqueles que dela participam. A solução
de Proudhon é análoga à petista. Dizia o filósofo francês:
“aqui não caberia a questão de destruir concorrência,
coisa tão impossível quanto destruir a liberdade; trata-se
de encontrar o equilíbrio – eu diria, de bom grado: a
polícia”.
Um mercado naturalizado e uma essência humana (a competição)
inamovível, conformam a situação sobre a qual deveria
ser construído o socialismo. Este não seria senão a exorcização
do mal do mercado através do Estado, resgatando aquilo
que teria de potencialmente positivo, a possibilidade
de permitir as escolhas baseadas em opiniões. O mercado,
este é o lugar da liberdade. O Estado-policial-proudhoniano,
este é o seu guardião.
Definido de tal maneira, o socialismo petista se transforma
em uma base sólida para um programa de governo capitalista
que tenha por objetivo superar a crise do modelo neoliberal.
Não se trata de construir o futuro mas de gerir o presente,
retirando deste o que tem de mau ou indesejável. Um governo
do PT viabilizaria essa exorcização do mal e valorizaria
aquilo que o mercado apresenta de bom, humanizando-o.
Assim como em Proudhon, a dialética é aqui mutilada.
A contradição imanente é externalizável, transformando-se
em algo que pode ser eliminado por meio da gestão estatal.
Dessa maneira, a dialética é reduzida a um jogo de oposições
bom/mau, passíveis de serem eliminadas pela supressão
de um de seus pólos. Ora, a supressão (ao invés da superação
dialética) do jogo por meio do cancelamento político do
lado mau permitiria recriar a realidade em novas bases.
O resultado dessa operação é uma constante reprodução
do previamente existente por meio de um processo de aperfeiçoamento
e harmonização do real.
Se como método temos a dialética, mutilada, como programa
político temos a revolução passiva. É este, e não outro,
o conteúdo do programa petista: a atualização gradual
da estrutura econômica do capitalismo por meio de sucessivas
transições comandadas pelo Estado, evitando a intervenção
ativa das classes subalternas nesse processo. Atualização,
e não superação do capitalismo. Tal estratégia reproduz,
com novo comando político, a história do próprio desenvolvimento
capitalista brasileiro, marcado por transformações passivas
permanentes levadas a cabo por um Estado-guia. Longe de
terem realizado a esperança do Brasil como “país do futuro”,
tais processos não fizeram senão recriar o passado através
da gestão do presente.
Os resultados eleitorais de 2002 expressaram um profundo
desejo de mudanças sociais e uma nova relação de forças
sociais. Este desejo de mudanças é incompatível com a
continuidade das políticas econômicas neoliberais e com
as propostas de independência do Banco Central e de reforma
da previdência antecipadas até aqui pelo novo governo.
Para a esquerda a possibilidade de mudanças no projeto
societal brasileiro, implica romper com os padrões de
desigualdade social e de subordinação externa que prevaleceram
até aqui. Mas essa atitude exige uma estratégia de confronto
social e teórico, uma renovação programática militante
que substituísse os apelos por uma transição passiva e
gradual, inviável ao extremo, por uma política de anti-revolução
passiva capaz de opor à ordem atual do capital uma “antítese
vigorosa”. A construção dessa “antítese vigorosa” no terreno
da política e da teoria é o desafio, mais atual do que
nunca, da esquerda brasileira.