Com
a aproximação das férias de verão nos meses de junho e julho,
os estudantes universitários aqui nos Estados Unidos se preparam
para voltar para a casa dos pais, e para arrumar um emprego
de verão. Este é um tempo também um pouco angustiado por aqui,
com muitos dos estudantes passando as noites em claro, tentando
aprender de última hora o que não aprenderam durante o semestre.
Nesta última característica, acho que alunos no mundo inteiro
são todos iguais.
Aqui
em St. Mary’s University, com a nossa população estudantil
que vem principalmente de cidades texanas próximas, este também
é um período em que é comum ver-se grupos de jovens combinando
encontrar-se na nossa cidade praiana mais próxima, Corpus
Christi. Outros grupos se juntam para passar informações de
possíveis empregos. Enfim, apesar dos exames finais que se
aproximam, há um ar de quase festa em todos os corredores
e pracinhas do campus.
Por
isso estranhei que uma de minhas alunas, Ivy, um dia desses
chegou à sala de aula acabrunhada. Ela sempre foi alegre,
entusiasmada, pronta pra oferecer suas opiniões e participar
da aula. No fim da aula, enquanto os outros alunos saíam,
perguntei a Ivy se ela estava bem. Ela disse que sim. Então
eu lhe perguntei se ia passar o verão com a família. De repente,
foi como se uma represa tivesse explodido, e esta mocinha,
em geral tão alegre, começou a chorar e dizer que a família
não quer que ela volte pra casa neste verão.
A
família de Ivy mora em Hong Kong. Ela me disse que tanto a
mãe como o pai lhe haviam proibido de voltar para casa por
causa da epidemia de pneumonia que está avassalando a cidade.
"Meus pais não querem que eu volte agora, e não sabem
quando vamos poder nos ver, se esta epidemia continua. Eu
estou preocupada por eles, e eles não querem que eu me arrisque."
O
caso de minha aluna não é único, logicamente. Em várias partes
do mundo pessoas originárias da China estão impossibilitadas
de voltar para suas casas. Chamada SARS–Severe Acute Respiratory
Syndrome--nos países de língua inglesa, esta epidemia começou
na China em novembro do ano passado. O potencial mortífero
da doença não foi detectado, e a doença começou a se espalhar
em progressão geométrica. Agora quase todos os países do mundo
têm casos da pneumonia asiática. Seis por cento dos que contraem
a doença morrem.
De
acordo com a Organização Mundial da Saúde alguns países estão
em na categoria de lugares a serem evitados, devido ao alto
índice de transmissão da doença. Esta semana de 21 a 25 de
abril, quando escrevo este texto, viu vários protestos da
cidade de Toronto, onde já algumas pessoas morreram da pneumonia
asiática. Ao verem sua cidade colocada na lista da OMS, administradores
de Toronto argumentaram que a epidemia está sob controle.
Mas
como controlar uma doença que nem os médicos dos hospitais
mais avançados sabem definir exatamente? Ao que tudo indica,
a síndrome respiratória aguda severa é uma mutação do vírus
que causa o resfriado comum. Mas esta mutação parece ter vindo
da incorporação de um vírus que vem de porcos, e um que vem
de galinhas. E, para fazer tudo ainda mais complicado, os
trabalhadores em hospitais (médicos, enfermeiros, funcionários)
tem sido a população mais afetada. Este fim de semana, o governo
chinês cercou e colocou em quarentena mais dois hospitais
na cidade de Pequim: um total de mais de 4 mil pessoas, entre
os trabalhadores e os pacientes destes hospitais têm que ficar
retidas até que se abata a doença.
Outras
medidas drásticas: nos aeroportos internacionais de várias
cidades no mundo inteiro, os passageiros chegados de países
onde há alta incidência da doença têm que preencher um formulário
onde indicam se tiveram os sintomas. Em outros lugares, os
passageiros são saudados por um exército de enfermeiras que
tomam a temperatura de cada um e os entrevistam para saber
se apresentaram os sintomas da doença.
Mas
estas coisas são conhecidas em quase todo mundo, e creio que
até no Brasil o interesse pelo assunto aumentou desde que
se diagnosticaram dois casos no país. O que me interessa mais,
aqui, é traçar um paralelo entre esta epidemia e a epidemia
de terrorismo que vem avassalando o mundo.
Quando
os dois aviões se chocaram contra o World Trade Center em
Nova Iorque, o mundo inteiro viu a forma espetacular do terrorismo,
e suas terríveis imagens. Aquele ataque, ocorrido numa das
cidades mais ricas do mundo, o centro nervoso e financeiro
dos Estados Unidos, afetou gente dos confins do planeta. Quantos
pastores de rebanhos no Afeganistão (pra tomar este exemplo
apenas), tiveram seu modo de vida, suas vidas, destruídos
pela guerra em busca de Bin Laden? A linha entre Nova Iorque
e aquelas aldeias afegãs não poderia ter sido mais direta.
Agora,
uma doença que se desenvolveu nos confins ultra-subdesenvolvidos
da China, foi nutrida pela necessidade do governo chinês de
ignorar muitas das coisas que afetam a sua população, sua
mania de impor silêncio a tudo que não lhe agrada (o caso
de como a AIDS se espalhou pelas áreas mais pobres da China
através da coleta e redistribuição de sangue é um crime que
ainda não foi punido) está afetando o mundo inteiro, inclusive
uma cidade rica como Toronto, no Canadá. E a epidemia não
dá sinal de parar.
Com
a epidemia, aliada às tensões provocadas pela guerra contra
o Iraque, a economia mundial certamente vai sofrer danos.
No nível humano, há já várias histórias que nos fazem repensar
o sentido da responsabilidade de administradores de todos
os países. No caso específico desta epidemia, o descaso e
a arrogância de alguns, na China, agora estão afetando pessoas
como minha aluna Ivy, ou como um amigo australiano que trabalha
em Singapura, e agora não tem coragem de voltar ao seu país
porque tem medo de, sem saber, levar o vírus consigo para
sua família.
Quase
já não se fala mais em globalização, pelo menos aqui nos Estados
Unidos, desde que Bush se elegeu. O que esta epidemia assim
como os ataques terroristas no mundo inteiro demonstram é
que a globalização é um fato. Já ninguém pode assumir que
o que se faz em uma aldeia pode ficar naquela aldeia. Mas
talvez este momento de grande medo tenha, a longo prazo, um
impacto positivo. Se nenhum homem ou mulher é uma ilha, a
gora está mais do que claro que nenhum país é uma ilha também.
Quanto
à minha aluna Ivy, penso que vou passar este verão conversando
com ela um pouco mais sobre a China, e tentando saber como
ela – que mal lembra quando Hong Kong pertencia à Inglaterra
– vê estas questões todas. Vou aproveitar para falar com ela
sobre o Brasil, do qual ela só conhece o de costume: futebol
e carnaval. Já é um bom começo.