Em
1998, entidades vinculadas à USP, Unicamp e
Unesp, mais a Adusp e a Fundação Perseu Abramo,
organizaram o evento Pensamento e militância
em homenagem a Antonio Candido. O homenageado resistiu
à idéia e condicionou a sua participação ao compromisso
de que não se falaria dele nem da sua obra, a não
ser em situações inevitáveis, como na abertura do
evento. Sua obra e experiência de vida foram definidores
dos temas abordados e discutidos.
Eis
um raro exemplo altruísta num meio em que, via de
regra, arde a fogueira das vaidades. Porém, o desprendimento
do homenageado gera dificuldades aos que homenageiam:
como controlar as emoções quando a admiração e a
estima encontram-se no tênue limite entre a manifestação
de estima e o culto à personalidade? É possível,
quando falamos e escrevemos sobre os que gostamos
e admiramos, evitar a apologia?
Não
esqueço a experiência de ler a biografia de Karl
Marx, publicada sob os auspícios do Instituto de
Marxismo-Leninismo vinculado ao Comitê Central do
PCUS: à medida que avançava a leitura tinha a impressão
de que Karl Marx não era humano mas quem sabe um
desses heróis que permeiam a imaginação dos homens
e mulheres comuns. Embora jovem tinha senso crítico
suficiente para diferenciar o reconhecimento factual
da mistificação apologética. Parei de ler o tal
livro e só voltei a me dedicar à leitura de obras
biográficas no período atual e por obrigação do
ofício de pesquisador...
Se
os vivos não conseguem impor limites à maneira
como sua obra é incorporada por leitores, interpretadores
e eventuais discípulos, a obra dos mortos fica à
mercê das interpretações e usos dos epígonos.
O legado das celebridades periga se tornar um bem
simbólico disputável no mercado. O alcance da influência
da obra dos intelectuais de relevo coloca o problema
da apropriação e sacralização do seu discurso. Sua
herança pode transformar-se em argumento de autoridade
e objeto de disputa e corre-se o risco do autor
ser alçado ao status de profeta, fundador de uma
ordem sacerdotal. O ‘discípulo’, membro desta ordem
fictícia ou real, posa de “guardião da autoridade
da mensagem” e tem a pretensão de delimitar o que
é verdadeiro — ou seja, sua interpretação sacerdotal
da obra do mestre — instituindo as dualidades entre
as leituras legítimas e as ilegítimas. Como alerta
BOURDIEU (1996: 160), “o eu sacerdotal deriva
sua autoridade do profeta de origem”.
Todo
autor cuja obra ganha destaque arrisca-se, ainda
que não seja a sua intenção, a conquistar discípulos.
O reconhecimento do seu valor e a merecida homenagem
comporta duplo perigo: reprodução acrítica e a bajulação
intelectual - fenômenos nem sempre perceptíveis
pelos que os praticam. A repetição de conceitos,
frases e fórmulas, pode parecer o meio correto para
a preservação da mensagem legada; a lisonja pode
se confundir com a estima. De qualquer forma, é
compreensível que assim seja: muitas vezes, constituem
formas de sublimação da dor que sentimos com a perda
daquele que consideramos o mestre.
A
atitude idólatra do discípulo concede ao texto um
caráter dogmático e hagiográfico. Isso dificulta
o debate científico e tornam imperceptíveis a riqueza
da sua obra e os caminhos apontados pelo autor.
A melhor homenagem que podemos prestar a um autor
é, a partir do seu reconhecimento, tentar ir além
dele – tarefa dificílima e nem sempre possível.
Por mais que gostemos de um autor, por mais que
o respeitemos, devemos superar a relação de encanto
e manter a postura crítica: o contrário é desqualificá-lo.
A estima não deve ser confundida com a bajulação.
A
veneração não é o melhor caminho para se analisar
ou homenagear um autor. Há momentos em que é preciso
praticar, à maneira freudiana, uma espécie de assassinato
da figura paterna. Isso significa romper com a tendência
de transformar homens em heróis, em tratar a sua
vida e obra de maneira hagiográfica e de subtraí-los
do mundo dos homens comuns, repletos de acertos
e erros. Não é fácil: corre-se o risco da incompreensão
e de ser declarado infiel ou traidor.
Essas
reflexões não imputam equívocos aos que fazem a
merecida homenagem a Maurício Tragtenberg, e sim,
expressam a angústia inquietante e individual de
quem abraça o desafio de resgatar, compreender,
analisar e contribuir para o registro histórico
do legado de Maurício Tragtenberg.
As
homenagens são necessárias e uma maneira
eficaz de não se impor a segunda morte à
qual todos estamos sujeitos: o esquecimento. Maurício
Tragtenberg: Uma vida para as Ciências Humanas,
organizado por Doris Accioly e Silva e Sonia Alem
Marrach, cumpre esse objetivo. Essa obra reúne
depoimentos e análises sobre Maurício Tragtenberg
e constitui uma contribuição fundamental aos que
não o conheceram, aos que lembram-no com
saudades e aos que desejem aprender e aprofundar,
a partir da senda aberta por sua produção intelectual.
Por outro lado, sintetiza o dilema do ato de homenagear
Maurício
Tragtenberg: Uma vida para as Ciências Humanas,
resulta de um evento promovido na Faculdade de Filosofia
e Ciências da Unesp (Campus de Marília/SP), nos
dias 23 a 27 de agosto de 1999, e foi organizado
em três partes: na primeira, reproduz-se parte das
memórias autobiográficas do homenageado e publicam-se
depoimentos de amigos dos idos da juventude à maturidade.
Na
segunda parte, analisa-se a contribuição da obra
de Maurício Tragtenberg às Ciências Humanas. Aqui
os autores debruçam-se sobre temas como: a autogestão,
a burocracia e as teorias administrativas, suas
leituras da obra de Rosa de Luxemburgo e Marcuse,
a sua contribuição na área da educação, a universidade
e a política; chama-se a atenção para o caráter
heterodoxo, herético e libertário do seu pensamento
e ação política e até mesmo para a sua influência
pioneira a respeito de autores desconhecidos no
Brasil.
Na
última parte, os autores analisam a relação entre
a teoria e a prática e a busca incessante da difícil
coerência entre ambas. Um aspecto assinalado é a
preocupação ética de Maurício Tragtenberg e a solidariedade
expressada em suas relações pessoais, como intelectual
e militante. A sua generosidade é um valor reconhecido
por todos os que o conheceram: a solidariedade orientou
a sua conduta.
As
homenagens prestadas, ainda que necessárias, cobram
o preço da emoção. Quanto maior o envolvimento emocional
maior o tributo que pagamos. Mas os homens e mulheres
não são apenas razão, mas também sentimentos. Em
certas circunstâncias, o equilíbrio entre razão
e sensibilidade é muito difícil – e ainda bem! Maurício
Tragtenberg: Uma vida para as Ciências Humanas
é uma obra onde a emotividade se faz presente: a
análise racional se mescla com a saudade, o carinho
e a estima sincera.
Como
assinala as organizadoras, o conjunto de textos
apresentados “constitui um balanço inicial do pensamento
de Maurício Tragtenberg e aponta a necessidade de
um aprofundamento nos campos da história da educação,
da sociologia e da história das idéias”. (p. 10)
Maurício
Tragtenberg mereceu esse livro; o leitor também...