A
mídia tem noticiado diariamente a profunda divisão
do mundo com relação à planejada invasão do Iraque
pelas forças conjuntas dos Estados Unidos e Grã-Bretanha.
O que pretendia ser mais um capítulo na cruzada
contra o “eixo do mal” resultou em confrontação
direta entre os governos Bush e Blair, por um
lado, e o resto do mundo, por outro. Sem falar
das manifestações de milhões de pessoas em diversos
outros países, nos próprios Estados Unidos e Grã-Bretanha
têm acontecido inúmeras manifestações contra a
guerra que constituem sinais inconfundíveis do
estado de espírito das populações.
Em que
pesem os esforços incansáveis dos diplomatas norte-americanos
no sentido de pressionar e “convencer” os representantes
dos países membros do Conselho de Segurança das
Nações Unidas para autorizarem o ataque, o que
asseguraria sua legalidade, todo esse episódio
vem lançando uma luz extremamente desfavorável
sobre o processo decisório e a fragilidade do
sistema, supostamente democrático, das Nações
Unidas. Apesar de cinco dos quinze membros do
Conselho de Segurança disporem de direito a veto,
os porta vozes da superpotência têm se arrogado
o direito de proclamar a abertura do conflito,
mesmo se os outros membros recusarem-se a votar
a favor da abertura das hostilidades.
Interessante
frisar que o Conselho não é formado por delegados
eleitos mas por burocratas das respectivas elites
dominantes, acostumados de deliberar sem considerar
as opiniões populares. Afinal, uma decisão envolvendo
os destinos de milhões de pessoas, que seriam
inevitavelmente atingidos pela máquina militar,
deveria ser submetida forçosamente à consulta
popular mediante referendo. O fato do destino
do mundo estar nas mãos de poucos constitui uma
demonstração cabal do fracasso da chamada “democracia
representativa”.
Contra
a promessa de Bush de uma guerra rápida, com poucas
vítimas e “efeitos colaterais”, basta lembrar
a campanha recente contra o Talibã no Afeganistão
que completou a destruição do país
e de sua infra-estrutura, já abalada desde a invasão
dos exércitos da ex–União Soviética, nos anos
80. Os órgãos competentes da ONU calculam milhões
de refugiados e desabrigados, sem falar dos famintos
e dos mutilados em conseqüência de bombardeios
e minas terrestres.
Soa hipócrita
a exigência de desarmamento do Iraque após anos
de fornecimento de todo o tipo de material bélico
– inclusive para a fabricação de armas biológicas
e químicas – pelas principais potências, compreendendo
os próprios Estados Unidos. Foi a França que financiou
e construiu o reator nuclear do Iraque, destruído
pela aviação de Israel pouco tempo antes do início
de seu funcionamento.
Inquestionavelmente,
ninguém morre de simpatias por Saddam Hussein,
ditador brutal e sangrento que, além de dilapidar
as riquezas de seu país com a compra de armamentos,
lançou-se em dois conflitos absolutamente inúteis,
contra o Irã e o Kuait. Foi Hussein quem usou
armas químicas contra os soldados iranianos e
contra as populações curdas e shiitas, no próprio
Iraque. Naquela época, nem as Nações Unidas, nem
os Estados Unidos levantaram a voz para protestar
porque não interessava aos norte-americanos apoiar
o movimento popular em prol da autonomia curda,
o que também contrariaria os interesses dos turcos
e dos outros países vizinhos.
O que
explicaria então o empenho dos Estados Unidos
de se lançar numa guerra cujo desfecho é dificilmente
previsível? Os analistas apontam alternadamente
para o desejo de apoderar-se das imensas reservas
de petróleo iraquianas, ou o desafio aos brios
da maior potência após o desastre do World Trade
Center, embora não tenha sido possível comprovar
qualquer ligação entre Osama bin Laden e Saddam
Hussein.
A disputa
com a França e Rússia – que têm investimentos
e interesses econômico-financeiros no Iraque –
constitui um desafio à hegemonia dos EUA. É exatamente
essa ameaça à sua hegemonia militar e econômica
em um período de profunda recessão que estaria
levando os dirigentes norte-americanos a brandir
a espada de guerra para reafirmar sua posição
imperial, interna e externamente. São inúmeros
os antecedentes nos países considerados como territórios
de sua influência exclusiva, na América Central,
Guatemala, Panamá, El Salvador, Nicarágua; no
Caribe, Granada, República Dominicana e Haiti
e, na América do Sul, o apoio indisfarçado aos
golpes de estado no Brasil (1964), Chile (1973)
e Venezuela (2002).
Sem guerra,
George W. Bush certamente perderá as próximas
eleições, entretanto uma campanha militar rápida
e bem sucedida, levando à deposição ou fuga de
Saddam Hussein, serviria para demonstrar a superioridade
militar incontestável dos EUA: Os falcões falam
de uma nova era de prosperidade econômica, com
o dólar em alta e a volta da confiança no potencial
da economia norte-americana, com insensibilidade
total quanto ao sofrimento causado a milhões de
pessoas ou à possibilidade de intensificação dos
movimentos terroristas.
Especialistas
estimam os gastos para manter a mobilização dos
250 mil soldados atualmente estacionados nas portas
do Iraque em US$ 50 bilhões anuais. A eventual
reconstrução da infra-estrutura econômica e social
– escolas, hospitais e universidades – exigiria
outros US$ 50 bilhões. É ilusória a expectativa
de utilizar receitas provenientes da futura exploração
dos poços de petróleo. Segundo peritos, isso levaria
até dez anos e exigiria investimentos da ordem
de US$ 20 bilhões, contando que as tropas de Saddam
não incendeiem os campos como fizeram em 1991
durante a Guerra do Golfo.
Contudo,
a luta em 2003 não será mera repetição daquela
de 1991. Os iraquianos aprenderam que não podem
enfrentar a aviação e o poder de fogo superior
das armas norte-americanas em campo aberto. Tentarão
recuar e atrair os invasores para as cidades as
quais historicamente invalidaram as vantagens
da tecnologia superior. O número de vítimas, sobretudo
de civis, e a destruição da infra-estrutura urbana
serão enormes, o que desencadeará revoltas populares
no mundo árabe–islâmico ameaçando o precário equilíbrio
dos regimes autocráticos “moderados” com prováveis
quedas de governo na Arábia Saudita, Kuait, Egito,
Jordânia e Paquistão. Bush promete poupar os “inocentes”
e instalar um regime democrático. O precedente
do Afeganistão não autoriza tal conjectura.
Como
o Afeganistão, o Iraque também é um país de sociedade
patriarcal profundamente dividida em clãs, tribos,
seitas religiosas e grupos étnicos, além da estratificação
em classes sociais.
A guerra
significaria também um golpe mortal nas Nações
Unidas, revelando sua inoperância face às transgressões
das normas internacionais. De certo modo, repetir-se-ia
o destino da Liga das Nações, que desmoronou quando
a Itália de Mussolini invadiu a Abissínia usando
equipamentos bélicos modernos, inclusive gases
tóxicos, e a Alemanha nazista, desprezando as
cláusulas do tratado de paz sobre o território
do Saar, ocupou essa região sem que houvesse reação
das potências ocidentais.
De um
ponto de vista ético, será que basta a autorização
do Conselho de Segurança para atacar o Iraque?
Mesmo que o Conselho aprove a nova resolução,
cogitada por Tony Blair, isso não seria suficiente
para legitimar a guerra, tendo em vista os esforços
dos EUA para “convencer” os outros membros, recorrendo
inclusive à oferta de bilhões de dólares para
conseguir a aprovação do parlamento turco. As
resoluções da Assembléia Geral das Nações Unidas
são tomadas por quem? Não são representantes democraticamente
eleitos das nações e suas decisões não estão sujeitas
à aprovação e às sanções de tribunais internacionais,
o que reduz sua legitimidade já bastante enfraquecida
pelo poder de veto dos cinco países que detêm
também armas nucleares.
Para
alguns Analistas, a guerra é uma camuflagem da
rivalidade histórica entre os diferentes blocos
de capital na corrida pela hegemonia mundial,
ilustrada pela tensão permanente entre as áreas
do Dólar e do Euro. Nos últimos anos, França e
Rússia investiram pesadamente no Iraque, cujas
reservas externas foram convertidas de dólares
para euros, e esperam um retorno que se tornaria
problemático com a imposição da “ordem” norte-americana.
Por outro lado, dentro da União Européia ocorreu
um desafio à hegemonia franco-alemã pelo bloco
liderado pela Grã-Bretanha, com o apoio de Espanha
e Portugal. O que está sendo apresentado como
um conflito entre as civilizações ocidental e
oriental continua sendo a disputa entre as principais
potências capitalistas.
Todas
as manobras e discursos diplomáticos não conseguem
ocultar a persistência de relações sociais e políticas
assimétricas, de desigualdades e injustiças, internas
a cada país e em âmbito internacional.
A guerra
não deve ocultar a imensa concentração de riquezas
nas mãos de poucos em regimes corruptos e violentos,
cuja tendência à imposição de medidas de coerção
e controle autoritárias (vide a nova legislação
sobre segurança interna nos EUA) será reforçada.
Além de inútil e criminosa, a guerra ceifará a
vida de inúmeros jovens que lutarão no front e
de civis, vítimas de “efeitos colaterais”.
A supressão
da liberdade e dos direitos civis, não só dos
estrangeiros mas também dos americanos é o preço
inicial cobrado pelos falcões que dirigem a política
norte-americana.
Resistir
e deter a marcha da violência é dever de todos
e constituirá o primeiro passo na construção de
uma sociedade sustentável, única capaz de evitar
o perigo de autodestruição da humanidade. Além
dos problemas conjunturais – o desemprego, as
desigualdades sociais e a deterioração do meio
ambiente – é preciso também enfrentar as causas
profundas de uma crise que pode levar à destruição
da espécie humana e da vida no planeta. Se continuar
a atual corrida de mobilização de tropas e armamentos
de destruição em massa, esta se tornará um mecanismo
retroalimentado que funciona com efeitos multiplicadores
crescentes. Contrariamente ao que pregam os arautos
da guerra e da violência, a evolução das formas
superiores da vida e da espécie humana têm se
realizado pela cooperação e solidariedade dos
membros do grupo, desde os agrupamentos tribais
primitivos até as nações modernas. A violência
semeia a violência e sua rejeição consciente será
um ato de fé em nosso destino de seres humanos
que caminham em direção à liberdade e à fraternidade
universal.
A guerra
de Bush está na contramão da História!