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Por PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor
em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política
externa do Brasil
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6.
Devemos reforçar os laços com os grandes países em desenvolvimento
(China, Índia, Rússia) e com os da América do Sul, onde
podemos dispor de vantagens comparativas.
Talvez, mas vejamos os
custos e benefícios desse tipo de política de “aliança
com os pobres”.
O problema dos países médios, ou “emergentes”, é que eles dispõem
de um estatuto incerto no sistema mundial. Não constituem,
obviamente, grandes potências, dotados de meios militares
ou econômicos suscetíveis de influenciarem decisivamente
a agenda internacional, mas tampouco são países irrelevantes
ou desprovidos de meios para fazer pender, por vezes,
a balança das relações internacionais em determinadas
direções. O Brasil certamente se insere, com vários outros
países, nessa categoria pouco precisa dos “países médios”,
cuja classificação pode ser dada a partir de vários atributos
físicos e econômicos. Vejamos, em primeiro lugar, características
próprias a esses países, passemos em seguida às recomendações
de política externa tais como formuladas no cabeçalho
e discutamos por fim as implicações dessas orientações
sugeridas.
Os países médios constituem geralmente grandes extensões territoriais,
dotados de importante população, com economias não totalmente
desenvolvidas ou avançadas do ponto de vista tecnológico,
participando ativamente da vida diplomática internacional
e podendo desempenhar um papel relevante na definição
de alguns dos problemas que freqüentam a agenda mundial.
Este é certamente o caso da Rússia e da China, mas esses
países não são normalmente identificados a países médios
ou emergentes, uma vez que já são (ou já foram) grandes
potências, detêm armas nucleares e são membros permanentes
do Conselho de Segurança das Nações Unidas e podem, portanto,
ainda que com um certo esforço, tentar desafiar o monopólio
estratégico da única superpotência remanescente no atual
contexto mundial pós-Guerra Fria.
Mas seria certamente o caso da Índia, da Indonésia, da Coréia
do Sul, do México, da África do Sul e talvez do Egito
e do Irã, assim como do próprio Brasil, no mundo em desenvolvimento,
ademais do Canadá, da Espanha, da Itália e de alguns outros,
no clube dos países ricos. As definições são entretanto
ambíguas, uma vez que a “assemblagem” dessas potências
“médias” num mesmo conjunto recobre realidades e potencialidades
muito diversas. Senão vejamos.
A Índia é o segundo país mais populoso do mundo, é dotada da
arma nuclear e se encontra envolta em cenário estratégico
de tensões recorrentes e perigosas que conforma um dos
maiores focos de instabilidade internacional, junto com
o Oriente Médio e algumas partes da África (mas aqui já
afastado esse continente dos interesses estratégicos que
o marcaram durante grande parte da Guerra Fria). A Indonésia
constitui, por sua vez, um mundo à parte, cujos focos
de tensão são propriamente internos, ainda que ela tenha
provocado ela mesma situações de instabilidade no cenário
regional (Timor Leste, por exemplo). A África do Sul já
foi uma emergente potência nuclear, mas decidiu renunciar
a esse status
ao iniciar-se o período de transição para o fim do regime
de apartheid. O Brasil já ostentou uma economia bem mais pujante, em
fases de crescimento sustentado ou de valorização cambial,
chegando a superar alguns membros do G-7, como seria o
caso do Canadá, mas no início do século XXI chegou a ser
superado em termos de PIB pelo México, país que tem uma
projeção meramente regional.
Por outro lado, determinadas potências econômicas, como a Alemanha,
o Japão ou mesmo o Canadá e a Itália, não ostentam um
poderio militar à altura de sua presença no comércio e
nas finanças internacionais, ainda que elas possam ser
ativas em missões de manutenção de paz da ONU. Todos elas
estão no G-7 e podem ser consideradas potências médias
apenas do ponto de vista de sua limitada capacidade a
determinar um cenário estratégico, da mesma forma como,
por exemplo, a Rússia, a China ou mesmo a Índia (mas esta
se vê “dissuadida” pelo Paquistão, também nuclearizado).
Em todo caso, o que identifica todas essas potências médias
é o fato de possuírem “alguma” capacidade de “moldar”
cenários regionais ou mesmo determinadas conjunturas internacionais,
mas um poder limitado no que se refere ao recurso “último”
à arma nuclear no caso de uma confrontação estratégica.
Nesse particular, talvez apenas EUA, Rússia e China sejam
relevantes, todos os demais sendo atores de segunda ou
terceira linha.
O Brasil aparece como claramente situado num escalão modesto
das potências médias, daí o freqüente apelo — ou recomendação
— de muitos de seus dirigentes políticos (e conselheiros
diplomáticos) a algum tipo de “relacionamento especial”
com outros países médios, na suposição de que essa interação
aumentará nosso poder de tentar influenciar, modificar
ou moldar em nosso favor determinadas vertentes da agenda
internacional (no caso do Brasil, claramente no sentido
de se impulsionar um projeto de desenvolvimento econômico
e tecnológico, concebido como a base de maior projeção
política e militar internacional). O pressuposto é o de
que o relacionamento com as grandes potências comporta
situações assimétricas que não são facilmente superáveis,
o que confirma nossa situação de desigualdade ou mesmo
de dependência nos terrenos financeiro, tecnológico ou
militar. De fato, não se afigura como factível qualquer
diálogo de igual para igual com os EUA, assim como não
são isentos de percepções assimétricas as relações com
a Franca e a Grã-Bretanha, os outros dois membros ocidentais
— e plenamente capitalistas, como o Brasil — do CSNU.
Mas, também no caso da Rússia e da China, os outros dois parceiros
apontados como estratégicos nessa recomendação de “alianças
privilegiadas”, o fato nuclear e o pertencimento ao CSNU
coloca alguns constrangimentos para um diálogo aberto
a considerações de natureza estratégica ou militar. Essas
duas potências não plenamente desenvolvidas encontram-se
por sua vez envoltas em situações potencialmente conflitivas
que têm pouco a ver com os interesses do Brasil no sistema
onusiano ou mesmo no plano do diálogo político ou cultural
(em matéria de direitos humanos ou de cooperação direta
entre instituições governamentais, científicas e culturais).
Existe, por certo, um espaço e potencial para o desenvolvimento
de áreas de cooperação de caráter semi-estratégico — como
no caso do programa sino-brasileiro para a construção
e lançamento de satélites — ou mesmo para a expansão do
comércio e de outras trocas econômicas, mas as diferenças
de sistemas sócio-econômicos, culturais e sobretudo de
caráter estratégico são fatores limitantes na ampliação
da interface.
Considere-se, por exemplo, que não é da China, da Rússia e
muito menos da Índia que virão os capitais, o know-how
e os investimentos de ponta que permitirão ao Brasil avançar
ainda mais na escala de sua industrialização ou no da
sustentação de sua relativa fragilidade financeira (presumivelmente
perdurável no futuro próximo). Esses países tampouco poderão
conformar, com o Brasil, uma agenda comum para a reforma
das instituições multilaterais políticas e econômicas
— seja o funcionamento do CSNU, seja o do FMI ou do Banco
Mundial — que atenda os interesses supostamente comuns
(mas de fato diferenciados) de todos eles.
Resta a intensificação dos laços comerciais e econômicos de
todo tipo com esses países mencionados, sem descartar
a cooperação tecnológica e científica, mas reconheça-se,
desde logo, a limitada capacidade transformadora desses
vínculos no quadro de um sistema econômico já relativamente
complexo como o do Brasil, inserido, por sua vez, numa
rede de ligações de toda sorte com empresas e instituições
dos principais países capitalistas avançados. No campo
dos valores, por outro lado — direitos humanos, democracia,
tratamento de minorias, identificação cultural — não é
preciso ressaltar a intensidade, a diversidade e a fluidez
naturais, inclusive por razões humanas dotadas de fortes
raízes históricas, dos laços afetivos e materiais que
nos unem a esses países.
Deixando o plano longínquo das “estepes asiáticas” pode-se
apontar, no lugar de um investimento relativamente custoso
nas duas potências nucleares não-ocidentais, a forte indução
à intensificação dos laços de cooperação e de integração,
inclusive política e social, com os países vizinhos da
América do Sul, ou mesmo, por razões talvez mais sentimentais
do que lógicas, com os latino-americanos em geral, como
se a América Latina fosse uma realidade “manipulável”,
no plano operacional, para qualquer tipo de diplomacia
concreta por parte do Brasil (descontando aqui a retórica
política dos grupos regionais nos foros multilaterais,
muito pouco “rentável” em si mesma). Ainda que essa vertente
tenha sua razão de ser, sobretudo do ponto de vista da
projeção econômica brasileira no plano regional, deve-se
atentar, uma vez mais, para os custos e limites desse
tipo de investimento regional e integracionista.
A integração não pode ser considerada como um fim em si mesmo,
uma vez que ela não se destina a corrigir nenhum grande
obstáculo de natureza estratégico, militar ou econômico
que se interponha no bom desenvolvimento das relações
de todo tipo entre os países da América do Sul. Existem
limitações do ponto de vista da infra-estrutura ou derivadas
do caráter “excêntrico” da maior parte de nossas economias,
resultado de alguns séculos de história colonial e da
dominação subseqüente de nossas relações econômicas externas
por um ou outra das grandes potências capitalistas avançadas.
O não desenvolvimento de nossas sociedades e economias,
por outro lado, não se explica pela ausência de integração,
e sim pela ausência de estruturas internas de geração
endógena de tecnologia, que por sua vez é determinada
pelas insuficiências de caráter educacional e no plano
das instituições públicas. Um pouco mais de integração
pode ampliar as vantagens de escala de determinados ramos
econômicos, sobretudo industriais, mas não permite, por
si só, um upgrade notável na intensidade tecnológica
ou uma reforma das estruturas educacionais e de administração
pública em cada um dos países.
Assim como no caso das potências nucleares não-ocidentais,
não será do Paraguai, do Uruguai ou mesmo da Argentina,
do Chile e do México, que virão os capitais, tecnologia
e outros recursos tangíveis e intangíveis que permitirão
acelerar o ritmo de desenvolvimento econômico e social
do Brasil. No máximo esses países nos proverão de oportunidades
adicionais para empresas brasileiras competitivas que
possam não estar em condições de enfrentar a concorrência
no plano mais amplo da economia internacional, mas que
podem sim deslocar congêneres da própria região. Trata-se
contudo de uma relação que pode não ser julgada ideal
por esses países, que estariam supostamente em busca de
ganhos não recíprocos, o que lhes pode ser assegurada
por uma grande economia “imperial” mas não necessariamente
por uma potência “média” como o Brasil. É o que se observa,
precisamente, no caso das negociações da Alca, nas quais
até o Brasil está procurando uma abertura comercial não
recíproca por parte dos EUA e confessa temer o poder de
fogo das grandes empresas americanas em áreas como serviços
e compras governamentais.
A grande potência hemisférica, de seu lado, teme a “vantagem
comparativa” dos baixos salários latino-americanos em
todos os ramos dotados de forte componente laboral ou
em recursos naturais, dados os baixos custos desses fatores
nos países do Sul. Para o Brasil, paradoxalmente, a melhor
relação custo-benefício estaria numa relação de intensificação
“administrada” dos laços econômicos e tecnológicos com
a potência do Norte, mais até do que com os seus parceiros
regionais, mas os riscos percebidos são considerados muito
altos numa avaliação essencialmente política — isto é,
envolvendo cálculos de “soberania” — feita pela maior
parte de suas lideranças políticas. Como se vê, não existe
situação ideal, fora do crescimento sustentado e da plena
autonomia tecnológica, o que significa, tão simplesmente,
uma situação de desenvolvimento real.
7.
Só podemos abrir nossa economia e liberalizar o comércio
na base da estrita barganha recíproca e com o oferecimento
de concessões equivalentes e substantivas.
Trata-se de um dos maiores
absurdos econômicos já ouvidos, só justificável politicamente
pelo dito “não se dá nada de graça, sem algo em troca”.
Como já poderá ter ficado claro pelos argumentos desenvolvidos
anteriormente, não há um cálculo simples, ou linear, das
vantagens ou desvantagens das situações e processos de
abertura limitada ou ampliada da economia, pela simples
razão de que os sistemas econômicos — com exceção daqueles
totalmente fechados — estão sempre se adaptando aos desafios
recorrentes colocados pela competição local, regional
ou mundial. Isto é válido, obviamente, para as economias
capitalistas, nas quais a maior parte do PIB é formada
na iniciativa privada — ainda que a punção fiscal exercida
pelo Estado se exerça, por vezes, sobre mais de um terço
do produto bruto — e nas quais os agentes econômicos dispõem
de relativa liberdade para deslocar unidades produtivas,
capitais, know-how e outros bens intangíveis acima e além
das fronteiras políticas, podendo portanto compensar “desvantagens”
introduzidas por razões não racionais do ponto de vista
micro pelas autoridades econômicas nacionais.
O argumento da abertura recíproca e das vantagens equivalentes
só tem sentido no mundo não-ricardiano das reservas de
mercado e do mercantilismo estatal, onde se comprazem,
mesmo de maneira inconfessável, a maior parte dos políticos,
obrigados a defender uma determinada clientela eleitoral
que por acaso se identifica a empregados e empregadores
de uma determinada indústria local. Existem, obviamente,
aqueles que teimam em recusar a teoria das vantagens comparativas,
alegando, não sem uma certa razão aparente, que a maior
parte dos países não pratica de verdade o livre-comércio
e que portanto uma teoria não implementável em seus próprios
termos não pode servir de base a políticas públicas e
setoriais de abertura indiscriminada de mercados. Trata-se
de um problema tão velho quanto a própria teoria econômica
aqui exposta, cujos benefícios são disseminados por uma
ampla gama de consumidores “invisíveis” ao passo que seus
custos são imediatamente determinados por um certo número
de desempregados muito “visíveis”. Não existe uma resposta
fácil ou uma solução rápida a esse tipo de problema, a
não ser apontar as evidências históricas e o registro
das estatísticas econômicas de ganhos de bem-estar, que
no entanto podem se exercer sobre um período mais amplo
do que o mandato de um eleito local ou nacional e numa
circunscrição geográfica que se estende além do “curral”
de votos do decisor político em questão.
O maior problema prático de se conseguir uma reciprocidade
estrita ou “perfeita”, como gostariam os “planejadores
do futuro”, deriva do caráter extremamente mutável e também
maleável das conjunturas e estruturas econômicas em sociedades
caracterizadas pela liberdade de iniciativa e de decisão.
Como indicou um economista inovador, as pessoas respondem
a incentivos, todo o resto é comentário (Steven E. Landsburg,
The Armchair Economist: Economics and Everyday
Life; New York: The Free Press, 1993). O século XX
foi no entanto caracterizado por um crescimento constante
do espaço atribuído às responsabilidades estatais em detrimento
dos puros incentivos de mercado, a ponto de a liberalização
do comércio internacional ter caminhado pari-passu com o aumento do campo regulatório
e das intervenções tópicas na atividade econômica. Em
nenhum outro terreno como a agricultura essa situação
é mais visível, onde a margem de incentivos não dirigido
diminui notavelmente em relação aos diversos mecanismos
de sustentação e de proteção.
Tanto as situações de fechamento como as de abertura econômica
respondem a dois diferentes tipos de “incentivo” feitos
aos agentes econômicos como aos simples consumidores,
num caso de ganhos monopólicos e de restrição de oferta,
no outro de competição “desenfreada” e de ampliação das
demandas, num quadro de relativa “instabilidade” das regras
operacionais. Não resta dúvida que a abertura oferece
um maior número de oportunidades individuais, como também
os maiores incentivos para a inovação e para ganhos de
produtividade. Esses fenômenos se dão, contudo, num cenário
de “anarquia” parcial do jogo econômico, o que é positivo
para o sistema como um todo mas traz instabilidade no
plano dos itinerários individuais dos agentes econômicos.
Os políticos profissionais podem ser vistos como os agentes
“públicos” encarregados de reduzir o grau de instabilidade
nas situações pessoais de seus constituintes, atuando
para reduzir as ameaças de desemprego, de diminuição de
renda e, ao contrário, para atrair empregos e novas oportunidades
para sua região.
Do ativismo político em prol do preservação do “conhecido”
derivam não apenas as dificuldades dos processos de liberalização
comercial como igualmente todas essas demandas para “favores
especiais” em apoio a tal ou qual atividade econômica,
sob a forma de isenções fiscais, empréstimos facilitados,
oferta gratuita de utilidades públicas em infra-estrutura
e comunicações etc. Encontram-se aí os principais focos
de oposição aos acordos de livre comércio, que supostamente
perturbam a tranqüilidade das situações estabelecidas,
como também os fatores de demanda por compensações estritas
às vantagens oferecidas aos competidores estrangeiros
no acesso aos mercados locais.
Como resolver o problema da demanda por reciprocidade e por
concessões ditas equivalentes é um dilema que assusta
economistas e “planejadores estatais” desde a disseminação
dos acordos de comércio no curso da segunda revolução
industrial (quando os instrumentos bilaterais tendiam
a incorporar a cláusula de nação-mais-favorecida, ainda
que de forma condicional e limitada) e mesmo posteriormente,
no âmbito do atual sistema multilateral de sistema. No
regime do GATT esse problema era encaminhado mediante
as negociações paralelas e simultâneas entre pares de
parceiros negociando esquemas parciais de liberalização
dos produtos de seu interesse, cujos resultados eram depois
consolidados e multilateralizados para o conjuntos dos
participantes do exercício negociador, isto é, as partes
contratantes ao GAT-1947. No quadro da atual OMC, o processo
tende a seguir uma metodologia mais linear e uniforme,
mas apenas quanto à derrubada de barreiras tarifárias,
uma vez que um conjunto de outros campos veio agregar-se
às meras discussões em torno de bens industriais da primeira
fase do GATT: se trata dos novos temas como serviços,
propriedade intelectual e investimentos, ademais de uma
complexa teia de normas e regulamentos tratando de subsídios,
salvaguardas, barreiras técnicas ao comércio (fitossanitárias
ou normas industriais, por exemplo) e o espinhoso problema
do antidumping, utilizado abusivamente por grande parte
das economias desenvolvidas.
O cálculo da “reciprocidade” complicou-se enormemente, portanto,
pois não se trata mais de negociar commodities agrícolas contra bens industriais, como era o caso tradicionalmente,
mas o acesso a mercados antes protegidos para produtos
alimentares ou industriais intensivos em trabalho contra
a concessão de tratamento nacional em serviços transfronteiriços
nas áreas financeira, de seguros, de publicidade ou telecomunicações.
Como medir eventuais ganhos de bem estar se os países
avançados se comprometem com permitir um acesso limitado
aos seus mercados agrícolas, mas exigem em contrapartida
a concessão de tratamento nacional para telecomunicações
ou serviços de saúde? Qual economista “profético” poderá
predizer as conseqüências futuras de uma liberalização
simétrica — isto é, nas mesmas bases de desgravação tarifária
gradual — para indústrias eletro-eletrônicas de um lado
e calçados e roupas de outro? Que burocrata nacional pode
prever com certeza que a concessão de uma proteção extensa
e reforçada aos direitos de propriedade intelectual interessando
aos produtores de obras audiovisuais e das indústrias
químico-farmacêuticas dos países avançados — resultando
portanto no pagamento ampliado de royalties e serviços técnicos — será compensada
com o afluxo oportuno e enriquecedor de novos investimentos
nas indústrias de alimentos e de bens duráveis?
As estimativas sobre o comportamento futuro de todos esses
setores em regime de liberalização progressiva são portanto
difíceis, senão impossíveis de serem feitos. Por outro
lado, uma pergunta se coloca de imediato: esse cálculo
deve ser feitos pelos próprios empresários interessados
em investir em tal ou qual setor de sua preferência ou
deve ser deixado a algum burocrata governamental? Por
que considerações de balanço de pagamentos devem necessariamente
ser consideradas no planejamento microeconômico dos empreendedores
privados? A eficiência econômica está melhor entregue
aos grupos de interesse setorial e aos planejadores públicos
ou deve ser deixada aos mecanismos alocativos dos mercados?
São dilemas que não encontram respostas fáceis ou simplistas,
mas que freqüentam as reuniões governamentais e os conselhos
privados praticamente desde os albores do moderno sistema
capitalista. Na verdade, escolhas entre políticas econômicas
alternativas e duros jogos de barganhas setoriais entre
os parceiros sociais são feitas todos os dias na vida
de uma sociedade, apenas que não se dá a devida atenção
a eles porque se considera que isso faça parte da “administração
econômica normal”. Apenas nos poucos momentos de negociações
econômicas externas, quando concessões comerciais e outras
têm de ser feitas, é que os problemas da reciprocidade
e da “igualdade de concessões” passam a ser avaliados
com redobrada atenção pela sociedade e pelos responsáveis
governamentais.
Na medida em que nenhum político gostaria de ser acusado, pelos
seus eleitores, de ter feito concessões aos “adversários”
— ou seja, os concorrentes estrangeiros — sem ter obtido
“algo em troca”, as negociações comerciais são levadas
a se arrastar num estéril debate sobre abertura recíproca
que impõe um custo tão inútil quanto irrelevante ao processo
de negociações e aos próprios beneficiários dos supostos
esquemas de liberalização. As medidas de derrubada de
barreiras (externas) e de uniformização de normas regulatórias
(internas) não são pensadas em seu mérito próprio, ou
seja em sua capacidade de produzir um maior volume riqueza
social a partir de novos investimentos, do aumento da
concorrência e da melhor eficiência alocativa, mas apenas
em tão somente em função do foi oferecido em contrapartida:
“só lhe dou tal abertura e acesso aos meus mercados se
você me permitir tal atividade para minhas empresas em
seu território”.
Ainda que possa existir uma certa “lógica de senso comum” nessa
postura de apenas abrir seu próprio mercado contra algum
tipo de abertura equivalente ou similar por parte do “adversário”,
ela não se justifica a nenhum título do ponto de vista
do processo produtivo ou da organização econômica da sociedade,
sendo provavelmente causadora de mais distorções do que
de benfeitorias. A lógica da “reciprocidade estrita” faz
parte do mesmo tipo de medidas de intervenção econômica
na sociedade que resultou, ao longo do século XX, na assunção
pelos governos de cada vez mais responsabilidades na administração
da vida em sociedade e que, em seu extremo, manifestou-se
nas mais diversas modalidades de coletivismo econômico
e de planejamento estatal.
No que se refere especificamente às negociações comerciais,
o conceito de reciprocidade nos remete ao universo do
mercantilismo, quando os soberanos regulavam o comércio
exterior com o objetivo de obter vantagens absolutas nas
trocas externas, ou pelo menos manter uma balança equilibrada
na balança das transações. Naqueles tempos, o objetivo
maior dos conselheiros econômicos dos príncipes era o
entesouramento de ouro, concebido como o equivalente de
riqueza e poder. Teríamos voltado a esses tempos de dirigismo
explícito da vida econômica?
(continua na Quarta Parte deste ensaio)
PAULO
ROBERTO DE ALMEIDA
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