Há
certas coisas que parecem naturais e poucos
se perguntam sobre as suas origens, significados
e motivos de perenidade. É o caso do vestibular.
Concebido por muitos como a maneira mais democrática
de selecionar candidatos ao ensino superior, ou
como um mal necessário, poucos se perguntam sobre
a sua real função e os efeitos sobre o sistema de
ensino e a sociedade. Por que?
O vestibular obedece à lógica da
concorrência, à lógica do mercado, à qual nos submetemos.
Organizamos a vida dos nossos filhos para concorrer,
passar no vestibular e vencer. Tudo o que desejamos
é a vitória deles, isto é, o ingresso nas melhores
universidades. Para os que podem isso não constitui
problema: educados nas melhores escolas desde a
tenra idade, possuidores de enorme capital cultural,
vêem a universidade como um corolário natural do
seu estilo de vida e do capital social acumulado.
É natural o sentimento materno e
paterno de protegê-los: sabemos como a vida é difícil
e cabe-nos prepará-los para enfrentar os obstáculos.
Para isso, precisamos acreditar na eficácia da educação
enquanto fator de mobilidade social, ainda que sob
o risco de auto-engano. A classe média remediada,
dependente da agiotagem oficial (empréstimos, cheque
especial, cartão de crédito etc.), aperta o cinto
para manter os filhos nas escolas pagas – até porque
também indica status. Mesmo os mais recalcitrantes,
embora dilacerados em suas incertezas, rendem-se
às evidências e exigências da lógica concorrencial.
Em certos casos, nem bem a criança
parou de usar fraldas, os pais já decidiram, por
precaução quanto ao futuro, colocá-la numa escolinha,
curso de inglês, informática etc. Algumas crianças
têm a agenda tão lotada que mais parecem pequenos
executivos. Em nome do bem-estar futuro corre-se
o risco de negar à criança o direito de desfrutar
a sua infância.
Não obstante, devemos reconhecer,
o dilema dos pais não é fácil: eles têm o direito
de arriscar o futuro dos filhos? Podem se dar ao
luxo de negligenciar a sua educação em nome do questionamento
da lógica do sistema? Trememos com a simples idéia
de carregarmos pelo resto da vida a culpa por seus
fracassos. A culpa também tende a ser assumida por
eles, para os quais nosso esforço será como um fardo
a carregar, a lembrá-los que devem corresponder
às nossas expectativas: mesclam-se sentimentos de
gratidão com a necessidade de não decepcionar.
Essa lógica perversa se impõe como
opções meramente individuais ou familiares. Não
nos perguntamos sobre as contradições e desigualdades
sociais ou a quem serve tudo isso, mas sim, como
faremos para pagar a mensalidade da escola. Num
contexto de degradação sócio-econômica essa é uma
tarefa cada vez mais difícil. Passamos então a acreditar
em teorias que servem para apaziguar a nossa angústia.
Nos convencemos de que não há outra alternativa:
nossos filhos devem ser preparados para passar pela
prova de fogo do vestibular.
Somos vítimas de vários auto-enganos.
Em primeiro lugar, nada nos garante que, a despeito
de todos os esforços, eles não fracassarão – em
especial se disputarem os cursos mais concorridos.
Segundo, a perspectiva de colocar os filhos na universidade
é, no tempo presente, mais nossa que deles. Terceiro,
nosso egoísmo nos cega para a realidade social:
acreditamos piamente que os que vencem são os escolhidos
e naturalizamos o fato de que milhares não passarão
pelo funil do vestibular. Pior, muitos nem mesmo
chegarão a concorrer: ficarão pelo caminho – diante
das necessidades que a sobrevivência impõe – ou
se auto-excluirão no próprio processo de ensino.
Esses serão os fracassados e toda a culpa será individualizada
e imputada a eles.
Outro efeito do vestibular diz respeito
aos dilemas vividos pela escola pública entre a
intenção de formar cidadãos e preparar seus alunos
para o vestibular. Cindida por essa dupla exigência
insiste em priorizar o método decoreba, ainda
predominante nos vestibulares. Os conteúdos precisam
ser memorizados e a forma de verificação, a prova,
também é, invariavelmente, utilizada como instrumento
do poder disciplinador. Eis outro engodo: a memorização
de conteúdos não garante a aprendizagem dos mesmos.
Em geral, o aluno memoriza para tirar a nota e passar
de ano.
A idéia de que o vestibular é democrático
é mais um engodo. Igualdade de oportunidades não
é o mesmo que igualdade de condições. Como, em geral,
o aluno da escola pública se encontra em situação
desvantajosa, por sua condição social e pela realidade
de sucateamento da educação, é ilusório imaginar
que ele concorrerá nas mesmas condições que o aluno
com maior capital cultural e social.
É certo que algumas escolas públicas, em geral melhor
situadas territorialmente, desmentem o mito de que
a eficácia educacional só é possível na escola privada.
Mas, sejam instituições ou indivíduos, as exceções
confirmam a regra.
A lógica do vestibular, assumida
por pais, professores e alunos, camufla o fato de
que somos socialmente desiguais, que determinados
grupos sociais tem acesso à cultura e à educação
para além do sistema de ensino, o qual reproduz
e legitima as desigualdades: vitoriosos e fracassados
são analisados por pretensos dons e méritos individuais.
Para uns o sucesso parece natural (o próprio fato
de terem sido vitoriosos o comprovaria); a vitória
de uns naturaliza o fracasso da maioria. É preciso
observar que a seleção é também anterior ao vestibular.
Ensino privado, cursinhos preparatórios
pagos etc., tudo nos parece muito natural: uns podem
pagar a mercadoria educação; outros não, paciência!
O mercado oferece as opções para prepararmos nossos
filhos para vencer e temos a liberdade – e o dever,
pensam muitos! – de fazer a escolha certa; ainda
que essa tenha um alto custo econômico e ainda que
necessitemos nos render à agiotagem oficial ou nos
submeter a uma excessiva carga de trabalho para
manter a renda familiar. Mas mesmo o ingresso no
ensino superior pode se revelar uma grande ilusão
devido ao processo de desvalorização e inutilidade
dos diplomas. Bem, restará a sensação do dever cumprido
e da consciência tranqüila.
Seria utopismo imaginar a possibilidade
de garantir ensino superior publico e gratuito para
todos anulando-se a necessidade de processo seletivo
para o ingresso na universidade? Ainda que seja
utópico por que não pensarmos em outras alternativas
que substituam o vestibular e fortaleçam a escola
pública e não se restrinjam apenas a um momento
da vida estudantil? Por que não adotar sistema de
cotas para negros e para os estudantes oriundos
de escolas públicas? Aliás, algumas universidades
já o fazem. Não seria o caso de ampliar as vagas
no ensino superior público? De se investir mais
na qualificação profissional e na estrutura educacional?
Contudo, o vestibular predomina.
Esse mecanismo vicia e submete todo o sistema de
ensino: do fundamental ao ensino médio torna-se
o centro das preocupações e tudo é feito em sua
função. Até mesmo o fato de o vestibular ter se
transformado em fonte de receita para as universidades
públicas (algumas chegam a fazer dois vestibulares
anuais), também é encarado naturalmente. Quem ganha
com o vestibular? A resposta parece óbvia e a pergunta
redundante. Mas, confessemos, não nos fazemos essa
pergunta nem questionamos a resposta. Em suma, há
muitos interesses econômicos e políticos em jogo,
daí a necessidade de mantê-lo.