Formação x Informação
Chegamos agora a uma segunda questão muito importante,
associada à anterior: o curso de Ciências Sociais deveria
enfatizar a formação ou a informação dos alunos?
Sinto que devemos abandonar a visão pedagógica tecnicista
preocupada apenas com a eficácia na transmissão de conteúdo;
deixar de lado, inclusive, a visão paternalista de que o principal
papel do professor é transmitir conhecimento.
Para compreender um mundo conturbado que se transforma
com uma velocidade vertiginosa não podemos, da mesma forma,
passar aos alunos a impressão de que o conhecimento produzido
pela Sociologia nos séculos XIX e XX seja algo sagrado que
os alunos devem decorar e guardar como se fossem dogmas absolutos
válidos para toda a eternidade.
Provavelmente, a postura adequada para se enfrentar o
furacão produzido pela 3ª revolução tecnológica, que pode
varrer do mapa verdades que guardávamos com muito carinho,
seria aprender formas de se aprender. Seria aprender
como aprender.
Creio, enfim, que o curso de ciências sociais não precisa
ter a pretensão de transmitir aos alunos tudo o que foi produzido
pelos grandes cientistas sociais, coisa que seria na verdade
um absurdo sem tamanho. O curso deveria, sim, oferecer aos
alunos certos instrumentos teóricos e conceituais básicos
e possibilitar o desenvolvimento de certas habilidades e predisposições
a fim de que eles possam aprender ao longo de toda a sua vida.
Ou seja, — e isso é importante ressaltar —, a formação intelectual
é uma tarefa para toda a vida, não termina com a conclusão
de um curso de graduação na Universidade.
Temos à nossa disposição uma fonte inesgotável de informações:
bibliotecas, a Internet, jornais, programas de TV a cabo,
revistas especializadas, discos de CD-ROM, videotecas. Para
aproveitar esse gigantesco tesouro acumulado pela humanidade,
precisamos aprender como aprender.
Quando constatamos que os alunos chegam aos cursos de
graduação com dificuldades na leitura de textos e na expressão
escrita nos perguntamos o que eles e os professores ficaram
fazendo durante os 8 anos de ensino básico e fundamental.
Será que não iremos repetir a mesma pergunta quando esses
alunos chegarem à pós graduação?
Acho que nós professores de Ciências Humanas podemos
aprender um pouco com o método de ensino desenvolvido na Matemática:
dar cinco minutos de explicação para cada cinco horas de exercícios.
Com certeza, muitas coisas que aprendi de Matemática já foram
esquecidas. Mas jamais vou perder a capacidade de raciocínio
lógico que desenvolvi quebrando a cabeça para resolver problemas
de aritmética, de álgebra e de geometria.
Nós professores de Ciências Sociais falamos, às vezes,
quatro horas seguidas acreditando que os alunos estão aprendendo
muito. Na verdade, estamos passando informações aos alunos
sem saber se eles estão assimilando estas informações e esquecendo
que a maior parte do que um ser humano ouve é esquecido rapidamente.
Acho que devemos abandonar a pedagogia maternal e paternalista.
Em lugar de doar conhecimento, supondo ser isso possível,
talvez devêssemos propiciar aos alunos o desenvolvimento de
um conjunto de habilidades intelectuais: aperfeiçoar a capacidade
de leitura de textos, a capacidade de expressão oral e escrita,
a capacidade de análise e síntese, a capacidade de abstração,
a imaginação e a criatividade sociológica, a capacidade de
trabalhar em equipe e de compreender as razões dos outros,
a capacidade de reflexão, a disciplina intelectual etc. Considero
como efeitos quase inevitáveis desse processo de desenvolvimento
de habilidades intelectuais, emocionais e sociais: a consciência
crítica, o desenvolvimento da cidadania, a visão humanística,
a postura ética, o desenvolvimento da personalidade.
Qual poderia ser o método didático-pedagógico adequado
para dar ênfase na formação, isto é, para privilegiar o desenvolvimento
de habilidades intelectuais, emocionais e atitudes socialmente
adequadas relacionadas com o exercício da cidadania?
Supõe-se, antes de mais nada, que é o esforço intelectual
constante dos alunos que propicia o desenvolvimento deste
conjunto de habilidades. É importante sublinhar isso: renunciando
à postura maternal e paternalista de facilitar as coisas para
os alunos, deveríamos oferecer a eles as condições necessárias
para que eles pudessem dedicar o maior esforço possível na
conquista do conhecimento. Esforço
pessoal do aluno: essa seria a palavra-chave da pedagogia
que estamos sugerindo.
Em termos práticos, seria preciso reservar mais tempo
livre para os alunos poderem ler os textos com maior atenção
e carinho fazendo fichamentos, seria preciso reservar mais
tempo para os alunos lerem e discutirem os textos em grupo,
mais tempo livre para os alunos escreverem, exporem suas idéias,
para debaterem e fazerem assembléias.
Por exemplo: se a aula tiver a duração de 4 horas, na
primeira metade da aula os alunos poderiam ler os textos em
grupo - textos de mais ou menos 3 páginas - e responderiam
questões propostas pelo professor com a finalidade de orientar
a interpretação dos textos. Na segunda metade da aula, os
grupos poderiam expor suas respostas e poderia ser promovido
um debate geral. O professor, nesse caso, ficaria livre para
oferecer um atendimento mais direto e personalizado aos alunos,
ouvindo, orientando, tirando dúvidas, colocando questões,
instigando reflexões. Venho percebendo que muitos alunos que
não abrem a boca durante as aulas convencionais conseguem
levantar suas dúvidas nesta forma de atendimento personalizado.
A aula é fisicamente cansativa para o professor porque, às
vezes, pode ocorrer de três ou quatro grupos pedirem explicações
ao mesmo tempo. Mas é muito mais gratificante porque o contato
entre professor e alunos deixa de ser demasiadamente formal
e impessoal.
Existem pesquisas que mostram que os alunos conseguem
guardar mais informações estudando em grupo do que ouvindo
palestras.
Relembrando os cursos de graduação que fiz, percebo agora
que duas professoras que todo mundo considerava medíocres
foram aquelas que me propiciaram a herança mais importante
que recebi da Universidade. Elas me ensinaram a fazer fichamentos
e, a partir destes fichamentos, fazer trabalhos escritos.
Ou seja, elas me ensinaram a produzir conhecimento sem a ajuda
de ninguém e nunca mais parei de fazer isso. Chego, assim,
à conclusão, que aquelas duas professoras consideradas medíocres
foram mais importantes para a minha formação intelectual que
os professores titulares renomados que falaram muitas coisas
que esqueci completamente.
Prazer x obrigação
O segredo dos grandes cientistas e filósofos parece ser
a paixão que eles desenvolveram pelo desafio da conquista
de conhecimento. No nosso entendimento, o prazer na conquista
de conhecimento poderia ser a principal herança a ser transmitida
aos alunos pela Universidade. Se estimularmos nos alunos a
paixão pelo saber, eles irão prosseguir estudando e aprendendo
pelo resto de suas vidas.
Rubem Alves, um educador da Unicamp, pergunta: conceber
a aprendizagem como prazer é uma proposta irresponsável? Ele
acha que não, porque “só aprendemos aquelas coisas que nos
dão prazer”. O resto é esquecido. Para Rubem Alves, é só do
prazer que surge a disciplina e a vontade de aprender. E é
justamente quando o prazer está ausente que a ameaça do controle
institucional torna-se necessária.
Rubem Alves ilustra bem a questão: O terror do vestibular
é lançado sobre as crianças. Os pais procuram os colégios
que apertam mais. O resultado: as crianças perdem a alegria
de aprender, perdem a curiosidade natural, perdem o prazer
de descobrir. Rubem Alves observa que as nossas melhores inteligências
estão sendo arruinadas por este nosso sistema educacional.
De fato, a sobrecarga de informações e de tarefas de
avaliação dificulta o resgate da curiosidade natural perdida
pelos alunos, dificulta o resgate do prazer da descoberta.
Quase todo trabalho acadêmico é transformado em simples obrigação
cumprida sem qualquer entusiasmo.
Quando o prazer e a gratificação no trabalho acadêmico
deixam de existir, o controle da freqüência e o controle através
de avaliações torna-se fundamental para preservar o ordem.
Se um curso é demasiadamente alienante, excludente e domesticador,
começa a provocar insatisfações difusas e conflitos constantes
na sala de aula. Os professores, para manterem o controle
da turma, são obrigados a reforçar a coerção através de avaliações
mais rígidas e pesadas. Acredito que se o curso promovesse
nos alunos o sentimento de auto-realização e de auto-estima
todos os controles existentes, quem sabe, poderiam ser abandonados.
A alegria de aprender, o prazer na conquista de conhecimento,
poderia produzir no olhar dos alunos um sentimento de gratidão
em relação aos professores.
As empresas com um método de gestão mais avançado já
perceberam isso há muito tempo e passaram a estimular nos
operários o prazer na realização do seu trabalho. Deste modo,
conseguiram reduzir os conflitos dentro das fábricas, melhoram
a qualidade e a produtividade do trabalho e puderam eliminar
diversos níveis de chefia. Os operários não precisaram mais
de controle e fiscalização desenvolvidos para impedir sabotagens
nas máquinas e na produção. É claro que a taxa de exploração
da força de trabalho pode ter aumentado, nesse caso. Mas podemos
absorver e aplicar essa experiência na Universidade considerando
que na relação professor-aluno o objetivo não é aumentar a
taxa de exploração dos alunos.
Vem finalmente a questão: estamos proporcionando aos
alunos de Ciências Sociais o prazer de aprender ou estamos
transformando a aprendizagem em obrigação institucional cansativa
e tediosa?
Um pequeno exemplo prático: num projeto de interdisciplinaridade
os alunos poderiam fazer um só trabalho de avaliação. Os melhores
trabalhos seriam apresentados no final do ano letivo num auditório
com a presença de alunos de todas as turmas. Os alunos poderiam
receber livros como prêmios. Estudando Antropologia aprendi
que rituais, festas e solenidades são coisas fundamentais
na vida de um grupo social porque quebram a rotina, promovem
expectativas positivas e motivação na vida cotidiana.
Praxis
Um quinto fundamento epistemológico necessário para fundamentar
a prática da interdisciplinaridade seria o resgate da noção
de praxis. Essa noção procura dar conta da especificidade
do ser humano. O homem transforma o reino da natureza
e cria um reino próprio através do trabalho. O trabalho supõe
uma intenção consciente do sujeito na transformação do objeto.
Em resumo, a praxis supõe o ser humano como sujeito
que cria e recria a sua realidade, define o ser humano como
sujeito de sua própria transformação.
Na prática didático-pedagógica, a noção de praxis
determina que o aluno só aprende de verdade se assume a posição
de sujeito consciente dos fins e dos resultados da ação de
aprendizagem, supõe que o aluno só aprende de verdade quando
o conhecimento deixa de ser uma doação do professor para se
constituir em uma conquista que decorre do esforço consciente
do próprio aluno.
Em relação a isso, Istvám Mészáros assinala em seu livro
A teoria de alienação de Marx que a educação, não no
limitado sentido institucional, é uma questão inerentemente
pessoal, interna; ninguém pode educar-nos sem nossa própria
participação ativa no processo. O bom educador é aquele que
inspira a auto-educação”.
De modo semelhante, o método socrático supõe que cada
indivíduo deve chegar ao conhecimento por si próprio, utilizando
sua própria capacidade de pensar. Os filósofos do Iluminismo
defenderam a mesma opinião. Cada indivíduo é dotado de inteligência
suficiente para chegar ao conhecimento sem a ajuda de ninguém,
sem tutela. Só o conformismo e o medo fariam os indivíduos
permanecerem dependentes de pessoas que ministram conhecimento.
E nessa relação, segundo o pensamento iluminista, acabaria
ocorrendo a dominação.
Em 1945, Plínio Barreto, um político liberal dizia: “Evite
por todos os meios obrigar o povo a refletir. A reflexão é
um trabalho penoso a que o povo não está habituado” (Weffort:
1980; p. 24). É claro que instintivamente ele tinha medo da
chegada do povo ao poder.
A pedagogia construtivista, baseada nas teorias de Piaget,
propõe que a educação consiste em fazer criadores, inventores,
inovadores, não conformistas. O conhecimento é produzido pelo
próprio sujeito que vai desenvolvendo a capacidade de compreender
e reelaborar as idéias existentes. É na ação prática sobre
o objeto de conhecimento que o indivíduo aprende de verdade.
Para compreender como funciona o relógio, por exemplo, seria
preciso desmontá-lo e remontá-lo várias vezes. Ou seja, seria
preciso efetuar as operações de análise e síntese.
Paulo Freire defende também que os alunos sejam sujeitos
no processo ensino-aprendizagem. Eles não devem ser vistos
como recipientes vazios a serem preenchidos pelo educador.
Se o professor exercer o papel de transmissor de conhecimento
e o aluno permanecer passivo nesse processo, o que teríamos
não seria aprendizagem mas domesticação.
Em termos práticos, supõe-se que a formação acadêmica
sólida exige trabalho intelectual solitário e constante por
parte dos alunos. Não é apenas ouvindo discursos logicamente
bem construídos na sala de aula que os alunos vão transformar
sua percepção da realidade social bem como suas atitudes diante
do mundo e da vida.
Por exemplo, existe uma diferença brutal entre apresentarmos
na sala de aula uma série enorme de argumentos racionais para
mostrar a importância da reforma agrária na modernização de
uma sociedade e irmos junto com os alunos visitar um acampamento
dos sem-terra para ver e sentir a realidade concreta em que
estes vivem. O envolvimento direto com a realidade social
concreta produz um envolvimento também afetivo e emocional
que o discurso racional frio na sala de aula não é capaz de
provocar.
Em termos práticos, na pedagogia emancipadora trata-se
de propiciar aos alunos o desenvolvimento da capacidade de
articular informações e dados da realidade social utilizando
como orientação as teorias sociais clássicas existentes.
Considerações
finais
Acredito que temos condições de desenvolver um bom curso
de Ciências Sociais na UEM. Acho necessário aprofundar e ampliar
o debate antes de tomarmos certas decisões que podem cristalizar
condições irreversíveis. Sei que existem obstáculos de caráter
institucional que restringem bastante nossa margem de opções.
Mas não deixa de constituir um privilégio o fato de podermos
contribuir para a construção de um curso que poderá no futuro
ser elogiado pelos colegas de outras universidades. E mais,
muito mais importante que este tropeço narcisista, não deixa
de ser interessante o fato de podermos criar um curso de bom
nível capaz de formar profissionais qualificados, pessoas
esclarecidas e cidadãos conscientes de seu papel na sociedade
brasileira.