Por ANTÔNIO JOAQUIM SEVERINO
Docente na Faculdade de Educação (USP), autor de Metodologia do Trabalho Científico (São Paulo: Cortez Editora) e de várias obras nas áreas de Filosofia e Educação

 

Uma proposta de ação afirmativa anti-racista no campo da educação

 

O Brasil, historicamente responsável por uma das piores situações da escravidão contra os negros africanos, está sendo interpelado no sentido de tomar alguma iniciativa com  vistas à superação das seqüelas dessa sua política nefasta. Em termos de políticas compensatórias, tem-se levantado a proposta de criação de cotas para estudantes negros nas universidades, como forma de garantir aos jovens negros um mínimo de condições para formar quadros profissionais de nível superior, já que, em decorrência de sua situação sócio-economico-cultural pregressa, não conseguem acesso, em número significativo, à Universidade.

O estrago moral, o atentado à dignidade humana, que a escravidão fez para com os negros e seus descendentes é tão profundo e grave que não há como repará-los de forma radical. Mas, não há dúvida de que se impõe à consciência nacional tomar medidas e desencadear ações que possam propiciar alguma compensação a tão grave prejuízo. Certamente, garantir a segmentos significativos de jovens afro-descendentes a oportunidade de cursar o ensino superior e de se profissionalizar nesse nível é uma medida relevante. Mas  criar um regime de cotas, desvinculado de outras medidas concretas e efetivas de apoio, é condená-los ao fracasso, pelo simples motivo que a grande maioria  dos beneficiários dessas cotas serão homeopaticamente “eliminados” do ensino superior ao longo do processo. Quem conhece por dentro o processo social e pedagógico presente em nosso sistema de ensino, sabe muito bem da força anônima e impessoal de segregação e de rejeição que leva pessoas “diferentes e fragilizadas” a tomarem a decisão de se retirar por conta própria, sem nenhuma pressão explícita visível, por parte de quem quer que seja. É por isso que os índices de evasão, em todos os níveis e graus  de ensino, referem-se sobretudo a representantes da população já marginalizada, de modo geral (pobres, negros, migrantes etc). Não sem razão, os estudos confirmam o quanto é excludente a nossa escola, que tem grande poder de fato para excluir os já excluídos, ela de quem se esperava justamente o contrário, a inclusão.

Por isso, gostaria de submeter à discussão pública uma proposta de ação afirmativa anti-racista, bem concreta, na esfera da educação, na qual o regime de cotas se integraria a um processo mais amplo cujo resultado, em cerca de 10 anos, tornaria desnecessário o referido regime. Inclusive faria perder força o argumento da “odiosidade do racismo às avessas” que, à primeira vista, o regime expressaria.

Esta seria uma ação que envolveria todo o sistema nacional de ensino, tanto o público quanto o privado, particularmente no nível superior, e teria a duração de 11 anos, ao término dos quais seria avaliada e, eventualmente, encerrada ou retomada conforme o resultado obtido.

A substância da proposta é de articular o regime de cotas  a  um investimento sócio-pedagógico, igualmente sistemático, na formação das crianças, adolescentes e jovens afro-descendentes desde a 1a. série do ensino fundamental e médio. O processo se iniciaria, por exemplo, em 2004, fazendo o poder público uma chamada geral de todas as crianças dessa população com  idade de 7 anos, assegurando a todas elas a matrícula e programando um acompanhamento sistemático, mediante um processo de “atenção diferenciada” ao longo de toda a sua vida escolar, ou seja, prestando apoio pedagógico intensivo e respaldo financeiro à família, quando forem identificados obstáculos, respectivamente, pedagógicos ou econômicos. Também em 2004, seria desencadeado um processo de apoio pedagógico-financeiro às crianças já matriculadas na 5a. série; far-se-ia igualmente uma chamada escolar de todos adolescentes afro-descendentes que estiverem terminando o ensino básico, induzindo sua matrícula no ensino médio; quanto ao ensino superior, nos vestibulares a partir de 2004, seria introduzido o regime de cotas, reservando-se 30% das vagas de todas as instituições de ensino superior, públicas e privadas, a alunos afro-descendentes.

E a partir de 2004, seriam implantados, em todas as regiões do país onde houver densidade de oferta de ensino superior,  cursos preparatórios destinados prioritariamente a esse público. Mantendo-se ativo esse sistema, retomado a cada ano, não haverá mais necessidade de cotas, a partir do vestibular de 2015, pois o processo, se bem conduzido, terá assegurado a presença de índices de negros no ensino superior, compatíveis com sua presença no conjunto da sociedade.

Em síntese, a ação proposta assim se desenha, tomando como referência o ano de 2004:

Uma ação, a longo prazo, intervindo no ingresso no ensino fundamental. Trata-se, na verdade, de um aprimoramento da atual política, pois, segundo o MEC, já é quase universal a matrícula na 1a. série. No entanto, teria início u’a supervisão mais específica e um acompanhamento pedagógico/social mais intenso, cuidando-se de evitar, efetivamente, a evasão.

 Uma ação a médio prazo, atuando junto aos ingressantes na 5a. série, outro ponto crítico de evasão do sistema, induzindo-se a permanência das crianças na escola e a continuidade de seus estudos, igualmente mediante redobrado apoio pedagógico e eventual suporte financeiro às famílias.

Uma ação a curto prazo, juntos aos alunos que estiverem em condições de ingressar no ensino médio, fazendo-se uma chamada geral dos mesmos e apoiando seu ingresso na 1a. série desse nível, iniciando seu acompanhamento sistemático ao longo dos três anos.

Uma ação a curtíssimo prazo junto aos candidatos ao ingresso na Universidade, assegurando-lhes, já a partir  de 2004,  30% das vagas, incluídos nesse índice aqueles alunos que, por mérito próprio, conseguirem se classificar nos vestibulares. Lembre-se que o índice de ingresso atual  de alunos negros é de 2, 2%.

O cronograma e o fluxograma  do processo podem ser representados pelo seguinte quadro:

 

1a.

2a

3a.

4a

5a.

6a.

7a.

8ª m

1ª m

2ª m

3ª m

Vest

cotas

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15

 

Obs.: Descontando-se sempre o percentual de alunos negros que ingressaram. Na seqüência da classificação.

 

Será criado um Fundo Especial para financiamento  para este Programa, com recursos provenientes da União (cota do Imposto de Renda), dos Estados (cota do ICMS) e taxas a serem cobradas sobre os lucros dos Bancos e sobre operações financeiras do mercado de capital.. Os recursos estaduais ficam no respectivo Estado e os recursos federais são distribuídos proporcionalmente ao número de sujeitos a serem atendidos.

Será criado também um Grupo Gestor do Programa, (à semelhança do Grupo Gestor do Programa de Racionamento da Energia Elétrica), integrado por pessoas qualificadas, indicadas pela comunidade negra nacional. Este grupo terá por incumbência acompanhar o desempenho do processo até o final do Programa. Em 2015, o Programa deve ser avaliado, decidindo-se então pelo seu encerramento, caso o seu desempenho seja plenamente satisfatório, ou pela sua continuação, com reajustes e adequações, caso o resultado ainda não tenha sido satisfatório.

Para se “conceituar” os afrodescentes a serem beneficiados por este Programa, combinar-se-ão critérios propriamente étnicos com critérios sócio-econômicos. Enquanto que todos os aqueles incluídos pelos critérios étnicos serão beneficiários dos aspectos “morais” do Programa, os afro-descendentes que, graças a seus esforços próprios, já romperam com as limitações econômicas, não necessitarão do apoio financeiro, dando assim sua cota de colaboração com aqueles que ainda não o conseguiram, ou seja, aqueles que se encontram em situação de carência econômica, definida essa pelo rendimento salarial inferior a 10 salários mínimos mensais.

O apoio pedagógico, de que se trata na presente proposta, no que concerne às práticas internas na escola, refere-se à consolidação dos esforços que, em geral, já são feitos pelos educadores conscientes. No entanto, muitas  vezes esses esforços não  produzem os necessários efeitos em decorrência de carências, sobretudo sociais, dos próprios alunos, que sequer conseguem se manter na escola. Ademais, os professores precisam de condições efetivas de apoio para seu trabalho docente e educativo, não só no que diz respeito à construção e à transmissão dos conteúdos formadores mas também no combate às mais variadas formas de discriminação e de exclusão. Uma atenção redobrada, intencionalmente voltada para esse segmento, redundará em benefício coletivo para toda a população escolar.

ANTÔNIO JOAQUIM SEVERINO

 

 
 


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