Mulher militante: alterego
da classe operária ou de si mesma?
Neste
artigo vou problematizar os conteúdos dos relatórios produzidos
pela seção feminina do Partido Comunista do Brasil (PCB).
Os relatórios foram produzidos durante o período de exílio
das militantes comunistas, para um Comitê Central que
também se encontrava exilado, devido ao fato de ter tornado-se
inviável a permanência deste no Brasil, em decorrência
da violenta repressão política impetrada pelo governo
militar. O Comitê Central decidiu tirar parte (um terço)
de seus efetivos do país, no final de 1973. Tal afastamento
reduziu as dimensões dos rudes golpes que o PCB sofreu
entre 1973 e 1975, quando perdeu dez membros do Comitê
Central e teve centenas de militantes presos no país.
Neste
período, o regime militar entrava num período de desgaste,
devido ao fim do milagre econômico (1968-1973), por outro
lado o PCB, após os duros golpes de 1974-1975, buscava
reconstruir uma “frente patriótica-democrática”, juntamente
com a legalidade jurídica para legitimar frente à opinião
pública o Partido. A conjuntura de luta pela frente democrática
em busca da estruturação progressiva de espaços democráticos
levou o PCB a mover-se entre dois caminhos: o de ser um
grande e poderosos partido de massas ou de continuar um
pequeno partido de combatentes valorosos, mas sem influência
decisiva na vida política nacional.
Observamos
que a construção da história de lutas das mulheres no
Brasil, presentes nos relatórios estudados, é marcante
o espectro em torno da reconstrução do partido. No entanto,
de forma contrária, tal espectro gera também várias simetrias
referentes a situação de subalternidade dentro do coletivo
do partido, ou em relação a situação da militante comunista
em meio as mulheres proletárias.
Os
relatórios são um suporte de memória privilegiado por
justificarem para o presente uma história de resistência
que é uma grande necessidade deste tempo presente. Sendo
o aspecto temporal muito importante, pois são escritos,
na maioria das vezes, em função de certos acontecimentos
que tangenciam a cidadania
e a participação da mulher na organização produtiva
do mundo capitalista.
As
informações e as análises contidas nos relatórios tem
um caráter bem esquemático. Não apresentam periodicidade
regular. Geralmente versam sobre a participação das comunistas
em eventos de grande ou pequeno porte, em grupos de estudos
e das atividades anuais da secção feminina do Comitê Central.
Notoriamente, por ser dirigido ao Comitê Central, os relatórios
são redigidos de forma resumida, no entanto, procuram
detalhar os materiais e ações utilizados para ação dos
militantes. Do ponto de vista ideológico é visível e confessa
a utilização da teoria marxista sujeita a muitas interpretações
que se advogam objetivas. E por ser uma documentação que
é vinculada no âmbito comunista, ela está carregada de
muito pragmatismo.
É
possível interrogar esse corpus
(conjunto de textos sobre os quais se aplicou um método
definido), levando em conta que a existência da palavra
participação ou participar, dentro do funcionamento de
frases coletadas nos textos determina um mecanismo de
seleção – combinação que determina um domínio semântico
específico. Assim, busco precisar, de forma mais ou menos
consistente, a natureza da especificidade comunista frente
as lutas pela emancipação feminina, como exílio, a Anistia
e a democratização da Sociedade Brasileira nos final dos
anos 70 e começo de 80.
É
possível, de início, perceber que embora o Partido Comunista
não tivesse na primeira divisão do jogo político de forma
recorrente, os comunistas influenciaram certas decisões
econômicas e políticas governamentais. Desse modo o PCB
constituiu-se numa força política importante, mesmo nas
piores fases de sua história. Para melhor entender a existência
concreta dos (as) militantes comunistas é preciso levar-se
em conta um elemento que gera muitos efeitos, mas que
ao mesmo tempo, lhe é exterior. Trata-se da participação
de forma vanguardista do PCB nas luta de classes entre
a burguesia e o operariado, no contexto do capitalismo,
no Brasil. No corpus
estudado é referência essencial a forma possível de participação
das mulheres dentro das condições objetivas da luta de
classes na sociedade capitalista.
A
participação das mulheres é referência marcante em vários
movimentos sociais nos anos 70 em países capitalistas.
Sendo assim, a discussão sobre a emancipação da mulher
entre os comunistas, nesse período é bem “filha de seu
tempo”. Por isso esta foi a década da mulher e o Ano Internacional
da Mulher foi uma deliberação da ONU em 1976.
No
Brasil a participação das mulheres foi decisiva nas transformações
políticas desse período; um exemplo disso são as organizações
de mulheres de direita que apoiaram a ditadura no Brasil,
que formaram o movimento pela Pátria e Família, nos anos
60 e 70. Por outro lado os movimentos de mulheres de esquerda
tiveram presença marcante na organização do movimentos
pró-Anistia e democratização/cidadania, no Brasil e no
exterior. O elo de ligação entre a participação comunista
nas lutas pela emancipação da mulher e a conjuntura maior
das lutas emancipatórias no Brasil e no mundo, é nos anos
70 e 80, através dos protestos e as reivindicações femininas
de caráter tradicional, não ultrapassando os limites de
atuação tradicionais ao rol de atuação das mulheres como
donas-de-casa, mãe e esposa. Isto é, não questiona a divisão
sexual do trabalho ou as tarefas destinadas a seu gênero,
construídas socialmente decorrentes e de diferenças biológicas
e construindo representações negativas sobre tais diferenças
em relação à mulher. Contrariamente o que move grupos
de mulheres a sair do espaço tradicional da família para
protestar em praça pública ou nas ruas são assuntos ligados
a seu rol específico de questões: alta de custo de vida,
violência política contra seus filhos. Neste limiar da formação da consciência feminista
é difícil delimitar as intersecções entre a idéia de emancipação
e de liberação. Mas é possível afirmar que a idéia de
emancipação não colocava em questão a divisão tradicional
do trabalho por sexo.
Nesse
quadro, o ponto de partida é examinar a forma como os
comunistas referem-se a participação na emancipação das
mulheres. Ou seja, como elas evocam uma participação na
construção da emancipação feminina, nomeando os objetivos,
os adversários e os meios de ação dessa construção.
Na
participação dos comunistas é determinante e evidente,
que a natureza do adversário, os meios de ação e a natureza
do adversário, sejam definidos nas formulações do PCB,
em se tratando da tomada do poder do Estado. É claro que
nestes termos, é o político o objetivo primeiro e maior
que se coloca. Para as mulheres militantes do partido,
a nomeação do adversário é especificamente anti-burguesa.
No entanto, em termos genéricos, o adversário também é
o parceiro masculino e o machismo do militante comunista.
É
nesse sentido que o objetivo de determinar objetivamente
os inimigos esclarece a articulação direta e antagônica
em relação aos adversários políticos a serem combatidos.
Para
a militante comunista atingir o objetivo da emancipação
feminina dependerá da sua capacidade de organizar e participar
da política orientada pelo marxismo como teoria cientificamente
correta. Posto que para elas parece oferecer os meios
para alcançar o tal objetivo pretendido.
A
participação feminina em suas diferentes formas é recorrentemente
retomada pelas formulações participativas das mulheres
comunistas. Essa participação é detalhadamente retomada
no documentos que estamos analisando. Nesse sentido, coloca-se
uma grande questão que é, a da função que o PCB sempre
procurou representar como alterego ou porta voz da classe
operária, pois historicamente o partido foi orgânico às
camadas médias urbanas, sendo que o operariado estava
ausente de fato, porém não no discurso, isto é, na preleção
política pecebista o operariado tinha um lugar essencial.
A
questão sobre os títulos de mulheres comunistas proletárias
ou de mulheres proletárias que as militantes comunistas
reivindicam para si como fórmula de poderem falar em nome
de um projeto político de caráter classista do PCB, é
acrescida de outras questões que aparecem colocadas nos
mesmos termos, pois, a presença dos militantes comunistas
em meio as mulheres proletárias é pequeno. É também difícil
a sessão feminina do PCB reivindicar a representação política
consciente e organizada nas lutas pela emancipação feminina
sob sua hegemonia político-ideológica, primordialmente,
porque no exílio os grupos da nova esquerda, extrema esquerda
e da esquerda em geral compunham uma miríade de tendências
que passam a dar um caráter participativo para as ações
e teorizações políticas dos coletivos de brasileiros exilados.
Isto é, a atuação pecebista, de certa forma, pode dar
algumas contribuições aos debates sobre as mulheres, mas
de forma nenhuma pode encaminhar direcionamentos ou contribuições
de caráter significativos em prol da hegemonia do partido.
A
partir da análise das proposições enunciativas das militantes
da sessão feminina do PCB, no exílio, é possível determinar
os sentidos que a questão da hegemonia coloca, e o que
deriva dela, como “conseqüências”. As “conseqüências”
estão associadas aos objetivos de organização e participação,
isto é, o fruto do ativismo político conseqüente seria
o igualitarismo de homens e mulheres e a emancipação produtiva
da mulher.
É
importante dizer que os resultados da participação comunista
estão relacionados, nos relatórios das mulheres comunistas
ao CC do PCB, com a situação essencial e determinante
dos efeitos e mecanismos de poderes institucionais e culturais
da sociedade capitalista.
A
participação é de caráter defensiva, ou seja, busca
determinar a ação das mulheres em sua luta, mas não aparece
o termo “contra” para qualificar o sentido das ações e
o discurso abre sendas de sentido libertário. Por isso,
ao buscar a participação como alternância, também se estabelece
a complementaridade face aos mecanismos dos poderes institucionais
e culturais que oprimem as mulheres, e que são: a moral
burguesa, o patriarcado, o código civil, as leis trabalhistas,
as discriminações e os estereótipos.
Destaco
que existe uma perspectiva política de aspectos amplos,
onde os objetivos da participação não colocam na ordem
do dia a Revolução Social, como prioridade, mas sim a
democratização social como via de emancipação produtiva
da mulher. Se a tomada do Poder do Estado não é a palavra
de ordem, o contrapeso é dado pelas referências à derrubada
do poder patriarcal, da moral burguesa e da estrutura
produtiva capitalista opressora e sua correspondente super
estrutura autoritária.
No
quadro dos conteúdos e enunciações na narrativa discursiva
dos relatórios, é visível a divisão entre conteúdos mais
imediatos e os de longo prazo. Os conteúdos de longo prazo
são interligados com um processo de emancipação socialista
mais geral como a construção de outra sociedade comunista.
Já para os conteúdos de caráter imediato o sentido da
participação visa organizar fóruns de debates para aprofundar
os problemas e as questões das mulheres, e também para
discutir a inserção em organizações políticas (partidos
socialistas) e de organizações da sociedade civil (grupos
de estudos, comitês e associações de base) , oferecendo apoio, mas ao mesmo tempo,
construindo redes de simpatizantes para o projeto socialista
do PCB. Tal projeto socialista, em termos discursivo,
está afinado às questões referentes a causa feminina,
à questão social, ao marxismo-leninismo, ao socialismo
utópico e aos valores propagados pelos enciclopedistas
e utopias românticas. Contrariamente a esse sentido discursivo,
nos relatórios, certos termos são apresentados como negadores
dos valores emancipacionistas, por isto os termos ideologia
burguesa, ciências sociais “machistas”, modelos psicológicos,
influência feminista européia alienada da realidade brasileira,
são apresentados como inaceitáveis para alicerçar a sociedade
socialista.
Nesse
conjunto de conteúdos e enunciações é possível apontar
que os objetivos estabelecidos pelos comunistas têm um
discurso norteado pelo marxismo–leninismo e também por
outras teorias emancipatórias (socialismo utópico e enciclopedismo).
Tal discurso visa colocar a questão feminina como questão
social, em detrimento do psicológico ou biológico, isto
é, da questão de gênero.
Segundo
essa orientação, “em seus objetivos, tanto táticos como
estratégicos” o problema da mulher está ligado à revolução.
Muito embora, em suas conseqüências históricas sociais,
a prioridade é levantar questões específicas sobre a mulher
que, também tem raízes na especificidade de outros problemas
sócio–econômicos e político-culturais de teor classista.
Partindo
dessa assertiva os comunistas levantam alguns pontos temáticos
discutidos por grupos de mulheres de diferentes tendências,
sendo que tais pontos temáticos podem nortear a forma
de intelecção que as militantes construíram sobre as relações
existentes entre os seus objetivos e as formas estratégicas
de participação dentro dos movimentos sociais de mulheres,
seja no exílio ou no Brasil.