Nacionalismo
e Patriotismo
Enquanto
a administração de Bush comandada pelo Vice-Presidente
Cheney e pelo Secretário de Defesa Runsfield se prepara
para uma guerra contra o Iraque, os cidadãos deveriam
manifestar mais patriotismo. Observem que eu usei a
palavra patriotismo ao invés de nacionalismo.
Durante
a história de nossa nação (Estados Unidos) podemos encontrar
dois pontos de vistas diferentes sobre o país. Nos Estados
Unidos se pode encontrar uma tradição secular incorporada
na Constituição com seu sistema de cobranças e balanços
e seu compromisso com a liberdade civil. Nessa tradição
secular, o racionalismo é a
base do Estado. Nos “Estados Unidos” os cidadãos
consideram que a chave para uma democracia deveria estar
na liberdade política, isto é, nos inúmeros comportamentos
não-ortodoxos tolerados pela sociedade. Os cidadãos
que defendem a tradição secular constitucional são os
verdadeiros patriotas. O general aposentado David M. Sharp,
oficial da marinha americana, diz claramente:
A
coragem e a convicção de cada um e a vontade de falar
a verdade para o bem do país é o que a palavra patriotismo
realmente significa—e isto está além de bandeiras, fanfarras
e canções patrióticas.
O segundo
ponto de vista da história dos Estados Unidos é encontrado
na imagem da “América”. Na “América” os cidadãos se
baseiam na má interpretação da tradição judaico-cristã
para criar uma cultura civil evangélica. Este ponto
de vista dá ênfase à noção do excepcionalismo americano,
isto é, à idéia de que a América é uma nação redentora
onde pessoas são encarregadas de uma missão divina no
mundo. Enquanto os “Estados Unidos” são uma república
tradicional secular, a “América” é a terra onde existe
uma moral mítica. Os defensores dos Estados Unidos são
patriotas, enquanto defensores da América são nacionalistas.
Estes últimos seguem a filosofia “minha nação certa
ou errada”. A ênfase está em conformar-se ou limitar
a liberdade política para “salvar” a democracia. Os
nacionalistas acreditam que os cidadãos dos Estados
Unidos são o povo escolhido por Deus. A demagogia política
dos nacionalistas tenta capitalizar no emocionalismo
encontrado na “América”. Esta é uma parte essencial
para a construção de apoio para a guerra.
O que os
Estados Unidos precisam hoje é de mais cidadãos patriotas.
Essa voz pública não diria que a guerra nunca é justificada,
mas ela exigiria que a guerra somente seja feita por
causas justas e para uma paz justa. Os patriotas fariam perguntas difíceis e exigiriam respostas verdadeiras.
Patriotas lembrariam que na Guerra do Vietnam o presidente
Johnson enganou os cidadãos no incidente do Golfo de
Tokin e na subseqüente Resolução Parlamentar; o presidente
Nixon enganou os cidadãos
com relação ao ataque e bombardeio de Cambodia e Laos,
o presidente Regan fez o mesmo com o escândalo envolvendo
o Irã e os Contras, e o Presidente Bush I enganou a
opinião pública quando não expôs o fato de que a garota do Kuwait que testemunhou ante o Congresso
que tinha visto soldados do Iraque entrarem em um hospital
no Kuwait e matarem
bebês inocentes, era de fato a filha do embaixador do
Kuwait, cujo governo havia pago a uma firma de relações
públicas 10 milhões de dólares para organizar uma a campanha
de apoio à Guerra de Golfo. Uma guerra nunca
pode ser justa se a verdade é a primeira vítima do conflito.
Os patriotas
hoje questionariam sobre o momento e a urgência da administração
nesta campanha de guerra. Neste momento em que um voto
pode determinar qual partido controla o Senado Americano,
e o ganho de seis votos implicaria a mudança
no partido que controla a Câmara dos Deputados, os estrategistas
republicanos entendem que enquetes demonstram que os
democratas lideram em relação a assuntos domésticos,
enquanto que os republicanos lideram na guerra contra
o terrorismo e na campanha para remover Saddam Hussein
do poder. Esta estratégia paralisou a liderança do partido
democrático. Simplificando: é mais fácil fazer uma campanha
como um nacionalista do que como um patriota.
Os cidadãos
patriotas exigiriam um debate sobre a mudança mais fundamental
na política de relações exteriores dos Estados Unidos
desde que George Kennan definiu a estratégia de contenção
para deter a agressão Soviética. A administração de
Bush II mudou de uma política de contenção para uma
política de domínio permanente. A política americana
de hoje justifica qualquer ataque contra qualquer líder,
nação ou grupo que sejam definidos como ameaças. A teoria
de “ou você é um de nós ou você está contra nós na guerra
contra o terrorismo” fez com que os Estados Unidos ficassem
amigos de líderes autoritários na Ásia Central, Oriental
e do Sul, e também na África.
A América
quer estabelecer uma base naval muito grande em Sri Lanka,
não para a guerra contra o terrorismo mas para “conter”
a Índia; a administração espera convencer o governo
Filipino a deixar que a América restabeleça uma grande
base naval em seu território para impedir que a marinha
chinesa controle os portos do leste da Ásia; América
quer ter bases no Kenya para permitir a estalibização
militar das nações onde grandes campos de petróleos
estão sendo descobertos; e a América já tem o controle
das antigas bases soviéticas en Tajikistan, Kazakistan
e Georgia, que podem ser usadas para proteger os campos
de petróleo e os oleodutos assim como conter a Rússia
e a China. Os nacionalistas olham para o mundo e só
vêem inimigos. Os patriotas trabalham para fazer com
que inimigos se tornem em adversários. Nem todas as
nações-estado serão amigas, mas adversários pelo menos
podem resolver conflitos mediante organizações internacionais
e através da lei.
Os
patriotas questionariam uma guerra contra do terrorismo
que não tem um prazo pra acabar. A América tem lutado
uma longa guerra contra a pobreza, a guerra contra as
drogas e a guerra contra o câncer. Como muitos patriotas
demonstraram, a América nunca ganhou e nunca vai ganhar
guerras metafóricas. Uma guerra contra al-Qaeda, bem
definida em alguns pontos, seria mais pragmática que
uma guerra aberta contra o terrorismo em geral.
Neste período
crítico da história dos Estados Unidos a voz de cidadãos
patriotas precisa ser clara e audível. Os “Estados Unidos”
precisam triunfar contra a “América.” Os cidadãos precisam
entender que, se é patriótico morrer pelo próprio país,
é igualmente patriótico agir para impedir que seu país
morra.