Marcha,
soldado!
“Marcha,
soldado…”. A marcha continua veemente, cantigas de roda
transformadas em cantigas de liberdade… “Marchons! Marchons!”
Brincadeiras bélicas transformadas em sangue. É a guerra
que deveria ser justa, como se pudesse existir uma guerra
justa.
Não
faltam manifestações nas principais cidades francesas, onde
os gritos inaudíveis do país parecem não ressoar. As faixas
com inscrições do tipo: “Crianças do Iraque, crianças da
Palestina, é a humanidade que está sendo assassinada.”,
ou “Nem Saddam, nem tio Sam”, não conseguem atingir seu
objetivo : a catástrofe continua.
Franceses comentam que isso
parece mais uma guerra religiosa, onde, ao contrário do
que diz a Bíblia, Deus luta contra Deus. “God” não quer
ceder, tampouco “Allah” e “Dieu” continua em sua posição
desfavorável a tal situação. Em nome de “Deus misericordioso”
o “estandarte sangrante é erguido” (La Marseillaise. Trad.
minha), há uma missão a ser cumprida. Segundo o presidente
americano Bush:
“A
liberdade que nós pregamos não é o dom da América para o
mundo, ela é o dom de Deus para a humanidade. ” (Jornal
La Croix, p. 7, 21/03/03. Trad. minha).
Cabe, aqui, a famosa frase
pronunciada, em 1793, pela feminista Roland, no cadafalso,
antes de ser guilhotinada:
“Ó
liberdade! Quantos crimes se cometem em teu nome!”
“Marcha,
soldado, cabeça de papel…”, quantas cabeças de papel estão
fazendo rolar cabeças valiosas de gente inocente, ou simplesmente,
gente ! “Eles vêem, até em nossos braços, decaptar
nossos filhos, nossos companheiros…” (La Marseillaise. Trad.
minha).
A
maioria dos 3.820 iraquianos residentes na França, dos quais
1.056 naturalizados franceses, têm apoiado “Dieu” e metade
dos americanos também. Entretando, é cruel a discriminação
sob os olhares da “Grande Dama”. Os americanos têm sido
vítimas de destratos, ainda que contra a guerra. Em um colégio
americano, o vigia noturno foi esfaqueado só porque trabalha
no estabelecimento. Até as crianças têm medo de falar a
língua universal e, mesmo os brasileiros têm que tomar cuidado
por causa do sotaque facilmente confundido. Muçulmanos têm
sido evitados, como se fossem, todos, kamikases.
O racionalismo francês não
permite a canonização de nenhum dos dois chefes, cada vez
mais famosos no mundo inteiro. Os próprios iraquianos afirmam:
“Saddam
Husseim consegue, sempre, fazer-se passar pelo agredido,
sendo que é o único agressor, o único criminoso.” (depoimento
de um iraquiano ao jornal La Croix de 24/03/03. Trad. minha).
De outro lado, ouvi de uma americana : “Bush sempre
precisando guerrear!”.
“Marcha,
soldado, cabeça de papel. Quem não marchar direito…” Chirac, provocando a ira americana, declara esperar que Bush, abandonando
a posição dominante, quase hegemônica em que se coloca,
acabe com os bombardeios e que as operações sejam mais rápidas
e menos mortíferas possíveis, para que não conduzam a uma
catástrofe humanitária. Nada mais sensato: com o número
de imigrantes muçulmanos - que é o maior do mundo, e com
o exército francês – que, não é lá grande coisa, se a França
mudasse de opinião seria “extinta do universo”, como brincam,
os franceses.
Avenidas adornadas pelo azul das fardas, olhares atentos,
sorrisos desconfiados (quando existem), o sol brilha e as
flores brotam em meio aos ares preocupados. “…quem não marchar
direito, vai, preso, pro quartel!” O povo francês não sabe
qual será o futuro da guerra, mas sabe que pode ir preso,
pro quartel. Questionam se será somente um quartel de boicote,
de discriminação, ou se as consequências serão maiores?
Onde será construída essa prisão? Esses soldados poderiam
acabar por “marchar direito”? Marchez! Marchez! Isso não
é coisa pra intelectual, entretanto, é coisa pra homem moderno:
“Assim
como os cavaleiros no cavalo desenfreado, largamos as rédeas
perante o infinito, nós, homens modernos, semibárbaros que
somos – e sentimos a nossa felicidade apenas onde também
nos sentimos mais – em perigo.” (Niezsche, F. Para além do bem e do mal. § 224. Martin
Claret, S.P., 2002).
Como designar-se-ão os pós-modernos?
Seriam, por acaso, os bárbaros mascardos que, por vezes,
deixariam cair a máscara só encontrando a felicidade muito
além do perigo, encharcados de sangue?