Fale que
te direi quem és!
Josué
Machado publicou instigante artigo sobre a influência "nefasta"
que os tropeços gramaticais do novo presidente da República,
Luís Inácio Lula da Silva, são suscetíveis de ter
nas salas de aula do país – "Lula e a língua do povo"
[EDUCAÇÃO,
São Paulo, 3.2003]
Os "escorregões"
de Lula da Silva no exercício do português padrão – seus
"menas", "percas", "acho de que";
a avidez com que "devora os 's' do plural" etc.
– constituem um pretexto para o autor debater a variedade
lingüística com a qual a escola deveria operar.
No Brasil, nos últimos tempos,
a variação linguística na escola tem sido objeto de complexos
debates lingüístico-pedagógicos, ensejando profunda insegurança
sobretudo entre os professores e futuros professores que
atuam em escolas populares.
Há alguns anos, para a grande
maioria dos professores de português, essa questão não existia,
predominando a visão de que a principal função da escola
era enquadrar os alunos à variedade culta da língua
nacional.
Com esse pressuposto inquestionável,
professores bem intencionados confundiam comumente
a educação com a caça às formas sintáticas, lexicais e fonéticas
desviantes, transformando as aulas de português em
ensino da gramática normativa. A grande função do professor
era corrigir o "português errado".
A
ciência ajuda
Novas investigações
sobre os fenômenos psico e sócio-lingüísticos, a psicogênese
da escrita e os processos de aprendizagem, etc. determinaram
mudanças profundas na visão do que deve ser a prática de
professores de português nos diversos níveis de escolaridade.
No citado artigo, Josué Machado
alude negativamente ao que considera uma "sobrecarga
de informações teóricas e nomenclaturas lingüísticescas"
que resultariam "num formidável caos teórico, capaz
de confundir o professor comum".
Para ele, dentre as teorias
lingüísticas, apenas a desenvolvida por Noam Chomsky contribuiria
realmente a uma maior eficiência
escolar. Para essa última, todo "falante sabe instintivamente
sua língua e só precisa ser ajudado a desenvolver-se nela
por meio de prática e de exercícios agradáveis".
As grandes
questões postas pelo artigo, a exclusividade
dada pela escola à variedade culta do português e a discriminação
das formas lingüísticas populares, não envolvem apenas os
processos de aprendizagem da sintaxe estudados por Chomsky.
Também englobam múltiplos outros componentes de ordem lingüística,
sociológica, histórica, pedagógica, etc.
Língua
para uso
De um ponto
de vista psicolingüístico, Josué Machado tem razão. Foi
essencial o reconhecimento que todo ser social possui competência
lingüístico-comunicativa e gramática intuitiva, interior,
mesmo sem jamais ter freqüentado a escola. Por si só, esse
reconhecimento põe fim à idéia que a escola deve "ensinar"
a língua materna.
Mas, contrariamente
à opinião do autor, a Lingüística pode e deve contribuir
muito mais à prática dos professores de português. Sobretudo,
deve ensejar a compreensão de que a língua constitui um
instrumento de comunicação destinado a cobrir uma grande
diversidade de necessidades humanas – comunicação racional,
afetiva, argumentativa, informativa, etc.
Essa compreensão
permitirá que o professor de português não caia na tentação
de transformar as aulas de expressão lingüística em lições
de ortografia, de gramática normativa ou, o que é pior,
de nomenclatura lingüística e enfatize, ao contrário, o
desenvolvimento da competência textual dos alunos, para
o maior número possível de necessidades comunicativas e
discursivas.
Os avanços
alcançados nos estudos de Lingüística Social podem igualmente
contribuir – e já contribuem em larga medida – para a resolução
da questão da variação lingüística na sala de aula. Apesar
da tendência da escola e da sociedade de apresentarem a
língua como organismo monolítico e natural, ela é uma construção
social e histórica, com vínculos essenciais com a formação
social de seus locutores.
O
essencial e o acessório
O fato que
as divisões e conflitos de toda ordem – socioeconômicos,
socioculturais, de gerações, de gênero, etc. – materializam-se
e manifestam-se plenamente na língua, de forma explícita
ou implícita, comprova o seu caráter social e histórico.
É também
preciso enfatizar que todos os elementos que compõem a estrutura
das línguas, fazendo delas eficientes instrumentos de comunicação
social, não têm a mesma importância. Alguns de seus componentes,
como os fonemas, têm papel secundário nos processos de significação,
essência da linguagem e das línguas naturais nas quais se
manifesta.
O mesmo pode
ser dito das unidades de nível imediatamente superior, os
morfemas, cuja função é indicar modificações de número,
de gênero, de pessoa ou diferenciar palavras pertencentes
a categorias gramaticais diversas – um verbo de um substantivo,
por exemplo. É através de unidades maiores – os enunciados
e as palavras que os compõem – que se dá a significação
dos intercâmbios verbais.
Portanto,
compreende-se que as manifestações mais visíveis da variação
lingüística apareçam precisamente nos fonemas e morfemas,
elementos da língua que interferem menos nos processos de
construção do sentido, não interferindo, assim, no processo
de intercompreensão.
Onde
se fixa o estigma
Não atrapalha
a comunicação a confusão entre a lateral [l] e a vibrante
[r] em palavras como garfo – galfo; solvente -
sorvente; voltar – vortar; etc. Não dificulta
o entendimento a substituição da fricativa [v] pela oclusiva
[b] em vassoura – bassora. O mesmo pode ser
dito da troca do morfema de primeira pessoa do plural no
presente e passado dos verbos de primeira conjugação: amos
– emo, etc.
A repressão,
discriminação e correção sistemáticas dessas variantes justificam-se
apenas do ponto de vista – estético – da variante
dominante, e não a partir de critérios lingüístico-comunicativos.
Portanto, não são práticas necessárias nem, o que é mais
grave, inocentes e sem conseqüências.
Em teoria,
qualquer criança, locutora de uma variedade de português
não padrão, é perfeitamente capaz de aprender as variantes
fonológicas e morfológicas padrão, como aprenderia uma língua
estrangeira, próxima de sua língua-mãe.
O problema
está no enaltecimento das variantes cultas pela escola,
atribuindo-lhes uma natureza que não possuem: comunicar
melhor do que as variantes não padrão; possuir valores estéticos,
identitários e patrióticos, etc. superiores – como se a troca do [lh] de "filho"
por um [i] diminuísse a brasilidade do locutor.
O consenso
em relação à necessidade para a escola de eleger como língua
de ensino apenas a variedade lingüística praticada sobretudo
pelas camadas econômica, política e culturalmente dominantes,
é também alimentado por julgamentos preconceituosos e depreciativos
emitidos por indivíduos que gozam de prestígio social, muitas
vezes desprovidos de más intenções.
O papel
da escola
Ao estigmatizar
variantes lingüísticas não prejudiciais à comunicação, valorizadas
e utilizadas majoritariamente por comunidades populares,
a escola enseja dificuldades de aprendizagem e contribui
para a perda da auto-estima e a insegurança lingüística
dos alunos.
A repressão
lingüística é igualmente caminho para a repressão social
e cidadã. Ela contribui para a reprodução das desigualdades
sociais. Um locutor que é levado a desprezar
o falar seu e de sua comunidade, tende a desprezar-se
e a sua comunidade.
A essência
da linguagem verbal não está nos elementos fônicos e mórficos, mas na possibilidade de construção do sentido,
realizada sobretudo através da palavra, do enunciado, do
texto, do discurso, elementos também embutidos das concepções
de mundo dos locutores.
Ao defender
a legitimidade e superioridade da variedade lingüística
padrão e rejeitar a prática de um "multilingüismo nacional",
muitos professores, em geral desconhecedores das conseqüências
de suas práticas, contribuem para o estabelecimento da hegemonia
das visões de mundo das elites, participando aos processos
de unificação e uniformização ideológica, política e cultural
da sociedade.
A prática
do xibolete
Não se trata
de deixar simplesmente os alunos das classes populares utilizarem
suas variedades lingüísticas, sem introduzi-los ao uso da
chamada norma culta. A função da escola é sobretudo ajudar
a criança a compreender a realidade material, social e espiritual,
com suas contradições e sua variedade, para que possa atingir
sua emancipação individual e coletiva.
Com sua diversidade e suas
potencialidades, a língua faz parte da realidade social,
construída pelos seres humanos para os seres humanos. O
ensino da língua materna deve sobretudo ensejar que as crianças
compreendam a estrutura, o funcionamento, as funções da
língua – instrumento de comunicação –, com todas as suas
variedades, sociais, regionais e situacionais.
A escola deve ser espaço emancipatório.
Portanto, não pode utilizar-se de práticas de dominação.
Para não fortalecer interpretações apologéticas sobre a
língua e perpetuar a discriminação social, deve mostrar
que todo preconceito lingüístico apoia-se num preconceito
social.
No Antigo Testamento, o livro
dos Juízes relata um episódio da história de duas tribos
de Israel, os guileaditas e os
efraditas, que praticavam línguas muito próximas.
Em ocasião de uma guerra, para impedir que seus então inimigos,
os efraditas, atravessassem o rio Jordão, os guileaditas
os obrigavam a pronunciarem a palavra "Xibolet"
('espiga').
Incapazes de expressar-se
com perfeição no padrão superior da língua de Guilead,
os efraditas diziam 'Sibolet', pois tinham uma fricativa
sibilante [s] no lugar da fricativa chiada [ch]. Devido
a essa variante fonética, "morreram quarenta e dois
mil dos de Efraim" [Bíblia sagrada. Lisboa: Sociedade Bíblica de Portugal,
2001: p. 262]. No Brasil de hoje, simples variantes fonéticas servem
também para justificar a discriminação social, e portanto,
a dominação política e econômica, pelas elites, da imensa
maioria das classes trabalhadoras.