Por LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA
Doutor em Ciência Política, professor titular (aposentado) de História da Política Exterior do Brasil na Universidade de Brasília e autor de várias obras sobre as relações dos EUA com o Brasil e os demais países da América Latina, entre os quais O Governo João Goulart: as lutas sociais no Brasil - 1961-1964 e De Marti a Fidel: a revolução cubana e a América Latina.

Poesia
Felipe Camarão ou Vietcong

Soldado americano na guerra do Vietnã (1964-1975)felipe camarão
henrique dias
negros e índios
armas na mão
bom dia

soa o clarim de o-
primidos e depois do
olvido
com guer-
rilheiros retornais e sois
e vos chamam vietcongs

felipe camarão
henrique dias
guerrilheiros saudamos os que ainda
não chegaram
os que virão ao fim da
madrugada rompendo as enxovias

o século no século não finda
quem lutou lutará
índio poti as
vitórias mortas tu reviverias
de porto calvo até tomar olinda

povo no tempo povo continua
saudamos guararapes
dien biem phu
a-
queles que reproduzem glória e feito

vietcong ou camarão ressurge lá das
batalhas a empunhar fuzil e espadas
fio do horizoente atravessando o peito

soldado
ao
sol
dado

sol
dado
ao
soldado

sol
solda
soldado

(morto)

ossos
e
ferros
soldados
·

edifícios acendem na floresta
bazucas e metralhas dobram som de
folhas secas e gritos mortos
onde
somente o fogo na paisagem resta
atrás dos ninhos (da guerita ou fronde)
frutos e corpos pecos
a fome
esta
fome incendiada de árvore que pés ta-
laram nos campos e a fumaça esconde

hanoi
haifong
o fogo brota e vence o
céu
a dor dos inocentes abortados
e bocas dessangrando no silêncio
travo e pólvora
o povo viverá dos
escombros
e resiste e luta e tem-se o
ódio no peito e a fé dos revoltados
homens feitos de pedra e noite com bra-
vura lutam feridos e se estanque
o sangue
erguem canhões
abafam som bra-
midos de corpos a tombar
manhã que
louco fuzil metralha sangra e assombra
lagartas contra músculos no arranque
de carnes e motores
mortos sem sombra
cravam braços e presas contra tanque

pontes e gritos saltam
fétido ar de
gases e vômitos granadas
há to-
caias de estrelas espreitando a tarde

povo selva amanhã enfrentam lato
bombardeio
vermelho horizonte arde
e guerrilheiro morde aviões a jato
·

aves de arribação pousam na rama
das ossadas
caatingas onde pouco
tempo resta ao que busca chuvas ou co-
mida
rio morto
racha em pedra a lama

fogo sem chama a crepitar queimou co-
lheitas e o nordestino sofre a clama
contra o deserto e espera que a manhã ma-
madrugue na enxada canta
um eco rouco

de galos em combate
sangue ao sol ta-
lhado
jagunço ou cangaceiro que se a-
pronta a gritar o tiro da revolta
banido e escorraçado
a fome vence-a
na foice do horizonte
e enxota e solta
bois que ruminam dentro da consciência

São Paulo, setembro/outubro 1966


LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA

Fonte: A Tarde Online - 08.03.2003    

 

 

 


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