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Por RUDÁ RICCI
Sociólogo,
Doutor em Ciências Sociais, Professor da PUC (MG) e Escola Superior
Dom Hélder Câmara. Autor de Terra de Ninguém (Ed.
Unicamp) e Diretor da CPP
Consultoria em Políticas Públicas
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No
ano passado o Brasil descobriu que a violência juvenil não é
um fenômeno apenas inglês e norte-americano. Foram diversos
casos divulgados em que jovens, quase sempre oriundos de famílias
de razoável poder aquisitivo, assassinavam parentes muito próximos.
Coincidentemente, em 2002, a Editora Autêntica/Gutemberg publicou
um excelente livro, “Gritos no Vazio”, onde era relatada a trajetória
de Mary Bell, uma menina inglesa que aos 11 anos de idade assassinou
duas crianças. O livro procura analisar o imaginário de uma
criança e suas motivações para agir de maneira tão brutal. A
leitura é comovente e gera grande indignação. Mary sofria abusos
sexuais desde a tenra idade, sendo utilizada como “prêmio” pelos
clientes de sua mãe, uma decadente e perturbada prostituta. A leitura deste relato é um mergulho
no tortuoso processo de formação de uma criança desnorteada,
onde o sofrimento agudo, ainda mais confuso por ser promovido
por um ente familiar querido, chega a anestesiar os sentimentos
de piedade e compaixão de Mary. A autora, Gitta Sereny, revela
que crianças submetidas a situações de violência e tensão permanentes
desenvolvem, não raramente, atitudes de extrema violência contra
animais e pessoas, sem associar a pessoa ao sofrimento que causa.
Uma espécie de “desumanização do sentimento”. Por aí, Sereny
promove uma profunda crítica ao sistema judicial inglês, aos
professores primários e assistentes sociais que não possuem
qualificação necessária ou mesmo sensibilidade para cuidar de
crianças que vivem sérias dificuldades. A sociedade, segundo
a autora, não consegue lidar com fracasso no cuidado com suas
crianças, assim como as tragédias resultantes.
O
problema do cuidado com a formação moral de nossas crianças
e jovens parece bater em nossas portas provocando, a cada dia,
mais barulho e temor. É necessário aprofundarmos urgentemente
este tema, pesquisar causas e soluções em andamento.
Uma
recente pesquisa, desenvolvida pela psicóloga Maria Delfina
Farias, da Universidade Federal de São Paulo e do Tribunal de
Justiça de Santos (SP), revela como causa da delinqüência juvenil
a falta de interação familiar e escolar. Em sua pesquisa não
aparece como influência relevante no comportamento de jovens
a renda familiar. Em sua pesquisa, Farias constatou que a maior
parte de jovens infratores era oriunda de famílias monoparentais
(onde apenas um dos pais convive com os filhos). O chefe de
família, informa a pesquisadora, sente-se sobrecarregado nas
tarefas de administração do lar. Outro fator, considerado de
risco, é a defasagem escolar. Problemas psicológicos afetam
entre 10% e 20% dos jovens infratores. As causas principais
são, portanto, sociais, vinculadas ao sentimento de abandono
familiar.
Podemos
associar a este sentimento de abandono familiar o uso abusivo
de álcool entre jovens. Pesquisa realizada pela UNESCO em 2002,
envolvendo 50 mil jovens brasileiros, constatou que 65% dos
estudantes de escolas particulares, entre 15 e 18 anos, ingerem
álcool com freqüência, sendo que 9% destes bebem mais de 20
vezes por mês. O primeiro gole, nesses casos, ocorre aos 10
anos de idade (na década passada, o primeiro gole ocorria aos
14 anos).
Não
há como fugirmos da constatação de um relevante “abandono social”
de grande parte de nossas crianças e jovens. Estamos, enfim,
nos descuidando da sua formação moral, de sua socialização.
Há,
contudo, exceções e importantes tentativas sociais. Por ser
pouco divulgada, citarei a experiência do Orçamento Participativo
Mirim, que já ocorre em Recife, Goiânia, Barra Mansa e Icapuí.
O objetivo central desta experiência é desenvolver o “protagonismo
juvenil”, gerando situações de aprendizagem sobre a prática
cidadã. A escola se vincula à vida comunitária.
Todas
experiências partem de uma mudança significativa na estrutura
curricular. No caso de Recife, à título de ilustração, a matriz
curricular adotada nas escolas de ensino fundamental e médio
apoia-se no tema “Viver e Conviver na Cidade”, subdividido em
noções de direito, identidade social, cultura, ciência e tecnologia.
As crianças que freqüentam as escolas públicas participam, ao
longo do ano, de plenárias onde debatem – sempre estimuladas
por programas educativos e lúdicos – sua realidade e definem
temas e demandas que são apresentadas ao prefeito e seu secretariado.
Em 2002, as demandas mais votadas foram segurança (dentro e
fora das escolas) e quadras de esportes.
A
participação dos estudantes compõe um claro projeto pedagógico
voltado para a sua formação social e moral. Em Icapuí (Ceará),
todo processo de debate é organizado a partir de oficinas de
redação e arte. Numa delas, uma estudante elaborou um cordel
sobre a experiência:
Minha amiga, minha ouvinte
Que a gente pode contar (...)
É uma torre de Babel (...)
Sai gente de todo lugar (...)
Para decidir e fiscalizar.
A
metodologia utilizada se aproxima em muito da prática do Orçamento
Participativo que envolve adultos. Inicia-se com a elaboração
de material didático (muitas vezes, a partir de oficinas com
os estudantes), seguida da mobilização de pais e agentes educacionais
(muitos são professores). Um mês depois, têm início as plenárias
por bairros e regiões, onde as prioridades são definidas e os
delegados são eleitos. Em novembro, são votadas as demandas
por prioridade. Muitas vezes, como ocorreu em Barra Mansa, os
estudantes saem em passeata pelas ruas da cidade, cantando,
apresentando cartazes e desenhos, revelando-se à cidade como
um animado grupo de cidadãos em formação. Muitas vezes, as prioridades
surpreendem o governo dos adultos. Em Goiânia, as crianças votaram
como uma das dez prioridades a construção de sorveterias gratuitas.
Aqui entra, mais uma vez, o trabalho pedagógico. O adulto, ao
contrário das crianças, precisa saber administrar seus desejos.
Tal aprendizado é construído num processo de formação e socialização
onde a frustração e a negociação sempre se fazem presentes.
O
Orçamento Participativo Mirim acaba sendo um aprendizado sobre
o diálogo entre jovens e adultos neste tumultuado início de
século. Não é apenas uma experiência nacional. Na Europa, já
se espalham as Câmaras de Representantes Juvenis que apresentam
demandas às autoridades locais. Na América do Sul, experiências
similares se multiplicam, como no caso de Cotacachi, no Equador.
A localidade, onde a maioria da população é indígena, elegeu
seu primeiro prefeito indígena em 1996. Ao assumir, o prefeito
fez duas promessas: governaria a partir de políticas de participação
direta da população na sua gestão e respeitaria as decisões
dos jovens locais. Para comprovar seu empenho, entregou aos
representantes da juventude de Cotacachi sua carta de demissão,
afirmando que se em algum momento falhasse nos seus compromissos,
os jovens poderiam fazer valer aquela carta que estavam recebendo.
Em seguida, criou a Assembléia de Unidade Cantonal – voltada
para planejar o desenvolvimento local – assim como seu órgão
executivo: o Conselho de Desenvolvimento e Gestão, onde jovens
eleitos na localidade têm lugar garantido. No seu regimento
interno as propostas de crianças e jovens aparecem como item
permanente do Plano de Desenvolvimento Cantonal, além de definir
o percentual de investimento do orçamento para execução dessas
propostas. A prefeitura criou, ainda, a Coordenação da Criança,
uma espécie de secretaria de governo para promoção integral
das crianças e adolescentes.
Tais
experiências parecem avançar num envolvimento real da sociedade
adulta com os problemas de socialização de crianças e jovens
adotando uma perspectiva e metodologia inovadoras. Caminham
para além da tutela. Utilizam órgãos públicos como instrumentos
pedagógicos de formação moral e política sem, contudo, gerar
“politização precoce” dos jovens. Mais que um discurso participacionista,
as propostas de Orçamento Participativo Mirim em curso geram
espaços públicos de jovens. Os educadores têm a função de estimular
negociações, apresentar limites, garantir regras de convivência.
Um processo de formação de cidadãos, enfim, tema que povoa tantos
discursos educativos nas últimas décadas, sem qualquer ação
efetiva realmente relevante.
Não
há como garantir que essas iniciativas não gerem uma espécie
de “neo-clientelismo”. Contudo, se jovens em situação de abandono
social puderem manifestar suas intenções e pensar em novas formas
de organização social, se forem realmente ouvidos pela sociedade
dos adultos, e se esta sociedade incorporar suas vozes às suas regras e ações,
estaremos dando um passo largo na ressocialização de crianças
e adolescentes. Se, além de expressarem organizadamente seus
desejos e sua voz, esses jovens participantes da elaboração
do orçamento municipal aprenderem a conviver na diversidade
e a administrar seus desejos, além de estudar soluções para
inúmeros problemas da convivência social, então o passo será
ainda maior, educando gerações a serem cidadãos diferentes,
com maior capacidade para tomar decisões democráticas sobre
sua cidade e comunidade.
RUDÁ
RICCI
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