Prólogo
à história do presente: do racismo multicultural
O
fortalecimento da classe média negra e a expansão
de um conjunto de políticas de cidadanização do afrobrasileiro
(como as denúncias das práticas de exclusão racial,
os “S.O.S. Racismo” que se multiplicaram em vários
estados durante os anos 90, e, mais recentemente,
a política de ação afirmativa) contribuíram, ainda
mais, para reforçar o projeto de identidade dos afrodescendentes.
Há séculos em andamento, embora sempre em ritmo
desigual, estas políticas de cidadanização podem ser
exemplificadas nas propostas de cotas para estudantes
negros nas universidades e empregos públicos (UERJ,
ministérios da Justiça e o ministério do Desenvolvimento
Agrário) ou nas políticas de impacto gerencial do
Bank Boston, Xerox, Monsanto, entre outras corporações.
Para consubstanciar este complexo cenário de diversidade
nos ambientes comunicativos, assistimos a emergência,
na última década, de uma juventude negra forjada na
ebulição dialética entre o local e o global e temperada
pela cultura hip-hop (estética e política da
globalização da cultura negra).
Esta juventude negra tem formulado uma atitude
crítica à dupla violência no cotidiano das favelas
e dos grandes centros urbanos, através de performances
que reúnem dança, ritmo e poesia, coloquialmente denominados
de ataques.
Estes ataques performáticos, verdadeiramente
novas ‘formas de vida’, na linguagem de Wittgenstein,
tem motivado a transformação de contextos cognitivos,
comunicativos e culturais de seus agentes e público,
ao cultivar a explosão de uma conduta crítica tanto
ao comportamento da polícia, quanto do narcotráfico.
Vê-se,
hoje, que este fenômeno da produção da presença e
da visibilidade dos afrodescendentes no cenário político
dos grandes centros urbanos, tem conduzido ao abandono
de uma linguagem reativa e reivindicativa em favor
de uma linguagem cada vez mais proposicional.
Emerge, assim, uma conjuntura étnico-política
que dissemina proposições, antes enunciadas, preferencialmente
por lideranças.
Hoje, aquelas proposições multiculturais, compensadoras
das desigualdades, são evocadas em políticas públicas
ou em iniciativas espontâneas de corporações privadas.
E, estas últimas, inclusive, interessadas na
promoção de mudanças na cultura organizacional, adotam
radicais políticas de diversidade social, que, além
do marketing social decorrente, tem se motivado um
profundo impacto no perfil cultural brasileiro e um
saudável resultado na produtividade corporativa.
Todavia,
apesar das recentes medidas anunciadas pelos ministérios
e instâncias governamentais, favoráveis às políticas
de afirmação da população afro-brasileira (mais da
metade da população brasileira), não encontramos fora
do contexto performático sócio-cultural criado por
esta juventude negra e seus aliados (certos jovens
não-negros moradores em bairros de classe media e/ou
moradores na periferia e favelas que testemunham as
atrocidades do aparato policial), um amplo e sério
debate no âmbito acadêmico a cerca desta luta empreendida
pelos dos cidadãos negros.
A inteligência brasileira, com raríssimas exceções
--só para citar duas delas, destaco os nomes de Luis
Felipe de Alencastro e José Murilo de Carvalho--,
adota, mais uma vez, em relação à problemática racial
no Brasil, a velha política de esconder “cordialmente”
a cabeça mas, deixando o rabo colonizado aparente.
A intelectualidade se profissionalizou velozmente,
e como não temos um time de intelectuais públicos,
os intelectuais brasileiros ainda não se alertaram
para a força mobilizadora da consciência étnica no
Brasil e as desastrosas conseqüências advindas da
omissão face à tão crucial dilema, pois, a democracia
brasileira não se completara sem a incorporação do
negro como cidadão presente em todas as esferas da
sociedade.
É
de se supor, portanto, que, este é o momento que se
viabiliza a primeira grande política social pós-abolição.
Todavia, esta estratégia claramente direcionada
para a população de descendente de africanos, encontra-se
divorciada de um forte projeto de ética anti-racista
e, conseqüentemente, de uma substantiva pedagogia
política.
A
despeito da forma silenciosa com que se realizam as
conquistas neste campo, a mencionada ausência começou
a ser corrigida com a publicação do livro de Michael
Hanchard, Orfeu
e o Poder, pela Editora UERJ, em julho de 2001.
Trata-se de uma importante ferramenta de trabalho
para enriquecer ainda mais o campo dos estudos sobre
o negro brasileiro e ampliar o horizonte conceitual
de tão intrincado problema, como é o racismo, e que
compromete a realização da democracia no plano do
cotidiano.
Originalmente
planejado como tese de doutoramento no Departamento
de Ciência Política da Universidade de Princeton,
em New Jersey nos Estados Unidos, o livro deste jovem
cientista político, agora traduzido para o nosso idioma,
preenche um vazio na área de política e ética do cotidiano.
Além de servir como um importante material
empírico e conceitual para que o militante, o estudioso
e o cidadão.
O livro de Hanchard equipa-nos para analisar
e criticar o papel das forças sociais na constituição
do campo político e do imaginário coletivo.
A pesquisa de Michael Hanchard, também provoca
inquietações que orientam a formulação das seguintes
perguntas: seria a luta antiracista no Brasil parte
de um processo mundial, panafricano, ou, seria apenas
a expressão de exclusão social? Como compreender o
naufrágio permanente de intelectuais e formadores
de opinião na retórica da excepcionalidade do racismo
brasileiro? Por que não existiu um movimento negro
sistemático no Brasil nos moldes do dos Estados Unidos,
quando a população brasileira é, oficialmente, composta
por 48% de negros, enquanto a população negra Americana
é, também oficialmente, de 13% da população total
dos Estados Unidos?
Face
a relevância desta pesquisa, me seria impossível resenhar
o livro citado sem considerar as implicações teóricas
e metodológicas ensejados pelo autor, em especial,
aquelas que promovem análises de processos de comunicação
e interação social cotidiana.
Se se considera que os media, hoje, complementam
as tarefas irradiadas pelo regime de hegemonia vigente,
mais que resenhar, torna-se necessário enunciar e
discutir o lugar desde onde o material lançado por
Hanchard é elaborado.
I
- Supremacia racial, negritude e democracia
O
livro de Hanchard é, sobretudo, uma análise das formas
possíveis de manifestação do poder, entendendo a supremacia
racial como uma destas formas. Daí que, desmontar
o processo de construção da supremacia política e
predominância econômica do grupo branco (conforme
enunciara Florestan Fernandes), de origem euro-brasileiro,
sobre a maioria da população negra, é o objetivo maior
da empresa de Michael Hanchard.
Para que tal empresa se efetive, criativamente,
aplica e desenvolve a teoria da hegemonia de Antonio
Gramsci, teórico conhecidíssimo do leitor brasileiro,
e que, há muitos anos, influencia, através de seus
escritos e ensaios, uma legião de pensadores e analistas
na Europa, Estados Unidos, México e América do Sul.
O aspecto inovador da teoria de Gramsci encontra-se
na sua ênfase aos aspectos originados no campo da
subjetividade (superestrutura) que, por ele é considerada
tão importante quanto os fatores objetivos ou infraestruturais
da organização da sociedade.
A
reflexão de Michael Hanchard toma o conceito de hegemonia
emprestado de Gramsci para demonstrar como certos
mecanismos exclusionários instituíram um regime de
hegemonia racial e, como tal regime se transformou
em eficiente instrumento de poder das elites no Brasil.
Diferentemente do que estamos assistindo recentemente,
nos anos setenta e oitenta, a luta pela construção
da democracia se aprofundava com a exponencialização
dos movimentos e entidades da sociedade civil.
Em belíssimas páginas escritas através das
mobilizações nas ruas, aquele período foi marcado
pela ofensiva de uma grande aliança política em direção
à uma democracia nacional. Michael Hanchard, em seu
trabalho, não somente testemunha o desenvolvimento
desta contribuição, advinda dos vários grupos sociais,
mas, sobretudo, insere o movimento negro nacional
no campo das lutas pelas liberdades democráticas,
fato que oferece originalidade ao seu trabalho como
acrescenta ainda maior significado àquela singular
ação social.
A
pesquisa de campo, conforme se apresenta, indica-nos
um pesquisador em contato com os mais variados grupos
de militância negra no Rio de Janeiro e São Paulo.
Sua participação se fez também presente na famosa
passeata dos 5000 cidadãos, negros em sua esmagadora
maioria, que, no Rio de Janeiro, em 1988, em frente
ao monumento de Duque de Caxias - patrono do Exército
Brasileiro - protestaram contra as atitudes daquele
“herói” imperial, como parte das manifestações do
Centenário da Abolição, nem tanto pelas atrocidades
nas guerras de expansão do império brasileiro, mas
sobretudo por se tratar de um escravocrata.
O “estar-lá” de Michael Hanchard, revela um
pesquisador-participante que compartilhava, com sua
disponibilidade o cotidiano da militância e negociava
a sua experiência afroamericana no plano internacional.
Este aspecto, em certo sentido, afirmara aquele
contexto da militância como um ambiente, tipicamente,
pan-afrodiaspórico.
E
não poderia ser de outro modo.
A vivência multiracial para este cientista
político, faz parte de sua prática social, ela mesma
compreendida como uma experiência sensorial, na qual
todos os órgãos se manifestam, em especial, a própria
pele. Por isso, “Orfeu e o Poder” é fruto de uma de
atividade que combina atitude emocional e intelectual,
e, deste modo, situando-se como uma contribuição acadêmica,
em posição pioneira e ameaçadora para alguns pesquisadores
brasileiros, especialmente, aqueles que insistem em
enunciar o negro a partir de um lugar outro, de onde
emanam as vibrações do imaginário colonial e o seu
corolário: a atitude colonizada, objetivada pelo terrritório
étnico-politico euro-ocidental.
Tais lugares são responsáveis por promover
o ainda prevalecente discurso da cordialidade dissimulativa
e conciliatória como primeira, absoluta e única analítica
para os estudos étnicos e raciais. Contra este provincianismo
colonial e eurocêntrico a análise política de Michael
Hanchard revela a possibilidade de se olhar para as
questões raciais como relevante parte do jogo de poder
na sociedade brasileira.
II
– Etnografia
como metodologia
Para
enunciar a supremacia do paradigma da cordialidade
dentro da academia, Hanchard usa-se dos resultados
apresentados em “Orfeu e Poder” para contrapor-se
àquele paradigma.
Neste caso, vale-se da etnografia, um tipo
de metodologia que traduz a vivência cotidiana e a
paixão do observador participante, combinadas com
o tempero de um vigoroso olhar crítico, realista e
analista. Derivada
da clássica ferramenta das chamadas ciências de campo
e da descrição, a etnografia consiste em viver a experiência
do campo intensamente, registrando em um caderno de
notas tudo o que se observa, conforme a tradição de
geólogos, zoólogos e biólogo.
A etnografia ganha fôlego com a antropologia,
e, em especial com Malinovski, na sua experiência
nas ilhas Trobriandesas, no Pacífico.
Mas, é só recentemente que, através dos estudos
culturais e da crítica pós-moderna, a etnografia adquiriu
protocolo de metodologia de trabalho em domínio publico,
e, desde os anos oitenta, tem sido largamente utilizada
por educadores, psicólogos, cientistas políticos,
sociólogos e assistentes sociais nos Estados Unidos
e em todo mundo.
Poderíamos traduzir etnografia como a prática
de convívio que subentende a prática do ouvir, de
ver e escrever o Outro, e que, de maneira bem dosada,
permite que ambas práticas se articulem em teoria
e critica, conforme nos define Roberto Cardoso de
Oliveira. Na
sua formatação contemporânea, denominada de pós-moderna,
a ação etnográfica está acrescida da revelação do
contexto psíquico-biográfico do pesquisador, isto
é, do lugar daquele que enuncia a pesquisa e seu confronto
com a experiência. É a partir desta intervenção que
Michael Hanchard desenvolve a sua reflexão e exercita
a sua sujeição ao objeto que decidira investigar,
para dele extrair vivência e experiência com grupos
de militantes negros ao participar de suas discussões,
seus congraçamentos, suas ações e as reflexões estratégicas.
Deste
modo, Michael Hanchard quebra o jejum das etnografias
de movimentos políticos
--até 1988, momento em que realizará o seu
trabalho, as experiências de mergulho etnográfico
restringiram-se em estudos de comunidades.
Em explícita coerência com o projeto de etnografia
pós-moderna (originalmente deflagrada nos Estados
Unidos, com o texto de Steven Tyler, no qual afirma
a importância do distanciamento sem ocultar que, o
distanciamento só se realiza se ele articula a distancia
cultural à consciência do lugar de quem escreve a
pesquisa), Hanchard formula uma crítica ao rigor científico
positivista em ciências humanas (apontando para a
noção de enunciação discursiva).
Assim, Michael Hanchard, aproveita a conexão
metodológica para demonstrar-nos com competência e
paixão que o sujeito da pesquisa não é neutro; que
ele é um cidadão dos Estados Unidos, que encarna uma
perspectiva política que é parte da visão pan-africana
do período pós-colonial e pós-moderno, cuja crença
maior localiza-se na universal experiência da diáspora
africana.
III
– A Obra
O
livro encontra-se dividido em duas partes, contendo
cada uma delas três capítulos.
A primeira parte é denominada de Hegemonia
Racial. Nela,
Hanchard discute logo no primeiro capítulo os conceitos,
as teorias e as metodologias em uso nos estudos raciais
de viés latino e anglo-americano. É neste capítulo
que o conceito e a discussão de hegemonia são introduzidos
em meio à própria narrativa da experiência das lutas
raciais no âmbito brasileiro.
No primeiro capítulo, toda a démarche da obra
é delineada, cujo principal esforço, portanto, é salientar
o jogo da inclusão dos territórios culturais e a exclusão
sócio-política no cenário nacional como sintomas de
um procedimento lusitano.
O
segundo capítulo apresenta uma panorâmica da política
racial contemporânea no Brasil e, tanto analisa diversos
trabalhos de brazilianistas (Wagley, Pierson, etc),
quanto o dos membros da Escola de Sociologia de São
Paulo, a primeira a reduzir a exclusão social aos
aspectos sócio-econômicos. O ponto alto do trabalho
pode ser localizado na interrogação política que Hanchard
formula, referente a alguns dos traços simbólicos
que cultura brasileira, tidos como essenciais como
a “tolerância” e a “cordialidade”.
É neste interregno que o autor revela, de maneira
crítica, o essencialismo presente nos argumentos dos
intelectuais tradicionais e das elites brasileiras,
qual seja, “a omissão da articulação entre o poder
e a cultura como elementos cruciais a dominação racial
relativamente tranqüila exercida pelas elites […]:
o poder e a cultura.” (58)
O
coração da pesquisa encontra-se no terceiro capitulo.
É o momento que o autor revela sua argúcia
argumentativa discutindo um dos mitos mais consistentes
do colonialismo luso-espanhol: o mito da flexibilidade
do colonizador, que não fora tão rigoroso quanto o
anglo-saxônico.
O mito, apesar de não possuir solidez, foi
inclusive, segundo o autor, absorvido pelos grandes
líderes negros americanos, na década de 40, em especial
Booker T. Washington e W.E.B. Dubois, o que colaborou
para a propagação do mito da democracia racial brasileira
nos Estados Unidos, a ponto de encontrar favorável
apoio nos discursos de racionalistas negros (que postulavam
radicalmente, a construção da nação negra Americana),
como Henry Mc Neal Turner e o jornalista Cyril Biggs,
os quais “defendiam a emigração para o Brasil como
refúgio da opressão em sua terra natal” (70)
A
investigação genealógica que Michael Hanchard empreende,
com respeito à constituição do mito, é rica de referências
para o leitor brasileiro, permitindo a organização
de rigorosos elementos para a desconstrução da mais
sólida e importante narrativa na mitologia social
do brasileiro. Michael Hanchard identifica Freyre
como o coroador da mitologia da democracia racial,
sua crítica, portanto, não deixará de atingi-lo.
É nesta cadeia de pensamento e na confluência
de fatos onde se dá o tom desta narrativa social que
a hegemonia, segundo Michael Hanchard, se arquiteta.
Assim hegemonia, é entendida como causalidade
histórica, como articulação e, não somente como evento
discursivo ou atitudinal.
A
segunda parte do livro examina as formas de identidade
que se constitui na negação destas mitologias raciais
e cognição social.
Por isso, esta segunda etapa do livro é denominada
‘Negação e Contestação’.
O quarto capítulo abre a segunda parte e investiga
a construção da consciência racial na população negra.
No quinto capítulo, “Movimento e Momentos”
a prática política e a cultural são analisadas na
sua intrinsecabilidade e, em decorrência, Michael
Hanchard extende a compreensão deste único processo
a partir dos vínculos da política afro-brasileira
e sua vanguarda política e cultural com os grupos
de esquerda e direita no Brasil. Aqui, novamente,
um outro aspecto pioneiro da pesquisa de Michael Hanchard
se revela. Ao
abordar um tema até então considerado relevante somente
no interior do Movimento Negro, ou em pequenos trabalhos
que descrevem a atuação dos grupos de ação (conforme
Boris Fausto o fez, na sua obra “Republica Velha”,
ao reunir documentos e comentar a criação da FNB em
1930), Michael Hanchard integra as diferentes falas
sobre a ação política do movimento negro nacional,
em uma narrativa que nos revela a intrincada teia
do movimento social pós-45.
Deste modo, apresenta-nos um Movimento Negro
consciente da problemática política e racial em sua
articulação com os grupos da guerrilha urbana, fascistas,
marxista e a IV Internacional.
Incluindo, ainda, a ação política do grupos
culturais da imprensa negra e a formação do Movimento
Negro Unificado (MNU).
O
sexto capítulo toma o Centenário da Abolição da Escravidão
no Brasil, em 1988, como um corte marcante na história
do MNU. Neste
último capitulo, Michael Hanchard revisita “as
relações de poder entre as elites brancas brasileiras
e os ativistas afro-brasileiros”, manifestadas na
interface do Estado com a sociedade civil, nas interpretações
da raça e do Estado e nas lutas internas do próprio
movimento Negro, em torno das discussões sobre o significado
das comemorações do centenário da Abolição.
IV-
O corpo como território de conhecimento e experiência.
Para
a maioria dos pesquisadores das relações raciais no
Brasil, o fenômeno de cognição social como, por exemplo,
o da exclusão é conhecido em sua exterioridade e,
conseqüentemente, a formulação da relevância do fenômeno
se opera de maneira parcial, e não integral.
Dito deste modo, a experimentação interior
do fenômeno da exclusão de um
outro, para a qual o sentimento e a percepção
atuariam como dispositivos e componentes cognitivos
no processo de construção de um conhecimento da alteridade,
não são considerados evidências do processos de interação
social. De
uma maneira geral, portanto, os relatos de vários
pesquisadores tem revelado, sobretudo, a racionalidade
instrumental dos argumentos em sua exterioridade,
isto é, dos processos comunicativos (rituais e dramas)
sob o ponto de vista do observador.
Para estes pesquisadores, a intelecção emocional
e reflexiva da experiência do eu-próprio se torna
algo extemporâneo.
Ao
pisar em terreno absolutamente conhecido pelo negro
brasileiro, a partir de sua singular experiência,
aspecto completamente exterior ao discurso regular
acadêmico, o trabalho de Hanchard põem de cabeça para
baixo este aspecto da exterioridade.
Deste modo, ele mostra que o problema da cor
da pele (esquecido, por conseguinte, como um problema
corpóreo na sua nervura com o real) é importante como
condição experiencial, ao permitir que o corpo do
observador revele, na qualidade de um caderno-de-campo,
um relato por intermédio da narrativa sensorial, das
experiências ainda não experienciadas. É sob esta
orientação, que o professor Hanchard descreve a sua
experiência no espaço-público afro-brasileiro, conforme
sua apresentação no primeiro capítulo de “Orfeu e
o Poder”. É
quando do encontro do ‘senso comum’ com a experiência
cotidiana do negro brasileiro, que o autor prontamente
identifica o “mal-estar” da condição de ser negro
no Brasil, e transforma esta vivência na vertigem
que o conduz a um ato de epifania, conforme ele próprio
afirmou para este que lhes escreve, em uma conversa
informal, no primeiro semestre de 2001, em Chicago:
- “Naquele momento”, disse-me Hanchard, “por meio
de um ato gestáltico, que se manifestou no meu corpo
e fez doer a minha alma, eu entendi como se processa
o racismo no Brasil e como deve se sentir o negro
no Brasil”.
Refiro-me, neste específico caso, àquela passagem
ungida de revelação e descrita logo na introdução
do livro, quando Michael Hanchard entra em uma drogaria
no bairro do Flamengo, como um ordinário consumidor
negro. Naquele
exato momento, Michael Hanchard ingressava na dialética
do público e do privado no cotidiano do negro brasileiro.
O
evento ocorrera no momento em que Michael Hanchard
concluía suas compras e preparava-se para deixar a
farmácia, quando percebeu uma estranha movimentação
de funcionários ao seu redor, enquanto, dois deles
se dirigiam até a porta de saída.
Aquela situação, por parecer-lhe estranha,
provocou-lhe um estado de alerta total.
Alguma coisa chamou a atenção da consciência-inconsciente
(ou, dito de outro modo, da consciência implícita),
em sua memória instalada pela história das lutas pelos
direitos civis nos Estados Unidos. Sem compreender
claramente o que ocorria, Michael Hanchard percebeu
que os funcionários estavam prontos para investigá-lo,
como se ele fosse um suspeito ou criminoso potencial.
Por fim, os vendedores refrescam a atitude de vigília
e, também, o quase-cerco para ele montado, quando
se dão conta de que Michael Hanchard não era brasileiro.
A
natureza molecular desta experiência, isto é, a sua
dimensão singular, microfísica, desinibiu a memória
emocional de Hanchard, que, sendo assim, converteu-se
em instrumento de uma identidade molar, diaspórica,
e por isso mesmo motivara a comparação.
Ao deixar a farmácia, o contra-senso daquela
atitude tornou-se, imediatamente, em absurdo para
quem se educou como originário e participante de uma
cultura cotidiana onde, o orgulho da condição de negro
é celebrado como parte da cidadania. Michael Hanchard,
quase tendo sido submetido à humilhação de ser revistado
ao sair da farmácia (situação
que, em pleno ano de 2002, ainda é parte da
rotina de muitas donas de casa e pessoas que aparentam
serem humildes, mestiças, mulatas ou negras) foi salvo
pelo sotaque, no momento em que o gerente do estabelecimento
percebera que se tratava de um ‘gringo’.
V-
Universalidade e Singularidade
Mais
uma vez, lamentavelmente, foi necessária a intervenção
de um negro norte-americano para que nós, afrodescendentes
brasileiros, pudéssemos rever a nossa própria rotina,
estrondosamente banalizada pela violência física,
simbólica e não-verbal do racismo cordial.
Grosso modo, a experiência de Hanchard na farmácia,
assemelha-se àquela de Katherine Durhan, dançarina
e antropóloga americana que observara os movimentos
dos corpos de martiniquenhos e haitianos, e, que,
sob orientação de Melville Herskovits, o dileto aluno
de Franz Boas (o fundador da antropologia americana),
inaugurava a antropologia da dança.
Durhan, quando em tournée pelo Brasil, em 1951,
experimentara a fenomenologia da exclusão, ao lhe
recusarem hospedagem em um hotel em São Paulo, pois,
conforme lhe alegara o porteiro, a entrada de negros
estava proibida naquele recinto. Ao gozar do privilégio
de sua condição de estrangeiro, isto é, ‘negro’ não-brasileiro,
Michael Hanchard foi absolvido da sua potencial culpa
naturalmente evocada pela sua fachada, que como nos
ensinou o micro-sociológo Erving Goffman, ela se manifesta
como aparência (cor-da-pele) e modo-de-ser (maneiras
de gringo-negro).
Diante de semelhante discriminação, a reação
de Katherine foi imediata: denunciou publicamente
o racismo brasileiro de 1951, no que redundou, posteriormente,
na promulgação da Lei Afonso Arinos para punir atos
de racismo, decorrente da discriminação social em
hotéis. Pura atitude para inglês ver. A reação de
Michael Hanchard foi mediata: etnografou o fato
e transformou o evento em uma reflexão de si-mesmo
no mundo das exceções, o carro chefe de seu projeto
analítico sobre as práticas da hegemonia racial e
a supremacia branca na construção do Brasil.
Assim,
pela segunda vez, nos últimos 50 anos, um negro americano
colabora com sua denuncia na conscientização da necessária
democratização das relações raciais no Brasil.
Como contrafato, ativa um pensamento (que significa
menos a confirmação) de um certo imperialismo negro-norte
americano, conforme nas análises das relações raciais
no Brasil e fruto de um pernicioso vício: o anti-americanismo,
engendrado pelas próprias elites aristocráticas e
oligárquicas.
Ora, os que insistem em apontar tal situação,
como o fez Pierre Bourdieu e Louis Waquant em seu
ensaio crítico à Michael Hanchard, deveriam sobretudo
assumir o despreparo para compreender de maneira extensiva
e gramatical, a dimensão global das experiências raciais
e, conseqüente, a força autopoética do jogo racial
da diáspora africana.
São os “sábios” da exterioridade comunicativa
do fenômeno racial que desfocam a pragmática corporal
da interioridade.
Caberia
uma pergunta: Por que estrangeiros negros e não-brancos
no cenário da formação racial brasileira, percebem
mais facilmente os atos de racismo? Por que suas denuncias
provocam avanços na consciência racial?
Parece-nos que podemos introduzir duas assertivas:
a primeira, é preciso que se reconheça, definitivamente,
a existência de uma dimensão global da luta racial,
que percorre todo o século XX e, cuja manifestação,
sempre esteve presente entre os militantes brasileiros
desde André Rebouças, no século XIX, passando por
Correia Leite, Abdias do Nascimento no século XX,
até os mais contemporaneous rappers e DJs.
Iludem-se aqueles que pensam o movimento negro no
Brasil como um fato recente, estanque e isolado.
Pelo contrário, a experiência política dos
afro-brasileiros percorre todo o século XX com profunda
e singular estratégia. Daí, a importância do prognóstico
de DuBois, sociólogo negro americano e principal elaborador
de uma teoria crítica das relações raciais, ao anunciar,
logo no despertar do século XX, que uma linha racial
demarcaria a construção das experiências democráticas
de todos os países ocidentais. Também, Jacques Lacan,
o prestigiado psicanalista e filósofo francês, não
deixou de se referir ao problema racial, para quem
o futuro do mundo é o racismo.
Fato que, não de outro modo, confirmou ser
o problema racial o principal problema do século XX,
e, comprovadamente, se torna o maior desafio para
a paz mundial neste limiar do século XXI.
VI
- Para concluir:
Michael
Hanchard, reforça pioneiramente o lugar e a história
dos movimentos de negros na luta democrática do Brasil,
desmascara a estagnação das discussões sobre relações
raciais, e, aponta para a conseqüente naturalização
essencialista destas relações.
E, assim agindo, Hanchard revela a engrenagem
da hegemonia racial e suas reificações das hierarquias
e das linguagens. Amplia-se o entendimento da perversidade
provocada pela exclusão da maioria da população como
elementos do jogo de poder.
Uma
lacuna, entretanto, pode ser identificada neste trabalho
e, diz respeito ao caminho que ele adota para se referir
à inoperância das práticas culturais dos movimentos
negros. Parece-nos, que, nesta matéria não existe
uma apresentação bem equacionada no quadro teórico
que Michael Hanchard desenvolve. A sua análise colapsa
no interior da crítica do grupo militante que, no
momento da pesquisa, década de 80, mantinha um ataque
cerrado àqueles que militavam, exclusivamente, no
campo da cultura e que tratavam a cultura como fronteira
política. Michael Hanchard trabalha com o argumento
da militância, e, por extensão, permanece na esfera
da crítica sem que se verifique os efeitos de positividade
daquela prática, a partir dos argumentos oferecidos
pelos que se situam na esfera das práticas culturais
ou, conforme denominação corrente, “culturalistas”.
Aqui se incluiriam os religiosos, artistas populares,
músicos, dançarinos e todos os que investiam na prática
de performances como práticas de intervenção.
Para que o quadro ganhasse em complexidade,
o nosso querido amigo e irmão da diáspora, poderia
ter revelado a materialidade da fala ‘culturalista’,
e, a partir dela mesma, verificado o significado do
culturalismo como proposição, identificando e explorando
os efeitos políticos dos discursos culturalistas.
Se,
Michael Hanchard tivesse revelado apenas frestas deste
lado “oculto” e enigmático da prática racial brasileira
e procurado compreender como a sua singularidade e
projetos foram elaborados, certamente, novos elementos
teriam emergido para que compreendêssemos, mais amiúde,
a hoje chamada “revolução silenciosa”, promovida pela
multidão de jovens rappers, que, com absoluta
autonomia da máquina midiática oficial, vendem até
500 mil cópias de CD, como no caso dos Racionais MCs.
Podería ter nos ajudado a compreender, um pouco
melhor, a força política da música negra, que, ultimamente,
a todos surpreende, bem como as novas formas de militância
e protesto que se desenvolveram ao largo dos artistas
e dos intelectuais tradicionais e, sobretudo, não
nos surpreenderíamos com a prática dos chamados culturalistas
que hoje, não somente criam um partido político, mas
sobretudo, elaboram e comandam novas formas de empreendimentos,
negócios e carreiras profissionais, contribuindo com
a independência econômica e com a constituição de
novas formas de perceber a condição do negro no Brasil.
Devemos
fazer justiça a dois significativos aspectos que podem
ser extraídos do livro “Orfeu e o Poder”.
Primeiro, e sobretudo, trata-se do primeiro
trabalho que, definitivamente, assegura um duplo engajamento
do negro brasileiro: primeiro, na história da democracia
no Brasil; segundo, na luta pela globalização da consciência
da diáspora africana.
Fato relevante, em especial, depois do jejum
internacional que a luta anti-racista vive desde quando
da existência do movimento da negritude e do pan-africanismo
nos anos 50 e 60 respectivamente. Em seu trabalho,
Michael Hanchard apresenta um elevado entendimento
e estima pelas diferenças e semelhanças que a condição
gerada pela consciência de ser negro na diáspora apresenta
e, em especial, pelos aspectos relativos aos processos
de articulação, fricção e mudança nas relações raciais
no Brasil.
O
segundo aspecto que devemos fazer justiça, diz respeito
a atitude de Hanchard ao se tornar testemunha ocular
de um dos momentos de significativas mudanças, que
somente agora começam a ser pontuadas no Brasil. Trata-se
de uma abordagem dialógica que estabelece um sólido
casamento entre a exterioridade e a interioridade
do movimento, além de reforçar um ponto de vista que
introduz a idéia de formação racial no território
brasileiro. Portanto, um olhar que captura com a mente
e o corpo a experiência política do negro brasileiro,
a partir de sua presença em duas cidades: São Paulo
e Rio de Janeiro.
Ao
postular sua tese da hegemonia racial e valorizar
o movimento Negro como componente da luta pela democracia,
Michael Hanchard oferece aos estudiosos da cultura
negra, das relações raciais e aos militantes dos movimentos
negros no Brasil, consistentes elementos para valorizar,
confirmar e aprofundar os referidos projetos de pesquisa
e poder. Transforma um movimento étnico em instrumento
de mediação política e permite que nós, pesquisadores
dos processos e fenômenos da comunicação, pensemos
os movimentos culturais como comunidades comunicativas,
conforme sugerira Niklas Luhmann.
Decerto,
inúmeros pesquisadores brasileiros, brazilianistas
e da militância dos movimentos negros no Brasil, aplaudirão
este livro, fruto de exaustiva pesquisa de campo e
inventário de acontecimentos do movimento negro durante
o período de 1945 a 1988. Apropriadamente, poderíamos
denominar “Orfeu e o Poder” de história do presente,
conforme o próprio autor o fez, pela relevante colaboração
em promover o entendimento do processo de formação
e dinâmica das relações raciais, nesta nova conjuntura
da formação racial no Brasil.
Trata-se,
sem dúvida, de uma vigorosa intervenção acadêmica
e preciosa colaboração política que, sobretudo, se
distingue por apontar uma nova possibilidade de leitura
dos movimentos negros e das relações raciais no Brasil.
Uma outra leitura, realista e com atitude (para usar
uma noção em voga entre os jovens rappers)
onde o interioridade e exterioridade se complementam
na constituição das evidências, e, principalmente,
para além daquele olhar, digamos assim…, “cordial”,
dissimulado e cognitivamente colonialista, ainda o
paradigma hegemônico nos estudos das relações raciais.