Há
livros que precisam ser escritos e ainda bem que encontram
pessoas capazes de cumprir esse desígnio. É certo
que existem outras maneiras de transmissão do legado
das velhas gerações: o cinema é, indubitavelmente,
uma delas. Porém, nada substitui um livro bem escrito
e bem cuidado. Se as imagens nos encantam, os livros
dão asas e alimentam a imaginação.
Por outro lado, é impossível não
se deixar envolver diante da mágica das imagens, da
criatividade do cineasta, do desempenho do ator e
da atriz, das emoções transmitidas num olhar, numa
fala e num gesto. Livros e filmes transmitem mensagens
que decodificamos à nossa maneira. São artes que não
se excluem, antes, se complementam. Mas têm as suas
especificidades. É ilusório imaginar que o filme substitui
o livro: a arte cinematográfica obedece a uma dinâmica
diferenciada que exige adaptações (as quais levam
em conta a interpretação do diretor, os interesses
comerciais etc.).
Há livros e livros, filmes e filmes...
Existem filmes para todos os gostos, e livros também...
O importante é que cumprem uma função social. Não,
não é nosso intuito escrever um ensaio sociológico
sobre a função social dos tipos literatura ou da cinematografia.
Não obstante, há livros cuja função é precisamente
resgatar o passado, libertar os indivíduos e a sua
obra do ostracismo, salvá-los do esquecimento.
Esse é o caso de O Artista do
Povo: Mazzaropi e Jeca Tatu no cinema do Brasil,
de Eva Paulino Bueno. Como assinala a autora, Mazzaropi
foi um autodidata: não tinha educação formal. Seu
conhecimento se fundamentava na experiência de vida,
em viagens e atividades que desenvolveu no circo,
no rádio e no cinema. Como artista circense, percorreu
vários lugares pelo Brasil, aprendeu com os mais diversos
tipos humanos que, depois, representaria em seus filmes.
O criador de Jeca Tatu expressa a linguagem deles.
Mazzaropi reproduz em seus filmes
um período histórico no qual o Brasil rural começava
a dar lugar ao Brasil urbano. Foi uma fase de explosão
da migração de um enorme contingente de brasileiros
que, com o intuito de se livrar das secas freqüentes
e de outras calamidades, se dirigiam aos grandes centros.
Esses brasileiros, comparados aos que viviam nas cidades
do Brasil moderno que surgia, pareciam vir de outro
mundo e tinham a esperança de melhorar a vida.
Essa nova realidade social produz
conflitos de identidade. “O que Mazzaropi insistentemente
explora em seus filmes é o choque do reconhecimento
e a sensação de estranhamento, elementos simultâneos
que tais brasileiros deslocados percebem quando se
confrontam com “outros brasileiros” semelhantes e
diferentes ao mesmo tempo”, ressalta a autora. (BUENO,
1999: 16)
Os filmes de Mazzaropi identificam-se
com esse povo simples; e esse se identifica com os
personagens que vê nas telas. Sua platéia é, em geral,
excluída do ambiente universitário, carente em sua
formação educacional formal; são pessoas para as quais
as imagens são muitas vezes a única possibilidade
de acesso às informações.
Os filmes de Mazzaropi pertencem
ao âmbito da cultura popular, se diferenciando do
estilo vanguardista do Cinema Novo, cuja elaboração
se funda numa leitura do Brasil e do seu povo destinada
às camadas médias urbanas e intelectualizadas. Enquanto
o Cinema Novo desenvolve um estilo sério, com
o objetivo de provocar a reflexão sobre a realidade
brasileira, Mazzaropi trata temas sérios numa perspectiva
cômica.
O público dos filmes de Mazzaropi
concentrava-se nas periferias das grandes cidades
e também em cinemas situados nas regiões mais remotas
do país. Era um público fiel, que esperava anualmente
a estréia dos novos filmes de Mazzaropi. Para muitos
era a única época em que se davam ao luxo de freqüentar
o cinema.
O Cinema Novo obteve reconhecimento
internacional, Mazzaropi não. Os críticos de cinema,
em geral, não lhe deram o devido valor e ignoraram
sua obra. Mazzaropi se orgulhava de não necessitar
de financiamento estatal para fazer seus filmes: sua
platéia garantiu as condições para a sua produção.
Ele fazia filmes para as grandes massas.
No primeiro capítulo a autora analisa
essas questões e o significado da obra de Mazzaropi
enquanto expressão da cultura popular, contraposta
à cultura elitista. Em cada capítulo, a autora pega
o leitor pela mão e explica os caminhos que percorrerá.
Num estilo simples e agradável, ela nos introduz no
mundo de Mazzaropi, um mundo que representa a realidade
vivida por nossos pais, avós e muitos de nós.
No segundo capítulo, Eva Bueno estuda
o universo dos primeiros filmes de Mazzaropi, nos
quais ele trabalha como autor, com direção e produção
de diversas pessoas. Os temas tratados nesse período
dizem respeito às exigências burocráticas para ser
reconhecido como cidadão; à brasilidade versus estrangeiro;
à lei enquanto fator de dominação etc. “Os primeiros
filmes de Mazzaropi contam a história difícil e complexa
do homem comum que tenta enfrentar as mudanças que
não sabe, os desejos que não compreende, as diferenças
que não pode penetrar. Contudo, os filmes insistem
que ele pode sair vitorioso” (Id.: 69)
Os fatores referentes à formação
da identidade do Brasil (língua, raça e origens) são
tratados nos filmes de Mazzaropi. Ela observa que
o conceito de raça té fluído e que,
“na maioria das vezes, nenhuma categoria racial é
suficientemente estável para ter qualquer unidade”.
(Id.: 78) Já a linguagem, expressa a linguagem do
poder, do homem branco. Esses temas são discutidos
no terceiro capítulo.
Em seguida, a autora analisa como
a história (ou as suas interpretações) é incorporada
nos filmes de Mazzaropi. Ela nota que o cineasta não
produz documentários sobre o Brasil; mas seus filmes
expressam uma maneira de ver e explicar o país, seu
povo e sua história. Em suas palavras: