O
festival de palestras que ainda vem acontecendo no Brasil,
atraindo muita gente aos auditórios e anfiteatros, principalmente
nas cidades de médio porte, no momento, parece entrar em
fase de esgotamento.
Alguns palestrantes são contratados
a peso de ouro como gurus da "auto-ajuda"; tem
o poder pessoal ou conhecimentos que despertam a “auto-estima"
de empresários a professores desmotivados, sofrendo com
a falta de perspectiva encontrem sua bússola perdida, para
reorientar sua vida com mais otimismo, geralmente de modo
individual e empreendedorista.
O governo defunto de FHC colaborou
indiretamente com o abuso dessa metodologia de ensino. Afinal,
era a perspectiva neoliberal tocada pelo discurso valorizador
do “capital” conhecimento e informação, digamos, pretensamente
apolinista. O novo governo, petista, injetou otimismo e levantou o
moral de todos com uma nova perspetiva de filosofia política,
principalmente nos setores que mais precisavam de palestras
como meio mágico de cura. Mesmo assim, devem surgir novos
nomes de palestrantes melhor sintonizados com os novos ventos,
embalados pelo atual momento político dionisíaco. Os novos palestrantes provavelmente abandonarão as fórmulas
mágicas da "qualidade total" cujo foco era primeiramente
o "resultado", para uma preocupação mais social,
humanista, talvez messiânicos, passionais, porém ainda não
desligados do especialismo acadêmico.
No campo da educação, o reconhecimento
de que era necessário um oferecimento sistemático de "formação
continuada" dos professores, ainda vem levando secretarias
de educação ou escolas públicas com iniciativa própria e,
principalmente as particulares, a promoverem algumas palestras
de "emergência" ou pseudo-seminários distribuídos
em "semanas" de Educação, de Pedagogia, de Psicologia,
de Administração, de Economia, etc. Parece que o campo da
educação bate o recorde com esse tipo de evento, na maioria
das vezes organizados sem se saber com profundidade o porquê
de tal evento, com temas fora do interesse da audiência,
mas certamente segundo os interesses de quem está no poder
de decisão. Até os chamados "cursos de especialização",
fornecidos pelas universidades particulares, foram -e ainda
são- ministrados segundo os "critérios de mercado ou
demanda", geralmente conduzidos no estilo de "palestras-shows",
desenvolvidas por nomes expressivos do meio profissional.
Alguns viraram estrelas de tão famosos que se tornaram com
suas palestras “estilizadas”, acostumaram-se a viajar de
avião, a dormir em bons hotéis, como se fossem artistas.
Não raro esses palestrantes estrelas causam ciúme e inveja
nos seus pares, acirrando os mecanismos de defesa do ego,
bem descritos por Anna Freud. Freqüentemente o professor
preterido destila o seu veneno com um colega de sucesso,
dizendo "... sua palestra é cheia de lugares comuns",
ou "é bom artista, mas não é bom professor", etc.
Como acontecem as palestras?
O clima das palestras geralmente
lembra um culto-show religioso neopentecostal. Costuma se
dizer meio de brincadeira ser uma "palestra-show",
visto que, tudo depende da performance de ator do palestrante
e do cenário escolhido para a palestra. Enquanto a palestra
tende a ser mais informal, dinâmica e fácil de ser acompanhada,
uma conferência tende a ser enfadonha se o conferencista,
o expert, seguir o ritual de ler ou "conferir"
o texto que trouxe de casa. Alguns criticam a técnica da
palestra segundo o argumento que esta se preocupa mais em
"inculcar" certas crenças ou idéias pasteurizadas
(ideologia), por exemplo, despertar a motivação e a auto-estima
canalizadas para o empreendedorismo, a qualidade total,
etc, do que propriamente levar a platéia a pensar, a refletir
ou questionar uma determinada problemática. A maioria dos
palestrantes da era FHC foram selecionados e contratados
para "injetar" otimismo nos profissionais vistos
como desanimados, sem confiança na sua bússola existencial
e profissional.
Observa-se facilmente um público
heterogêneo muito mais interessado na "estrela"
que fará a palestra-show e sua performance, do que propriamente
na profundidade do assunto a ser desenvolvido. Já me dei
ao trabalho de observar que muitas pessoas saem do encontro
sem ter gravado o título da palestra. Há mesmo os que lá
vão mais interessados na oportunidade de verem e pedirem
um autógrafo do profissional que é visto na televisão ou
escreveu um livro ora sendo divulgado ou já conhecido, que
em geral ele não leu. O
jornalista Victor Gentilli escreveu: "palestras são
monólogos em que os palestrantes, embora profissionais,
portam-se como celebridades".
Hoje existem grandes celebridades,
como o ex-presidente dos EUA, Bill Clinton - talvez o mais
caro palestrante do momento. O nosso ex-presidente Fernando
Henrique Cardoso parece inclinado a seguir esse mesmo caminho.
Mas, existem palestrantes pouco conhecidos; por exemplo,
ao publicar um livro de auto-ajuda, recebem orientação do marketing da editora para dar palestras, quase
de graça, com a meta de fazer subir as vendas de seu livro.
Atualmente, o escritor Michel Moore é um famoso palestrante,
nos EUA, divulgando suas idéias e críticas ao sistema econômico
norte americano. No Rio de Janeiro, um camelô de estilo
carismático vem despertando o interesse de empresas que
fazem concorrência para ouvi-lo. Disse no Jô Soares, ganhar
muito mais fazendo palestras do que vendendo bugigangas
em sua barraquinha.
Os limites da técnica e do estilo
Assim como o ator deve saber se relacionar
com os expectadores, também o professor deve saber lidar
com as diferenças individuais e das turmas durante todo
o curso ministrado por ele, porém o palestrante dispõe somente
de um único encontro para criar laço efetivo (transferência)
e transmitir suas idéias ao auditório
Palestras podem ser ótimas, o palestrante
pode ser muito carismático, competente nas frases de efeito
e nos movimentos pseudoteatrais, mas jamais substitui as
aulas de um curso ou uma orientação face-a-face. Tal como
uma aula, também a palestra é um discurso situado no “lugar
de mestre” (Lacan), ambas tendem a repetição de lugares
comuns usados para outros encontros; talvez a palestra marque
melhor esse "lugar de mestre", lacaniano, na medida
em que visa vender as idéias previamente tomadas como “certas”.
Muitos palestrantes têm um discurso dogmático, quase religioso.
Contudo, se o palestrante for consciente do limite ou ética
de sua função, evitará reduzir o discurso "teórico"
ou "técnico" em um discurso moral, visando dirigir
comportamentos. Dito de outro modo, em vez de se posicionar
no lugar epistemológico, de dúvida metódica ou teórica,
convidando todos a problematizar as coisas, pode ser tentado
em apresentar soluções ideologicamente prontas. Esse problema
é sentido especialmente nos cursos pertencentes as Ciências
Humanas, geralmente impregnadas mais de moral (ou ideologia)
do que de cientificidade.
Como sabemos, os cursos prometem
determinado caminho de formação que fundamentalmente é composto
por aulas que envolvem a fala
conteudista do professor e a escuta
interessada dos alunos, formando uma conversação
- quase um "diálogo"-, causando reflexão, troca
de opiniões, a produção de idéias e a sistematização de
conhecimentos pelo aluno. O professor com sabedoria espera
que alguns de seus alunos irão superá-lo, tanto no conteúdo
como na técnica e no estilo. Já o professor-pesquisador
[1]
ou expert
sente-se despreparado com a realidade do ensino, fundada
no corpo a corpo das relações pessoais entre professor e
aluno. Situada melhor na dimensão do “conhecimento especializado”,
do “expert”, as palestras são monólogos descompromissados,
os cursos (ou percursos) não oferecem continuidade, nem
compromisso de retorno dos ouvintes, nem avaliação alguma
quanto ao que foi exposto. Sendo assim, podemos dizer que
as palestras constituem já um estilo que caminha fora do
canonismo universitário
[2]
.
Não pretendemos nesse artigo criticar
o uso de palestras, afinal, por experiência própria sabemos
que elas servem para algum setor do desenvolvimento da aprendizagem
de conhecimentos e assimilação de informações, porém temos
dúvidas quanto a ser principal técnica de boa e ampla formação
ou de aperfeiçoamento de profissionais para além da técnica.
Enquanto técnica e linguagem, a palestra parece sintonizada
com o estetismo, o espetáculo das palavras e dos movimentos,
o pragmatismo, a rapidez, a crença do preenchimento dos
vazios não preenchidos pela sociedade de consumo, próprios
de nossa época.
Existem palestrantes que acreditam que seu estilo
de palestra funcione como uma técnica de cura das aflições
humanas. Acreditam ser a palestra mais uma forma de terapia,
porém barato, de efeito rápido e divertido. Boa parcela
dos freqüentadores das “palestras de ajuda” demanda exatamente
isso: "auto-ajuda", palavras "amigas",
expectativa de abertura de horizontes, alimento laico para
o espírito combalido, e, ao mesmo tempo, ser um encontro
para ver e ouvir.
O uso abusivo das palestras é sustentado na crença
de que o conhecimento deve ser tratado segundo o modelo
empresarial, organizado racionalmente visando a objetividade,
mas que, para criar efeito nos ouvintes, precisa de um tom
passional, quase místico. Também a tradição escolástica
[3]
, ainda tão presente nas aulas das universidades,
negando os novos recursos didáticos e tecnológicos, vem
sendo questionada como método e estilo eficaz de ensino.
Ora, a técnica moderna de palestras ensina aos professores
que uma aula deve ser desenvolvida com paixão, entusiasmo
e leveza. Elas têm a função de ser um "despertar"
dos ouvintes para uma problemática, algumas idéias, ou o
aprofundamento de alguma temática, porém de modo sintético.
A palestra não é análise, mas somente síntese. As aulas
e seminários cumprem a função metodológica de fazer análise,
de aprofundar e extrair novas perspectivas de estudo, de
incentivar e traçar metodologias para pesquisas e ações.
Começa a aparecer uma nova geração de palestrantes "chapa branca petista"
vem "substituindo" a anterior, marcadamente de
ideologia neoliberal, que fazia elogios a globalização,
as privatizações, a qualidade total nas empresas e até escolas
e universidades, etc. Mas, como todo governo – mesmo de
esquerda - gera dissidências ou oposições de diversos matizes,
vemos surgir no grupo petista, os "radicais",
caminhantes na linha contrária ao governo Lula.
Enfim, palestras, aulas, conferências,
seminários, dinâmicas de grupo, debates, são métodos não
neutros que despertam, informam, formam, mas também podem
deformar o processo de ensino-aprendizagem. Há que se ter
bom senso e discernimento para saber escolher entre palestras,
aulas, conferências, seminários, dinâmicas, etc., pois cada
técnica deve ser mais ou menos apropriada para determinados
conteúdos, momento e estilo pessoal de quem vai ministrar
o assunto.