Terminaram recentemente dois eventos
marcantes de nossa época: o Fórum Social Mundial realizado
em Porto Alegre, Rio Grande do Sul com a participação
estimada de 100 mil pessoas vindas de mais de cem
países e, no outro lado do oceano, o Fórum Econômico
Mundial realizado em Davos, Suíça com a participação
rotineira de centenas de executivos de grandes empresas
e conglomerados, acadêmicos e políticos. Tanto um
quanto o outro tiveram em sua pauta de discussões
os problemas e desafios das sociedades contemporâneas,
e do sistema global tratados em conferências, seminários
e centenas de oficinas.
O clima dos debates não podia ser mais
diferente e significativo: sombrio, frio e deprimente,
devido ao inverno rigoroso, o aparato de segurança
e a conjuntura internacional, em Davos e alegria,
espontaneidade e entusiasmo, devido a presença de
dezenas de milhares de jovens, em Porto Alegre. Mas,
feita essa ressalva quanto ao ambiente fisco e emocional,
é licito indagar sobre o que mudou substantivamente,
este ano?
Criado
em oposição ao discurso do Fórum Econômico Mundial,
o Fórum Social Mundial afirmou nos dois encontros
anteriores sua visão e aspiração para uma mudança
do paradigma dominante, proclamando “um outro mundo
é possível”!
A
oposição aparentemente irredutível entre os dois discursos
e as propostas políticas decorrentes teria sumido
com a ida do presidente brasileiro, Luis Inácio Lula
da Silva, a Davos, após dirigir-se aos participantes
do FSM em Porto Alegre? Seria este o sinal do início
da “moratória da utopia” e o retorno aos objetivos
do politicamente “possível” da era de FHC? Ou, estaria
na hora de reafirmar os pontos básicos de um programa
de transformação social, econômica, política e cultural,
capaz de mobilizar e motivar as populações para que
entrem no processo histórico e participem ativamente
nas decisões sobre guerra ou paz, autoritarismo ou
democracia, assistencialismo paternalista ou uma verdadeira
política de bem estar social?
A
ida de Lula a Davos, enquanto parece insinuar a possível
convergência ideológica e prática entre os dois campos,
projeta uma luz sobre a ambivalência da situação interna
do Brasil, prensado pelos credores e instituições
financeiras multilaterais por um lado, e as esperanças
e expectativas da imensa maioria do povo brasileiro
por outro. A mesma dicotomia se revela em nível internacional,
entre os protagonistas do conflito capaz de nos arrastar
para a barbárie e as forças da paz e da justiça social
universal.
Não
podemos, nem devemos desarmar e recusar do desafio
histórico. Este texto procura contribuir para o debate
sobre o alcance e os limites na busca de caminhos
alternativos de desenvolvimento da humanidade.
Lições
do “curto” século XX
O mundo está em crise, à beira de uma
conflagração bélica de conseqüências dificilmente
previsíveis. A invasão do Iraque, tal como a guerra
do Afeganistão, deixará, em sua trilha, dezenas de
milhares de mortos e mutilados e um número incalculável
de vítimas em potencial de minas terrestres espalhadas
por um imenso território cuja infraestrutura foi (no
Afeganistão) e será (no Iraque) totalmente destruída.
Apesar da rejeição e resistência das
populações e da tímida e contraditória atitude de
recusa de apoio por parte da maioria dos governos
representados nas Nações Unidas, o governo dos Estados
Unidos continua, tal como um Juggernouth, a concentrar
tropas, equipamentos e material bélico, supostamente
convencional, para apagar do mapa o Iraque, onde será
instalado depois um regime “democrático” (seria do
tipo dos emirados do Golfo ou da Arábia Saudita?).
Apesar das manifestações em massa contra
a guerra iminente nas principais capitais do mundo
ocidental, os protestos estão longe de mobilizar a
maioria das populações que permanece passiva e silenciosa.
Para deter a ameaça da guerra seria preciso um movimento
global, com ramificações em todos os países, pressionando
os governos a distanciarem-se de Washington, isolando
sua iniciativa bélica. A repercussão será também interna
aos EUA, detonando um movimento de resistência civil,
de todas as camadas sociais e faixas de idade, mormente
da juventude.
Esta será a prova da validade da tese
sobre a universalização da luta por um mundo sustentável
cujos promotores seriam as ONGs, movimentos sociais,
Igrejas, sindicatos,
partidos políticos e intelectuais que rejeitam a globalização
imposta pelo capital transnacional e seus servidores
– os intelectuais “orgânicos” – e preconizam a equidade,
justiça, a paz e plena vigência da Carta dos Direitos
Humanos, para todos.
Não basta, contudo, a negação da (dês)ordem
atual com seus efeitos devastadores. É preciso reconstruir
a reflexão e os debates sobre os rumos que queremos
imprimir à evolução social e política – o futuro desejado
da humanidade.
Há mais ou menos cem anos atrás, os
revolucionários da época lançaram o desafio “o que
fazer” face à brutalidade da opressão e a insensibilidade
dos poderosos para com os sofrimentos dos miseráveis.
Os debates travados, em cada um dos países e em sucessivos
encontros internacionais manifestaram-se nas atitudes
e posições políticas com relação aos desafios históricos
antes e depois da Primeira Guerra Mundial. Os poucos
levantes revolucionários (Hungria em 1919, Bavária
em 1921, e a invasão da Polônia pelo Exército Vermelho)
foram insuficientes para propagar as idéias socialistas
pela Europa, ficando o socialismo restrito a um único
país – verdade que de dimensão continental –, o
mais atrasado econômico e culturalmente do mundo capitalista.
Depois de setenta anos, o socialismo
real desmoronou na ex-URSS e nos países satélites,
enquanto prosperava a ideologia e a prática neoliberal,
prometendo o fim da História e da luta de classes,
enfim a prosperidade infinita nos marcos do paradigma
do mercado.
A denúncia das mazelas e da repressão
brutal da ditadura stalinista não deve ocultar os
desastres, as crises e as guerras na esteira do desenvolvimento
capitalista no século XX. As dezenas de milhões de
mortos de duas guerras mundiais, a devastação de áreas
rurais e urbanas, as lutas pela descolonização na
Ásia e na África e os milhões de refugiados e expulsos
de seus habitats tradicionais formam apenas algumas
das dimensões da expansão “vitoriosa” do regime capitalista
pelo mundo afora.
Longe de promover a ordem, o progresso
e o desenvolvimento, a expansão do sistema industrial
baseada em ciência e tecnologia nos contemplou com
a proliferação de armas de destruição em massa (o
motivo alegado para a ameaça de invasão militar do
Iraque) e sua generalização graças aos fornecimentos
dos países desenvolvidos, resultou na deterioração
da biosfera e na queda da qualidade de vida em todos
os quadrantes. A continuidade dessas tendências destrutivas
impulsionadas pelo “progresso técnico”, por mais que
possam estimular um crescimento econômico (“perverso”,
por não distribuir eqüitativamente os frutos de trabalho),
nos leva às margens do caos e de conflitos que colocam
em risco a própria sobrevivência da humanidade.
É fato incontestável que as desigualdades
aumentaram nas últimas décadas do século XX, tanto
nos países quanto entre estes. Como explicar a persistência
dessa perversão, apesar dos programas nacionais e
internacionais para induzir e alavancar o desenvolvimento?
Embora essa tendência seja inerente à própria dinâmica
do sistema de acumulação e reprodução do capital,
seus impactos foram agravados devido às políticas
de liberalização e desregulação do comércio na onda
da globalização. A maioria dos economistas, desde
o pós-guerra (S. Kuznets, W. Arthur Lewis, a CEPAL
de Raúl Prebisch e muitos outros) postulava a superação
paulatina da pobreza com o crescimento econômico e
a industrialização. Mesmo com a ampliação inicial
do fosso entre pobres e ricos, no final o maior equilíbrio
iria resultar das transformações estruturais e dos
novos investimentos e tecnologias. Como exemplos foram
citados o Japão, Coréia do Sul e Taiwan que conseguiram
uma transição rápida para o estágio de desenvolvimento
industrial. Entretanto, o ponto de partida deste processo
nos países do Extremo Oriente foi uma distribuição
de renda menos desigual, o que questiona a premissa
da desigualdade como condição para o take-off.
Ao contrário, surgem evidências de que baixos níveis
de desigualdade seriam mais propícios ao desenvolvimento,
enquanto altos índices de disparidade de renda solapam
as bases do crescimento econômico. Segundo A. Sen
(1999), existe uma correlação significativa entre
o crescimento econômico e a maior igualdade na distribuição
da renda. Uma distribuição mais eqüitativa constitui-se
em fator de estabilidade política, base do desenvolvimento
sustentável “por baixo” que permite a incorporação
dos excluídos e marginalizados ao mercado formal.
Vários estudos (A. Atkinson, F. Stewart)
evidenciam que os países mais bem sucedidos em suas
políticas de desenvolvimento foram aqueles que promoveram
o crescimento econômico de base ampla, em que os pobres
participam também na distribuição dos benefícios.
Os países ou regiões que experimentaram um crescimento
rápido e sustentado protegeram seus agricultores e
comunidades rurais com uma ampla gama de serviços
de infraestrutura e de instituições de extensão e
pesquisa os quais, além de assegurar saúde e educação,
ajudaram a elevar a produtividade e a renda do setor
rural. O acesso a serviços de educação e saúde, bem
como à terra, é fundamental para erradicar a pobreza,
sobretudo quando acompanhados por facilidades de crédito
e de comercialização.
As previsões sobre o declínio das disparidades
na distribuição da renda se mostraram equivocadas.
Mesmo nos países mais ricos a desigualdade aumentou
em conseqüência da globalização. As elites continuam
em posição privilegiada para aproveitar e se beneficiar
das oportunidades proporcionadas pela abertura dos
mercados e as facilidades de transações financeiras
especulativas, enquanto a imensa maioria da população
deve enfrentar as conseqüências desastrosas da onda
de desemprego causada pelas inovações tecnológicas
e a redução dos investimentos. Em conseqüência, o
desafio da distribuição dos ativos e oportunidades
se coloca novamente na pauta dos debates e das políticas
nacionais e internacionais de desenvolvimento.
Indubitavelmente, o atual sistema é
insustentável e a proposta do chamado desenvolvimento
sustentável, tal como formulada nos discursos oficiais,
levanta mais dúvidas do que indicações dos caminhos
a seguir. Se a proposta se resume na reforma do modelo
atual que gerou a crise da civilização, não se vislumbra
uma saída do impasse dessa globalização tentacular,
sem regulação econômica e ética, que só aumenta a
polarização entre algumas ilhas de afluência e consumo
conspícuo e a disseminação de vastos arquipélagos
de miséria. Apesar de estimular o crescimento da produção
e a expansão do comércio internacional, os resultados
da globalização em termos de desenvolvimento social
e humano têm sido decepcionantes. Seus agentes executores
– as empresas transnacionais e seus executivos, conselheiros
e think tanks – parecem ignorar as contradições
fundamentais do sistema capitalista. A corrida incessante
por lucros via aumentos de produtividade e competitividade
favorece a concentração de riquezas e, apesar de todos
os programas sociais compensatórios, não consegue
inverter a tendência à pauperização e exclusão da
maioria da população mundial.
O ritmo e a intensidade com que progride
a concentração de capital industrial e financeiro,
em que pesem as falências fraudulentas, concordatas
e outros golpes cometidos pelos grandes ”heróis” –
os executivos e líderes do mundo dos negócios – têm
afetado invariavelmente o frágil tecido das relações
sociais. A continua exploração e alienação dos trabalhadores,
agravada pela terceirização e flexibilização da legislação
de trabalho, desestruturou as famílias dos desempregados
e suas comunidades tradicionais. As migrações internas
e externas propagam os sintomas da desorganização
social generalizada, sob forma de violência, criminalidade,
narcotráfico e delinqüência juvenil
que afetam indiscriminadamente a todas as camadas
da população.
O discurso oficial dos governos e das
organizações internacionais (BID, BM, FMI, etc) nos
assegura que todos esses problemas podem ser controlados
e, eventualmente, resolvidos com o apoio de novos
conhecimentos científicos e artefatos e processos
tecnológicos. Mas, ciência e tecnologia não constituem
fatores exógenos e independentes da dinâmica social
e de suas contradições e conflitos. A ciência quase
sempre se desenvolveu à sombra do poder e da benevolência
de seus donos e a relação de subordinação da indústria
de conhecimentos aos interesses das elites hegemônicas
é ainda mais acentuada ao se analisar as relações
entre capital e tecnologia.
O clamor por tecnologias mais apropriadas
e formas de produção “mais limpa” não tem induzido
mudanças nos padrões de consumo da população, nem
no comportamento das empresas que contam com a conivência
ou omissão dos governos.
O discurso oficial promete soluções
por meio do progresso técnico. Mas, ciência e tecnologia
não são politicamente neutras. Ao contrário, máquinas,
equipamentos, os próprios processos de trabalho e
sua organização e administração são inextricavelmente
ligados às relações de produção. Em cada contexto
histórico e social, as formas concretas de tecnologia
representam uma combinação dos diferentes níveis de
poder econômico e político centralizado nas mãos do
capital em oposição às aspirações dos trabalhadores
que lutam por mais autonomia e autogestão. Em conseqüência,
as práticas tecnológicas refletem essas contradições
e estabelecem os limites da ciência e tecnologia como
instrumentos de mudança social. Tanto o desenvolvimento
tecnológico quanto sua incorporação ao sistema produtivo
obedecem aos critérios da chamada racionalidade econômica.
Em resumo, o sistema sócio-econômico
em que vivemos e os paradigmas de desenvolvimento
que engendra se mostram insustentáveis pelos seguintes
motivos: