Censura implica em proibição. A proibição
funda-se na lei, cujo modelo mais simplificado é a pena de talião.
O ato de censura funda-se em considerações fluídas, difusas
e circunstanciais. Ele pode incluir a proibição e a pena, e
o castigo pode confundir-se com a proibição. A censura é ao
mesmo tempo menos e mais do que a proibição. Se procurarmos
a censura pura, encontramos a proibição, figura inconcebível
no universo legal, pois a idéia de legalidade implica na defesa
e sanção. Razão pela qual a censura não pode fundar-se numa
legalidade, ela está na esfera do arbitrário, à margem da legalidade.
O ato de censura reveste-se de escândalo
maior do que ele pretendia evitar, porque é na essência um ato
escandaloso. É a legalidade no arbitrário. Especialmente porque
a censura funciona mais no nível da ameaça do que no nível da
proibição. Ela age na esfera do silêncio.a censura exercendo-se
pela ameaça e pelo silêncio, mata o debate, aniquila a discussão.
Enquanto a esfera judicial pune crimes
previstos por lei, com direito a defesa e recurso às instâncias,
a censura desconhece o conceito e a existência de instâncias
mediadoras. Enquanto o Direito Penal permite o debate, a censura
só pode ser exercida ou abolida. Admití-la é exercê-la e aí
caímos na autocensura.
O conceito de censura só pode ser
apreendido pelo nível político e psicanalítico. Quando reprimimos
pensamentos indesejáveis, estamos na esfera do intra-psíquico,
da censura intra-psíquica.
No plano político, a censura, controlando
o que deva ser ou não de “domínio público” ou ficar restrito
à privacidade do censor e seus asseclas, é a burocracia utilizando
o Estado, entidade pública como propriedade “privada”. O censor
funciona como o agente de um processo de converter as questões
significativas para a vida social em “tabus”, cuja violação
implica em “castigo” ou “danação”. Um dos mecanismos de legitimação
da prática da censura é operar tendo em vista o “bem do povo”.
Às vezes isso pe pura ilusão para uso público. A censura, enquanto
máquina burocrática, acaba existindo para o “bem” do censor,
isto é, a instância onde o censor se realiza como “carreira”,
nível de prestígio, nível de ortodoxia em relação às idéias
não dominantes, todo o conjunto de pilantragens informais que
constituem o “vencer na vida” em quadros burocráticos que existem
para serem negados pelo “jeitinho”.
A censura atinge a todos; atinge
o que escreve e o que lê. Enquanto na lei penal há todo cuidado
em não atingir o culpado e a vítima, na área da censura não
há culpados ou vítimas. Todos são culpados, exceção feita ao
censor. Sua senhoria vê os “outros” (não-censores) como cúmplices
em potencial dos “desvios”. A censura tem por efeito universalizar
as culpabilidades latentes, daí o desenvolvimento de uma paranóia
dominante.
A censura age como ponto terminal
na retenção da livre-circulação das idéias. A existência da
censura à informação prova por vias travessas que não há informação
neutra. Caso existisse, a censura não teria razão de existência.
Toda censura é política, por ocupar
determinado espaço e pelo seu papel no âmbito do Estado, onde
cumpre uma das funções estatais, a função repressiva. Isso não
elimina a existência de censuras no nível da sociedade civil,
do tipo paroquial, como “orientação moral dos espetáculos”.
Da mesma maneira que a censura clerical não deixa passar nada
que possa ofender os valores religiosos-éticos-morais do estamento
dominante, a censura estatal sob o absolutismo europeu, não
deixava passar nada que pudesse ofender Sua Majestade.
Em suma, Sua Majestade, a moral constituída,
e a religião reconhecida, pilares do absolutismo, tinham salvaguarda
máxima na censura. Como tudo muda no social, tudo muda também
no segmento do mesmo, na censura. A censura tradicional do absolutismo
entra em crise com o próprio sistema. Há uma degradação dos
valores tradicionais no século 18 europeu e os censores têm
que procurar novos valores. O público, o autor e o censor, como
fração do público leitor, mudam.
Embora a censura absolutista, com
a ascensão da burguesia européia, legitime seu poder em nome
da “utilidade pública”, observa-se uma crise de consciência
censória. A autoridade tradicional e os valores dos censores
são colocados em xeque. O censor do Rei tem que realizar uma
política de “relações públicas” com as censuras da Igreja e
do Parlamento. Isso levou muito censor do Rei a rejeitar a publicação
de obra que privilegiasse a autoridade do Rei, por medo a comprometer-se
com o Parlamento e a Igreja. O censor absolutista é um censor
dividido. Como homem influenciado pelo racionalismo da “Ilustração”,
tende ao liberalismo, mas como censor é um agente do absolutismo.
Nessa qualidade só aceita para publicação textos ortodoxos,
o elogio áulico forrado com panegíricos ao detentor do poder.
Para esse censor, o poder da razão nada mais é do que a razão
do poder.
Porém, a bem da verdade, é preciso
reconhecer que a institucionalização da censura se deu no Ocidente
ligada à Igreja Católica, onde o bispo Bertoldo de Mayenca chegou
a elaborar uma teoria da censura. Essa teoria de Bertoldo serviu
de base ao Papa e os concílios para a “institucionalização”
da censura como organismo burocrático. Daí em diante a censura
tornou-se uma rotina de funcionários. É claro que a supressão
da censura pressupõe a supressão dos censores.
A censura, por sua própria existência,
estabelece a divisão do público entre a minoria dos sábios e
a grande maioria dos cretinos. Muitos críticos da censura, por
estúpido que pareça, incluem-se no primeiro grupo.
Por paradoxal que pareça, entre o
crítico da censura e o censor estabelece-se o que Freud chamava
“identificação” com o agressor, quando a vítima assume o papel
do carrasco. Nesse estilo, argumentou o editor Pauwells contra
a censura que interditou sua edição das obras de Sade. O texto
era acessível a um pequeno número, seu preço de venda era elevado;
em outras palavras, a minoria que tem capital econômico e cultural
escapa às leis comuns. Essas são válidas para a grande maioria
sem capital econômico e cultural, sem capacidade aquisitiva
para produtos de “alta cultura”, como Sade.
Ao criticar as modalidades,as formas
e o funcionamento da censura, esse tipo de crítica opera no
campo do inimigo, como se postulasse uma “boa” censura, erudita
e civilizada. Enquanto isso, a censura permanece acima daqueles
que criticam seu modo de funcionar, sem questionar sua existência;
eles sentem o peso de sua atuação. É o ‘complô das belas almas”,
que se realiza por mediação da censura como estrutura burocrática,
do Poder que lhe dá cobertura, e da autocensura que funciona
como censura inculcada. Isso me lembra uma frase de Jorge de
Sena: em se tratando de Inquisição, preferia ele a católica,
pois os inquisidores pelo menos eram teólogos.