Uns
amigos me perguntaram como é viver aqui nos Estados Unidos
agora, neste momento em que, pelo que tudo indica, este país
vai se meter em mais uma guerra que vai custar vidas em outros
países, vidas de americanos, e maus agouros gerais no mundo,
senão a própria terceira guerra mundial. Pra ficar ainda
mais complicado, alguns me perguntam como é viver no Texas,
terra do muito mal amado George W.Bush, semi-eleito presidente
do país.
A idéia
que alguns têm — ou muitos têm — é que aqui nos Estados Unidos
todo mundo está a favor do que o governo faz. Já tem gente
fazendo equivalência entre os desígnios do presidente e a
vontade do povo. Claro, tem muitos aqui que já estão enlouquecidos
pelo barulho dos tambores de guerra, e já começaram o discurso
que nós do Brasil que vivemos no tempo da ditadura conhecemos
de perto: quem não está 100% comigo, está com o inimigo. Tem
gente equacionando crítica à política do presidente com traição,
com lesa-pátria, com subversão. Tem também uns imbecis
que, diante da oposição da França ao ataque ao Iraque, estão
jogando for a suas garrafas de vinho francês (diante das câmaras
de televisão, claro). Estes
são provavelmente descendentes dos idiotas que arrebentaram
em praça pública seus carros e caminhonetes Toyota quando
os Estados Unidos e o Japão se desentenderam por causa da
política de importação e exportação. Cada país, ao que parece,
tem direito aos seus bois de presépio que dizem amem a tudo
que o governo os incita a dizer.
Mas tem
gente que aprendeu a lição do Vietnã e está contra a política
de Bush e contra essa guerra. Estes são também os que se posicionam
a favor do povo do Iraque, e que fazem questão de se fazer
ouvir, mesmo com as possíveis represálias. Em minha
universidade, por exemplo, já houve várias manifestações contra
esta guerra, e o mesmo está acontecendo em quase todas as
universidades do país.
Aqui na
cidade de San Antonio, sul do Texas, o jornal local, The
San Antonio Express News, como muitos outros jornais das
maiores cidades do país, no dia 19 de fevereiro trouxe
uma página inteira, financiada por doações locais, em que
o título é: “O presidente Bush declarou: ’você está conosco
ou contra nós.’ Aqui está nossa resposta: Não em nosso
nome.” E seguem quinhentas assinaturas de pessoas e instituições
locais que detalham, no texto colocado na metade da página,
várias coisas. Entre elas, destaco, por exemplo:
“Os que assinam esta declaração apelam ao povo dos Estados
Unidos para que resistam aos atos e à direção política geral
que começou a tomar corpo desde o dia 11 de setembro de 2001,
e que estão colocando em grande perigo o povo do mundo inteiro.
Nós acreditamos que as pessoas e as nações têm o direito
de determinar o próprio destino, livres de coerção militar
por parte dos grandes poderes. . .
Nós acreditamos
que as pessoas de consciência devem tomar responsabilidade
por aquilo que seus governos fazem — nós devemos antes de
tudo opor-nos à injustiça que é feita em nosso nome. . . “
E a declaração
dá a lista dos vários atos de exceção que o governo Bush está
tomando, em nome do povo americano em geral, sem consultá-lo;a
declaração denuncia a ameaça velada de perseguição aos que
se opuserem a suas medidas, quando fontes oficiais declaram
que as pessoas devem “prestar atenção no que dizem.” A declaração
menciona outros lugares do mundo onde há sofrimento indescritível,
e alerta ao povo americano que esta guerra, uma vez iniciada,
“vai durar uma geração.”
E acrescenta
que elas também assistiram, “em choque e horror, os acontecimentos
de 11 de setembro de 2001.” E continuam,
“Nós também
choramos pelos milhares dos mortos inocentes — ao mesmo tempo
que nos lembramos de cenas semelhantes em Bagdá, no Panamá,
e, uma geração atrás, no Vietnam. Nós nos juntamos à angustiada
pergunta de milhões de americanos que se perguntavam como
tal coisa pôde acontecer. Mas o luto mal tinha começado quando
os líderes mais altos da nação desencadearam um espírito de
vingança. Eles puseram um selo simplista de ‘bem contra o
mal’ que foi retransmitido pela mídia tímida e intimidada.
. .”