A indústria do abuso no Japão

Por EVA PAULINO BUENO
Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teachi ng in Japan (JPGS, 2003).

Poucas coisas no Japão chamam mais atenção de quem chega ao país que o espetáculo de dezenas de crianças, todas vestidas iguaizinhas, em geral com chapéuzinhos coloridos, caminhando pelas calçadas, sob a guarda vigilante de duas ou mais professoras. Estas são as crianças ou dos jardins de infância, ou dos primeiros anos do curso primário, nas suas saídas a museus, parques, ou mesmo só para dar uma voltinha no quarteirão. Esta imagem personifica aquilo que se chama no Japão de "kawaii" –ou seja, engraçadinho. E engraçadinhos são também os bebês e crianças pequenas no cestinho das bicicletas das mães, alguns adormecidos, outros apontando coisas e até cantando.

Foram estas imagens que me levaram a concluir, nas minhas primeiras semanas morando no Japão, que este é o melhor país do mundo pra se ser criança porque, eu pensava, aqui não existe violência contra os pequeninos. Tendo vindo para o Japão dos Estados Unidos, esta primeira imagem era totalmente oposta àquela a que eu estava acostumada a ver na tevê americana, onde sempre há notícias de crianças assassinadas, violentadas, perseguidas.

Mas minha boa imagem da felicidade das crianças japonesas se acabou quando duas coisas aconteceram, quase simultaneamente: conheci uma sociológa professora na minha universidade que se especializa em "Child Welfare"–"Bem- Estar da Criança", e já publicou vários livros e artigos sobre o assunto, e naqueles mesmos dias eu descobri que minha televisão tinha um botão que me dava as notícias traduzidas do japonês ao inglês. À medida que a conheci melhor, eu comentei com minha colega que eu achava que no Japão não havia crime contra crianças, mas ela me alertou que as coisas não são assim tão simples. De um dia para o outro, através de conversas com a colega, e com as informações obtidas na televisão, comecei a ficar sabendo que, de fato, há violência contra crianças no Japão, e que esta violência toma uma característica muito especial.

Teve por exemplo o caso da mãe que fez um seguro de vida no nome do marido e dos filhos. Primeiro, o marido morreu afogado, e ela recolheu o seguro. Em seguida, um dia ela foi pescar com o filho de 14 anos, o rapazinho caiu no mar, e ela não conseguiu salvá-lo. Foi uma pena, uma tristeza, mas ela recolheu o dinheiro do seguro. Dentro de alguns meses, ela foi apanhada com a boca na botija, acumulando em casa um remédio que ela, enfermeira, estava tirando aos poucos do hospital onde trabalhava. O remédio era um sonífero. Investigações revelaram que tanto o marido como o filho tinham sido drogados e jogados no mar, e ela estava a ponto de fazer o mesmo com a filha de 11 anos, para recolher o seguro.

Teve também o caso da mulher que raptou a filhinha de uma amiga porque a garotinha, que tinha 3 anos - a mesma idade do filho da assassina - havia passado no exame para entrar em um jardim de infância de prestígio. Numa sociedade em que os jovens e crianças são forçados a estudarem loucamente até entrarem na universidade, o fato de cursarem um jardim de infância de prestígio pode determinar toda a sua vida escolar. A mulher, enraivecida pelo fato da garotinha ter passado no exame e o filho dela não, raptou a menina, estrangulou-a, e enterrou o corpo no quintal de parentes.

Outras histórias igualmente tristes abundam no noticiário japonês. Não há muito crime sexual, em comparação com os Estados Unidos, e a maioria dos assassinatos de crianças tem algo a ver com ganho monetário.

A minha idéia então começou a mudar radicalmente. Da imagem das criancinhas "kawaii" e felizes, comecei a imaginar que muitos deles iriam ser vítimas de adultos inescrupulosos que colocariam um preço nas suas vidas, os matariam e recolheriam o seguro. Enquanto que antes quando eu ouvia uma criança chorando achava que não era nada sé rio, deste momento em diante sempre que escutava um choro ficava imaginando se a criança estava sendo maltratada. Eu sabia que decerto, nem tanto ao mar, nem tanto à terra: nem o Japão era o paraíso que eu imaginara no começo, nem esta câmara de horrores que as notícias sensacionalistas pode fazer o estrangeiro mal informado concluir.

Mas, logicamente, o melhor antídoto para esta confusão é o estudo e a pesquisa. Esta é uma coisa bastante difícil - prá não dizer impossível - se você, como eu, não navega confiantemente no mar de kanji (ideogramas na maioria vindos do chinês) e Hiragana e Katgakana (silabários) da escrita japonesa. A solução é falar com os especialistas. A minha sorte foi conhecer a professora Ueno, a colega que leciona sociologia na universidade. O que aprendi com ela mostra que, realmente, n&atil de;o há nada mais esclarecedor que falar com quem entende.

Primeiro, de acordo com ela, para que alguém possa compreender a situação da criança japonesa hoje, é necessário estudar as mudanças demográficas nos últimos 20 anos no Japão, e verificar o que tem acontecido com duas agências, a Associação Nacional do Bem-Estar da Criança, e da Associação Nacional de Casas de Assistência Social, que supervisam o atendimento, e lançam regras para a coleta de dados sobre a situação das crianças e idosos.

Outra consideração importante é o fato de que oitenta por cento casas de assistência a crianças abusadas, desatendidas e maltratadas são operadas por indivíduos, e não pelo governo. Isto é, elas são companhias privadas, e não públicas. Em seguida, é importante também manter-se em vista o fato de que, desde os anos 80, o número de crianças no Japão começou a diminuir tanto que muitas destas casas de atendimento à infância foram fechadas por "falta de clientes".

De acordo com a professora Ueno, dos anos 80 para cá, um fenômeno paradoxal começou a ocorrer no Japão: embora cada ano haja menos crianças, o número de casos de abuso aumentou exponencialmente. Como se pode compreender esta evidente contradição?

A minha opinião inicial era de que, como o Japão se tornou um país mais industrializado nos últimos 20 anos do século XX, muitas pessoas se mudaram do interior para a cidade. Com essa mudança, quebraram-se os vínculos da "família extendida" - compreendida por pais, filhos, netos, e outros parentes vivendo ou na mesma casa, ou em pequenas vilas em que todos se vêem todos os dias. Com a perda dos vínculos da família extendida e o aumento da "família nuclear" (compreendida por pai, mãe e filhos) as mães e os pais perderam o apoio dos seus pais e outros parentes idosos, que sempre ajudam a tomar conta dos pequenos, nem que seja somente por algumas horas, para que os pais possam descansar um pouco e não se irritarem tanto com as crianças.

Eu argumentei com minha colega que, também, a crescente influência do oeste na cultura tradicional do Japão tem ajudado a quebrar estes laços grupais, quase tribais, que se entrelaçavam para formar a forte identidade das vilas e pequenas comunidades japonesas. Nestas comunidades se põe em prática o ditado: "É preciso uma vila inteira para criar uma criança". Agora sem dispor da "vila", recaiu nos jovens pais toda a responsabilidade pela criação e educação dos filhos, ao mesmo tempo que a sociedade industrial, os empregos em companhias, os horarios fixos, as distâncias de casa ao trabalho, e até as dores de cabeça no trânsito, colocaram mais demandas no tempo dos pais. Com isso, eu conclui, aumenta a violência aos pequenos.

Sem descartar completamente minhas teorias, Ueno me apontou um fator importante, que somente os que estão dentro da área da assistência social no Japão tratam: o número de abuso aos idosos aumentou muito mais que o abuso a crianças no país. Na realidade, ela explicou, apesar do sensacionalismo da imprensa japonesa quando há um crime contra crianças, há muito mais velhinhos abandonados, torturados e assassinados. Por que não se ouve falar neles?

Tudo uma questão de gerenciamento da informação, e de cultivo do mercado. Obviamente, com a diminuição do número de crianças e o conseqüente fechamento de muitas das casas de assistência à infância, algo tinha que ser feito. E, o que foi feito foi uma mudança na maneira em que dados sobre abuso são coletados. O que antes era considerado "normal", atualmente é considerado "abuso". Assim, em vez de diminuir, a incidência de abusos de crianças aumentou, porque a categoria de "abuso" inclui muito mais coisas. Ao mesmo tempo, praticamente ninguém se interessa pelo abuso aos idosos, porque esta clientela, ao contrario das crianças, está aumentando a cada dia.

Eu ainda acredito que há muito abuso a crianças no Japão, mesmo admitindo que a televisão se deleita em mostrar os casos sensacionais. Mas o ponto de como se percebe o abuso também é importante, assim como o reconhecimento que a imprensa, ao explorar os casos excepcionais, alimenta a indústria do abuso, iluminando um tipo de abuso e em conseqüência fazendo com que outros tipos sejam esquecidos ou colocados de lado. À medida que a população do Japão envelhece, a probabilidade do aumento do maltrato aos idosos aumenta.

 

EVA PAULINO BUENO

     

 


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