Segundo a Constituição em vigor,
um dos objetivos da Educação seria a preparação do indivíduo
para o exercício da cidadania. Dentre outros fins estipulados
pela LDB, a educação superior deve estimular o conhecimento
dos problemas do mundo presente. O Regimento da UEM, em um de
seus ítens, estabelece que a Universidade deverá aplicar-se
ao estudo da realidade brasileira, em busca de soluções para
os problemas relacionados com o desenvolvimento econômico e
social. Nota-se, assim, que o curso de Ciências Sociais pode
responsabilizar-se por algumas das finalidades estabelecidas
pela Constituição, pela LDB e pelo Regimento da UEM.
Estes objetivos exprimem a preocupação
de Rousseau no parágrafo final do seu “Discurso sobre a origem
da desigualdade”: ele afirma que “é manifestamente contra a
lei da natureza” (...) “um punhado de pessoas regurgitar (vomitar)
superfluidades enquanto à multidão faminta falta o necessário”.
Ou seja, seria um absurdo um curso de ciências sociais se fechar
numa torre de marfim achando que não tem nada a ver com a massa
de 40 ou 50 milhões que estão passando fome hoje no Brasil.
Não estamos defendendo aqui um curso
de Ciências Sociais engajado na política partidária porque existe
uma diferença importante entre fazer ciência e fazer política,
entre despertar a consciência para a realidade social e incutir
dogmas e palavras de ordem. A atividade política exige fé, exige
uma crença absoluta na verdade, porque só assim torna-se possível
motivar a ação dos militantes. Por outro lado, a atividade científica
exige a postura da dúvida, supõe que não existem verdades absolutas.
A pedagogia aplicada dentro de um partido é baseada na fé. A
pedagogia aplicada dentro da Universidade deve ser a da dúvida.
Isso não significa crer na inexistência de uma relação entre
ciência e ideologia.
O que defendemos aqui é um curso
de Ciências Sociais que desempenhe o seu papel específico que
é o conhecimento da sociedade onde vivemos e que tenha no horizonte
a busca de soluções para os problemas existentes nessa sociedade.
Defendemos um curso que se recuse a ser simples “masturbação
sociológica” utilizando aqui uma expressão criada por um ex-ministro
do governo FHC, já falecido.
O que defendemos neste espaço de
debates seria, portanto, um curso comprometido com a solução
dos problemas sociais que estão conduzindo toda a humanidade
a um impasse. Enquanto não encontrarmos uma solução para os
problemas sociais, os governantes estarão buscando a solução
na guerra a fim de desatar as contradições implacáveis da economia
de mercado. E enquanto não encontrarmos uma solução para os
problemas sociais, as pessoas, diante de uma ameaça difusa posta
à sua sobrevivência, terão despertados condicionamentos de nosso
passado ancestral. Em decorrência disso, passarão a assumir
atitudes irracionais e acabarão, inevitavelmente, apoiando a
guerra. Alguém que tenha o mínimo de sensibilidade já deve ter
percebido que vivemos numa época de crise e que o ovo da serpente
já foi plantado em nossos corações.
O professor Emir Sader, do Departamento
de Sociologia da USP, publicou recentemente um artigo lamentando
que as ciências sociais não contribuem mais para a interpretação
da realidade nacional como se fazia antes do golpe de Estado
de 1964. Por isso, o PT estaria chegando ao poder sem o respaldo
de uma teoria, de um projeto claro e teoricamente consistente
de reconstrução da sociedade brasileira.
E é importante observar que temos
hoje no país muito mais cientistas sociais do que tínhamos antes
de 1964. No período anterior ao golpe militar, boa parte das
ciências sociais estavam engajadas na formulação de um projeto
de construção do país discutindo intensamente a realidade nacional.
É verdade que a política acabou contaminando a ciência quando
teorias prontas e acabadas, formuladas fora do país, foram utilizadas
para a interpretação da realidade brasileira. Mas estes erros
cometidos no passado podem ser evitados sem que as ciências
sociais precisem renunciar a opções político-ideológicas voltadas
para a construção de uma sociedade mais justa, solidária e humana.
Por que as ciências sociais foram
alienadas da discussão dos grandes problemas macrossociais e
estruturais? Não foi, certamente, algo que ocorreu naturalmente.
Durante o regime militar, os principais cientistas sociais foram
expulsos das Universidades, os cursos de ciências sociais passaram
a ser vigiados por agentes do Dops e, dizem, os alunos destes
cursos eram fichados, automaticamente, neste órgão de repressão
da ditadura militar. Muitos professores, numa estratégia compreensível
de sobrevivência, foram obrigados a renunciar à concepção de
teoria social que abraçavam antes do golpe de 64.
Mas o golpe fatal que eliminou o
olhar crítico sobre a sociedade acredito que foi dado pela reforma
da estrutura universitária que ocorreu após 1968. Com o dispositivo
de incentivos institucionais positivos estabelecido nas Universidades,
nós pesquisadores fomos forçados a nos especializarmos se quiséssemos
fazer carreira acadêmica. Tudo isso afetou profundamente o olhar
crítico sobre a sociedade. Ninguém, certamente, poderá desenvolver
essa forma de percepção da sociedade estudando durante a vida
toda apenas uma ou duas ou três peças isoladas deste imenso
e complexo quebra-cabeças em que se transformou a sociedade
contemporânea. Tragédia maior ocorreu na sala de aula. Nenhum
pesquisador, a meu juízo, pode se tornar um professor crítico
se enxergar a realidade social como uma montanha de peças de
quebra-cabeças soltas sem conexão nenhuma. Em cada aula, este
professor estaria explicando o significado do conteúdo de uma
peça isolada das demais. Neste caso, o professor estaria operando
com abstrações no mau sentido.
Para tentar superar a alienação acadêmica
bem como a crise de paradigmas nas Ciências Sociais poderíamos
estabelecer como um dos
objetivos do curso de Ciências Sociais estudar a realidade brasileira
integrada ao contexto mundial da globalização tendo em vista
a busca de soluções para os problemas relacionados ao desenvolvimento
econômico, político, cultural e social do país — objetivo este,
inclusive, contemplado no Regimento da UEM.
Só uma pequena observação: o estudo
da realidade brasileira no contexto do capitalismo global não
dispensa o estudo da teoria social clássica senão corre-se o
risco de precisarmos reinventar continuamente a roda. Mas, por
outro lado, não devemos transformar os textos clássicos numa
espécie de bíblia sagrada pretendendo aplicar as análises da
realidade social européia do século XIX para compreender a realidade
social brasileira e mundial do século XXI.
Este objetivo que propusemos para
o curso de Ciências Sociais pode se transformar em palavras
vazias, em intenções bonitas mas inconseqüentes, se não soubermos
empregar os recursos teóricos e metodológicos e os procedimentos
didáticos e pedagógicos adequados na sua implementação.
Quais seriam, a nosso juízo, os procedimentos
didáticos e pedagógicos necessários para estabelecer um compromisso
consistente dos cursos de ciências sociais em relação à realidade
social brasileira e mundial?
1. Enfoque da totalidade
Em primeiro lugar, devemos adotar
o enfoque da totalidade que consiste em enxergar a realidade
social como um todo complexo com a articulação de suas partes
constituintes. Significaria montar gradativamente as peças do
quebra-cabeças para tornar possível visualizar o desenho arquitetônico
da sociedade. Ou seja, trata-se de evitar o estudo de peças
isoladas do quebra-cabeças deixando de estabelecer quaisquer
conexões entre as peças. Ficamos felizes ao constatar que todas
as áreas do curso de Ciências Sociais da UEM sugerem o mesmo
enfoque: a área de Ciência Política propõe a interdisciplinaridade
e a área da Antropologia defende a sua integração com as demais
áreas.
Supõe-se, então, que defendemos todos
uma pedagogia holística que se opõe à visão cartesiana e positivista
que estipula a fragmentação do objeto de conhecimento e a divisão
do trabalho científico.
Enxergar a sociedade como um todo
consiste na síntese de múltiplas determinações. Quer dizer,
não ficar só no momento da análise, não parar após o trabalho
de fragmentação do objeto. É através do trabalho de síntese
que compreenderemos os nexos existentes entre as diversas partes
e entre cada parte com o todo.
Precisaríamos partir de uma base
epistemológica consistente e adequada para não transformarmos
um projeto de interdisciplinaridade bem intencionado numa empulhação
acadêmica. Para que isso não ocorra, seria preciso observar
outros procedimentos.
2. Concepção dialética de realidade
social
Isso significa que a visão de totalidade
torna-se possível se tomarmos a História como base de interpretação
da realidade social.
A área de Ciência Política defende
essa perspectiva ao sugerir o percurso histórico de constituição
da sociedade moderna. A área de Sociologia defende como base
empírica a história do homo-sapiens, a história do desenvolvimento
da sociedade de classes e a história do Brasil.
Se estudarmos conjuntamente, por
exemplo, a transição que ocorreu há cerca de 10 mil anos atrás
de uma sociedade sem classes para uma sociedade dividida em
classes com o desenvolvimento da agricultura e da criação de
gado, poderemos compreender mais claramente os conceitos fundamentais
da Antropologia, da Ciência Política e da Sociologia. O mesmo
poderíamos dizer da transição da sociedade feudal para a sociedade
capitalista — transição que foi marcada pela revolução industrial.
3. Noção de concreto
Um terceiro fundamento gnosiológico
para viabilizar a interdisciplinaridade seria apoiar o conhecimento
da realidade social na noção de concreto.
Ao contrário da opção pedagógica
concentrada no estudo de idéias ou de pensamentos, a opção pela
noção de concreto supõe o enfoque ontológico, a relação dialética
entre pensamento e mundo. Em outras palavras, a interdisciplinaridade
tornar-se-ia plausível se partíssemos do estudo de temas históricos
concretos da realidade social e se verificássemos como as diferentes
correntes de pensamento abordam este tema. Procedendo desta
forma, o aluno compreenderá muito melhor o pensamento dos autores
clássicos porque perceberá a relação entre os conceitos e princípios
abstratos e a realidade concreta ao qual eles se referem. Em
resumo, a proposta consistiria em tentar compreender problemas
sociais concretos utilizando como instrumental teórico abstrato
os conceitos e princípios de correntes diversas de pensamento.
Ex: a questão liberdade-necessidade
do ponto de vista de Durkheim, de Marx, de Sartre, do determinismo
causal, do positivismo, do funcionalismo, da teoria do individualismo
metodológico ou da rational
choice etc.
Procedendo dessa forma, os alunos
poderão perceber que não existe um pensamento único e verdadeiro
para explicar as relações sociais. Poderão, assim, desenvolver
uma visão crítica, não-dogmática, dos autores clássicos.
Ao praticarmos a relação entre as
idéias abstratas e o mundo objetivo, corrigiremos um problema
grave que existe nas ciências sociais que consiste na dificuldade
que temos de utilizar as idéias e teorias dos pensadores clássicos
como instrumentos para compreender a realidade social ao nosso
redor. Uma aluna do terceiro ano me confessou outro dia que
acumulou muitas informações na cabeça mas que não sabia como
aplicá-las na discussão de questões concretas do cotidiano.
Este é um problema, inclusive, de nós professores que estudamos
durante 20 anos as idéias de determinados pensadores clássicos
como se fossem idéias suspensas no ar que existiriam apenas
enquanto estrutura lógicamente articulada a ser desvendada na
sala de aula.
Por isso é que o Lula, que esteve
sempre cercado por professores de Ciência Política, disse uma
vez que entende muito mais de ciência política do que os cientistas
políticos. Mais recentemente ele disse o seguinte: “Vou ensinar
os cientistas políticos a fazerem política”. Não duvido nada
do que ele disse. As ciências sociais brocharam e se tornaram
incapazes de dar respostas objetivas aos impasses existentes
na sociedade contemporânea.
A diferença entre o Lula e os cientistas
políticos é que enquanto estes ficam estudando somente teorias
ou somente objetos empíricos extremamente fragmentados durante
décadas, ele, todo dia, discute questões concretas do cotidiano
aplicando os conceitos e princípios teóricos que vai assimilando
de leituras, de conversas com intelectuais e nos debates. Já
vi o Lula dando um show em debates com cientistas sociais e com jornalistas — os primeiros
profundamente conspurcados pelo academicismo e os segundos mergulhados
no olhar empírico e factual da sociedade.
Por isso, no curso de Ciências Sociais
deveríamos renunciar à pedagogia inspirada na revolução kantiana,
não permanecendo apenas na análise de idéias, de pensamentos,
de teorias. Precisamos, sim, propiciar aos alunos e a nós mesmos
o exercício constante da relação entre pensamento e mundo, entre
as idéias abstratas e a realidade social concreta na qual estamos
inseridos.
4. Superação do positivismo
Uma quarta base epistemológica para
a interdisciplinaridade consistiria na recusa do procedimento
positivista de transladar mecanicamente os métodos e princípios
das ciências da natureza para as ciências humanas. Fazendo esse
translado, os positivistas afirmam que a ciência só deve estudar
questões de fato. As questões de valor deveriam ser eliminadas
e deixadas para a filosofia.
Vamos tentar explicar o que pode
significar isso. A conseqüência do enfoque positivista é que
interessaria à ciência estudar o ser humano apenas do ponto
de vista biológico. A medicina alopática procede dessa forma,
não levando em conta que o indivíduo tem o lado emocional e
afetivo que pode interferir no funcionamento do organismo e
que pode explicar certas doenças denominadas psicossomáticas.
Em termos práticos, a utilização de filmes e obras literárias
de bom nível na explicação de conceitos e princípios teóricos
poderia corrigir essa deformação da realidade humana provocada
pelo enfoque positivista que predomina hoje nas ciências humanas.
Além disso, seria preciso superar a visão daninha de que as
ciências sociais, ao serem despojadas de juízos de valor, produzem
verdades objetivas. O que percebemos é que esse ideal positivista
tem produzido deformações que servem muito bem às teorias sociais
reprodutoras do status quo eliminando qualquer teor crítico que poderia advir da intromissão
de noções de valor como justiça, solidariedade e liberdade na
análise das relações sociais. Vendo bons filmes tenho compreendido
certos problemas básicos de teoria social que o enfoque positivista
das ciências sociais jamais será capaz sequer de levar em consideração
— seria mais verdadeiro afirmar que jamais desejará levar em
consideração, o que é uma opção ideológica de uma ciência que
se pretende neutra.