O
sucesso das histórias em quadrinhos no século 20 é espetacular.
Elas começaram a ocupar um espaço cada vez maior a partir do início
deste século. Um conjunto de pesquisadores começaram a se debruçar
sobre elas e fornecer sua explicação, tais como sociólogos, semiólogos,
etc. Uma das constatações que se pode retirar do estudo das histórias
em quadrinhos é a de que ela pode ser dividida em diversos gêneros.
Podemos citar os quadrinhos humorísticos, eróticos, de aventuras,
entre outros. Iremos, aqui, tratar de um desses gêneros, a saber:
o gênero da super-aventura. Neste gênero os personagens principais
são os super-heróis. O presente texto discute justamente o gênero
da super-aventura e sua relação com os valores dominantes em nossa
sociedade. O presente
texto é uma versão parcial de um outro artigo no qual abordamos
não apenas esta relação mas também discutimos a relação existente
entre super-heróis e inconsciente coletivo, tema que aqui será deixado de lado e retomado
em outra oportunidade.
Antes de iniciarmos nossa análise
da relação entre o mundo dos super-heróis e a axiologia, devemos
definir o gênero super-aventura. Alguns poderiam falar em gênero
dos super-heróis, mas a definição de super-herói que forneceremos
a seguir irá esclarecer a escolha da denominação de super-aventura.
Em primeiro lugar, é necessário distinguir o herói do super-herói.
Em sentido amplo, o herói é um indivíduo que possui qualidades
consideradas especiais, tais como habilidades físicas, mentais
ou morais. A coragem é o atributo mais característico do herói.
A qualificação de herói, no entanto, não é reservado apenas
ao mundo da fantasia, pois ele é aplicável a indivíduos concretos
que se destacam em nossa sociedade. O herói, portanto, possui
uma existência real. Ele pode ser transportado para a literatura,
as histórias em quadrinhos, o cinema, a televisão, etc.. Nas histórias em quadrinhos existem muitos
heróis, tais como Tarzan, Akim, Targo, Tex Willer, Tintin, Asterix, etc.; nos
seriados de TV se pode ver Zorro
(os dois “zorros”, o capa e espada e o cowboy), James Bond, O Aranha-Negra, Daniel Boone, Paladino,
A Justiceira, etc.
O que distingue um super-herói de
um herói? A primeira resposta, e a mais simples, é a de que
o herói possui habilidades excepcionais mas humanamente possíveis
enquanto que o super-herói possui habilidades sobre-humanas.
Os super-heróis são sobre-humanos e o modelo que encarna este
ser extraordinário é o Super-Homem.
A palavra inglesa “super” tem como correspondente em português
a palavra “sobre”, e isto quer dizer que Super-Homem
significa sobre-homem. Mas isto é insuficiente para definir
um super-herói. Um super-herói só é um super-herói quando tem
que colocar em prática seus poderes e isto só pode ocorrer havendo
uma população de seres poderosos num mundo em que ele vive e
combate, ou seja, o super-herói só pode existir, ao contrário
do herói, em constante relação com super-vilões e com outros
super-heróis. Em poucas palavras, o super-herói só pode existir
havendo um mundo habitado por seres super-poderosos.
O Super-Homem, o primeiro super-herói criado (em 1938), vive num mundo
habitado por Lex Luthor,
Batman, Aquaman, Arqueiro Verde,
Coringa, etc. O Homem-Aranha convive com o Dr.
Octopus, o Homem-Areia,
o Duende Verde, o Hulk, o Homem de Ferro,
etc. Por conseguinte, podemos dizer que um super-herói é: 1)
um ser que possui poderes sobre-humanos, extraordinários; 2)
um ser que existe numa convivência com outros seres extraordinários
e poderosos como ele. Só pode existir um super-herói no interior
de uma Super-Aventura, ou seja, no interior de uma aventura
extraordinária envolvendo outros seres extraordinários.
Mas como surge um super-herói? De
onde vem os seus poderes sobre-humanos? Alguns já nascem com
estes super-poderes, tal como é o caso de super-heróis (e super-vilões)
que são de outros planetas ou mundos, como é o caso do Super-Homem
(que veio do planeta Clipton) e de Thor,
o deus do trovão, que já nasce com super-poderes por ser um
deus. Os super-heróis que nascem humanos adquirem seus super-poderes
por três vias diferentes: a) através de suas habilidades físicas
e mentais excepcionais criam roupas e instrumentos que multiplicam
suas capacidades. Este é o caso de Batman, Homem de Ferro, Gavião, o Arqueiro,
etc. Estes, na verdade, poderiam ser considerados apenas heróis,
mas por estarem inseridos numa super-aventura (o mundo de Batman é o mesmo do Super-Homem,
Mulher-Maravilha,
Aquaman, etc.; e o mundo do Homem de Ferro e do Gavião é o mesmo do Homem-Aranha,
Thor, Surfista Prateado, Namor,
X-Man, etc.); b) através
do contato com radioatividade, energia nuclear ou cósmica, etc.,
eles realizam um mutação e adquirem super-poderes. O Homem-Aranha
ganha seus poderes graças a uma picada de uma aranha contaminada
com radioatividade; o Quarteto
Fantástico (Homem-Elástico, o Coisa, Tocha Humana e Mulher-Invisível) adquire seus poderes
após pousar numa ilha infectada de radioatividade cósmica; Hulk através da exposição do cientista Bruce Banner (no seriado da
televisão, David Banner) aos raios gama; o Surfista
Prateado através dos poderes cósmicos doados a ele por Galactus; c) através da iniciação no mundo da magia, onde se adquire
poderes mágicos, tal como é o caso do Dr. Estranho.
A partir disto podemos distinguir
três tipos de super-poderes: o poder tecnológico, o poder mágico
e o poder energético (ou “cósmico”). O poder tecnológico é uma
extensão do corpo humano, é um instrumento (roupa, arma, etc.)
que permite ao seu portador ultrapassar os limites humanos (voar,
lançar raios, etc.); o poder mágico se inspira no pensamento
religioso e é daí que vem o seu caráter misterioso, inclusive
de sua origem; o poder energético é um poder que se extrai da
natureza, ou seja, o ser humano (ou qualquer outro ser) se apossa
da energia (cósmica ou qualquer outra) e ela se torna uma parte
dele. A diferença entre o poder tecnológico e o poder energético
ou mágico se encontra no fato de que o portador do primeiro
depende do seu aparato tecnológico (Batman
depende de sua roupa, cinto, carro, etc.; o Homem
de Ferro depende de sua armadura) enquanto que o portador
do poder energético ou mágico contém o poder em sua própria
estrutura orgânica. No mundo dos super-heróis a magia (o sobrenatural)
e a ciência (o tecnológico) se misturam e mantêm suas especificidades.
Os super-heróis não são apenas aquilo
que se vê nas revistas em quadrinhos. Existe algo mais que não
está escrito ou desenhado. Trata-se da emergência dos super-heróis.
Por qual motivo surgem os super-heróis? Para respondermos esta
questão teremos que, brevemente, tratar da relação entre super-heróis
e sociedade. Os super-heróis surgem na sociedade capitalista
contemporânea, sendo que esta proporciona suas condições de
possibilidade. Para existir histórias em quadrinhos é necessário
existir meios de produção (tecnologia de reprodução em massa,
por exemplo) e distribuição de histórias em quadrinhos, bem
como um mercado consumidor. Mas estas determinações estão presentes
não só no gênero super-aventura mas em qualquer outro gênero
de histórias em quadrinhos. O que possibilita este gênero específico,
além das determinações gerais das histórias em quadrinhos, é
o surgimento de um mercado consumidor específico, a juventude,
que começa a ser explorado com o gênero da aventura na década
de 30 (1931-37), com as histórias fantásticas de Flash
Gordon, Mandrake, Dick Tracy, Príncipe Valente,
Buck Rogers, Tarzan, Brick Bradford,
Jim das Selvas, Fantasma, Garth, etc.).
Além disso, o enclausuramento dos indivíduos em instituições
burocráticas e o domínio do mercado na vida social da sociedade
capitalista propiciaram uma necessidade de se sentir algo no
imaginário que não se podia sentir na realidade. O processo
de burocratização e mercantilização das relações sociais no
capitalismo cria a necessidade, através da fantasia, de superar
a prisão que se tornou a vida social e conquistar uma liberdade
imaginária para compensar a falta de liberdade real.
No presente texto deixaremos de lado
o problema das determinações sociais do gênero da super-aventura
e desenvolvermos uma análise de apenas como elas se manifestam
concretamente nas histórias, ou seja, em sua estrutura narrativa
própria. Iremos destacar, neste sentido, a relação entre super-heróis
e axiologia (“ideologia”), deixando de lado outra característica
fundamental e complementar deste gênero de quadrinhos, que é
o fato dele ser uma manifestação do inconsciente coletivo, o
que será apresentado em um outro texto complementar a este.
Super-Heróis e Axiologia
A partir da definição acima de super-herói,
podemos, agora, relacionar super-herói e “ideologia” (axiologia). Muitos já denunciaram o caráter “ideológico”
dos super-heróis. Os nazistas, por exemplo, afirmaram que “o
Super-Homem é judeu”. Sem dúvida, a era da super-aventura surge
no período que antecede a Segunda Guerra Mundial. A necessidade
de heróis de carne e osso para sacrificar sua vida na guerra
criou a necessidade da fantasia dos super-heróis. O Super-Homem surgiu neste contexto e a afirmação dos nazistas é correta
em um certo sentido: o Super-Homem
não é judeu no sentido correto do termo, já que ele não possui
religião (e nem no sentido nazista e ideológico do termo, já
que o Super-Homem não é um ser humano, não poderia ser da “raça” dos judeus)
mas é “judeu” no sentido de que realmente ele é inimigo dos
nazistas e defensor dos Estados Unidos, devido ao fato dele
simbolizar o “homem livre” norte-americano. Desta forma, ele
assume a característica comum de todos os “inimigos imaginários”
criados pelos nazistas, assumindo a forma de mais um “conspirador
judeu”.
O caso do Capitão América é ainda mais esclarecedor. A sua origem, na ficção,
ocorre durante a Segunda Guerra Mundial. Steve Rogers era um
soldado que foi exposto a uma experiência científica que pretendia
criar super-soldados norte-americanos para combater os seus
inimigos na Segunda Guerra Mundial. Um soro foi criado para
fornecer uma força sobre-humana aos soldados e a experiência
com Steve Rogers apresentou os resultados esperados. O super-herói
foi reforçado por um uniforme – que é inspirado na bandeira
dos Estados Unidos – e um escudo poderoso. Ele foi responsável
por inúmeras vitórias do exército norte-americano. Por fim,
ele caiu numa geleira e ficou congelado por décadas, até que,
por acaso, Namor, O Príncipe
Submarino, em um momento de irritação com os seres humanos,
joga para longe uma imensa geleira e esta derrete libertando
o Capitão América, que passa a atuar em nossa época.
O Homem de Ferro também surgiu num contexto de guerra – a guerra do
Vietnã – e foi no contexto desta guerra que Tony Stark foi obrigado
a criar a armadura do super-herói, mais tarde alterada para
uma cor e forma diferente. O seu caráter axiológico se encontra
também na atividade enquanto indivíduo comum: “Tony passa a
ser proprietário de um poderoso complexo industrial onde aperfeiçoa
e constrói armas e materiais para guerra, em defesa do mundo
capitalista”.
Mas, sem dúvida, a origem, o nome,
a finalidade, a ação, as ligações com o poder oficial e o uniforme
do Capitão América fazem dele o mais axiológico
dos super-heróis existentes. A própria personalidade do Capitão América, marcada pelo “espírito
de liderança” e “bom senso”, é expressão da axiologia norte-americana
segundo a qual os Estados Unidos tem o papel de “líder mundial”.
As histórias antigas do Capitão América durante a Segunda Guerra
Mundial são extremamente axiológicas, e contam não só com a
figura de Hitler e vilões poderosos (Caveira,
Capitão Nemo, etc.) como aliados de confiança
(Buck, O Patriota, Tocha Humana Original,
Namor, etc.) como
também aliados “duvidosos” na luta contra o nazismo, tal como
o super-herói russo Guardião
Vermelho, que até aparece conversando com outro ditador
famoso da época, Stálin. Foi nesta mesma época que surgiu o
herói Tio Sam, desenhado
pela primeira vez pelo renomado Will Eisner e que fornece uma
idéia do clima da época, pois o seu uniforme e nome, assim como
os do Capitão América, já diz tudo.
Muitos heróis e super-heróis foram
acusados de serem axiológicos (“ideológicos”) devido ao racismo
que se vê em alguns deles e isto reflete, em alguns casos, a
verdade. Estes e outros aspectos axiológicos podem ser encontrados
em inúmeros super-heróis.
O gênero da super-aventura é acusado
de ser “ideológico” (axiológico) por outros motivos, tais como
o “anonimato social” (identidade secreta), o “exemplo social”
do super-herói, a imagem da sociedade como não sendo dividida
em classes sociais, “mistificação do arsenal nuclear”, caráter
atemporal das histórias.
Entretanto, consideramos que reside
aí alguns exageros. O anonimato social ou identidade secreta
(que, aliás, ao contrário do que pensa este autor, acompanha
a maioria mas não todos os super-heróis), segundo
o antropólogo Luís Fernando Baêta Neves, serve para demonstrar
“a possibilidade de uma continuidade entre a vida quotidiana
de qualquer indivíduo (de qualquer leitor, portanto) e a vida
maravilhosa e plena de realização, de poder e de notoriedade
de um herói sacralizado”. Desta forma, há um ocultamento da personalidade
civil que se expressa no exercício de uma “profissão corriqueira”.
Os super-heróis trabalham como qualquer cidadão (Baêta Neves
cita Batman como uma
exceção e se esquece do Homem
de Ferro, que também é um milionário), mas não usam seus
super-poderes para se manterem financeiramente. Por qual razão?
Por dois motivos, segundo este antropólogo: a) se fizesse isso
estaria rompendo com a axiologia que apresenta o trabalho como
“dignificante e enaltecedor”, que é aquele que é realizado dentro
da ordem social e das normas legais; b) a grande ação heróica
aparece como “gratuita” e como “obrigação” de todos, servindo
como “exemplo social”. Desta forma, tal aspecto da vida do super-herói
se apresenta como axiológica e conservadora, pois apresenta
uma falsa consciência da realidade e faz apologia da sociedade
e dos valores existentes.
Esta visão apresenta alguns problemas.
O “anonimato social” (identidade secreta) tem sua razão de ser
na própria estrutura do gênero da super-aventura (e também dos
heróis comuns) que é uma extensão da sociedade capitalista.
Qual é a razão da identidade secreta? Em primeiro lugar, para
proteger pessoas próximas do super-herói, que podem ser vítimas
de seus inimigos. Os inimigos existem devido a luta pelo poder,
a criminalidade, que são geradas pela desigualdade (social).
Tendo-se em vista a existência dos super-vilões (quase que totalmente
ausentes na análise de Baêta Neves) e a possibilidade de vingança,
seqüestro, etc., nada é mais natural e necessário – numa sociedade
caracterizada pela desigualdade e que por isso necessita de
super-heróis – do que a identidade secreta. Em segundo lugar,
existem super-heróis que estão bastante próximos do poder (Batman e Robin, Capitão América, etc.) mas a maioria possui
uma relação ambígua com o poder. Basta citar os exemplos do
Homem-Aranha e do Hulk para ver isto. De onde vem esta ambigüidade? Vem do fato de que
a idéia de justiça e a ação do super-herói nem sempre está de
acordo com a justiça oficial. Esta contradição entre a justiça
oficial e a justiça do super-herói aponta para um questionamento
da ordem jurídica-institucional e isto vai contra a argumentação
de Baêta Neves.
O fato do super-herói trabalhar como
qualquer cidadão não é tão genérico assim, pois, além dos capitalistas
(Batman, Homem de Ferro) existem aqueles que simplesmente não trabalham (Namor, Hulk, Visão, Surfista Prateado, etc.). Além disso, a profissão exercida geralmente
não é de tempo integral, pois isto dificultaria a ação do super-herói,
tal como a de jornalista (Super-Homem,
Homem-Aranha), advogado
(Demolidor), médico (Thor), etc., ou seja, são free-lance ou profissionais liberais. Há
também casos onde os super-heróis usam seus poderes para ganhar
dinheiro: o jornalista Peter Parker (Homem-Aranha)
sempre usa suas habilidades para tirar fotografias para vender
para o jornal O Clarim; a principal habilidade natural
de Tony Stark (Homem de
Ferro) é a intelectual, que ele utiliza como empresário,
mas, mais importante que isso, o Homem de Ferro se apresenta socialmente
como guarda-costas de Tony Stark (ou seja, de si mesmo em sua
identidade de homem comum) e de suas empresas, o que significa
que é um super-herói “por profissão”. Por fim, o fato da ação
heróica ser “gratuita” e ser vista como “obrigação” não é, em
si mesma, conservadora ou axiológica, pois num mundo onde tudo
foi mercantilizado e o trabalho deve ser retribuído com dinheiro,
este tipo de atividade “desinteressada” (no sentido de interesse
pessoal egoísta) apresenta, na verdade, uma visão alternativa
do trabalho. Daí seu “exemplo social” não ser problemático nem
axiológico.
A afirmação de que a super-aventura
transmite uma visão da sociedade como se ela não fosse dividida
em classes sociais é questionável. Sem dúvida, a super-aventura
não focaliza a questão social e nem os conflitos sociais mas
nem por isso se pode dizer que ela apresenta uma visão da sociedade
como destituída de divisão social. A própria existência de criminosos,
de super-vilões, as causas das origens de alguns super-heróis
e super-vilões apontam para a existência de conflitos sociais.
O Homem-Aranha, por
exemplo, após adquirir seus poderes os utiliza para ganhar dinheiro
e é somente quando um familiar seu é assassinado por um criminoso
é que ele resolve combater a criminalidade. Aí está presente
a manifestação aparente de um conflito social mas o desenvolvimento
das histórias acaba apresentando outros elementos para se observar
as origens sociais da criminalidade e, por conseguinte, a visão
das injustiças sociais.
Mas aqui aparece realmente uma visão
axiológica da sociedade não tanto pelo fato de que a divisão
social não é enfatizada e sim pela própria característica do
heroísmo: o individualismo. As histórias dos super-heróis são
histórias de indivíduos extraordinários e nunca de grupos sociais,
tal como se vê na historiografia tradicional, que se caracteriza
por retratar a história dos “grandes homens” e não a dos grupos
sociais. Além do individualismo se revela aí um “desenraizamento
social” do super-herói. Quando este desenraizamento se rompe,
tal como no caso do Capitão América, o super-herói se vê forçado
a assumir uma posição e, portanto, ficar ao lado de um dos grupos
sociais existentes, que geralmente são os grupos dominantes
e isto reforça o seu caráter axiológico. Jacques Marny colocou
que a evolução interior dos heróis (e dos super-heróis, diríamos
nós) no decorrer dos anos apresenta a tendência para se adaptar
às normas sociais. Segundo ele:
“A
tendência que se verifica na maior parte dos casos é para um
alinhamento segundo as normas sociais. No princípio duma série,
o herói é o homem marginal, o franco-atirador da ordem e da
justiça. Mas há um dado momento em que colabora com as forças
da ordem organizadas, tais como o exército e a polícia do seu
país. Foi o que aconteceu com Tarzan, Flash Gordon, Superman,
Terry, o Fantasma e muitos outros. Contudo, temos de ter em
conta que esta colaboração episódica foi devida, na maior parte
das vezes, as circunstâncias históricas, concretamente a última
guerra mundial: o herói mobilizou-se espontaneamente, visto
que a luta contra as forças do mal requeria a união sagrada”.
Embora existam exceções (tal como
Batman, que está sempre do lado da polícia,
ou seja, do poder), é o momento histórico que faz com que o
super-herói reencontre suas raízes sociais. Isto, no caso dos
heróis (e aqui distinguimos herói de super-herói), é diferente,
pois as suas características humanas extraordinárias mas não
sobre-humanas fazem dele um ser enraizado socialmente e é por
isso que se pode encontrar um herói de “esquerda” (tal como
Robin Hood e Zorro, um lutando contra o despotismo feudal e outro contra a colonização
espanhola) muito mais facilmente que um super-herói
de “esquerda”.
A “mistificação do arsenal nuclear”
é apontada por Baêta Neves como mais um aspecto axiológico da
super-aventura:
“Quando se
dá a atribuição de super-poderes por acidente e/ou experiência
com arma altamente desenvolvida, ocorre, também, a mistificação e fetichização
do arsenal nuclear. Isto se dá porque este é valorado de modo
absoluto quanto a seu poder e quanto à irreversibilidade dos
efeito que produz. Do lado do caráter de fetiche do instrumento
nuclear pode-se ler, também, uma crítica liberal à atuação deste
sobre o ser humano, que se deforma ao se expor a ele. Assim,
dentro de uma posição tecnocrática dominante, aparece uma palavra
de crítica que visa aplacar e não destruir a vigência da ideologia
tecnocrática, mitificadora da técnica e da ciência”.
Existe na super-aventura, sem dúvida,
uma visão ambígua da ciência (no que se refere às ciências naturais).
Basta ver os casos de Hulk,
X-Man, o Quarteto Fantástico, etc., para se compreender isto. O Hulk e o Coisa (membro do Quarteto Fantástico)
são exemplos de uma crítica dos efeitos da ciência: a deformação
do corpo humano. Neste caso se vê a contradição entre um efeito
estético indesejável (ambos se transformam em figuras monstruosas
do tipo Frankstein, que pode ser considerado o
modelo seguido e o tema clássico da simbolização artística dos
monstros que a ciência pode criar) e a potência adquirida. Estes
dois super-heróis simbolizam a ambigüidade do desenvolvimento
científico e que o “avanço” provocado por ela (domínio sobre
a natureza e a sociedade) traz em si aspectos indesejáveis (a
feiúra, mas que no caso pode ser considerado um símbolo da desumanização e do sentimento
de culpa que acompanha a ciência, o que leva o indivíduo
a se sentir “feio”). Mas, a nosso ver, o que a super-aventura
faz não é uma crítica liberal à ciência e sim uma reprodução
do caráter contraditório da ciência, que, ao mesmo tempo, realiza
progresso e retrocesso, desenvolve o controle e o descontrole
sobre o meio ambiente onde vive a humanidade (transformando-o
e destruindo-o), melhora e piora a qualidade de vida e assim
por diante.
A última questão colocada por Baêta
Neves é o caráter atemporal da super-aventura. Os super-heróis
estão fora da história, pois não vivem eventos em sua vida que
se desenvolvem cronologicamente. Geralmente não se formam, não
se casam, não tem filhos, etc. O mesmo ocorre com a sociedade
onde eles vivem. Em primeiro lugar, é preciso colocar que existem
muitas exceções e que recentemente isto começou a mudar, basta
citar o casamento do Homem-Aranha
como exemplo. Em segundo lugar, a estrutura própria da super-aventura
dificulta o desenvolvimento de certos acontecimentos, pois casamento,
filhos, etc., criam obstáculos para a ação do super-herói (tal
como o trabalho em tempo integral). Em terceiro lugar, se o
super-herói se desenvolvesse normalmente como um indivíduo comum
ele seria muito mais axiológico do que já é. Em quarto lugar, se a sociedade se transformasse
radicalmente, acabando com as desigualdades sociais e por conseguinte
com a razão de ser da criminalidade e dos super-vilões, então
acabaria a razão de ser do super-herói. A super-aventura possui
uma temporalidade que é marcada pela seqüência sucessiva de
aventuras, onde o passado não pode mais voltar mas explica o
motivo de muitas ações presentes. Isto é axiológico? Ora, se
imaginarmos um super-herói revolucionário que interfere nas
relações sociais buscando a transformação social, a mesma coisa
ocorreria. Se a desigualdade acabasse, o super-herói também
acabaria. Isto é próprio da estrutura da super-aventura.
Mas uma análise do mundo dos super-heróis
deve também distinguir entre os “mundos” povoados por diferentes
super-heróis, tal como o mundo Marvel – da Marvel Comics, criadora
do Homem-Aranha, Os Inumanos, Hércules, Magneto, Demolidor, Hulk, etc. –,
o mundo Detective Comics (conhecida pela sigla DC) –
criadora do Super-Homem,
Flash, Lanterna Verde, Homem-Borracha,
Batman e outros. Estas
são as duas mais poderosas fábricas de super-heróis. A DC Comics
produz super-heróis e histórias não só mais simples como também
mais axiológicas. A recém-criada Image (fundada por ex-desenhistas
e roteiristas da Marvel) vem ganhando espaço e competindo com
ambas com sua safra de super-heróis, cujo mais famoso é Spawn, que se transportou recentemente
para as telas do cinema (Spawn,
O Soldado do Inferno), mas também apresenta outros como
Dragon, Hitchblade, Angela, etc. Esta nova fábrica de super-heróis
se caracteriza pela alta qualidade do desenho e pela pobreza
dos roteiros, além de possuir um caráter muito mais axiológico
que as outras duas (para se ter uma idéia, a maioria dos seus
super-heróis trabalham para a polícia e suas histórias são recheadas
de anticomunismo grosseiro – o que não deixa de ser estranho,
tendo em vista que ela surgiu nos anos 90 e se comporta como
se o marcartismo ainda estivesse em moda e a URSS existisse
e fosse ameaça — e pela expressão fascista “comuna” para se
referir aos “comunistas”). Também poderíamos citar os fracassados
super-heróis brasileiros, tais como Fantastic Man, Raio Negro, Mylar, Fantasma Negro, Capitão Atlas, Capitão Estrela,
Mistyko, Hydroman, etc.
A sua estrutura, então, é que é conservadora?
Julgamos que não, pois a estrutura da super-aventura reproduz
a sociedade capitalista contemporânea e somente surgiu devido
as condições sociais originadas dela. Mas a permanência da estrutura
da super-aventura (e da própria super-aventura, o que é a mesma
coisa) é resultado das contradições da própria sociedade contemporânea
e o conservadorismo seria a ilusão de que não há mais contradições
sociais e que, por isso, não há mais necessidade de super-heróis
e super-aventuras.
Consideramos que a raiz dos equívocos
de Baêta Neves se encontra no fato dele não ser um leitor de
histórias em quadrinhos. Ele mesmo reconhece que sua análise
foi baseada no Pequeno Dicionário dos Super-Heróis, artigo
publicado na Revista Vozes, de Moacir Cirne, um especialista
em semiologia dos quadrinhos. Fundamentar-se em um texto desta
natureza sem ir à fonte é questionável, pois uma análise não
pode se basear só em descrições estáticas retiradas de um dicionário,
pois deve também ter acesso ao movimento vivo da super-aventura.
Neste caso, uma tal análise só poderia provocar equívocos.
Por último, podemos dizer que a preocupação
com o caráter axiológico da super-aventura e das histórias em
quadrinhos em geral é legítima quando nos dedicamos a pesquisar
tal fenômeno social; porém, todas as formas de manifestações
culturais que são de ampla circulação (e que são transmitidas
através de empresas oligopolistas de meios de comunicação de
massas) são axiológicas e por isso a análise da super-aventura
deve ir além da constatação óbvia do seu caráter axiológico.
Deve desvendar seu processo de formação, suas características
e o que mais existe no seu interior. Assim, a presente análise
é incompleta. Aqui parece fundamental compreender a relação
entre o mundo dos super-heróis e o inconsciente coletivo, tal
como o definimos em outro lugar, de forma diferenciada de Jung.
Iremos apresentar tal relação em outro texto, complementar
a este. Aqui fica apenas a análise do caráter axiológico do
mundo dos super-heróis, um mundo imaginário que manifesta os
valores dos seus criadores, que são os valores dominantes em
nossa sociedade.