A situação
da mulher negra no Brasil de hoje manifesta um prolongamento
da sua realidade vivida no período de escravidão com poucas
mudanças, pois ela continua em último lugar na escala social
e é aquela que mais carrega as desvantagens do sistema injusto
e racista do país. Inúmeras pesquisas realizadas nos últimos
anos mostram que a mulher negra apresenta menor nível de escolaridade,
trabalha mais, porém com rendimento menor, e as poucas que conseguem
romper as barreiras do preconceito e da discriminação racial
e ascender socialmente têm menos possibilidade de encontrar
companheiros no mercado matrimonial.
A mulher negra ao longo de sua história foi a “espinha dorsal” de sua família,
que muitas vezes constitui-se dela mesma e dos filhos. Quando
a mulher negra teve companheiro, especialmente na pós-abolição,
significou alguém a mais para ser sustentado. O Brasil, que
se favoreceu do trabalho escravo ao longo de mais de quatro
séculos, colocou à margem o seu principal agente construtor,
o negro, que passou a viver na miséria, sem trabalho, sem possibilidade
de sobrevivência em condições dignas. Com o incentivo do governo
brasileiro à imigração estrangeira e à tentativa de extirpar
o negro da sociedade brasileira, houve maciça tentativa de embranquecer
o Brasil.
Provavelmente o mais cruel de todos os males foi retirar da população negra
a sua dignidade enquanto raça remetendo a questão da negritude
aos porões da sociedade. O próprio negro, em alguns casos, não
se reconhece, e uma das principais lutas do movimento negro
e de estudiosos comprometidos com a defesa da dignidade humana
é contribuir para o
resgate da cidadania do negro.
A pobreza e a marginalidade a que é submetida a mulher negra reforça o
preconceito e a interiorização da condição de inferioridade,
que em muitos casos inibe a reação e luta contra a discriminação
sofrida. O ingresso no mercado de trabalho do negro ainda criança
e a submissão a salários baixíssimos reforçam o estigma da inferioridade
em que muitos negros vivem. Contudo, não podemos deixar de considerar
que esse horizonte não é absoluto e mesmo com toda a barbárie
do racismo há uma parcela de mulheres negras que conseguiram
vencer as adversidades e chegar à universidade, utilizando-a
como ponte para o sucesso profissional.
Embora o contexto adverso, algumas mulheres negras vivem a experiência
da mobilidade social processada em “ritmo lento”, pois além
da origem escrava, ser negra no Brasil constitui um real empecilho
na trajetória da busca da cidadania e da
ascensão social. Bernardo (1998), em seu trabalho sobre
a memória de velhas negras na cidade de São Paulo, mostra como
é difícil a mobilidade ascensional da negra - especialmente
na conquista de um emprego melhor, pois a maioria das negras
trabalhava na informalidade, ou como empregadas domésticas.
As mulheres negras que conquistam melhores cargos no mercado de trabalho
despendem uma força muito maior que outros setores da sociedade,
sendo que algumas provavelmente pagam um preço alto pela conquista,
muitas vezes, abdicando do lazer, da realização da maternidade,
do namoro ou casamento. Pois, além da necessidade de comprovar
a competência profissional, têm de lidar com o preconceito e
a discriminação racial que lhes exigem maiores esforços para
a conquista do ideal pretendido. A questão de gênero é, em si,
um complicador, mas, quando somada à da raça, significa as maiores
dificuldades para os seus agentes.
Paul Singer (1998) afirma que, à medida que a mulher negra ascende, aumentam
as dificuldades especialmente devido à concorrência Em serviços
domésticos que não representam prestígio não há concorrência
e conseqüentemente as mulheres negras têm livre acesso e é nesse
campo que se encontra o maior número delas. A população negra
trabalha, geralmente, em posições menos qualificadas e recebe
os mais baixos salários.
A mulher negra, portanto, tem que dispor de uma grande energia para superar
as dificuldades que se impõe na busca da sua cidadania. Poucas
mulheres negras conseguem ascender socialmente. Contudo, é possível
constatar que está ocorrendo um aumento do número de mulheres
negras nas universidades nos últimos anos. Talvez a partir desse
contexto se possa vislumbrar uma realidade menos opressora para
os negros, especialmente para a mulher negra.
Contudo, cabe ressaltar a experiência de mulheres negras na luta pela superação
do preconceito e discriminação racial no ingresso no mercado
de trabalho. Algumas mulheres atribuem a “façanha” da conquista
do emprego do sucesso profissional a um espírito de luta e coragem,
fruto de muito esforço pessoal, e outras ainda, ao apoio de
entidades do movimento negro.
Na atualidade não se pode tratar a questão racial como elemento secundário,
destacando apenas a problemática econômica. A posição social
do negro não se baseia apenas na possibilidade de aquisição
ou consumo de bens. Ainda há uma grande dificuldade da sociedade
brasileira em assumir a questão racial como um problema que
necessita ser enfrentado. Enquanto esse processo de enfrentamento
não ocorrer, as desigualdades sociais baseadas na discriminação
racial continuarão, e, com tendência ao acirramento, ainda mais
quando se trata de igualdade de oportunidades em todos os aspectos
da sociedade.
A discriminação racial na vida das mulheres negras é constante; apesar
disso, muitas constituíram estratégias próprias para superar
as dificuldades decorrentes dessa problemática.