A Morte em Veneza. Uma advertência

 

Por LUIZ ELIAS SANCHES
Mestre em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CPDA), Docente de História da Universidade Salgado de Oliveira


Paul Thomas Mann (1875-1955)“Assim, ele via de novo o mais espantoso desembarcadouro, aquela brilhante composição de construções fantásticas que a república apresentava aos olhos admirados dos navegantes que se aproximavam, a leve magnificência do palácio e a Ponte dos Suspiros, as colunas com leões e santos nos cais, o flanco avançado da suntuosa capela fabulosa, a vista sobre o Portal e o relógio gigantesco.” (Mann, 1979: 106)

Em A morte em Veneza, Thomas Mann parece advertir seus contemporâneos europeus: Vejam onde toda essa “paixão e arrebatamento” irão levar. Já na chegada de seu personagem Gustav Von Aschenbach a Veneza, o autor acena com uma referência sombria: No meio de todo o deslumbramento da paisagem descrita, Mann não deixou de citar o portal, onde só falta a famosa advertência:

“Entra-se por mim na cidade da tristeza; entra-se por mim no abismo da eterna dor; entra-se por mim na mansão dos condenados.
A eterna Justiça moveu Deus criar-me; obra sou da Divina Potestade, da suma sapiência, e do primeiro amor.
Antes de mim não foram criadas, senão substâncias eternas, e eu eternamente duro. Vós, que em mim entrais, perdei toda a esperança de sair!” (Alighieri, s/d:69)

Delírio? Superinterpretação? Afinal, nem todo portal é o do inferno. Mas estou absolutamente convencido de que Mann não cita o portal por mero acaso. Vamos mais a frente. Após desembarcar do navio, Aschenbach toma uma gôndola cujo condutor simplesmente descumpre suas instruções, remando em sentido diferente do solicitado. Recostado, de olhos fechados, o passageiro, a princípio não nota. Quando percebe admoesta o gondoleiro, que nega-se a cumprir suas ordens:

“...Uma espécie de sentimento de dever ou orgulho, a lembrança, por assim dizer, de que devia prevenir-se, fez com que recobrasse ânimo mais uma vez. Perguntou:
Quanto cobra pela viagem?
Olhando por cima dele o gondoleiro respondeu:
O senhor pagará.”

Chegando a seu destino, sem dinheiro trocado, Aschenbach vai a um hotel vizinho para trocar o dinheiro.

“volta, encontra sua bagagem num carrinho no cais. Gôndola e gondoleiro tinham sumido.
Ele deu o fora, disse o velho com o arpéu. Um homem mau, um homem sem  concessão, prezado senhor. É o único gondoleiro que não tem concessão...” (p. 109)

Aqui, a referência ao Rio Aqueronte e ao barqueiro Caronte me parecem demasiado eloqüentes para serem simplesmente deixadas de lado. Ao ser indagado acerca do preço da viagem, o gondoleiro, “o único que não tem concessão”, responde de forma sinistra : “O senhor pagará”, para, à chegada, desaparecer sem esperar pelo pagamento. E no entanto, sua resposta “O senhor pagará”, continua ecoando em nossas mentes. Em que moeda ele espera que seja feito o pagamento?

Mann alerta que, arrastado pelo turbilhão da paixão, o homem torna-se mesmo aquilo que mais o repugna. Von Aschenbach, no navio que o levou a Veneza, viu um velho que procurava passar-se por jovem através de tudo que pudesse haver de mais exterior – roupa, maquiagem, vocabulário, atitudes estereotipadas. É com estranheza e, depois, repulsa, que Aschenbach nos fala deste homem:

“Como podia ser isso? Aschenbach cobriu a testa com sua mão e fechou os olhos, que ardiam porque dormira pouco. Pareceu-lhe que nem tudo era como de costume, que começava a alastrar-se uma estranheza sonhadora, uma desfiguração do mundo para o esquisito que talvez ainda pudesse ser detida se escurecesse seu rosto e tornasse a olhar. (...) Mas era nojento de se ver em que estado, na falsa comunidade com a juventude, tinha ficado o velho janota. Seu cérebro velho não conseguira suportar o vinho como os jovens robustos, estava miseravelmente bêbado. De olhar idiota, um cigarro entre os dedos trêmulos, mantendo com dificuldade o equilíbrio, vacilava no mesmo lugar, impelido pela bebedeira para frente e para trás.” (pp. 103-104)

Ele considera patético um homem, já idoso, tentando se fazer passar por jovem entre jovens, que se deixa levar pela embriaguez do vinho e da paixão. Nosso protagonista ainda tenta resistir à “desfiguração do mundo para o esquisito”. Não quer acreditar no que vê. Não pode acreditar. Fecha os olhos para em seguida reabri-los e verificar se não estava sendo enganado por seus sentidos. Porém ele mesmo, mais a frente, quando se vê acometido pela paixão pelo jovem Tadzio, passa, gradativamente, a se comportar como o falso jovem que viu no navio. “Pormenores juvenis” acrescentados ao terno, idas mais freqüentes à barbearia, tintura no cabelo, maquiagem para dar mais simetria às sobrancelhas, para aumentar a impressão de brilho dos olhos, para prolongar o corte dos olhos, para avermelhar o lábios, para camuflar as rugas. Tudo para rejuvenescer, para diminuir a distância entre sua velhice e a juventude daquele que se tornara o objeto de sua paixão.

Para Thomas Mann, quando nos deixamos arrastar pelo turbilhão de paixão, perdemos toda a substância e identidade frente às situações. O autor diz isso o tempo todo quando, ao invés de referir-se ao seu personagem pelo seu nome, expressão externa de sua unidade e identidade, apenas refere-se a ele em função das circunstâncias de cada momento. Assim, de acordo com a situação, é “o viajante”, ou “o repousante”, ou “o solitário calado”, ou “o passeante”, ou “o que partia”, ou “o atormentado”, ou “o fugitivo”, ou “o entusiasmado” e assim por diante. O Homem camaleão. Na verdade, o turbilhão reforça a maleabilidade da personalidade, potencializa sua capacidade de transformação.

Mann adverte seus contemporâneos de que aquela busca pelo “estranho e o sem relação” é uma busca ilusória e perigosa. Uma farsa. O desejo, em seu personagem, de viajar, foi despertado pela súbita visão de um viajante, um estrangeiro, num fim de tarde nublado. Mais tarde, em Veneza, entre os componentes de um grupo de cantores ambulantes que se apresentavam em troca de algumas moedas dos turistas, ele tem sua atenção atraída pelo saltimbanco responsável pela guitarra. A descrição do solista confere exatamente com a do estrangeiro do início da história sem, porém, que Aschenbach se dê conta disso. O homem “Não parecia veneziano, mas da raça dos cômicos napolitanos, meio rufião, meio comediante, brutal e ousado, perigoso e divertido.” Mesclava piruetas de palhaço com gargalhadas diabólicas. Um misto de bobo da corte e demônio.

A sensação de deslumbramento que experimentava como conseqüência de sua paixão, é também ilusória. Até ver Tadzio pela primeira vez, toda a narrativa transcorre sob um clima escuro, sombrio, nebuloso. O entardecer nublado, em que vê o estrangeiro pela primeira vez; a escolha do local para onde ir, “um objetivo que ainda não lhe era claro”; a faixa de água suja que se alargava com a partida do navio; céu e mar “turvos” e “plúmbeos” , na chegada a Veneza e a gôndola, “estranha embarcação de tempos baladescos, tradicionalmente inalterada e tão singularmente preta como entre todas as coisas só o são os ataúdes – lembra caladas e criminosas aventuras em noites murmurantes, lembra mais ainda a própria morte, macas e execuções sombrias e a última silenciosa viagem.” (pp. 107-108)

Depois de conhecer Tadzio, começa a ver o mundo de outra forma. A paixão ilumina-lhe os olhos: “Diariamente, agora, o deus de faces fogosas dirigia, nu, sua quadriga exalando brasa, pelos espaços do céu, e seus cachos amarelos esvoaçavam ao sopro do vento leste.“ (p. 131). Porém, apesar da sensação de vitalidade transmitida pelo sol, algo de muito ruim estava em gestação. Aschenbach começa a notar que nem tudo está bem. Os turistas começam a deixar Veneza; entre os citadinos circula um burburinho que todos se esmeram em esconder dos turistas. O “mal” desenvolve-se sorrateiramente. O cólera.

“A Morte em Veneza”, de Thomas Mann, de 1912, revela a tendência dominante na Alemanha de seu tempo, quando uma orgia arrebatadora procurava arrastar a todos para o redemoinho da luxúria e da loucura da guerra. Essa tendência parece se cristalizar na seguinte passagem:

“Nesta noite teve um sonho terrível (...) um sacudir de correntes, retumbar, abafados trovões acompanhados de júbilos estridentes e de um certo uivar com o som prolongado de “u” (...) grandes eram a sua repugnância, grande seu medo, honesto o seu desejo de salvaguardar o seu eu até o fim contra o estranho, o inimigo do sereno e digno espírito. Mas o barulho e a gritaria, multiplicados pela rocha ecoante, cresciam, sobrepujavam, aumentavam até a loucura arrebatante (...) com as batidas dos timbales seu coração retumbava, seu cérebro girava, acometido de raiva, de desvario, de atordoante voluptuosidade, e sua alma desejou unir-se à dança de roda do deus (...) Com espuma nos lábios, vociferavam, excitavam-se com gestos lascivos e mãos buliçosas, rindo e gemendo, empurravam os bastões espinhosos um na carne do outro e lambiam o sangue dos membros. Mas com eles, entre eles, estava agora o sonhador, submisso ao deus estranho (...) então, sobre o terreno de musgo revolvido, começou um ilimitado cruzamento, em sacrifício ao deus. E sua alma experimentou a luxúria e a loucura da decadência.” (161-162)

Thomas Mann, nasceu em Lübeck e foi criado em Munique, longe das influências prussianas: “Berlim significava a Prússia, a natural inimiga de Munique e Baviera. A Alemanha do Norte olhava a do Sul como levando uma boa vida, despreocupada, sentimentalista, que tendia para ser deploravelmente democrática, se não até liberal. Por seu turno, a Alemanha do Sul olhava a do Norte como um fanfarrão arrogante, com falta de boas maneiras e uma expressão insolente, politicamente reacionário, agressivamente preocupado com o trabalho.” (Tuchman, 1990: 423)

A Alemanha experimentou, a partir de 1870, um vertiginoso crescimento econômico. A sua produção de aço, que correspondia a um quarto da britânica, em 1914 já era igual à soma do aço produzido pelo Reino Unido, França e Rússia. O consumo de carvão na Grã Bretanha, entre 1861 e 1913 se multiplicou duas vezes e meia. Durante o mesmo período, na Alemanha, multiplicou-se treze vezes e meia. O mesmo ritmo irrefreado se via no crescimento da produção da indústria química e da energia elétrica.

As transformações culturais também foram bastante acentuadas naquele período. A obra de Nietzsche, inicialmente relegada à indiferença, já alcançara o reconhecimento de seus conterrâneos e, no campo das artes, especialmente no da música, a Alemanha ocupava um lugar de destaque. Wagner tinha encontrado em Richard Strauss o seu sucessor no reconhecimento internacional.

A Alemanha cobrava da Europa e do mundo o reconhecimento de sua primazia, de sua superioridade fundada num espírito inovador e determinado, que recusava os princípios legados ao mundo pela cultura anglo-francesa, considerada superficial e conservadora.

O sucesso de Richard Strauss se deve a essa ânsia por romper, não só os cânones da composição musical, mas também os princípios de uma ética baseada numa visão de mundo considerada como superada. Esperava-se do artista uma criação repleta de pulsão vital, de energia, que não podia ser contida nos estreitos limites estabelecidos pelas regras de criação. Os próprios temas escolhidos por Strauss transbordavam de paixão humana: “Assim falava Zarathustra” – eloqüente e arrebatadora; “Electra”; “Morte e Transfiguração”; “Salomé”. Todos possuíam um forte apelo às emoções mais cruas da humanidade.

O povo alemão parecia ansioso, sedento por tudo que pudesse representar a emoção, o instinto humano. “Salomé”, recusada no resto da Europa, fez estrondoso sucesso na Alemanha. “Electra” foi outro grande sucesso de Strauss. Após a estréia, Herman Bahr teria comentado acerca da música que “ela exprimia algo de sinistro sobre o tempo de então, uma espécie de orgulho nascido de um poder sem limites, um desafio à ordem, induzindo ao caos.” (Tuchman, op. cit. p. 461)

Um dos sintomas daquele desafio à ordem e repulsa pela rotina pode ser entrevisto na atração exercida pela Itália sobre os homens do Norte. Nietzsche deixou-nos um poema em que louva a vida natural e pulsante do Sul, contraposta à vida do Norte, menos visceral e mais baseada em valores relacionados à racionalidade:

[...]
O mar, tão branco, dormindo absorto,
E ali, purpúrea, vai uma vela
Penhasco, idílios, torres e cais,
Balir de ovelhas e figueirais. Sul da inocência, me acolhe nela!
[...]
Jovens, tão falsos, tão inconstantes,
Pareceis feitos bem para amantes
E em passatempos vos entreter...
No norte amei ― e confesso a custo ―
Uma mulher velha de dar susto:
“Verdade”, o nome dessa mulher. (Nietzsch, 1991:183)

Goethe, Ibsen e Burckhardt são outros exemplos daquela atração exercida pela Itália. Wagner encontrou em Veneza a inspiração para seu “Tristão e Isolda” e, em 1883, morreu naquela cidade. Strauss chegou a manifestar o desejo de compor uma peça sobre César Bórgia ou Savonarola. A Itália era o outro, o diferente. O sol, no lugar do frio; a extroversão, no lugar da frieza; a paixão, no lugar do cálculo. É exatamente a busca “do estranho e do sem relação” que leva o protagonista da história de Thomas Mann a Veneza.

Quando “Morte em Veneza” vem à luz, em 1912, já era possível vislumbrar a guerra vindoura nas escaramuças diplomáticas e políticas, como as relacionadas à “questão marroquina” e à “questão balcânica”. No Congresso de Basiléia da Internacional Socialista, naquele ano, um dos temas em pauta foi a elaboração de uma política para enfrentar a possibilidade da guerra. Thomas Mann também lançou sua advertência.

Aschenbach descobre o mal a tempo mas, em sua embriaguez, não pode deixar Veneza e Tadzio. Espera mesmo que a cidade se esvazie para que fique mais a vontade com Tadzio. Tem esperança de poder tirar proveito da catástrofe.

Da mesma forma que a paixão despertada pela perspectiva da guerra criava um deslumbramento, uma embriaguez, que não permitiam ao povo alemão vislumbrar o terror que se aproximava e, quando conseguiam perceber o que os esperava, não davam a devida importância, consideravam que o preço a pagar era justo.

“Minutos passaram até irem em auxílio do que caíra de lado na cadeira. Levaram-no para o seu quarto. E, ainda no mesmo dia, um mundo respeitosamente comovido recebeu a notícia de sua morte.” (Mann, op. cit. p. 170)

A profecia do barqueiro se cumpriu: “O Senhor pagará”! A de Thomas Mann, também. Hoje, quando a nova aristocracia industrial-militar estadunidense tenta atrair o povo de seu país e o resto mundo para a defesa de seus interesses, camuflados por uma defesa apaixonada da luta antiterrorista e pela democracia, devemos prestar atenção à advertência de Thomas Mann, desmascarar essa “paixão” cega e desvendar o que está por trás dela. O preço, para nós, pode também ser muito alto.

 

 

LUIZ ELIAS SANCHES

     

Referências Bibliográficas

Alighieri, Dante. A Divina Comédia. In Obras Completas. Ed. das Américas, SP. (s/d)

Eksteins, Modris. A Sagração da Primavera. Rio de Janeiro. Rocco, 1991.

Mann, Thomas. A Morte em Veneza. São Paulo. Abril Cultural, 1979.

Nietzsche, Friedrich. Coleção “Os Pensadores”, vol.II. 5ª Ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991. Pág. 183.

Tuchman, Barbara. A Torre do Orgulho. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1990.

 


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