Um
breve histórico
As
chamadas políticas de ação afirmativa são muito recentes na
história da ideologia anti-racista. Nos países onde já foram
implantadas (Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, Índia, Alemanha,
Austrália, Nova Zelândia e Malásia, entre outros), elas visam
oferecer aos grupos discriminados e excluídos um tratamento
diferenciado para compensar as desvantagens devidas à sua situação
de vítimas do racismo e de outras formas de discriminação. Daí
as terminologias de “equal oportunity policies”, ação afirmativa,
ação positiva, discriminação positiva ou políticas compensatórias.
Nos
Estados Unidos, onde foram aplicadas desde a década de sessenta,
elas pretendem oferecer aos afro-americanos as chances de participar
da dinâmica da mobilidade social crescente. Por exemplo: os
empregadores foram obrigados a mudar suas práticas, planificando
medidas de contratação, formação e promoção nas empresas visando
a inclusão dos afro-americanos; as universidades foram obrigadas
a implantar políticas de cotas e outras medidas favoráveis à
população negra; as mídias e órgãos publicitários foram obrigados
a reservar em seus programas uma certa percentagem para a participação
dos negros. No mesmo momento, programas de aprendizado de tomada
de consciência racial foram desenvolvidos a fim de levar a reflexão
aos americanos brancos na questão do combate ao racismo.
Qualquer
proposta de mudança em benefício dos excluídos jamais receberia
uma apoio unânime, sobretudo quando se trata de uma sociedade
racista. Neste sentido, a política de ação afirmativa nos Estados
Unidos tem seus defensores e detratores. Foi graças a ela que
se deve o crescimento da classe média afro-americana, que hoje
atinge cerca de 3% de sua população, sua representação no Congresso
Nacional e nas Assembléias estaduais; mais estudantes nos níveis
de ensino correspondentes ao nosso ensino médio e superior; mais advogados, professores nas universidades, inclusive
nas mais conceituadas, mais médicos nos grandes hospitais e
profissionais em todos os setores da sociedade americana. Apesar
das críticas contra ação afirmativa, a experiência das últimas
quatro décadas nos países que implementaram não
deixam dúvidas sobre as mudanças alcançadas.
Argumentos em favor das cotas para
a população negra no Brasil
As experiências
feitas pelos países que convivem com o racismo poderiam servir
de inspiração ao Brasil, respeitando as peculiaridades culturais
e históricas do racismo à moda nacional. Podemos, sem cópia,
aproveitar das experiências positivas e negativas vivenciadas
por outros para inventar nossas próprias soluções, já que não
contamos com receitas prontas para enfrentar nossas realidades
raciais.
Vozes eloqüentes, estudos acadêmicos qualitativos e quantitativos
recentes realizados pelas instituições de pesquisas respeitadíssimas
como o IBGE e o IPEA não deixam dúvidas sobre a gravidade gritante
da exclusão do negro, isto é, pretos e mestiços na sociedade
brasileira. Fazendo um cruzamento sistemático entre a pertencia
racial e os indicadores econômicos de renda, emprego, escolaridade,
classe social, escolaridade, idade, situação familial e região
ao longo de mais de 70 anos desde 1929, Ricardo Henriques (2001)
chega à conclusão de que “no Brasil, a condição racial constitui
um fator de privilégio para brancos e de exclusão e desvantagem
para os não-brancos. Algumas cifras assustam quem tem preocupação
social aguçada e compromisso com a busca de igualdade e qualidade
nas sociedades humanas”:
Do total dos universitários, 97% são brancos, sobre 2% de negros
e 1% de descendentes de orientais.
Sobre 22 milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da
pobreza, 70% deles são negros.
Sobre 53 milhões de brasileiros que vivem na pobreza, 63% deles
são negros (Henriques,
2001).
Deduz-se dessa pesquisa que se por milagre o ensino básico
e fundamental melhorar seus níveis para que os alunos desses
níveis de ensino possam competir igualmente no vestibular com
os alunos oriundos dos colégios particulares bem abastecidos,
os alunos negros levariam cerca de 32 anos para atingir o atual
nível dos alunos brancos. Isso
supõe que os brancos fiquem parados em suas posições atuais
esperando a chegada dos negros, para juntos caminharem no mesmo
pé de igualdade. Uma
hipótese improvável, ou melhor, inimaginável. Os lobbyes
das escolas particulares cada vez mais fortes deixarão os
colégios públicos subirem seu nível de ensino, tendo como conseqüência
a redução de sua clientela majoritariamente oriunda das classes
sociais altas e médias e a diminuição de seus lucros? Quanto
tempo a população negra deverá ainda esperar essa igualdade
de oportunidade de acesso e permanência a um curso superior
ou universitário gratuito e de boa qualidade?
Num país onde os preconceitos e a discriminação racial não
foram zerados, ou seja, onde os alunos brancos pobres e negros
ainda não são iguais, pois uns são discriminados uma vez pela
condição sócio-econômica e outros são discriminados duas vezes
pela condição racial e sócio-econômica, as políticas ditas universais
defendidas sobretudo pelos intelectuais de esquerda e pelo ex-ministro
da educação Paulo Renato, não trariam as mudanças substanciais
esperadas para a população negra.
Como disse Habermas, o modernismo político nos acostumou
a tratar igualmente seres desiguais, em vez de tratá-los de
modo desigual. Daí a justificativa de uma política preferencial
no sentido de uma discriminação positiva, sobretudo quando se
trata de uma medida de indenização ou de reparação para compensar
as perdas de cerca de 400 anos de decolagem no processo de desenvolvimento
entre brancos e negros. É neste contexto que colocamos a importância
da implementação de políticas de ação afirmativa, entre as quais
a experiência das cotas, que pelas experiências de outros países,
se afirmou como um instrumento veloz de transformação, sobretudo
no domínio da mobilidade sócio-econômico, considerado como um
dos aspectos não menos importante da desigualdade racial.
A questão fundamental que se coloca é como aumentar o contingente
negro no ensino universitário e superior de modo geral, tirando-o
da situação de 2% em que se encontra depois de 114 anos de abolição
em relação ao contingente branco que sozinho representa 97%
de brasileiros universitários.
É justamente na busca de ferramentas e de instrumentos
apropriados para acelerar o processo de mudança desse quadro
injusto em que se encontra a população negra que se coloca a
proposta das cotas, apenas como um instrumento ou caminho entre
tantos a serem incrementados.
Por que então a cota e não outros instrumentos e que
instrumentos? Numa sociedade racista, onde os comportamentos
racistas difundidos no tecido social e na cultura escapam do
controle social, a cota obrigatória se confirma, pela experiência
vivida pelos países que a praticaram, como uma garantia de acesso
e permanência aos espaços e setores da sociedade até hoje majoritariamente
reservados à “casta” branca da sociedade.
O uso deste instrumento seria transitório, esperando
o processo de amadurecimento da sociedade global na construção
de sua democracia e plena cidadania. Paralelamente às cotas, outros caminhos a curto, médio e longo prazos
projetados em metas poderiam ser inventados e incrementados. Tratando-se do Brasil, um país que desde a
abolição nunca assumiu seu racismo, condição sine qua non para pensar em políticas de ação afirmativa, os instrumentos
devem ser criados através dos caminhos próprios ou da inspiração
dos caminhos trilhados por outros países em situação comparável.
Reações absurdas e inimagináveis vieram dos setores informados
e esclarecidos que geralmente têm voz na sociedade brasileira. Que absurdo, reservar vagas para negros, o
que caracterizam como uma injustiça contra alunos brancos pobres! Aqui somos todos mestiços, quer dizer que no
Brasil não existem mais nem negros, nem brancos, nem índios,
nem japoneses, por causa do alto degrau de mestiçamento.
Aqui, não estamos nos Estados Unidos para impor soluções
que nada tem a ver com nossa realidade genuinamente brasileira,
etc. Vejam que se deixa de discutir uma questão social que, como apontam
as estatísticas das pesquisas do IBGE e IPEA, é caracterizada
por uma desigualdade racial brutal e gritante.
Por que isso? Parece-me
que o imaginário coletivo brasileiro está ainda encobertado
pelo mito da democracia racial.
Não era possível imaginar as propostas de ação afirmativa num
país onde há pouco tempo se negava os indícios de preconceito
étnicos e de discriminação racial. Em dezenas de anos os movimentos
sociais negros lutaram duramente para arrancar da voz oficial
brasileira, a confissão de que esta sociedade é também racista.
Embora o racismo esteja ainda muito vivo na cultura e no tecido
social brasileiro, a voz oficial reagiu há pouco tempo aos clamores
dos movimentos negros, como bem ilustrado pelo texto do “Relatório
do Comitê Nacional Para a Reparação da Participação Brasileira
na III Conferência Mundial das Nações Unidas Contra o Racismo,
Discriminação racial, Xenofobia e Intolerância Correlata”, realizada
em Durban, África do Sul, de 31 de agosto a 07 de setembro de
2001. Nesse relatório, no que tange às propostas em benefício
da “comunidade” negra: “a adoção de medidas reparatórias às
vítimas do racismo, da discriminação racial e de formas conexas
de intolerância, por meio de políticas públicas específicas
para a superação da desigualdade. Tais medidas reparatórias,
fundamentadas nas regras de discriminação positiva prescritas
na Constituição de 1988, deverão contemplar medidas legislativas
e administrativas destinadas a garantir a regulamentação dos
direitos de igualdade racial previstos na Constituição de 1988,
com especial ênfase nas áreas de educação, trabalho, titulação
de terras e estabelecimentos de uma política agrícola e de desenvolvimento
das comunidades remanescentes dos quilombos”, - adoção de cotas
ou outras medidas afirmativas que promovam o acesso de negros
às universidades públicas” (Ministério da Justiça, 2001: 28-30).
Infelizmente, comparativamente ao avanço constatado nesse relatório,
os três candidatos principais ao posto de Presidente da República
nas eleições de 2002 não mostraram uma postura clara e firme
sobre este problema, ou adotaram uma estratégia de desinformação,
ora para não se comprometerem com a população negra, ora para
não perderem seus eleitores no meio de racistas brancos, já
que o importante para alguns deles era ser eleito presidente,
a qualquer custo! O atrito entre o estudante negro Rafael dos
Santos e o candidato Ciro Gomes no debate que ocorreu em 7 de
abril na UnB, não deixa dúvida sobre a estratégia do silêncio
e da desinformação. Indagado sobre sua posição no que diz respeito
às políticas de cotas para negros, o candidato desconversou
dizendo que os negros não precisam que ninguém tenha “peninha”
deles, além de impedir que a palavra fosse franqueada ao estudante.
Como explicar o silêncio, a incerteza e até mesmo a desinformação
dos candidatos sobre uma questão tão importante para a vida
e o futuro de mais de 70 milhões de brasileiros de ascendência
africana? Estratégia ou resíduo perverso do mito de democracia
racial que ainda ronda no inconsciente coletivo do brasileiro?
Tudo é possível!
O que me espanta muito não é tanto a reação popular, facilmente
explicável. O que me surpreende é que as mesmas reações e os
mesmos lugares comuns se encontram na minha universidade, uma
das mais importantes do Hemisfério Sul em termos de produção
de conhecimento científico e da reflexão crítica sobre as sociedades
humanas. Nessa universidade brotou a chamada Escola Sociológica
de São Paulo, da qual participaram eminentes estudiosos como
Florestan Fernandes, Octávio Ianni, Fernando Henrique Cardoso,
Oracy Nogueira, João Batista Borges Pereira e tantos outros
que iniciaram os estudos sobre o negro na ótica das relações
raciais e interétnicas, rompendo com a visão apenas raciologista
e culturalista de Nina Rodrigues e seu discípulo Arthur Ramos,
entre outros.
Rebatendo e refutando algumas críticas contra as cotas
para negros no Brasil
1.
Dizem que é
impossível implementar cotas para negros no Brasil, porque é
difícil definir quem é negro no país por causa da mestiçagem,
tendo como conseqüência a possibilidade da fraude por parte
dos alunos brancos que alegando sua afro-descencência pelo processo
de mestiçagem ocupariam o espaço destinado às verdadeiras vítimas
do racismo. Em primeiro
lugar, não acredito que todos os alunos brancos pobres possam
cometer este tipo de fraude para ingressar na universidade pública,
por causa da força do ideal do branqueamento ainda atuando no
imaginário coletivo do brasileiro.
Um racista essencialista, psicologicamente convencido
da superioridade de sua “raça” não troca de campo com tanta
facilidade. Muitos não
aceitarão a troca, em nome do chamado orgulho da raça. Conscientes desta dificuldade, alguns recorrem
aos falsos princípios de democracia advogando a introdução de
uma flagrante injustiça contra brancos pobres se o Brasil adotar
cotas em favor da maioria de negros pobres.
Se for fácil identificar os alunos brancos pobres, por
que o seria tão difícil para os alunos negros pobres?
Em segundo lugar, a identificação é uma simples questão
de auto definição, combinando os critérios de ascendência politicamente
assumida com os critérios de classe social.
Isto tem sido o critério ultimamente utilizado até pelos
pesquisadores e técnicos no último recenseamento do IBGE.
Ele vale tanto para brancos quanto para negros e para
os chamados amarelos. Não vejo necessidade em recorrer seja ao exame
da árvore genealógica dos auto declarados negros, seja ao exame
científico através do teste de DNA.
Se constatar depois de algum tempo e experiência que
a maioria de alunos pobres beneficiados pela política de cotas
é composta de alunos brancos pobres falsificados em negros,
será então necessário reavaliar os critérios até então adotados.
De qualquer modo, os recursos investidos não seriam perdidos,
pois teriam sido aproveitados por segmento da população que
também necessita de políticas públicas diferenciadas. Uma definição pelos critérios científicos dificultaria
qualquer proposta de ação afirmativa em benefício de qualquer
segmento, pois muitos que se dizem negros podem ser portadores
dos marcadores genéticos europeus.
Também muitos dos que se dizem brancos podem ser portadores
dos marcadores genéticos africanos.
O que conta no nosso cotidiano ou que faz parte de nossas
representações coletivas do negro, do branco, do índio, do amarelo
e do mestiço não se coloca no plano do genótipo, mas sim do
fenótipo, num país onde segundo Oracy Nogueira o preconceito
é de marca e não de origem.
2.
Outros argumentos
contra a política de cota recorrem ao fato do abandono desta
política nos Estados Unidos, por não ter ajudado no recuo da
discriminação racial entre brancos e negros naquele país e por
ter sido aproveitado apenas pelos membros da classe média afro-americana,
deixando intocada a pobreza dos guetos.
Ponto de vista rejeitado pelos defensores de cotas nos
Estados Unidos, baseando-se na mobilidade social realizada pelos
afro-americanos nos últimos quarenta anos, mobilidade que não
teria sido possível se não fosse implantado a política das cotas. Os próprios americanos observam que no Estado
da Califórnia, o primeiro a incrementar cotas e o primeiro também
a abandoná-las, recuou o ingresso de alunos afro-americanos
nas universidades públicas daquele Estado.
Mas devemos dizer que os afro-americanos têm outras alternativas
para ingressar e permanecer nas universidades que aqui não temos
por causa das peculiaridades do ”nosso” racismo.
Eles têm universidades federais de peso criadas para
eles, a Universidade de Howard, por exemplo, e universidades
criadas pelas Igrejas independentes negras para as comunidades
afro-americanas, principalmente nos Estados do Sul considerados
como os mais racistas (é o caso da universidade de Atlanta que
foi fundada pelos negros e para os negros).
Além disso, a maioria das universidades públicas americanas
até as mais conceituadas como Princeton, Harvard e Stanford
continuam a cultivar as ações afirmativas em termos de metas,
sem recorrer necessariamente às cotas ou estatísticas definidas. Deixar de discutir cotas em nossas universidades
por que não deram certo nos Estados Unidos, como dizem os argumentos
contra, é uma estratégia fácil para manter o status quo. As cotas se forem
aprovadas por alguns Estados como já está acontecendo no Rio
de Janeiro e na Bahia, deveriam, antes de serem aplicadas, passar
por uma nova discussão dentro das peculiaridades do racismo
à brasileira, cruzando os critérios de “raça e de “classe” e
respeitando a realidade demográfica de cada Estado da União.
Um censo étnico da população escolarizada de cada Estado
é indispensável para incrementar as políticas públicas no que
diz respeito à educação dos brasileiros, a curto, médio e longo
prazo.
3.
Por que a cota
misteriosamente não é também destinada aos índios e sua descendência
cujos direitos foram igualmente violados durante séculos, além
de serem despojados de seu imenso território, indagam outros
argumentos contra a política de cotas.
Os movimentos negros que reivindicam as cotas nunca foram
contra as propostas que beneficiariam as populações indígenas,
as mulheres, os homossexuais, os portadores de necessidades
especiais, até as classes sociais pobres independentemente da
pigmentação da pele. Apenas
reivindicam um tratamento diferenciado, tendo em vista que foram
e constituem ainda a grande vítima de uma discriminação específica,
racial. Eles têm uma clara consciência da diluição
no social geral e abstrato como propõe o pensamento da esquerda,
que até hoje continua a bater nas teclas de uma questão que
segundo eles é simplesmente social, fechando os olhos a uma
cultura racista que abarca indistintamente pobres, médios e
ricos em todas as sociedades racistas.
Os afro-descendentes constituem um pouco mais de 70 milhões
de brasileiros, em relação às populações indígenas estimados
em menos de quinhentos mil, apesar do seu notável crescimento
demográfico. Visto deste ângulo, o problema do ingresso
dos estudantes negros, tendo em vista que a sua taxa de escolaridade
na escola é das mais baixas.
O que faltam são as propostas de políticas públicas específicas
a curto, médio e longo prazo, direcionadas para atender aos
problemas de escolaridade, educação e ingresso dos índios na
universidade. Diluí-los
nos problemas sociais dos negros e ou dos pobres em geral seria
cometer no plano da prática social os erros do pensamento teórico
e livresco do intelectual de esquerda sem pés no chão.
No já citado relatório do Comitê Nacional para a Preparação
Brasileira na III Conferência Mundial das Nações Unidas contra
o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, nota-se entre as medidas governamentais a serem
tomadas em favor dos índios:
§
Criação, no
âmbito do Ministério da Educação, da Coordenação Geral de Educação
Escolar Indígena;
§
Estabelecimento
de 1666 escolas indígenas, que contam com 3041 professores indígenas;
§
Realização
do projeto Tucum, de formação e capacitação de professores indígenas
em nível de magistério, para as comunidades de Mato Grosso (Xavante
, Peresi, Apiaká, Irantxe, Nambikwara, Umotina, Rikbaktsa, Munduruku,
Kayabi, Borôro e Bakairi, entre outras).
É coordenado pela Secretaria de Estado da Educação-MT,
além da FUNAI, tem convênio com a Universidade Federal do Mato Grosso e prefeituras
municipais do estado.
§
Realização
do projeto 3º grau indígena, visando a implantação de três Cursos
de Licenciatura Plena na Universidade do Estado de Mato Grosso
(UNEMAT, destinados à formação de 200 professores indígenas,
com previsão de início das aulas em julho de 2001 e término
em 2005. A iniciativa
está sendo viabilizada por meio do Convênio 121/2000, de 30
de junho de 2000, celebrado entre aquela instituição de ensino
e a Secretaria de Estado de Educação do Mato Grosso (SEDUC-MT0
e do Convênio nº 11, de 15 de dezembro de 2000, celebrado entre
a UNEMAT e a Fundação Nacional do Índio (FUNAI). As atividades pedagógicas intensivas ocorrerão
no Campus da UNEMAT localizado na cidade de Barra do Bugres-MT.
Os professores José Jorge de Carvalho e Rita Laura Segato,
em sua proposta de cotas e ouvidoria para a universidade de
Brasília, ilustram a inconsciência das universidades brasileiras
face à questão indígena pelo fato “dos primeiros quatro índios
brasileiros que neste momento se preparam para ser médicos somente
conseguiram ingressar numa Escola de Medicina de Cuba! Imaginemos
a situação: é uma faculdade cubana, que não dispõe nem minimamente
dos recursos com que contam universidades como a USP, a UNICAMP,
ou a UnB, que está ajudando o Brasil a saldar a sua dívida de
cinco séculos para com os índios brasileiros!” (Carvalho e Segato:
2001)
4.
A política
de cotas raciais poderia prejudicar a imagem profissional dos
funcionários, estudantes e artistas negros, porque eles serão
sempre acusados de ter entrado por uma porta diferente.
Ou seja, no momento das grandes concorrências as cotas
poderiam perigosamente estimular os preconceitos.
Pior ainda, sob pretexto de favorecer materialmente uma
população desfavorecida, essa política pode prejudicar os valores
mais respeitáveis: o orgulho e a dignidade da população negra.
Contra este tipo de argumento, eu diria que ninguém perde
seu orgulho e sua dignidade ao reivindicar uma política compensatória
numa sociedade que por mais de quatrocentos anos atrasou seu
desenvolvimento e prejudicou o exercício de sua plena cidadania.
Desde quando a reparação de danos causados por séculos
de discriminação prejudica a dignidade e o orgulho de uma população?
Os judeus têm vergonha em reivindicar a indenização das vítimas
do holocausto? Onde
estão o orgulho e a dignidade de uma sociedade que continue
a manter em condições de igualdade gritante um segmento importante
de sua população e que durante muitos anos continuou a se esconder
atrás do manto do mito da democracia racial?
As cotas não vão estimular os preconceitos raciais, pois
estes são presentes no tecido social e na cultura brasileira.
Discriminar os negros no mercado de trabalho pelo fato
deles terem estudado graças às cotas é simplesmente deslocar
o eixo do preconceito e da discriminação presentes na sociedade
e que existem sem cotas ou com cotas. Mas uma coisa é certa, os negros que ingressarão
nas universidades públicas de boa qualidade pelas cotas terão,
talvez, uma oportunidade única na sua vida: receber e acumular
um conhecimento científico que os acompanhará no seu caminho
da luta pela sobrevivência. Apesar dos preconceitos que persistirão ainda
por muito tempo, eles serão capazes de se defender melhor no
momento das grandes concorrências e nos concursos públicos a
exibir um certo conhecimento que não dominavam antes.
Abrirão com facilidade algumas portas, graças a esse
conhecimento adquirido e ao restabelecimento de sua auto-estima.
A história da luta das mulheres ilustra melhor o que
seria o futuro dos negros. A discriminação contra elas não foi totalmente
desarmada, mas elas ocupam cada vez mais espaços na sociedade
não porque os homens se tornaram menos machistas e mais tolerantes,
mas porque, justamente graças ao conhecimento adquirido, elas
demonstram competências e capacidades que lhes abrem as portas
antigamente fechadas. O racismo contra negros não recuou nos Estados
Unidos. Mas hoje, graças
ao conhecimento adquirido com cotas, eles tiveram uma grande
mobilidade social, jamais conhecida antes.
5.
Os responsáveis
das universidades públicas dizem que o ingresso de negros nas
universidades pelas cotas pode levar a uma degradação da qualidade
e do nível do ensino, por que eles não têm as mesmas aquisições
culturais dos alunos brancos. Mas, acredito que mais do que qualquer outra
instituição, as universidades têm recursos humanos capazes de
remediar as lacunas dos estudantes oriundos das escolas públicas
através de propostas de uma formação complementar. (Carneiro,
2002: p.23). Algumas universidades encaminharam propostas de projetos neste sentido,
solicitando recursos financeiros junto ao Programa Nacional
de Cor junto a UERJ, financiado pela Fundação FORD.
Finalmente, a questão fundamental que se coloca não é a cota,
mas sim o ingresso e a permanência dos negros nas universidades
públicas. A cota é apenas
um instrumento e uma medida emergencial enquanto se busca outros
caminhos. Se o Brasil na sua genialidade racista encontrar
alternativas que não passam pelas cotas para não cometer injustiça
contra brancos pobres – o que é crítica sensata – ótimo Mas dizer simplesmente que implantar cotas
é uma injustiça, sem propor outras alternativas a curto, médio
e longo prazo, é uma maneira de fugir de uma questão vital para
mais de 70 milhões de brasileiros de ascendência africana e
para o próprio futuro do Brasil. É uma maneira de reiterar o mito da democracia
racial, embora este já esteja desmistificado.
Os que condenam as políticas de ação afirmativa ou as cotas
favorecendo a integração dos afro-descendentes utilizam de modo
especulativo argumento que pregam o status
quo, ao silenciar as estatísticas que comprovam a exclusão
social do negro. Querem remeter a solução do problema a um futuro
longínquo, imaginando-se sem dúvida que medidas macroeconômicas
poderiam miraculosamente reduzir a pobreza e a exclusão social.
As cotas não serão gratuitamente distribuídas ou sorteadas
como os imaginam os defensores da “justiça”, da “excelência”
e do “mérito”. Os alunos
que pleitearem o ingresso na universidade pública por cotas,
submenter-se-ão às mesmas provas de vestibular que os outros
candidatos e serão avaliados como qualquer outro de acordo com
a nota de aprovação prevista.
Visto deste ângulo, os sistema de cotas não vai introduzir
alunos desqualificados na universidade, pois a competitividade
dos vestibulares continuará a ser respeitada como sempre.
A única diferença está no fato de que os candidatos aspirante
ao benefício da cota se identificarão como negro ou afro-descendente
no ato da inscrição. Suas
provas corrigidas, eles serão classificados separadamente, retendo
os que obtiverem as notas de aprovação para ocupar as vagas
previstas. Desta forma,
serão respeitados os méritos e garantida a excelência no seio
de um universo específico.