“A
linguagem é tão antiga quanto a consciência – a linguagem é
a consciência real, prática, que existe também para os outros
homens, que existe, portanto, também primeiro para mim mesmo
e, exatamente como consciência,
a linguagem só aparece com a carência, com a necessidade dos
intercâmbios entre os homens.”
MARX
& ENGELS. A ideologia alemã. São Paulo: Martins
Fontes, 1989. p. 26.
I. Língua,
História e Poder
Afirma-se
comumente que a linguagem verbal constitui fenômeno social.
O próprio Curso de lingüística geral, que pretende
apresentar a visão de Ferdinand de Saussure sobre a língua,
reitera diversas vezes tal afirmação. Porém, o consenso entre
os cientistas da linguagem interrompe-se quando da definição
do alcance, prioridade e implicações do proposto caráter social
da língua.
Dizer que
a “língua é um produto social” não impediu que, num claro
paradoxo, a Lingüística estruturalista transformasse a linguagem
humana em objeto abstrato ideal – langue –, se interessasse
nela apenas enquanto sistema sincrônico homogêneo e
rejeitasse suas manifestações concretas – parole
–, supostamente impossíveis de serem apreendidas cientificamente.
[SAUSSURE: 1995, 17]
Para Ferdinand
de Saussure e os lingüistas estruturalistas, hegemônicos durante
todo o século 20, os signos lingüísticos que conformam a língua
– langue – são associações “ratificadas pelo consentimento
coletivo” que têm sua sede no cérebro de cada um dos falantes
dessa língua. [SAUSSURE: 1995, 23.]
Portanto,
apesar de ser “social por natureza”, o signo seria um ente
arbitrário, escapando “sempre, em certa medida, à vontade
individual ou social, estando nisso o seu caráter essencial”.
[SAUSSURE: 1995, 25] Assim definido, o signo lingüístico surge
como algo essencialmente estranho e autônomo à prática social.
Língua,
poder e sociedade
A superação
desse paradoxo encontra-se na apreensão do sentido dado por
Saussure e pelos estruturalistas ao adjetivo “social”.
Para eles, o conceito tem um conteúdo vago, genérico,
ideal, quase abstrato, que evoca a união harmoniosa de indivíduos.
A língua seria uma espécie de consciência coletiva unificadora
dos indivíduos de uma comunidade lingüística.
A teoria
do signo elaborada por Ferdinand de Saussure e seus epígonos
opera uma ocultação permanente dos fatos sociais e ideológicos.
Em ruptura com ela, o lingüista soviético Mikhail Bakhtine
e outros estudiosos interpretaram a linguagem humana como
patrimônio comunitário em constante construção, que materializa
conteúdos determinados socialmente no espaço e no tempo. [BAKHTINE:
1977.]
A crítica
lingüística de Mikhail Bakhtine dissolveu as propostas sobre
o caráter arbitrário e, portanto, neutro do signo lingüístico.
Visão já corroída pelo fato das línguas, produtos de sociedades
heterogêneas e em conflito, não serem nem patrimônios inteiramente
comuns nem espaços neutros de comunicação, mas meios de interação
verbal, atinentes às esferas do exercício do poder.
Mikhail
Bakhtine lembra que “todas as linguagens do plurilinguismo
[...] são pontos de vista específicos do mundo, formas de
sua interpretação verbal, perspectivas referenciais, semânticas
e axiológicas.” Portanto, a “linguagem não é um meio neutro”,
jamais. [BAKHTINE: 1999, 113-4.]
Os signos
lingüísticos forjam-se no contexto de práticas sócio-comunicativas
sempre prenhes de determinações ideológicas, que se manifestam
nos próprios signos. Nesse processo, os signos lingüísticos
arrastam consigo as determinações e conteúdos de sua gênese
e de seu devir, em geral mais ou menos desconhecidos dos locutores
que deles se servem. Como não há linguagem neutra, não há
igualmente linguagem única.
Continuidade
e ruptura
“A categoria
da linguagem única” – lembra Mikhail Bakhtine
– “é expressão teórica dos processos históricos de
unificação e de centralização lingüística, forças centrípetas
da linguagem. A linguagem única não é ‘dada’, mas, posé
en principe e, em todos os momentos da vida da linguagem,
ela se opõem ao plurilinguismo.” [BAKHTINE: 1999, 95.]
No mesmo sentido, no plano histórico, Eric J. Hobsbawm
lembra que “as linguagem nacionais estandardizadas, sejam
escritas, sejam faladas, não teriam podido impor-se com esta
especificidade, antes da imprensa, da alfabetização em larga
escala e, conseqüente, da educação em massa.” [HOMBSBAWM:1991,
12.]
Mais do
que fato objetivo e histórico, a linguagem única é projeto
social excludente. “A cada época histórica da vida ideológica
e verbal, cada geração, em cada uma de suas camadas sociais,
possui sua linguagem; além disso, cada idade tem seu ‘falar’,
seu vocabulário, seu sistema de acentuação particular, que,
por sua vez, variam com a classe social, com o estabelecimento
escolar e segundo outros fatores de estratificação.” [BAKHTINE:
1999, 112.]
A linguagem
é profundamente determinada pelo momento histórico, pelas
contradições sociais e pelos conflitos ideológicos – de classe,
de gerações, de gênero, de grupos étnicos etc. Ela é produto
inconsciente, semi-consciente e consciente dessas contradições.
Sua função comunicativa possui também uma importante instância
de integração e de ocultação das contradições sociais.
Domínio
da ilusão
O aparente
caráter supra-histórico e supra-social do signo lingüístico
surge em grande parte da relação aparentemente unívoca
existente entre seu aspecto sonoro e sua vertente conceitual.
Tanto hoje como no momento de sua estabilização, os signos
lingüísticos – por exemplo, homem, morrer e
dor – expressariam conteúdos essencialmente invariáveis,
registro neutro da consciência subjetiva comunitária
de realidades objetivas dadas.
Por além
das aparências, os signos lingüísticos, profundamente determinados
pelos conteúdos sociais que os engendraram, ao perseverarem
através da história, assumem inevitavelmente novos conteúdos
e determinações, permanecendo, entretanto, mais ou menos prenhes
dos sentidos ensejados pelas realidades sociais que os produziram,
mesmo quando estas últimas foram definitivamente superadas.
A função
da linguagem como instância subjetivamente integradora de
comunidades locutoras objetivamente em contradição constrói-se
também sobre a suposta esterilidade-neutralidade ideológico-social
de um signo lingüístico, aparentemente sem gênese datada
nem devir histórico condicionado, proposta pelas leituras
estruturalistas da língua.
O processo
de compreensão da palavra do “outro” como “nossa” consubstancia
a determinação de nossa consciência pelos conteúdos imanentes
a ela. “[...] a palavra do outro não é uma informação, uma
indicação, uma regra, um modelo, etc., ela procura definir
as próprias bases do nosso comportamento e de nossa atitude
diante do mundo [...].”[BAKHTINE: 1999, 161.]
Sexo
e língua
A dupla
esfera do signo lingüístico materializa-se em contexto sócio-histórico
determinado. Através dos anos, sua instância significante
prossegue a jornada, assumindo e ampliando significados, ao
mesmo tempo que mantém conteúdos mais ou menos latentes,
produzidos quando de sua origem e consolidação inicial.
O signo lingüístico possuí espécie de patrimônio genético
que resiste a metamorfosear-se plenamente.
Em uma sociedade
patriarcal, a língua assume aparência e conteúdo patriarcal.
Em A origem da família, da propriedade e do Estado, Friedrich
Engels lembra que, antes mesmo da gênese da sociedade classista,
a primeira forma de opressão que surgiu na face da terra foi
a do homem sobre a mulher. [ENGELS: 1981]
Apesar do
critério sexual ser parte integrante de outras variáveis sociais
– classe, idade, profissão, etc. –, a origem patriarcal da
maioria das civilizações humanas deixou marcas concretas,
profundas e multifacetadas na estrutura e no uso da grande
maioria das línguas do mundo.
Na maioria
das línguas, o gênero feminino dissolve-se por detrás do masculino,
expressando ideologicamente a ocultação patriarcal objetiva
da mulher pelo homem. Assim, naturalizado no uso costumeiro,
o conceito lingüístico, através do caráter aparentemente abrangente,
sintético e neutro do gênero masculino, impõe sua essência
social, reforçando as relações de dominação patriarcal do
mundo real.
A costela
de Adão
Causa de
muitas dificuldades e ambigüidades comunicativas, a absorção
do gênero gramatical feminino pelo masculino não constitui
fenômeno lingüístico lógico, natural e universal, ainda que
assim se apresente para a consciência da imensa maioria dos
locutores. O caráter quase geral desse fenômeno é apenas um
dos elementos mais visíveis da dominação geral e milenar das
mulheres pelos homens.
O próprio
modo como os gramáticos e lexicógrafos explicam o funcionamento
das línguas constitui processo ideológico que reflete a ideologia
dominante sexista. Para Joaquim Mattoso Câmara Jr., “o masculino
e o singular se caracterizam pela ausência das marcas de feminino
e de plural, respectivamente [...] ambos [sendo] assinalados
por um morfema gramatical zero”. [CAMARA: 1970, 81.]
Na Gênese
[2, 21-25], a mulher formou-se do homem. “O Senhor Deus fez
com que o homem adormecesse [...]. Durante o sono, tirou-lhe
uma das costelas [...]. Da costela que tinha tirado [...],
o Senhor Deus fez a mulher e apresentou-a ao homem e este
declarou: “[...] aqui está alguém feito dos meus próprios
ossos e da minha própria carne. Vai chamar-se mulher; porque
foi formado do homem.”
Do mesmo
modo que, no mito bíblico, a mulher se fez dos ossos e da
carne do homem, na narrativa gramatical de Câmara Jr., o masculino
confundiria-se com o radical, essência da língua, que se flexionaria
– “curva-se” – para gerar o feminino, negando-se a
este último a possibilidade de estar integrado no estado original
da língua.
Simétricos
e assimétricos
A língua
evolui mais lentamente que o mundo social. Apesar da discriminação
sexual estar em processo de regressão relativa nas sociedades
mais desenvolvidas, a maioria das línguas continua apresentando
as marcas lingüísticas dessa opressão social e, assim o fazendo,
fortalecendo-a inexoravelmente.
Marx e Engels
pensavam também nas mulheres ao conclamarem os “Proletários
de todo o mundo” a unirem-se. Se o chamamento fosse “Proletárias
e proletários de todo o mundo, uni-vos!”, certamente exerceria
influência mais profunda, por mínima que fosse, na organização
das mulheres e na luta contra o sexismo no interior e no exterior
do mundo do trabalho.
São marcas
gritantes do sexismo lingüístico as dissimetrias entre os
gêneros masculino e feminino “que se escondem no sentido de
palavras aparentemente simétricas”. [YAGUELLO: 141 et passim]
Em muitas “grandes” línguas – é o caso do francês –, termos
relativos à profissão, funções públicas, cargos, etc. não
possuem femininos. E quando possuem, em geral masculino e
feminino são conotados diversamente.
Os grandes
dicionários do português do Brasil ensinam que a costureira
é a “mulher que costura amadorística ou profissionalmente,
especialmente roupas sociais”, enquanto que o costureiro é
“aquele que atua profissionalmente na costura” ou “que dirige
confecção de alta costura, criando roupas e acessórios exclusivos
e originais, expostos por modelos em desfiles, geralmente
glamorosos, cobertos pela imprensa mundial”. A mesma dissimetria
envolve a dupla lexical cozinheira-cozinheiro. [HOUAISS
2001: 855, 860]
Revolucionar
a língua
Em muitos
casos, a derivação de gênero feminino apresenta mais de uma
forma, para contemplar quer o cargo ocupado por mulher quer
a posição de esposa do homem que ocupa o dito cargo. São freqüentes
as ambigüidades provocadas pela dupla derivação genérica de
algumas palavras masculinas, tais como embaixador ou
imperador, por exemplo.
Como ocorre
com outros fenômenos sociais e ideológicos, a sociedade organizada
pode e deve intervir para suprimir e corrigir as desigualdades
lingüísticas. Em 1994, o Conselho Superior da Língua Francesa
da Comunidade Francesa da Bélgica – país trilingüe: francês,
holandês e alemão – feminizaram 1.500 nomes de profissão.
[CARBONI 1994.]
A progressista
reforma lingüística não foi acatada pela Academia Francesa,
da França, que a considerou “abusiva e chocante”, sem encontrar
contradição em que se prossiga, no francês padrão daquela
nação, denominando-se essencialmente com termos masculinos
profissões crescentemente ocupadas por mulheres – cirurgião,
escritor, médico, professor, sociólogo, etc.
Constituí
também vestígio exemplar da contradição social entre homens
e mulheres a falsa simetria entre os próprios conceitos de
homem e de mulher. Em todas as línguas românicas, o termo
usado para designar o ser humano de sexo masculino – vir
em latim – passou a ser identificado com o vocábulo que
designava a espécie humana (homo).
Língua
e ideologia
Nos dicionários,
a palavra “homem”, no sentido de “ser humano do sexo masculino”,
costuma ser conotado com traços humanos fortemente valorizados
– coragem; determinação; vigor sexual; força física e moral,
etc. O termo raramente é associada à união com a mulher. Para
tal, a língua dispõe de um outro signo: “marido”.
Ao contrário,
o termo “mulher” é fortemente polissêmico, servindo tanto
para referir-se ao ser biológico – no qual são centrais as
características ligadas à reprodução da espécie –, quanto
à “companheira conjugal” ou “amante” do homem, assumindo parte
de sua significação no contexto de relação/dependência ao
seu termo oposto – o homem.
As conotações
habituais e os campos semânticos aos quais o vocábulo “mulher”
é associado relacionam-se sobretudo com sexo, beleza física
e traços humanos pouco valorizados – fraqueza, leviandade,
etc. [HOUAISS:1975] Nesse sentido, a língua encobre o fato
de que a mulher foi submetida pelo homem devido à capacidade
produtiva e reprodutiva, e não a uma pretensa inferioridade
natural. [MEILLASSOUX: 1976, 47-60.]
O homem
faz sua história tendo consciência quando muito apenas parcial
de como e porque a faz. No mesmo sentido, ele produz a linguagem
com um grau de consciência muito limitado de sua construção
e dos sentidos de seu conteúdo. Nos fatos, se a essência e
a aparência dos fenômenos sociais coincidissem, as ciências
sociais seriam desnecessárias. Apenas através da crítica racional
e científica pode-se desvelar, mais e mais, os significados
e os conteúdos profundos dos fenômenos do passado e do presente.
Velho
e Novo
No mesmo
sentido, o mergulho na língua permite desvelar tendencialmente
os segredos internos de sua formação. Instrumento de expressão
da consciência, a língua é essencial nas ciências sociais,
em geral, e na historiografia, em particular.
Na descrição do mundo não importa apenas o que se diz,
mas também, e muito, como se diz. Nos fatos, o próprio dizer
encerra e determina, poderosamente, o dito.
Michel Löwy
lembra que “o conjunto do processo de conhecimento científico-social
desde a formulação das hipóteses até a conclusão teórica,
passando pela observação, seleção e estudo dos fatos [...]
é atravessado, impregnado, ‘colorido’ por valores, opções
ideológicas [...] e visões sociais de mundo.” [LÖWY: 1994,
199, 203]
Nas ciências
sociais, as opções ideológicas condicionam a escolha do objeto,
a argumentação científica e o valor cognitivo do discurso.
E, como assinalado, língua e ideologia nutrem-se reciprocamente,
em um contexto em que a primeira representa o principal veículo
da segunda, que, a sua vez, se materializa na e se alimenta
incessantemente da língua.
Para
além das categorias analíticas criadas especificamente para
as necessidades científicas, muitos dos conceitos essenciais
que as ciências sociais em geral e a historiografia em particular
utilizam na análise do mundo social constituem signos lingüísticos
criados no processo histórico que têm ou tiveram ampla difusão
e circulação pré e não-científicas.
O
novo e o novo
Forjados
em contexto comunicativo determinado, os signos lingüísticos
possuem significados que refletem recortes da realidade. Portanto,
encontram-se marcados, histórica, social e ideologicamente,
como já assinalado. É comum que esses signos registrem arqueologicamente
as relações de força existentes nas sociedades que os geraram.
Referindo-se
à interação dialética entre forma e conteúdo na arte, Ernest
Fischer lembrava que o surgimento do novo expressa as tendências
e necessidades emergentes determinadas pela superação do velho.
Que o novo não se determina plenamente enquanto não supera,
também, a velha forma.
"O
que chamamos de forma é o relativo estado de equilíbrio de
uma determinada organização, numa determinada disposição da
matéria; é a expressão da tendência fundamental conservadora,
da estabilização temporária de condições materiais.” “O conteúdo
incessantemente se transforma: às vezes imperceptivelmente,
às vezes em ação violenta. O conteúdo entra em conflito com
a forma, fá-la explodir, e criar novas formas nas quais o
conteúdo transformado encontra, por sua vez, a nova e temporária
expressão estável." [FISCHER: 1967, 143.]
Unidade
dialética
No
seu ensaio “O problema do conteúdo, do material e da forma
na obra literária”, Mikhail Bakhtine chama a atenção para
a unidade e oposição dialética entre forma e conteúdo, ao
propor que “o conteúdo e a forma interpenetram-se e são inseparáveis”,
nem que seja porque a expressão do conteúdo dá-se através
da forma que, por sua vez, objetiva e determina seu conteúdo.
[BAKTHINE: 1999, 47.]
Ao
descrever novos referentes, com vocábulos prenhes de sons,
vozes e determinações passadas, as ciências sociais velam
e consolidam, nem que seja parcialmente, as contradições sociais
que fundiram esses signos lingüísticos, ao invés de desvelá-las,
como é seu papel precípuo.
Com
a utilização de signos lingüísticos nascidos das tensões sociais
que se quer criticar, presta-se tributo aos próprios conteúdos
criticados. Na interação dialética entre conteúdo e forma,
essência e aparência, significante e significado, novos conteúdos
exigem novos ou mais precisos signos para sua explicitação
essencial.
2.
O Novo e o Velho: O “Índio” e o “Americano”
As
práticas escravizadoras e colonialistas européias ensejaram
visões classistas preconceituosas das sociedades americanas.
Mesmo quando dominou a colaboração relativa, não foi neutro
o olhar e, portanto, a produção lingüística européia sobre
o Novo Mundo e suas comunidades.
Os colonizadores lusitanos,
espanhóis, franceses, etc. estavam inseridos em tradição cultural
classista, expansionista e mercantilista que fazia tabula
rasa das culturas e civilizações com que entravam em contato.
Essa visão do mundo determinou os signos lingüísticos criados
ou determinados na exploração do Novo Mundo.
A
palavra “índio” é exemplo paradigmático. Inicialmente, ela
designou o habitante de territórios considerados erroneamente
como as costas extremo‑orientais das Índias. Portanto,
nasceu como substantivo pátrio gerado pelos enganos e ilusões
geográficas de Cristóvão Colombo [1451-1506] e de seus companheiros
de travessia.
Os
navegantes e colonizadores portugueses jamais participaram
dos desatinos geográficos de Colombo. Sabiam que o navegador
genovês não chegara na América, mesmo quando ainda não sabiam
onde havia chegado. Portanto, inicialmente, não se serviram
do termo “índio” para referirem-se aos habitantes do Novo
Mundo. [MAESTRI: 1995, 15-20; 35-40.]
Índios
do Brasil
Na
sua célebre carta ao soberano, escrita no litoral do atual
Brasil, o escrivão real Pero Vaz de Caminha utiliza quase
exclusivamente os termos “homens” [11] e “gente” [5] para
designar os tupi-guaranis com os quais se deparou. Ao se referir
depreciativamente aos nativos, sugeriu serem “gente bestial
e de pouco saber”. Não havia ainda termo que integrasse ao
homem americano a desqualificação que começava a ser objeto.
[GARCIA: 1983, 263.]
Seis décadas
mais tarde, a consolidação da ocupação do litoral do atual
Brasil e a produção açucareira, baseadas sobretudo na exploração
escravista da mão-de-obra americana, haviam ensejado uma nova
denominação do autóctone pelo colonizador. O novo denominativo
desqualificava o primeiro e elevava o segundo.
O
humanista, gramático e latinista Pero
de Magalhães de Gândavo viveu no Brasil em inícios dos anos
1560. Seu Tratado da Província do Brasil foi
um esboço à História da província de Santa Cruz, tida
como a primeira obra de cunho historiográfico sobre o Brasil.
Quando de sua possível estada nas capitanias da Bahia, Ilhéus
e São Vicente, dominava ainda indiscutivelmente a escravização
dos americanos que, nos anos seguintes, seria superada, nas
mais ricas capitanias açucareiras, pela feitorização de negro-africanos.
[RODRIGUES:1979, 425-433.]
Sem
vacilações, no Tratado da Província do Brasil, Gândavo
refere-se ao americano como “índio”, por mais de quarenta
vezes. Tão comum parece ter sido a denominação que, ao servir-se
dela, por primeira vez, não se sentiu obrigado a explicar
a significação: “Não há pela terra adentro povoações de portugueses
por causa dos índios que não no consentem [...].”
No mesmo livro, “gentio” surge, quatro vezes, como
sinônimo de “índio”. [GÂNDAVO: 1979, 65.]
Escravos
por natureza
Em geral,
Gândavo descreve o “índio” como possuidor de essência quase
inumana. “Finalmente que são estes índios mui desumanos e
cruéis não se movem a nenhuma piedade. Vivem como brutos animais
sem ordem nem conserto de homens. São mui desonestos e dados
à sensualidade e entregam-se aos vícios como se neles não
houvera razão de humanos: [...]. Todos comem carne humana
[...].” [GANDAVO: 1979, 208-7]
O mundo
feudal cristão de então retomara as visões platônicas e
aristotélicas apologéticas de que as pretensas qualidades
sub-humanas de povos incivis – viver como animas; não ter
governo; não ter razão; praticar a antropofagia, etc. –
justificavam sua escravização, devido suas pretensas essências
sub-humanas. Para Gândovo, o feitoramento do americano era
questão que não merecia discussão ou explicação. Como lembrava
Marx, naturalização ideológica produzida pela fortaleza
das relações sociais de produção dominantes “São formas
de pensamento socialmente válidas, portanto objetivas, para
as relações de produção deste
modo de produção social historicamente determinado [...[.”
[MARX: 1994, 108.
Na sua
forma erudita, o conceito “escravo”, utilizado por Gândovo
em forma isolada onze vezes, descreve em forma unívoca o
americano escravizado. Porém, ao utilizar por primeira vez
o termo, o autor assinala que se trata de “escravos índios”.
Na época, em Portugal, já dominava a escravização do negro-africano.
Gânavo enfatiza essa realidade, uma outra vez, ao referir-se
ao “escravo índio da terra”. [GÂNDAVO: 1979, 71;
135.]
Seis
vezes, o termo cativo é utilizado para assinalar os nativos
aprisionados pelas comunidades tupinambás. Registrando a expansão
em curso da escravização de negro-africanos na América lusitana,
o texto refere-se aos “muitos escravos de Guiné” que o autor
propunha serem “mais seguros do que os índios da terra porque
nunca fogem nem tem para onde”. Não há utilização da palavra
“negro” como sinônimo de escravo. [GÂNDAVO: 1975, 133.]
Nome
de gente
Gândavo
designa os colonizadores europeus pelos nomes próprios – Tomé
de Sousa, Vasco Fernandes Coutinho, etc. –; pela nacionalidade
– português –; pelo status – pobre –; pela função –
bispo, capitão, governador, ouvidor geral, padre, etc. –;
por conceitos gerais – “cristão”, “gente”, “homem”, “morador”,
“pessoa” e “vizinhos”, etc. Uma pluralidade de nominações
que enriquece a essência do colonizador referido.
O termo
“homem” é utilizado doze vezes para designar o europeu e duas
para nominar o americano. Uma, para realçar o gênero masculino,
em oposição ao feminino – “Algumas índias se acham nestas
partes que juram e prometem castidade e assim não casam nem
conhecem homem [...].” –; a outra, segundo parece, devido
a deslize humanizador do
autor – “[...] parece cousa estranha ver dois ou três mil
homens nus duma parte e doutra com grandes assobios [...].”
[GÂNDAVO: 1979, 215, 189.]
Vimos que,
ao contrário do conceito “homem”, “mulher” não descreve a
espécie humana em geral, mas apenas os seres pertencentes
ao gênero feminino, socialmente subordinado. No texto, o conceito
aparece uma vez relacionado à mulher européia e seis outras,
à americana. Na época, raras européias viviam na costa. [GÂNDAVO:
1979, 67 et passim.]
O conceito
“gente” é utilizado dezoito vezes, sobretudo para designar
o português, ainda que surja, aqui e ali, com sentido indeterminado
ou como sinônimo de “índio”. “Estes índios vivem mui descansados,
não têm cuidado de cousa alguma se não de comer e beber e
de matar gente [...].”
“Gente é esta mui atrevida e que teme muito pouco a
morte [...].” [GÂNDAVO: 1979, 217, 191.]
Brasis
gentis
O termo
gentio originou-se possivelmente do latim genetîvus
ou genitîvus – ‘da terra’. No século 13, já significava
características culturais desprestigiadas ou condenáveis pelos
europeus, como a condição de “selvagem” ou “pagão”. [HOUAISS
2001] O termo gentio aparece quatro vezes em Tratado
da Província do Brasil.
Os nativos nomeavam e diferenciavam perfeitamente as diversas
comunidades do litoral — tupinambás, tupiniquins, caetés,
etc. Porém, a nomeação e diferenciação eram tidas como atributo
dos ‘homem civilizado’. É radical a simplificação etnográfica
das populações americanas realizada por Gândavo. [NEVES, 1978:
45.]
Para Gândavo, “índio” era sinônimo de tupinambá/tupi-guarani,
apesar de jamais utilizar esses termos. O “aimoré” é a única
comunidade singularizada. E isso porque é apresentada como
singularmente desqualificada. “Vivem entre os matos como brutos
animais [...].” “Estes aimorés são mui feros e cruéis, não
se pode com palavras encarecer a dureza desta gente.” [GÂNDAVO:
1979, 95, 101.]
A designação lusitana dos habitantes da costa com termos genéricos europeus – brasis, índio,
gentio, etc. – registrou o desprezo para com as
comunidades autóctones, descritas em geral como formadas por
seres humanos incompletos. Os termos que os colonizadores
fundiram ou se serviram no processo colonial foram profundamente
determinados pela ideologia colonizadora.
Ato
de criação
No
alvorecer da civilização, enquanto vivia ainda o processo
de separação plena entre o sujeito e o objeto, entre o ser
e o conceito, o homem confundia o ato de nomear com o de criar.
Herança desse passado, desde a Antigüidade, os movimentos
de expansão colonial realizaram-se no contexto de reorganização
taxionômica dos povos conquistados.
A generalização lingüística
européia dissolvia as ricas e incômodas diversidades e individualidades
objetivas das comunidades americanas. Ou seja, reconstruía-se
a realidade, através da linguagem. Essas práticas ideológicas
e lingüísticas apoiaram e contribuíram à luta dos colonizadores
pelo controle do litoral brasílico.
Na América, o direito
de nomear levou os ingleses a batizarem o povo leni-lenapes
– ‘povo do início’ – como delawere, em honra de
um herói britânico, Lord de La Ware. Da recriação das comunidades
americanas, através de sua denominação, os colonizadores deduziam
direitos de posse sobre elas. [CALVET 1988: 81-82]
Paradoxalmente,
as categorias “índio”, “selvícola” e “selvagem” foram comumente
retomadas pela historiografia e pelas ciências sociais, mesmo
quando procuravam confrontar e dissolver explicitamente as
razões e narrativas que deram origem às conotações negativas
expressas nesses termos.
Civis
e incivis
No Brasil, com os anos,
os designativos “brasil” e “gentio” caíram em desuso, ultrapassados
pelo conceito “índio”, com o sentido de homem pré-moderno,
atrasado, ingênuo e preguiçoso. Menos comumente, “selvagem”
e “selvícola” foram também utilizados para circunscrever o
americano.
Nas últimas décadas,
devido a sua conotação explicitamente pejorativa, o termo
“selvagem” caiu em desuso nas ciências sociais como designativo
do homem americano, permanecendo, ao contrário,
o uso das categorias
“selvícola” e, sobretudo, “índio”.
“Selvícola” e “selvagem”
são termos tardios, gerados pelos habitantes da “urbs” – civilizado
–
para designar os “habitantes da selva” – não civilizados.
Apesar de possuir diversa origem, o conceito “índio”
absorveu os conteúdos de “selvícola” e “selvagem”, já que
descreve, sobretudo, o homem vivendo na “floresta” ou na “selva”.
A categoria “índio” surgiu
de equívoco geográfico e homogeneizou a pluralidade e diversidade
das comunidades americanas. Ela é igualmente imprópria como
designação de comunidades domésticas aldeãs – como as tupis
– nas quais a horticultura possuía caráter dominante. [MEILLASSOUX,
1977: 64.]
Índios europeus
A categoria “índio”,
como vimos, intimamente associada à condição de “selvagem”,
ressalta as práticas caçadoras, guerreiras e nômades do ser
abstrato que sugere, em detrimento das atividades horticultoras,
e portanto transformadoras da natureza, que dominavam seres
concretos e historicamente determinados como os tupis, pertencentes
a comunidades produtoras de alimentos.
O
termo estabelece analogia automática e inconsciente entre
os atos humanos dos “índios” e a agressividade, o padrão de
deslocamento e as práticas caçadoras dos animais predadores.
Tanto o “índio” como a “fera” são “selvagens”, ou seja, habitantes
das selvas. É igualmente comum que ao substantivo “índio”
agreguem-se os adjetivos “feroz” e “selvagem”.
Apresentando‑se
o “tupi” como “índio”, dilui‑se igualmente o fato de
que ele era, sobretudo, um morador e um produtor aldeão, portanto,
um ser eminentemente social. Que, como acabamos de assinalar,
o ato produtivo consciente era o principal mediador de suas
relações com a natureza e com os seus semelhantes.
Antes do início de nossa
era, comunidades germânicas assentaram essencialmente sua
subsistência material em uma horticultura itinerante muito
semelhante à conhecida pelos tupinambás. [CHILDE, 1964: 71.]
No entanto, a historiografia européia escandalizaria-se se
tratássemos as populações horticultoras britânicas, gaulesas,
germânicas, etc. como “índios” europeus. Indignação que,
paradoxalmente, não nasceria da evidente incorreção geográfica,
mas da pretensa impropriedade analógica essencial.
Impropriedade
conceitual
Com a categoria “índio” nivelou-se indiscriminadamente o
homem americano: o aimoré, o tupi, o mapuche, o inca, etc.
Ou seja, o caçador‑coletor, o horticultor de plantação‑enxertia
e, até mesmo, o agricultor cerealífero que construiu Tenoxtitlan,
de igual nível civilizatório que as comunidades da Antigüidade
mediterrânea.
Como já assinalado,
as ciências sociais — sobretudo a Antropologia —apropriaram‑se
de muitos conceitos fusionados em épocas coloniais e imperialistas,
apesar das determinações inerentes aos mesmos,
para construir, com eles, parte do aparato categorial
utilizado no estudo das sociedades pré‑classistas não‑européias.
Devido aos
seus significados e conteúdos (des)valorativos, o uso de categorias
como “tribo” e “índio” comprometem os próprios conteúdos essenciais
das narrativas contemporâneas sobre as comunidades domésticas
aldeãs americanas.
Nesse sentido, por exemplo,
ao designamos genericamente os habitantes nativos das Américas
como “americanos” e não com “índios”, efetuamos importante
deslocamento semântico. Com essa denominação, por um lado,
superamos os conteúdos subjetivos desumanizadores incrustados
na categoria “índio”. Por outro,
enfatizamos a unidade histórica do gênero humano, ao
diferenciar apenas geograficamente o “americano” do
“europeu”, do “asiático”, etc. E, finalmente, remarcamos o
fato histórico objetivo, que as narrativas coloniais procurar
enfraquecer, do ser referido ter sido os primeiro habitante
da América.
3. O Novo e o Velho:
o Negro e o Trabalhador Escravizado
Mais comumente, as classes
escravistas coloniais auto-denominavam-se de “amos”, “senhores”
ou “proprietários”. Por sua vez, os trabalhadores escravizados
eram chamados de “escravos”, “pretos”, “negros” e “cativos”.
Essas denominações têm sido retomadas acriticamente por praticamente
toda a historiografia contemporânea.
Esse procedimento acrítico
é compreensível no caso de historiadores com vínculos ideológico-culturais
com as classes escravizadoras do passado. Ele não o é, definitivamente,
no de cientistas sociais que procuram interpretar as sociedades
escravistas a partir de ótica que permita ultrapassar suas
aparências fenomenais.
Como vimos, o processo
de desvelamento essencial do passado compromete-se nem que
seja parcialmente com a utilização de categorias prenhes de
significações que se procura superar. A compreensão crescentemente
essencial do passado passa também pela articulação do real
através das palavras. [CALVET 1988: 82]
O sentido profundo da palavra “escravo” [oikeus →
servus → escravo] plasmou-se em
torno da visão aristotélica da escravidão. No século quarto
antes de nossa era, pensadores como Platão e Aristóteles abordaram
a questão servil em suas obras, sem dedicar nenhum de seus
escritos especificamente à questão.
Um escravo é um escravo
Nos fatos, mesmo quando se referiram à instituição, não
abordaram a questão do aspecto moral e social
da servidão plena. Numa época em que a escravidão consolidara-se
como uma das bases essenciais das relações de dominação, sua
existência era compreendida como parte da ordem natural das
coisas.
Ao explicar a incapacidade de Aristóteles de apreender o
valor das mercadorias como expressão do trabalho humano, Marx
lembrava que a incompreensão do grande pensador não se devia
a lapso individual mas sim a barreiras sócio-históricas, na
época intransponível.
Marx assinalava que “a sociedade grega apoiava-se no trabalho
servil e portanto tinha como base natural a desigualdade
dos homens e da força-trabalho”. Assim sendo, as representações
senhoriais naturalizavam as desigualdades sócio-objetivas
que sustentavam a sociedade de classes. [MARX: 1994,
92.]
Que um senhor fosse um senhor, e um escravo, um escravo,
eram realidades que não exigiam discussão ou justificativa,
no mundo grego escravista. Porém, nos limites determinados
pela história, mesmo discutindo tangencialmente a escravidão,
Platão e Aristóteles influenciaram profundamente o pensamento
feudal, moderno e contemporâneo sobre a escravidão.
Gregos e bárbaros
Platão [c.428- c.347] olhava com maus olhos a servidão dos
helenos e considerava normal a redução plena do estrangeiro
ao escravizador grego. Na sua república ideal, o liberto –
infamado pela escravidão – jamais se tornaria um cidadão.
Deveria, portanto, após algum tempo, abandonar
a República. Para ele, a escravidão de um indivíduo
ou de um povo devia-se a incapacidade de auto-governar-se,
por falta de discernimento intelectual, cultural e moral,
qualidade que via como exclusiva do mundo helênico. Porém,
Platão jamais se colocou a questão da origem última da escravidão.
Para Platão, “aqueles que são comprados ou obtidos em forma
semelhante, devemos incontestavelmente chamar-lhes de escravos”.
Ou seja, o escravo legalmente obtido, era propriedade garantida
pela lei. [PLATÃO, Politico, 289 d.]
Sobretudo, ele examina a relação do escravizador com
o escravizado, que propõe como necessariamente autoritária.
Na República, defende que o homem “educado perfeitamente
despreza seus escravos”. [Platão, Político, I 13.12604-7.]
Sobretudo na Política, Aristóteles [384-322] retomou,
desenvolveu, aprofundou e superou as visões platônicas da
escravidão. Sua racionalização das visões dos escravizadores
sobre o fenômeno teria grande impacto cultural, ao ser recuperada
e reelaborada, séculos mais tarde, pelos escravistas da Idade
Média e dos Tempos Modernos. Ela fundou a visão ocidental
da escravidão.
Escravo por natureza
Para Aristóteles, os homens associam-se à procura de um
bem. Nesse processo, a reunião de diversas famílias formava
um burgo e a associação de diversos pequenos burgos, a cidade,
ou seja, a sociedade política. Tal associação era determinada
pela própria natureza, que compelia a “todos os homens a se
associarem”, na procura do “verdadeiro fim das coisas”. Ou
seja, a felicidade. [ARISTÓTELES: 1957,
I 1]
Segundo
o filósofo, a família, núcleo de base da ordem social, seria
formada, quando “completa”, por homens livres e por homens
escravizados.
Porém, para ele, a escravidão não nasceria da lei,
nem a arte do senhor de mandar nos cativos seria uma “ciência”,
como muitos haviam proposto anteriormente. [ARISTÓTELES: 1957,
II 1,3]
Aristóteles
rompia com a tese platônica da escravidão baseada na lei.
Para ele, era inaceitável que um homem fosse submetido a outro
apenas pela força e que a submissão se mantivesse apenas pela
força, conforme a interpretação tradicional na Grécia Homérica
e presente em sua época. Logicamente, um direito mantido pela
força podia, moral e legalmente, ser questionado, através
da força.
Aristóteles
reforçou a ideologia escravista ao propor raízes naturais
e, portanto, genético-racial ao escravismo. Segundo ele, a
natureza criara as coisas diferentes, na procura da especialização,
já que o melhor “instrumento” era o que serve para “apenas”
um “mister”, e não para muitos. Assim, seres de essências
diversas complementam-se, cada qual desempenhando a função
para a qual era criado, pela natureza, na consecução de fins
que lhes eram comuns. Ou seja, a escravidão garantia a felicidade
do amo e do cativo. [ARISTÓTELES: 1957,
I 5]
Desigualdade
Natural
Portanto,
a hierarquização social dos seres nascia e obedecia a natureza.
Assim sendo, os seres naturalmente mais elevados comandavam
os natural e objetivamente menos perfeitos. “A autoridade
e a obediência não só são cousas necessárias, mas ainda [...]
úteis. Alguns seres, ao nascer, se vêem destinados a obedecer;
outros, a mandar.” [ARISTÓTELES: 1957,
II 8]
Eram
determinações da natureza que o pai dominasse o filho, o homem
a mulher, o senhor o escravo. “[...] e a todos os animais
é útil viver sob a dependência do homem. Os animais são machos
e fêmeas. O macho é mais perfeito e governa; a fêmea o é menos,
e obedece. A mesma lei se aplica naturalmente a todos os homens.”
[ARISTÓTELES: 1957,
II 1 2]
Refutando
o direito da servidão nascida da força, em prol da servidão
originada na inferioridade natural do ser escravizado, Aristóteles
consolidava poderosamente a ordem escravista, negando o direito
à escravização do grego e a validade do bárbaro de lançar
mão à violência para emancipar-se pela força. O escravo
que se rebelava contra o senhor rebelava-se contra
a sua natureza e a ordem das coisas.
Aristóteles
racionalizava a escravidão, ao hierarquizar o desenvolvimento
humano. “Há também, por obra da natureza e para a conservação
das espécies, um ser que ordena e um ser que obedece. Porque
aquele que possui inteligência capaz de previsão tem naturalmente
autoridade e poder de chefe; o que nada mais possui além da
força física para executar, deve, forçosamente obedecer e
servir – e, pois, o interesse do senhor é o mesmo que o do
escravo.” [ARISTÓTELES: 1957,
I 4.]
Signori
si nasce
A inferioridade
dos “animais domésticos”, que serviriam com “sua força física”
aos escravizadores nas “necessidades quotidianas”, materializaria-se
nos seus próprios corpos de brutos. “Há na espécie humana
indivíduos tão inferiores a outros como o corpo o é em relação
à alma, ou a fera ao homem; são os homens nos quais o emprego
da força física é o melhor que deles se obtém. [...] tais
indivíduos são destinados à escravidão [...].” [ARISTÓTELES:
1957,
II 13]
Para
Aristóteles, a natureza escrava, espelho da alma, expressaria-se
na natureza física do cativo: “A própria natureza parece querer
dotar de característicos diferentes os corpos dos homens livres
e dos escravos. Uns, com efeito, são fortes para o trabalho
ao qual se destinam; os outros são perfeitamente inúteis para
serviços semelhantes, mas são úteis para a vida civil, que
assim se acha repartidas entre os trabalhos da guerra e os
da paz.” [ARISTÓTELES: 1957,
I 12]
Coerente
com sua naturalização da dominação, Aristóteles opunha-se
a Platão, para quem a arte de mandar no escravizado era uma
“ciência do amo”, que devia ser aprendida. Para ele, essa
arte era inata,
já que o “instinto de mando” constituía a própria essência
na natureza senhorial: “O poder do amo não se ensina; é tal
como a natureza o fez [...].”[ARISTÓTELES: 1957, . I,5; II.22]
A
escravidão decorria da ordem das coisas. A natureza de homem
livre proibia sua redução à escravidão, mesmo na guerra. Ao
contrário, a escravidão era o status ideal do bárbaro,
em geral, naturalmente incapaz de governar-se. Era
a natureza, e não a contingência, que definia o status
social do homem que nascia com o destino de comandar ou
ser comandado. [ARISTÓTELES: 1957,
I, 5, 1-11]
Guerra
justa
Nesse
contexto geral, a submissão de homens inferiores justificava
a própria violência, já que enquadrava a desordem social à
ordem natural. “[...] porque a arte da caça é apenas uma das
suas partes, aquela da qual se serve o homem contra as feras
ou contra outros homens que, destinados por natureza a obedecer,
recusam submeter-se; assim, a própria natureza desculpa a
guerra.” A violência seria a reposição do equilíbrio natural
ameaçado pela existências de homens vivendo em liberdade sem
condições para tal. [ARISTÓTELES: 1957, III 8]
A
alta qualidade natural do grego e a baixa qualidade essencial
do bárbaro, transmitidas dos pais aos filhos, reproduzia ad
eternam as classes em questão. E quando a “natureza” não
alcançava a impor essa reprodução de qualidades, por ela desejada,
os raros casos desviantes podiam ser solucionados com uma
emancipação do ser escravizado que restabelecia a ordem escravista,
desequilibrada pela exceção à regra.
Aristóteles
abria espaço para a contradição singular entre a natureza
servil do homem inferior e o status servil, no qual
podia cair um homem superior, ao lembrar que “as palavras
escravidão e escravo” eram “tomadas em sentido
diferentes. Segundo a lei” haveria “escravo e homem reduzido
à escravidão”. O primeiro, seriam cativo por natureza,
ou seja, escravo; o segundo, seriam apenas um homem
escravizado, devido à derrota na guerra. [ARISTÓTELES: 1957,
II 16]
A interpretação
aristotélica da natureza “escrava”, que
se apoiava na visão unitária, mas não igualitária,
da espécie humana, assinalada por Marx,
expressava a visão senhorial de sua época. Ela consolidou-se
na Idade Média e, sobretudo, nos Tempos Modernos, quando os
escravizadores depararam-se com um homem/mulher que ‘comprovava’
– na cor, feições, cultura, etc. – sua natural inferior e
destino à escravidão. Esse era, na acepção da palavra, “escravos”
e não “homens escravizados”.
Linguagem
senhorial
Não apenas
nesse sentido o termo “escravo” é pouco pertinente como categoria
científica, ao denominar um ser de essência servil. Em verdade,
essa denominação, de origem essencialmente senhorial, era
também pouco usada pelos trabalhadores escravizados que, até
onde nós é possível perceber, no mundo luso-brasileiro, se
auto-denominavam, mais comumente, como cativos.
Mesmo que muitas das
auto-denominações dos trabalhadores escravizados no Brasil
estejam possivelmene perdidas para sempre, uma pesquisa de
suas formas de auto-nominação certamente desvelará conceitos
mais ou menos desconhecidos, como “pai”, “mãe”, “malungo”,
etc., que serviam para os objetos da escravidão
resgatarem-se como sujeitos sociais.
Na escravidão, o termo “pai/mãe” era utilizado
comumente para apelidar as pessoas mais idosas, como é habitual
nas sociedades domésticas africanas, onde esses termos referem-se
aos próprios genitores e a todos de sua geração. Os africanos
embarcados na costa angolana chamavam de malungo –
camarada, companheiro, parceiro –, em geral, os companheiros
de viagem e, em particular, aqueles junto aos quais vinham
acorrentados.
Esse termo pode estar
ligada ao quimbundu ulungu [embarcação]; ou ao quimbundu
maluga [camarada]. Propõe-se também que derive da mescla
de termos bantus: malunga [plural de lunga –
‘homem’, ‘marido’]; malungu [plural de lungu
– ‘sofrimento’] e madungu – ‘pessoa desconhecida’.
[HOUAISS 2001]
Palavra
nova
A categoria “escravo”
é de introdução recente nas línguas européias. Na Antigüidade
romana, o homem e a mulher escravizados eram denominados de
“servus”, “ancilla”, “mancipia”, “criatio”, “homines”.
A primeira forma era, de longe, a dominante.
Na Europa, após a crise
do Mundo Antigo, foi tão lenta a metamorfose do trabalhador
escravizado em trabalhador feudal que não se plasmou nova
categoria para descrever a nova forma de subordinação. O produtor
direto adstrito à gleba, gozando de direitos de uso sobre
ela e de certos graus de liberdade diante do explorador, prosseguiu
sendo denominado de “servus”.
Também
não houve modificação no apelativo das classes exploradoras.
Na Antigüidade e nos tempos medievais, elas se auto-denominavam
sobretudo de “senhor” e de “amo”.
“Senhor” originou-se de “senĭor”, comparativo
de “sĕnex” – ‘velho’. Originariamente, esse substantivo
opunha-se a “junĭor” e
cunhava a idéia de autoridade nascida da prevalência e antigüidade
nas relações parentais ou linhageiras.
Vimos
que Aristóteles propunha que o poder do pai, sobre os filhos,
era um “poder real”, nascido da autoridade natural do “ser
mais velho e mais perfeito” sobre o “ser incompleto e mais
jovem”. [ARISTÓTELES: 1957, iv, 7.] Na Europa, até o século
XI, devido ao peso da língua latina e do direito romano, o
trabalhador doméstico escravizado continuou sendo designado
por nomes originados das apelações latinas, sobretudo de “servus”.
O que não deixava de causar graves confusões.
A
força da necessidade
Sem
grandes variações, os vocábulos de origem latina “amo” e “senhor”
também geraram vocábulos correspondentes nas diversas línguas
neolatinas, sem causar grandes confusões semânticas, já que
significavam, como no passado, posse, domínio, propriedade,
sobre homens e bens materiais. Em fins do século 10, esse
processo de transição realizara-se plenamente.
No ano 1000,
as relações escravistas, subordinadas, reforçaram-se, determinando
a falta de denominação que expressasse a subordinação plena
do produtor, descrita no passado com a categoria “servus”,
que agora referia o produtor feudal hegemônico, o “servo”.
[DOCKÈS : 1979, 19.]
A chegada,
em grande número, nas cidades cristãs do Mediterrâneo, de
homens e mulheres escravizados, capturados ou comprados em
países longínquos, generalizou o uso do nome étnico como termo
genérico de designação da condição de cativo. Mesmo se, por
muito tempo, os termos latinos continuassem sendo utilizados,
perpetuando a ambigüidade entre a servidão doméstica medieval
e a servidão plena romana. [HEERS 1981: 16]
Sobretudo
nas línguas ibéricas, o fato de que, na maioria dos casos,
o “escravo” fosse um prisioneiro capturado durante uma guerra,
determinou que o termo latino “captiva-captivus” – “catiau”
em latim vulgar – foi comumente usado para designar o homem-mulher
sujeito à servidão plena. [HEERS 1981: 24]
Escravos
escravizados
Os etnônimos
que serviam para designar esses cativos variavam em função
da nacionalidade dos países europeus que praticavam a captura
e a submissão de homens e mulheres através da guerra e da
pirataria. Nas penínsulas ibérica, os muçulmanos escravizados
eram chamados de “maurus”, na itálica, de “sarracenus”.
No entanto,
foi uma outra apelação que se consolidou como sinônimo de
“servus” na maioria das línguas. As guerras
de Otão I, o Grande [912-973], duque da Saxônia, inundaram
a Europa – a Itália sobretudo e mais especificamente o Vêneto
– com cativos trazidos da Esclavônia [nos Balcãos, nas regiões
da Sérvia], com a denominação étnica de sclavu(m).
Com os anos,
o termo sclavu(m) – “escravo” – perdeu o sentido
nacional original e, por antonomásia, passou a denominar todos
os seres submetidos à servidão plena, denominado de “servus”
na Antigüidade e na Idade Média.
Na Lusitânia,
o uso do designativo “escravo” foi mais tardio que em outros
países da Europa. Para os cristãos ibéricos, o “mouro”
era o habitante da Mauritânia, ou seja, das regiões do
Saara Ocidental de onde chegaram grande parte das tropas que
invadiram a Península Ibérica em 711. A seguir, o apelativo
foi estendida aos muçulmanos, originários ou não da África.
Uso tardio
Com a guerra
da Reconquista, o homem e a mulher escravizados por “senhores”
ibéricos foram designados de “mouro” e “moura”. Tamanha foi
a dominância da feitorização do “mouro” na península ibérica
que o termo passou a descrever genericamente o ser reduzido
ao cativeiro. Essa denominação originou o vocábulo “mourejar”
ou “moirejar” – trabalhar como um “mouro”, isto é, como “cativo”.
Tamanha
foi essa impregnação semântica que o muçulmano livre, alforriado
ou cativo eram designados como “mouro livre”, “mouro forro”
e “mouro cativo”. Como assinalado, sem adjetivo, “mouro” designava
sobretudo o indivíduo sujeito ao cativeiro. Quanto aos primeiros
negro-africanos desembarcados em Portugal, eles foram denominados
de “mouros negros”.
Se
a impropriedade da designação dos negro-africanos como “mouros
negros” era profunda quando eles chegavam da África Negra
não islamizada, ela crescia quando se convertiam ao cristianismo.
Então, eles eram designados de “mouros”, apesar de serem cristãos,
sem jamais terem sido muçulmanos, e de não provirem da Mauritânia!
Em
Portugal, no século 15, “negro” designava “de forma genérica,
todos os tipos raciais de pele morena” Originalmente, também
os mouros foram designados de negros. Designativo que se explica
pelo caráter normando – ou pretensamente normando – de boa
parte da aristocracia feudal que participou e se locupletou
da Reconquista. [TINHORÃO: 1997,
47 et seq]
Negros
e pretos
Quando
multidões de negro-africanos começaram a chegar a Portugal,
eles foram denominados de “homens pretos” e “mulheres pretas”
e, a seguir, simplesmente de “pretos” e “pretas” devido à
cor “negra” mais intensa, em relação aos mouros. Como todos
os “pretos” e “pretas” que chegavam a Portugal eram
cativos, oo designativo passou a descrever o afro-descendente
escravizado.
Ao
que tudo parece, até mesmo na península itálica, onde o cativo
proveniente da África negra permaneceu uma exceção, os termos
“negro”, “preto” ou “mouro preto” remetem genericamente à
escravidão. Os africanos e afro-descendentes não sujeitos
ao trabalho compulsório eram designados como “preto livre”
e “preto forro”. [TINHORÃO: 1997, 77 et seq].
Versada
em linguagem erudita, as Ordenações Afonsinas foram
coligidas no reino de dom Afonso V [1446-1481], quando os
negro-africanos escravizados começavam a sar abundantemente
desembarcados em Portugal. Elas legislam sobre os “mouros”
–
muçulmanos livres vivendo no Reino –
e sobre os “mouros cativos”. [AFONSINAS: 1984]
Em
1514 e 1525, a substancial ampliação das Ordenações Afonsinas
resultou na copilação das Ordenações Manuelinas que
se expandiram com as Leis estravagantes, até 1569.
Nesses livros, num registro da evolução ocorrida em Portual
no respeito à dominância da mão-de-obra, o negro-africano
escravizado é denominado de “escravo” e a palavra “mouro”
volta a ser sinônimo de muçulmano. [SAUNDERS: 1982, 158.].
Escravos
em geral
Com a decrescente
importância da escravidão moura, “negro” tornou-se crescentemente
sinônimo de trabalhador escravizado. Assim sendo, nos primeiros
anos após a ocupação territorial da América lusitana, os nativos
americanos escravizados, apesar de sua cor, eram denominados
de negros da terra. [MONTEIRO: 1994.]
Em
Portugal, não houve abrupta ruptura de continuidade ou
de qualidade entre o cativeiro do “mouro” e
do “negro-africano”. Ao contrário, por longo tempo, mouro
da península ibérica ou na África e negro-africanos conviveram
como trabalhadores escravizados.
Concluída
em meados do século 16, a transição da dominância da escravidão
moura para a negro-africana processou-se devido à maior
oferta de negro-africanos, que começaram a ser trazidos desde
as costas ocidentais da África, a partir de 1444.
Secundariamente,
a dominância do cativo “negro-africano” deveu-se à
maior facilidade da submissão relativa. O “mouro” encontrava-se
mais próximo dos seus “territórios nacionais”, para onde costumava
fugir, e possuía complexo religioso-cultural concorrente ao
luso-cristão, no qual apoiava sua resistência passiva e ativa.
[BRAGA: 1999.]
A representação
e o signo
Ao
contrário, o cativo negro-africano encontrava-se muito longe
de sua terra natal e possuía nível civilizatório relativamente
menos desenvolvido. Mais ainda, sua cor diferenciava-o facilmente
do lusitano, facilitando seu controle policial e, sobretudo,
ensejava discursos justificativos sobre sua submissão apoiados
no princípio aristotélico da inferioridade objetiva e na diversidade
física
do “escravo” por natureza.
O
primeiro registro escrito do termo “escravo” teria ocorrido
nos anos 1450. Porém, por longo tempo, ele constituíria forma
erudita. Quando de uso corrente, o termo “escravo” passaria
a significar “apenas posição servil [plena], sem qualquer
conotação religiosa” ou racial. Em oposição aos “escravos
pretos” ou “negros”, os “escravos mouros” passaram também
a ser designados de “escravos brancos”. [PIMENTEL: 20;
SOUNDERS: 1994, 13.]
Em
1781, lia-se em documento oficial lusitano: “Eu El-Rei faço
saber aos que este alvará virem que sendo-me presentes os
insultos, que no Brasil cometem os escravos fugidos,
a que vulgarmente chamam calhambolas, passando a fazer o excesso
de se juntarem em quilombos, e sendo preciso acudir com remédios
que evitem esta desordem: [...].” [MACHADO
FILHO: 1964, X. Destacamos.]
A
análise histórica e linguística assinala que as categorias
sociais, engendradas pelos dominadores, nascem prenhes de
significados justificativos que se aderem, em
menor ou maior grau, aos respectivos significantes,
mesmo quando já se perdeu a consciência de sua gênese, jamais
neutra e pacífica.
Manuel
Querino
Ainda
que marginal, é antiga a consciência nas ciências sociais
brasileiras da necessidade de superar o conteúdo historicamente
determinado da linguagem categorial para descrever, desvelar
e explicar os referentes essenciais que determinaram o nascimento
ou o condicionamento dos signos lingüísticos. Manuel Querino
foi um dos pioneiros dessa investigação.
Manuel Raimundo
Querino nasceu em julho de 1851, na Bahia, morrendo aos 72
anos, em Salvador. Descendente de cativos, foi voluntário
na Guerra do Paraguai, e, entre outras funções, desempenhou-se
como pintor de paredes, estudante, jornalista, professor de
desenho geométrico, funcionário público. [CASCUDO: SD,
547]
Em 1918,
Manuel Querino, registrou no ensaio O colono preto como
fator de civilização brasileira a impossibilidade de apresentar
uma crítica essencial da realidade histórica, servindo-se
de categorias geradas no próprio processo de exploração que
se procura superar teoricamente. [QUERINO: 1954, 12.]
O colono
preto como fator de civilização brasileira constitui uma
tentativa de síntese sociológica, em diversos pontos revolucionária,
sobre o passado escravista brasileiro. Nesse breve trabalho,
Manuel Querino aponta o luso-brasileiro como um ser parasitário,
desorganizado para o trabalho, vivendo às custas do esforço
do africano escravizado.
À procura do conceito
Seu ensaio constitui um elogio permanente da qualidade laborativa
e civilizadora do africano, apresentado como “herói do trabalho”,
verdadeiro construtor da nacionalidade brasileira. Para o
autor, a “confiança no trabalho próprio” teria sido igualmente
o grande caminho seguido pelo cativo para libertar-se, no
seio da própria escravidão.
A análise
do escravismo colonial brasileiro de Querino objetiva sobretudo
contribuir ao resgate do afro-descendente de sua época, em
geral, e do operário negro, em especial. O pensador negro
voltou-se sobre o negro-africano escravizado com os olhos
fixos no seu descendente, o afro-brasileiro.
No ensaio
de Querino, destaca-se a permanente procura, não estabilizada,
de categorias descritivas capazes de desvelarem e circunscreverem
a verdadeira essência do “negro” e do “escravo” enquanto trabalhadores
produtivos, criadores de riquezas, das quais participavam
apenas muito parcialmente.
Manuel Querino
designa correta e repetidamente o habitante da África como
“africano”, e não se refere a ele anacrônica e ideologicamente
como “negro”, conceito que utiliza apenas cinco vezes em toda
a sua obra.
Solução
verbal
Poucas décadas
antes, o termo “africano” era sinônimos habitual de “escravo”.
Para designar o trabalhador escravizado no Brasil, o autor
serve-se comumente da categoria “africano”, que utiliza, ao
todo, quatorze vezes. Ao contrário, usa menos freqüentemente
o conceito “africano escravo” [3]
e “africano escravizado” [1].
Manuel Querino
lança mão apenas cinco vezes à categoria “escravo”, em forma
isolada, para referir-se ao trabalhador africano ou afro-descendente
feitorizado. Porém, usa normalmente o termo para falar do
“escravo” romano e grego. Em geral, para substituir o termo
“escravo”, serve-se da categoria “colono negro” ou “colono
preto” [4] e ainda “herói do trabalho” [3]. Usa também os
termos “negro” ou “preto” [6].
“Colono
preto” é solução pertinente para a antagonização que propõe
do produtor direto africano e afro-descendente ao “parasita”
explorador, o “colono branco”. Possui igual funcionalidade
ao aproximar ao trabalho criador do negro-africano escravizado
do colono europeu, objeto da retória apologética racista da
época.
Porém, a
categoria “colono preto” possui o handicap negativo
de não expressar a forma historicamente dada da opressão que
aquele produtor direto sofria – a escravização. E, assim o
fazendo, permite a confusão entre o trabalhador escravizado
de origem africana com o camponês negro livre, de antes e
de após 1888.
Na
África não há negros
Criativamente,
Manuel Querino serve-se do particípio passado para descrever
o homem e a mulher submetidos à escravidão – “africano escravizado”
[3] ou “escravizado” [7]. Assim fazendo, dilui a natureza
servil sugerida pela substantização ou adjetivação, como
ocorre, parcialmente, nas formas aristotélicas “negro
escravo” e “africano escravo” e, plenamente, no palavra “escravo”.
Manuel Querino
compreendia que a utilização da categoria “negro” e “preto”
enfatizava a cor “negra” e “preta” da pele dos trabalhadores
africanos e afro-descendentes feitorizados, ideológica e socialmente
desvalorizada, em relação a uma cor “branca”, ideológica e
socialmente prestigiada.
Intuía
certamente que a forma “negro” obliterava o fato de que, na
África, até a chegada dos europeus, não havia “negros” e “pretos”,
mas africanos de múltiplas e variadas tradições culturais.
Os africanos, de múltiplas cores, tornaram-se “negros” apenas
em relação aos europeus dominadores.
Efetivamente,
os designativos “negro” e “preto”, para designar o cativo,
mostram-se também pouco funcional
ao enfatizarem características étnicas superficiais
do trabalhador escravizado do passado. Ainda que, desde
meados do século 18, a afro-descendência, ainda que
distante, fosse condição necessária para que um homem ou uma
mulher vivesem na escravidão, havia multidões de afro-descendentes
livres e, até mesmo, afro-descendentes proprietários de cativos.
Ser
ou não ser
Nos
fatos, as designações “negro” ou “escravo” dadas ao
trabalhador hegemônico do escravismo colonial dilui sua essência
última, ou seja, a de ser um trabalhador feitorizado, dificultando
a compreensão de que seu descendente sociológico atual
é o trabalhador contemporâneo, não importando a cor de sua
pele ou sua origem nacional – japonesa, italiana, portuguesa,
africana, etc.
Vimos
que a categoria “escravo” não é neutra, pelo sobretudo se
comparada ao designativo “cativo”, segundo parece, auto-designação
mais comum do trabalhador escravizado. Em verdade, as duas
categorias pertencem a campos semânticos diversos.
Cativo expressa uma situação transitória, social, nulamente
natural. As pessoas estão cativas, não são cativas.
Um ser está no cativeiro e,portanto, pode sair dele.
Parra
que alguém seja cativado, deve haver o agente e o ato de aprisionamento,
o “cativador”. A categoria estabelece relação de desigualdade,
nascida de ato fortuito e singular. Sobretudo a fundação das
relações escravistas na violência arbitrária do escravizador
estabelece a possibilidade e a legalidade antagônicas de sua
dissolução través do ato de violência do escravizado.
Perdida
a evocação etimológica original, o termo “escravo” ressemantizou-se,
absorvendo o sentido aristotélico originário dos termos grego
e romano. Ou seja, de um ser submetido à servidão plena devido
exclusivamente a sua natureza diversa e inferior. Uma naturalização
das relações escravistas que determina que a opressão do escravizado
pelo escravizador, produto de relações sociais entre homens,
seja apr