Em março de 1955, o jornal
francês l’Humanité desencadeia a propagação do mito
de que o dia internacional da mulher– 08 de março – é comemorado
por causa de uma manifestação de operárias em Nova York, no
ano de 1857. Dois anos depois (1957), ele volta a afirmar
o mesmo boato.
Desde
então tem-se acreditado nessa origem, ainda que sem provas
plausíveis. Entretanto, em decorrência de pesquisas feitas
em livros feministas, em documentos do movimento e em jornais
da época, provando que não há relato de manifesto, nem de
repressão policial em tal data, outras hipóteses são colocadas
em questão. Uma das explicações para a invenção do 08 de março
de 1857, seria a associação feita do ano de nascimento de
Clara Zetkin, que em Copenhagen, em 1910, por ocasião da Segunda
Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, propôs
o dia das mulheres, com o objetivo de luta pelo direito de
voto; e uma referência à greve das operárias russas em março
de 1917.
Muitas dúvidas, nada de concreto,
provando, mais uma vez, a parca consideração para com a história
dos movimentos femininos. Porém, o que temos de certo é que
a tradição do dia obteve seu espaço na Europa depois de 1917
com a greve das operárias de São Petesburgo, que levou Trotsky
ao seguinte comentário em seu livro História da Revolução
Russa:
“Sem considerar nossas instruções, as operárias de
várias tecelagens entraram em greve e enviaram delegações
aos metalúrgicos pedindo apoio… não passou pelo pensamento
de um só trabalhador que esse poderia ser o primeiro dia da
revolução. ”*
Somente a partir de 1945 a
tradição estendeu-se ao mundo inteiro. As Nações Unidas começaram
a observá-la em 08/03/1975.
Se considerarmos o desempenho
das conquistas européias, observamos que as francesas, ao
contrário do que se pensa, foram tardias. Enquanto britânicas
e alemãs obtiveram o direito de voto em 1918, elas o conquistaram
em 1945, por influência da Segunda Guerra Mundial, que possibilitou,
também, a criação do exército feminino (contou com 430 mulheres
engajadas nas Forças Francesas Livres, somado a um
número muito maior de voluntárias). As espanholas, por causa
da vitória da esquerda, tinham, em 1931, sua situação legal
entre as mais avançadas do Velho Mundo. Em 1935, as turcas,
tendo modernizado-se de maneira efêmera, deram à Turquia a
fama de “mais jovem país feminista”.
Entre as mulheres pioneiras
em vitórias alcançadas, é relevante ressaltar a alemã Emmy Noether, inventora da algebra moderna e do “teorema
de Noether”, que conseguiu ser admitida como ouvinte na universidade
em 1900 e em 1915, tornou-se professora ; Constance Lytton
que manifestou pelo direito de voto das mulheres em 1909,
em Londres, acabando paraplégica pelas violências policiais ;
e a norueguêsa Elise Ottesen-Jensen que ousou declarar, em
1923, que “um filho deve ser desejado”, fundando, dez anos
depois, o planejamento familiar suéco.
Nos tempos hodiernos, as mulheres
continuam em “guerra”, com algumas batalhas ganhas, mas ainda
muito a conquistar. Desde o início de fevereiro, as francesas
têm saído às ruas para denunciar a opressão masculina, ostentando
o lema “nem putas, nem submissas”. Por fim à violência e à
discriminação sexista são dois dos principais objetivos almejados.
Segundo uma pesquisa feita
pelo INSEE em 2002, apesar de serem consideradas mais resistentes,
independentes, estudadas que os homens, as mulheres são peças
raras em cargos de responsabilidade, seja na política, administração
ou empresas. Sua representação política da à França, tal qual
à Turquia, o último lugar na Europa: 11% na Assembléia Nacional,
14% em postos de direção na função pública e 24% em empresas
privadas, tendo presença irrisória em cargos de presidência
e alta direção. Ocupam, no geral, 45% da população francesa
ativa, das quais um terço preenche 85% dos empregos em tempo
parcial e 80% dos 3,2 milhões de empregos com salário inferior
ao mínimo (Smic), considerados, assim, sub-empregos. Quanto
ao desemprego, apesar de terem a porcentagem de 10.7 contra
a porcentagem masculina de 7.1, há na sociedade, maior tolerância
para com elas.
Passeatas, homenagens, comemorações
misturam-se à publicidade, política, exploração. As revistas
femininas ou feministas têm, comumente, desde a década de
70, seu primeiro número datado de 08 de março. Quando uma
organização quer mostrar preocupação com o espaço da mulher
na sociedade, a data é utilizada para divulgação da idéia.
Políticos franceses, sobretudo em 2002, aproveitaram as comemorações
para fazerem sua publicidade voltada à luta das mulheres.
A
mulher ocidental, tendo algumas vantagens sobre a mulher oriental
(por causa das repressões religiosas, guerras, etc.), não
deixa de prosseguir na longa estrada que leva à valorização
e une-se, também aproveitando seu dia, não só às mulheres,
mas às pessoas do mundo inteiro que compreendem sua busca
incansável entre as pedras do caminho.